====== Signos ====== //WOOD, Denis. The Power of Maps. Londres: Routledge, 1992.// ** Cada signo tem uma história ** 1. A facilidade com que até crianças compreendem mapas presentes em obras como Ursinho Pooh, O Hobbit, Andorinhas e Amazonas, A Ilha do Tesouro e Astérix, mesmo quando faltam legendas, a orientação é incomum ou determinadas convenções não são explicitadas, evidencia que a leitura cartográfica se realiza mediante uma densa síntese de sistemas de signos culturalmente assimilados muito antes de qualquer instrução formal. 2. O mapa é compreensível porque não constitui uma forma separada da cultura, mas uma de suas expressões, integrada ao universo mais amplo de representações visuais no qual a criança se encontra imersa desde o nascimento. * As convenções cartográficas prolongam as convenções das ilustrações dos livros infantis e estas, por sua vez, integram um universo que abrange brinquedos, embalagens, fotografias, televisão, cartazes, filmes e inúmeros outros objetos representacionais. * A familiaridade com o mapa resulta, portanto, da familiaridade acumulada com a cultura visual da qual ele participa. 3. O mapa constitui um sistema sintetizado de supersignos aprendido juntamente com o restante da cultura, de modo que aprender a utilizá-lo não exige uma iniciação inteiramente separada, pois grande parte de seus códigos já foi assimilada por meio de outras práticas culturais. * Mesmo representações altamente abstratas, como um mapa do ozônio sobre o Polo Sul, pertencem a uma continuidade representacional cujo aprendizado pode começar em imagens cartográficas infantis extremamente simples. 4. Como os signos cartográficos provêm de um patrimônio comum de complexos conceituais, gestuais, vocais e gráficos, qualquer um deles pode servir para reconstruir as conexões entre a história do mapa e a história cultural; escolhe-se o signo de relevo montanhoso justamente porque a representação das formas do terreno é reconhecida como uma das dificuldades mais persistentes da cartografia. * O signo de relevo pode funcionar como signo, supersigno ou sistema de signos, frequentemente articulando esses níveis simultaneamente. * Se até esse signo tecnicamente difícil demonstrar continuidade com a cultura comum, torna-se especialmente evidente que os interesses sociais penetram até os componentes aparentemente mais elementares do mapa. * Distinções de classe, gênero, idade e hierarquias entre possuidores e despossuídos podem, assim, infiltrar-se até na maneira de representar uma colina. ** Uma breve história do signo de relevo ** 5. A representação bidimensional da superfície tridimensional do terreno foi reiteradamente considerada um dos problemas mais difíceis da cartografia, pois montanhas possuem comprimento, largura, altura e estrutura e, ao serem projetadas sobre uma superfície plana, exigem soluções gráficas que evidenciam de maneira particularmente intensa a engenhosidade cartográfica. 6. A documentação histórica disponível confirma apenas parcialmente essa longa dificuldade, porque pouco se conhece sobre a história remota da representação do relevo, são raros os mapas anteriores à Idade Média europeia e é arriscado reconstruir práticas antigas a partir de sociedades cartográficas contemporâneas, tornando necessária uma sequência precursora inevitavelmente hipotética. 7. Os inuítes foram frequentemente apresentados como particularmente hábeis na representação do relevo, mas grande parte dos exemplos atribuídos a essa habilidade corresponde a modelos tridimensionais, e até o suposto emprego de hachuras em seus mapas bidimensionais permanece duvidoso. 8. Algumas descrições da cartografia inuíte interpretam linhas contínuas como costas e margens fluviais acompanhadas ocasionalmente por hachuras destinadas a indicar escarpas ou encostas montanhosas, considerando significativa a presença, ainda que rara, desse procedimento. 9. A identificação dessas marcas como hachuras de relevo é incerta, pois seu uso é inconsistente e pode ter representado simplesmente tendências gerais de terras, costas ou rios, especialmente em regiões onde a intensidade gráfica das linhas não corresponde à proeminência efetiva do relevo. 10. Parte das hachuras observadas em mapas inuítes publicados pode ter resultado de influência europeia, seja pela aprendizagem de convenções presentes nos mapas dos exploradores, seja pela própria intervenção mecânica dos gravadores durante a publicação. 11. Embora os inuítes fossem excelentes cartógrafos e produzissem modelos de relevo por diversos meios, não se pode demonstrar que possuíssem uma capacidade cultural especialmente desenvolvida para representar bidimensionalmente as formas do terreno. 