====== Explanação ====== //HARVEY, D. Explanation in Geography. Londres: Edward Arnold, 1969.// **O Significado da Explicação** 1. A separação entre questões metodológicas e filosóficas é útil porque permite concentrar a análise na forma da explicação, sem necessariamente assumir uma posição filosófica sobre a natureza da experiência, percepção ou conhecimento do mundo externo, focando em problemas lógicos internos e epistemológicos. 2. A ênfase na estrutura interna e coerência da explicação, presente em muito trabalho analítico, tende a ignorar a explicação como atividade e processo, bem como os motivos para buscar explicações, problema tratado por autores que preferem uma abordagem comportamental. 3. A interpretação da experiência como um conjunto de enunciados "factuais" é conveniente para a análise formal, mas não é útil para o geógrafo que precisa interpretar a experiência de maneira aceitável para seus pares. 4. Na geografia, a discussão sobre a forma de explicação precisa entrar em contato com a experiência, e a interface entre metodologia e filosofia é difícil de abordar sem um tratado sobre a experiência ou sem fazer suposições substanciais. * A discussão de Lowenthal sobre a "experiência geográfica" demonstra a importância das questões filosóficas para a solução de problemas substantivos, examinando a relação entre percepção, comunicação e imaginação geográfica. 5. Para os propósitos imediatos, o termo "explicação" recebe uma interpretação ampla, sendo considerado qualquer resposta satisfatória e razoável a uma pergunta "Por quê?" ou "Como?", o que requer a compreensão de como tais perguntas surgem, como se constroem respostas e como se julga sua razoabilidade. **A necessidade de uma explicação** 6. O desejo por uma explicação origina-se de uma reação de surpresa a uma experiência, gerada por um conflito entre as expectativas e a experiência real, como no exemplo do bastão que parece entortado na água. * As perguntas surgem de conflitos de três tipos: entre relatos do mesmo observador em momentos diferentes, entre relatos de diferentes observadores no mesmo momento e entre evidências de sentidos diferentes no mesmo momento. * Uma explicação pode ser vista como a redução de um resultado inesperado a um resultado esperado, como explicar o fenômeno do bastão na água pela lei de Snell, podendo gerar um processo de interação de perguntas e respostas que leva a um corpo organizado de conhecimento. 7. A motivação psicológica básica para buscar explicações é a redução do conflito ou estresse, o que é significativo para o geógrafo, já que a história da geografia pode ser vista como a busca por explicações para as variações nos modos de vida e no ambiente, um processo que continua com fenômenos como a regra rank-size. 8. A reação de surpresa a uma experiência é pré-selecionada, pois a maioria das experiências é ignorada; nas disciplinas organizadas, a pré-seleção é em parte feita por uma geração para a outra, e o treinamento do geógrafo condiciona as perguntas que ele faz e as explicações que busca. 9. O treinamento condiciona as perguntas e explicações, mas, ocasionalmente, uma geração rompe com a tradição, considerando que as perguntas do passado levaram a becos sem saída ou que a disciplina esgotou uma linha de pensamento, caracterizando uma revolução científica, conforme a noção de paradigma de Kuhn. 10. Embora a história da geografia não seja o foco, é crucial lembrar que a noção de conflito e a busca por respostas exigem uma pré-seleção individual, condicionada pelo treinamento, e que um geógrafo se concentra em reduzir alguns resultados inesperados a resultados esperados, pois o número de conflitos potenciais é infinito. **Construindo uma explicação** 11. O propósito de uma explicação é tornar um resultado inesperado em um resultado esperado, e há três maneiras gerais de fazer isso: a abordagem dedutivo-preditiva, a abordagem relacional e a explicação por analogia. * A abordagem dedutivo-preditiva, desenvolvida por autores como Hempel, visa estabelecer "leis" universalmente verdadeiras para mostrar que eventos são governados por elas, onde a explicação consiste em deduzir o evento a partir de leis e condições iniciais, com simetria entre explicação e previsão. * A abordagem relacional, de autores como Hanson e Toulmin, vê a explicação como a relação do evento a ser explicado com outros eventos familiares, fornecendo uma rede de conexões, onde as leis são dispositivos convenientes, não necessariamente verdades universais. * A explicação por analogia, proposta por Workman, torna um evento inesperado mais familiar ao desenvolver uma "imagem" do evento, descrevendo algo não observado por analogia, que fornece previsões adequadas e não leva a contradições. 12. As três abordagens não são exaustivas ou mutuamente exclusivas; as diferenças entre elas podem ser de grau, e, nos capítulos seguintes, será dado maior uso à forma dedutiva devido à sua simplicidade. **Critérios para julgar se uma explicação é satisfatória e razoável** 13. Os critérios para julgar uma explicação como razoável e satisfatória são altamente subjetivos; a ciência estabeleceu convenções e regras de comportamento para contornar esse problema, criando uma norma para julgar a razoabilidade de uma explicação, como na teoria da decisão estatística. 