12. A ausência de uma tradição consolidada de representação bidimensional do relevo entre os inuítes não decorre de incapacidade cognitiva, mas da circunstância de que suas práticas de mapeamento valorizavam o próprio ato de reconstruir mental e graficamente o ambiente mais do que a conservação do mapa como objeto material transmissível. 13. O desenvolvimento de um signo de relevo depende menos de uma capacidade potencial do que de valores culturais, necessidades sociais e interesses capazes de tornar necessária sua produção. * Representar a presença de montanhas pode servir à delimitação da soberania territorial. * Representar sua largura pode servir à artilharia. * Representar seu volume pode servir à mineração. * A navegação, por si só, não exige necessariamente a produção de mapas permanentes, como demonstra a frequência com que pessoas se orientam cotidianamente sem recorrer a mapas. * Entre os inuítes, a imitação ambiental podia favorecer o ato de mapear sem gerar necessariamente objetos cartográficos permanentes. * Sem armazenamento e transmissão de registros materiais, uma inovação individual na representação do relevo dificilmente poderia acumular-se como tradição cultural. 14. Uma inovação gráfica torna-se cultural somente quando é transmitida entre indivíduos e gera uma tradição compartilhada, de modo que a relação entre inovação individual, transmissão material e cultura constitui o núcleo da evolução dos signos cartográficos. 15. A inexistência de representações bidimensionais do relevo entre os inuítes provavelmente encontra paralelo em outras sociedades de mapeamento, pois exemplos atribuídos aos Tewa, maoris, tuaregues e incas revelam-se sobretudo modelos tridimensionais, sem que isso implique incapacidade de localizar ou reconhecer formas significativas do terreno. 16. As formas precursoras do signo de relevo devem ser procuradas sobretudo em sociedades produtoras de mapas ou protomapas, como a sociedade mixteca pré-hispânica, na qual aparecem signos simples e inequívocos de colinas. * A simplicidade dessas formas permite considerá-las anteriores às representações mais elaboradas quando falta uma cronologia documental completa. * A produção de mapas tende a surgir em sociedades maiores e mais dinâmicas, nas quais o controle de processos sociais e ambientais cria novas necessidades de registro. * Pequenos grupos de interação direta podem conservar formas protocartográficas sem desenvolver uma produção sistemática de mapas. * Sociedades como as mixteca, egípcia e babilônica desenvolveram formas relativamente simples de produção cartográfica, enquanto romanos e chineses Han alcançaram formas institucionalizadas e grandes sociedades modernas levaram essa institucionalização à cartografia profissional. 17. A cartografia mixteca e asteca deve ser aproximada das tradições cartográficas de sociedades complexas como o Egito antigo, pois documentos mesoamericanos posteriores à conquista preservam extensamente convenções anteriores à presença europeia, incluindo um sistema parcialmente logográfico no qual determinadas imagens representam palavras. 18. O logograma mixteco yucu, correspondente a colina, constitui uma imagem convencionalizada em forma aproximadamente campanular, geralmente verde ou marrom, apoiada sobre faixas coloridas e dotada de variações gráficas capazes de indicar rugosidade, inclinação ou servir de suporte para figuras humanas. 19. O logograma yucu podia funcionar linguisticamente, nomeando lugares em narrativas históricas, ou cartograficamente, identificando e localizando lugares, embora sua utilização nos mapas mixtecos combinasse funções espaciais, genealógicas e históricas. 20. O Lienzo de Zacatepec 1 constitui simultaneamente documento cartográfico e histórico-genealógico, delimitando o território de Santa Maria Zacatepec por uma moldura dentro da qual se articulam narrativas, caminhos, rotas de guerra, localidades dependentes e acidentes geográficos. * Alguns signos representam povoados localizados fisicamente fora do território, mas inseridos graficamente dentro da moldura. * Outros representam dependências territoriais de Zacatepec. * Outros ainda identificam elementos geográficos desabitados, como colinas e rios. 21. A instabilidade entre linguagem e imagem, narrativa e cartografia manifesta a poderosa instrumentalidade desses primeiros sistemas, nos quais signos inicialmente empregados como nomes passam a funcionar como figuras territoriais capazes de vincular lugares a governantes legitimados genealogicamente. * Nomear o território constitui um ato simbólico de apropriação. * A genealogia legitima a soberania mediante a antiguidade da reivindicação. * O signo de relevo participa desse processo ao individualizar a colina, separá-la conceitualmente do mundo circundante e ligá-la ao exercício da vontade humana. * Essa capacidade de selecionar, nomear e vincular o espaço a interesses humanos pertence estruturalmente aos signos cartográficos. 22. Nos primeiros mapas mixtecos, a transformação do logograma em signo cartográfico ainda estava incompleta, porque sua finalidade principal permanecia representar o nome da colina e não sua aparência física, tornando a paisagem acessível cartograficamente por intermédio da linguagem. 23. As formas do relevo ingressaram inicialmente nos mapas mediante signos linguístico-pictóricos mobilizados pelas disputas de propriedade territorial e pelas instabilidades dinásticas, evidenciando a relação entre transformação cartográfica e interesses sociopolíticos. 24. Após a conquista espanhola, o antigo logograma foi progressivamente generalizado como signo de relevo, passando a funcionar como designação de lugar, colina genérica, representação de formas específicas e conjunto repetido capaz de indicar cadeias de colinas ou montanhas. 25. A semelhança entre formas mesoamericanas multiplicadas e o signo de relevo do antigo mapa mesopotâmico de Nuzi sugere um processo mais geral no qual signos cartográficos se desenvolveram conjuntamente com signos linguísticos e com o primeiro urbanismo. * Escrita e cartografia teriam inicialmente compartilhado formas difíceis de distinguir. * A escrita teria posteriormente se orientado para a história e a narrativa descritiva. * A representação cartográfica teria se aproximado progressivamente da pintura e dos mapas. * A proximidade cronológica entre o mapa de Nuzi e o aparecimento dos ideogramas sumérios reforça essa hipótese, também concebível, com menor segurança, para o Egito e a China. 26. Os signos ocidentais de relevo permaneceram essencialmente estáveis durante milênios, desde Nuzi até a Antiguidade tardia e boa parte da Idade Média, quando montanhas continuavam representadas lateralmente mediante linhas serrilhadas ou grandes formas piramidais. 27. Com a ascensão das cidades mercantis e o avanço da industrialização, a representação do relevo acelerou sua transformação, passando progressivamente da vista de perfil à vista oblíqua e depois à vista em planta. * Necessidades militares e mineradoras estimularam a mudança. * A profissionalização da própria cartografia também gerou exigências internas. * O sombreamento evoluiu paralelamente, passando de práticas relativamente arbitrárias para procedimentos cada vez mais sistemáticos. * Dessa trajetória resultaram as hachuras formadas por linhas orientadas segundo o declive, cuja espessura e espaçamento indicavam a inclinação. 28. As curvas de nível começaram a ser usadas antes mesmo do aperfeiçoamento das hachuras e, ao longo do século XIX, demonstraram maior capacidade de incorporar interesses ligados a nomear, reivindicar, delimitar, atravessar, escalar, cartografar e explorar economicamente o relevo. 29. Em mapas de pequena escala, as curvas de nível deram origem às tintas hipsométricas, com ou sem sombreamento, enquanto outras técnicas continuaram a surgir, confirmando que a história da representação do relevo permanece aberta e não se encerra pela padronização. * Curvas de nível predominam nos levantamentos topográficos de grande escala. * Vistas oblíquas e hachuras sobrevivem em diagramas fisiográficos e mapas de paisagem. * Signos extremamente simples continuam em uso contemporâneo. * Formas históricas antigas permanecem disponíveis e podem ser reativadas conforme interesses culturais específicos. ** Representação de relevo entre os americanos contemporâneos ** 30. A maioria dos americanos sem formação cartográfica raramente representa espontaneamente o relevo em mapas esquemáticos, e menos de oito por cento de uma ampla amostra de mapas experimentais continha alguma forma gráfica de relevo. * Quando aparece em escalas estaduais ou menores, o relevo tende a assumir formas esquemáticas e oblíquas de cadeias montanhosas. * Em escalas maiores, predominam igualmente imagens oblíquas. * Desenhistas cartograficamente ingênuos reproduzem, portanto, soluções semelhantes às empregadas por babilônios e escribas medievais. 