14. As convenções e regras da ciência variam no tempo e no espaço, e o que é aceitável em uma escola de geografia pode não ser em outra, assim como o que era satisfatório no século XIX pode não ser no XX, tornando a escolha entre diferentes convenções uma decisão subjetiva, relacionada à escolha de um "paradigma". **Sobre paradigmas e imagens de mundo** 15. O conceito de paradigma de Kuhn, como realizações científicas universalmente reconhecidas que fornecem modelos de problemas e soluções, é útil porque expressa a ligação entre as perguntas que o investigador faz e os critérios que ele usa para julgar a razoabilidade de uma explicação. 16. Para Kuhn, a maior parte da atividade científica é a "solução de quebra-cabeças" dentro de um paradigma, caracterizando a "ciência normal", que é interrompida por "revoluções científicas" quando anomalias se acumulam, levando à busca de um novo paradigma. 17. A substituição de um paradigma por outro não pode ser decidida apenas por lógica ou experimento, mas é um ato de julgamento e escolha subjetiva, embora possa ser apoiada por evidências. 18. A análise de Kuhn é interessante por fornecer um quadro para examinar a história da ciência, como a geografia, e por oferecer insights sobre o comportamento dos cientistas, como no conflito de paradigmas representado pela dicotomia qualitativa-quantitativa na geografia. 19. A mudança de paradigma transforma o comportamento e a visão de mundo do cientista, alterando suas expectativas e percepções, o que tem implicações para a objetividade da ciência, que só pode ser entendida no contexto de paradigmas diversos e conflitantes. **Experiência, linguagem e explicação** 20. Um paradigma envolve uma imagem do mundo e uma interpretação da experiência perceptiva, e é necessário desenvolver um quadro conceitual simples para lidar com essas questões, sem pressupor muito sobre a filosofia da percepção ou da linguagem. 21. A ciência, partindo da percepção, constrói esquemas conceituais e os liga a linguagens especializadas para fazer previsões, e as relações entre percepções (perceptos), conceitos e representações linguísticas (termos) são complexas e não isomórficas. * Perceptos, conceitos e termos possuem existência independente, e a transformação de perceptos em palavras exige a compreensão de sua relação para discutir a relação entre o homem e a realidade. * A relação entre perceptos, conceitos e termos é representada esquematicamente por três domínios (percepção, pensamento e linguagem), onde nem todos os conceitos ou perceptos são representáveis por termos, e diferentes linguagens representam diferentes conjuntos. 22. Qualquer linguagem representa um número limitado de conceitos e perceptos; linguagens diferentes variam em sua capacidade de transmitir informação, e a ambiguidade das línguas naturais permite flexibilidade, mas ainda assim representa um subconjunto restrito do pensamento e da experiência. 23. Aprender uma língua pode induzir uma maneira característica de segmentar a percepção, e a capacidade de comunicar ideias depende da formação e aceitação de uma língua comum, com a ciência possuindo linguagens artificiais, como a matemática, que caracterizam sua subcultura. 24. Sistemas de signos interpretados são linguagens; as línguas naturais contêm termos abstratos, enquanto as linguagens artificiais buscam controle sobre a operação da linguagem, criando sistemas abstratos sem conteúdo empírico, que, embora empobrecedores, ganham em escopo e validade universal. 25. A força das linguagens artificiais está na falta de ambiguidade interna e na definição precisa dos símbolos, o que confere à ciência objetividade e universalidade; a geografia usa mapas como sistema simbólico artificial, mas essa potência tem o preço de uma limitação severa do campo de investigação e de um sistema de valores que censura mensagens não conformes. 26. A relação entre perceptos, conceitos e termos é complexa; a explicação é comunicada pela linguagem, mas os eventos explicados são registrados pela percepção, e, ao discutir metodologia, pressupõe-se uma tradução adequada para a linguagem, o que envolve pressupostos filosóficos. **A explicação como atividade** 27. Este capítulo tratou a explicação como uma atividade realizada por pessoas reais com sistemas de valor, que os utilizam ao fazer escolhas sobre as perguntas que geram explicações e ao julgar o valor dessas explicações, contrastando com a abordagem formal dos capítulos seguintes. 28. A análise formal da explicação pode fornecer insights sobre problemas metodológicos, mas sua aplicação a problemas geográficos substantivos exige uma interpretação mais ampla da atividade de explicar, e a estrutura do livro consiste em um núcleo metodológico duro e uma zona externa mais geral relacionada à filosofia e à percepção. {{tag>Harvey Geografia metodologia "Geografia quantitativa" "Análise espacial"}}