31. A ausência do relevo nos mapas espontâneos não significa desconhecimento ou desinteresse por ele, pois crianças e adultos percebem intensamente as inclinações, exploram-nas em atividades corporais e mencionam colinas verbalmente com frequência muito maior do que as representam graficamente. * Crianças adaptam trajetos de bicicleta, patins e trenós às inclinações. * Estudos de imagens cognitivas mostram que colinas podem ser pouco desenhadas e, ao mesmo tempo, frequentemente mencionadas. * Nomes de bairros contendo a palavra colina aparecem em mapas produzidos por estudantes mesmo quando nenhuma forma de relevo é representada. 32. A discrepância entre conhecimento das colinas e ausência de sua representação não contradiz a continuidade cultural dos signos cartográficos, porque ninguém precisa produzir espontaneamente todos os signos disponíveis numa sociedade marcada pela especialização do trabalho; a dificuldade consiste sobretudo em representar o relevo simultaneamente a outros atributos da paisagem. 33. Para isolar o problema, foram reunidos quinhentos desenhos de colinas produzidos por trezentas pessoas de três a trinta anos provenientes das três principais regiões fisiográficas da Carolina do Norte, registrando-se perspectiva, forma, quantidade e idade dos participantes. 34. Os dados revelam uma relação direta entre idade, ponto de vista e diversidade gráfica: à medida que aumenta a idade, cresce tanto a probabilidade de representação em planta quanto o repertório de tipos de colinas disponíveis. * Algumas crianças representam a qualidade essencial da inclinação mediante telhados ou montanhas-russas. * Entre as mais jovens aparecem colinas animadas, dotadas de olhos ou características de seres vivos. * Crianças muito pequenas solicitadas a desenhar uma colina vista de cima tendem a repetir os tipos que já dominam, indicando que ainda não aprenderam a representação em planta. ** A sequência em que as crianças adquirem os signos de relevo é paralela àquela em que eles foram adquiridos na história da produção cartográfica ** 35. O desenvolvimento dos signos de relevo nos americanos contemporâneos reproduz de maneira surpreendente a sequência observada na história da cartografia. * A primeira forma é uma imagem concreta, genérica, frontal e em perfil de uma colina. * Entre aproximadamente dez e quinze anos, surgem formas encurtadas ou baseadas em propriedades de sombra, permitindo distinguir classes de relevos e introduzir a perspectiva oblíqua. * Posteriormente aparecem curvas de nível baseadas nas abstrações de plano de referência e elevação constante, permitindo representar cada relevo em planta e em sua individualidade. * As formas posteriores não eliminam as anteriores, mas as incorporam num repertório hierarquicamente integrado e subordinado às finalidades de comunicação, registro e análise. ** O domínio da representação de relevo pelas crianças contemporâneas ** 36. Crianças de três anos já desenham espontaneamente colinas e muitas reconhecem e nomeiam representações semelhantes desde os dois anos, embora suas primeiras produções apresentem elevada instabilidade formal e possam variar rapidamente entre rabiscos, formas montanhosas e combinações de desenhos e letras. 37. O meio material empregado condiciona significativamente essas primeiras representações, pois instrumentos que exigem maior esforço muscular produzem marcas incidentais, enquanto materiais de uso mais fácil permitem maior controle e certas técnicas, como desenhar em camadas de sal, podem antecipar em meses a capacidade representativa observada em papel. 38. Entre crianças pré-escolares, as representações variam de emaranhados e saliências indiferenciadas a formas reconhecíveis como colinas e montanhas, predominando ovais horizontais e formas semelhantes a Us invertidos, com variações sobretudo na inclinação das vertentes e na agudeza dos cumes. 39. A possibilidade de animar uma colina indica sua condição ambígua no universo infantil entre coisa individualizada e componente de fundo, pois crianças tendem a atribuir características animadas a entidades destacadas como sol, nuvens, casas e carros, mas raramente a elementos contínuos como solo, céu ou rios. 40. As primeiras colinas infantis são predominantemente isoladas, concretas, indivisíveis e desenhadas de perfil, como objetos verticais vistos por um observador ereto e frontal, características compatíveis com modelos estruturalistas de desenvolvimento e com os sentidos culturais de proeminência e elevação associados às colinas. 41. A explicação puramente estruturalista enfrenta a dificuldade de que crianças raramente experimentam colinas reais como perfis isolados, pois normalmente as encontram sob os pés, como subidas e descidas complexas, ocupadas por árvores, casas, cortes e aterros e percebidas por ângulos muito diferentes da visão lateral. 42. A experiência direta com montes de areia, terra, neve ou outros materiais tampouco explica adequadamente o perfil gráfico infantil, pois esses objetos são geralmente observados obliquamente e, em alguns casos, já são reconhecidos como colinas mediante uma imagem cultural previamente constituída. 43. Torna-se provável que as crianças aprendam culturalmente a perceber e representar colinas em perfil, utilizando essa imagem como estrutura inicial sobre a qual experiências posteriores e escolarização se acumulam. * A aprendizagem não precisa ocorrer mediante lições formais sobre relevo. * Livros infantis integram texto, voz, gesto e ilustração de modo capaz de formar implicitamente essa representação. * O Pequeno Vagão Vermelho associa repetidamente a montanha às direções de subir e descer, enquanto as ilustrações fixam seu perfil gráfico. 44. Na passagem em que o trem sobe uma montanha, a repetição verbal do movimento ascendente, acompanhada pela modulação da voz, por gestos e por imagens de montanhas em perfil, associa intensamente a forma gráfica da colina à experiência conceitual de subir. 45. Quando o trem ameaça deslizar de volta montanha abaixo, gestos descendentes, queda da entonação vocal e organização vertical da ilustração reforçam a associação complementar entre relevo e descida, produzindo por repetição uma aprendizagem simultaneamente textual, vocal, gestual e visual. 46. A história de O Trenzinho que Podia opera de maneira semelhante ao apresentar a montanha como obstáculo entre vales e fazer coincidir o percurso ascendente e descendente do trem com um relevo arredondado visto de perfil. 47. A sequência das páginas de O Trenzinho que Podia pode ser reunida numa única imagem de subida, passagem pelo cume e descida, na qual texto, disposição tipográfica, entonação, gestos e ilustrações convergem para construir uma imagem arquetípica da montanha. 48. Numerosos livros infantis representam colinas como saliências suavemente arredondadas vistas de perfil e reforçam verbalmente suas propriedades ascendentes e descendentes, como ocorre em Milhões de Gatos, Choo Choo, A Casinha e outras obras de Virginia Lee Burton. 49. Em Mike Mulligan e Sua Pá a Vapor, as montanhas são cortadas, aplainadas e preenchidas para receber estradas e outras infraestruturas, enquanto casas, árvores e postes permanecem perpendiculares à superfície inclinada, reproduzindo convenções também encontradas nos desenhos infantis e convidando o leitor a acompanhar corporalmente as subidas e descidas. 50. Cantigas infantis como Jack e Jill reforçam a associação entre colina, subida e descida mesmo sem depender de ilustrações, enquanto suas representações visuais mais comuns apresentam uma forma simétrica em perfil com personagens ascendendo por um lado e caindo pelo outro. 51. A mesma estrutura gestual de subir e descer pode aparecer sem qualquer referência explícita a colinas, como em cantigas sobre escadas, nas quais movimentos de voz e mãos repetem a trajetória posteriormente reconhecível como perfil montanhoso. 52. A criança não apenas encontra incontáveis imagens de colinas em perfil, mas aprende uma fórmula multimodal para produzi-las, porque alterações de entonação, gestos, imagens e instruções espaciais integram subir e descer num complexo conceitual-gestual-vocal-gráfico. * O primeiro desenho de uma colina pode constituir inicialmente o registro gráfico de um gesto ascendente e descendente. * Uma linha traçada como movimento pode ser reconhecida posteriormente, ou durante sua própria execução, como uma colina. * A repetição cultural conduz à elaboração progressiva dessas formas até aproximá-las não das colinas diretamente experimentadas sob os pés, mas das colinas em perfil presentes nos livros ilustrados. ** A representação de relevo da criança contemporânea em contexto ** 53. Os signos de relevo pertencem ao sistema mais amplo de representações no qual a criança é socializada, tornando inadequada a pergunta sobre como ela desenvolve espontaneamente determinada imagem e exigindo perguntar por que a sociedade escolhe transmitir precisamente essa imagem. * Assim como a palavra colina não nasce espontaneamente do organismo, sua representação gráfica é aprendida socialmente. * A representação constitui um fato social fundamental à existência comunitária. * Modelos estruturalistas subestimam o contexto social quando reduzem a transformação gráfica à maturação cognitiva. * O acesso desigual a livros e outros meios culturais produz diferenças importantes na idade em que os signos de relevo são dominados. * Crianças socialmente menos expostas à cultura impressa podem apresentar atrasos de vários anos, e alguns adolescentes ou adultos podem chegar a declarar-se incapazes de representar graficamente o relevo. 54. Embora a colina em perfil ocupe previsivelmente a primeira posição quando uma sequência de aprendizagem efetivamente ocorre, sua própria ocorrência depende de conveniência e transmissão social, não de necessidade biológica, sendo comparável à aprendizagem da multiplicação e não a um processo maturacional inevitável. 55. A multiplicação oferece um paralelo porque aparece numa posição previsível entre adição e divisão longa, repetindo uma sequência histórica da aritmética, embora precise ser ensinada mediante a interiorização de conhecimentos culturais acumulados e não surja naturalmente no desenvolvimento infantil. 56. A ordem de aprendizagem encontra-se simultaneamente na estrutura das informações e na estrutura histórica de sua transmissão. * Divisão longa pressupõe multiplicação, que por sua vez pressupõe adição. * Essa relação também foi consolidada porque historicamente essas operações foram elaboradas e ensinadas nessa sequência. * Sistemas educacionais priorizam competências socialmente mais úteis e reservam conteúdos mais complexos a grupos progressivamente menores. * Boas notações ampliam a capacidade civilizacional precisamente porque permitem executar operações importantes sem precisar reconstruir conscientemente todas as etapas que as tornaram possíveis. 57. Explicações retrospectivas puramente estruturais são difíceis de comprovar quando a sequência de aprendizagem já se encontra historicamente incorporada aos próprios mecanismos de transmissão cultural, embora essa dificuldade não autorize descartá-las inteiramente. 58. A lógica responsável pela criação original dos signos não precisa coincidir com a lógica responsável por sua transmissão posterior, sendo o estruturalismo mais convincente para explicar a gênese cultural inicial e os mecanismos conservadores de transmissão mais adequados para explicar a aculturação infantil. * Uma vez surgida historicamente, a sequência estrutural original também passa a ser transmitida culturalmente. * Essa incorporação explica o paralelismo entre a história cultural dos signos de relevo e sua aprendizagem individual. * Processos criadores são especialmente relevantes para inovadores, enquanto processos conservadores predominam entre indivíduos em aculturação. ** O desenvolvimento dos signos de relevo ** 59. Um modelo geral do desenvolvimento dos signos cartográficos pode ser construído a partir da emergência, há seis ou sete mil anos, de sociedades em rápida expansão que passaram a registrar sistematicamente informações em razão de necessidades ligadas ao comércio, à propriedade e, em última instância, ao poder social e econômico. 60. Os primeiros sistemas de notação provavelmente combinaram formas linguísticas, logográficas e pictóricas enquanto procuravam preservar informações qualitativas e quantitativas em dimensões espaciais e temporais. * Signos inicialmente empregados como nomes puderam transformar-se em imagens cartográficas e imagens puderam adquirir funções linguísticas. * Escrita e cartografia diferenciaram-se gradualmente como grandes ramos de uma mesma origem representacional. * O signo de relevo desenvolveu seu componente pictórico dentro do ambiente cartográfico até consolidar-se como símbolo de mapa. 61. O signo inicial de colina assumiu a forma de um perfil genérico distante porque essa configuração sintetiza gestualmente o movimento de subir e descer e destaca a proeminência como característica essencial do relevo. * Sua simplicidade permitia modificar tamanho, agudeza do cume e forma geral. * A repetição de unidades podia representar cadeias montanhosas. * A sobreposição podia sugerir profundidade. * Alterações progressivas puderam aproximar os perfis das formas observadas sem comprometer sua reconhecibilidade. * Apesar dessas mudanças, permaneceu concreto, pictórico e estreitamente associado ao gesto. 62. Uma vez incorporado ao sistema de signos, o símbolo de relevo passou a ser transmitido entre gerações de especialistas, inicialmente como conhecimento restrito a sacerdotes, escribas e registradores detentores de técnicas representacionais socialmente prestigiosas. 63. À medida que formas antigas se tornaram comuns, puderam descer na hierarquia cultural e pedagógica, enquanto especialistas adotavam formas novas baseadas em encurtamento, perspectiva e sombreamento. * A adição de sombra à antiga linha de perfil possibilitou transformá-la numa superfície. * A inovação conservou a forma anterior como fundamento compreensível em vez de exigir uma ruptura integral. 64. A passagem do perfil à perspectiva oblíqua correspondeu também a novas relações de exploração da paisagem, porque a superfície inclinada permitia localizar elementos sobre a vertente e revelar objetos anteriormente ocultos atrás da silhueta. * Essas representações acompanham necessidades tributárias, militares, comunicacionais e de exploração de recursos. * A aprendizagem da forma mais recente pressupõe familiaridade com a forma anterior. * A linha de contorno do perfil precede pedagogicamente a representação da superfície. 65. A perspectiva aérea ampliou as vantagens da visão oblíqua ao possibilitar representar toda a superfície do relevo em posições relativas mais fiéis, conduzindo a procedimentos como hachuras e, posteriormente, curvas de nível. * As curvas de nível transformam a superfície em volume mediante abstrações de elevação constante. * Sua interpretação permanece dependente das formas anteriores de compreensão do relevo. * Mapas topográficos frequentemente reincorporam sombreamentos e perfis justamente para devolver às abstrações das curvas de nível o sentido pictórico de subir e descer. 66. A ampliação da escolarização e do uso profissional de mapas empurrou a aprendizagem dos sistemas cartográficos para idades progressivamente menores e para o próprio ambiente doméstico, fazendo com que práticas aparentemente banais, como a leitura de livros infantis pelos pais, preparem crianças para utilizar posteriormente sistemas complexos de representação do relevo. ** Signos de relevo do futuro ** 67. Apesar da força da aculturação, a criança não recebe passivamente os sistemas de signos, pois suas experiências particulares com relevo e representação condicionam diferentemente sua capacidade futura de transformá-los. * Relações com montanhas variam entre culturas e também dentro de uma mesma sociedade. * Algumas crianças associam declives à diversão, outras ao medo e outras os evitam. * Livros, experiências corporais, diferenças de classe e simbolismos religiosos ou sociais entrelaçam-se na formação dos sentidos atribuídos às colinas. * Os sistemas sociais fornecem os signos e as categorias iniciais, mas experiências particulares mantêm aberta uma margem de criação e transformação. 68. Um grupo de meninos que constrói rampas para bicicletas num bosque suburbano exemplifica a articulação entre profunda aculturação, experiência corporal direta e capacidade geradora ao modificar concretamente o terreno para adequá-lo às próprias práticas. 69. Ao descrever a composição da colina, um menino combina categorias naturais e artificiais — argila, terra, pedras, restos vegetais, pneus e ferramentas — revelando uma percepção material concreta de um relevo modificado historicamente. 70. Ao explicar a origem da forma do terreno, a criança articula erosão hídrica, antigas configurações topográficas, vegetação, demolições e intervenções por máquinas, concebendo a colina como produto de processos naturais e humanos. 71. A modificação da colina para uso ciclístico envolve compactação da terra, retirada de pedras, vegetação e árvores e introdução de palha, evidenciando conhecimento prático do relevo como superfície manipulável. 72. A colina ideal é concebida mediante características mensuráveis e funcionais — altura, ângulo, dureza, superfície plana, ausência de obstáculos e presença de marcadores — subordinadas à experiência desejada do salto de bicicleta. 73. A experiência de atravessar a colina articula medo, coragem, risco, liberdade, prazer e percepção corporal, fazendo do relevo não apenas objeto espacial, mas componente afetivo de uma prática vivida. 74. A sensação de borboletas no estômago ao ultrapassar o relevo sintetiza a possibilidade de que experiências corporais singulares, depois de assimiladas e reelaboradas, venham um dia a participar da invenção de novos signos cartográficos. ** CAPÍTULO SETE ** ** O interesse a que o mapa serve pode ser o próprio ** 75. A invenção inteiramente inocente de signos cartográficos já não é possível para adultos profundamente inseridos em tradições representacionais, pois todo mapa permanece impregnado de interesses, inclusive mapas surrealistas que pretendem romper convenções e antigos mapas mixtecos nos quais signos aparentemente pictóricos serviam a relações de domínio territorial. 76. Em vez de tentar eliminar o interesse, torna-se possível reconhecê-lo explicitamente e aceitar o mapa como representação historicamente contingente produzida por seleção e orientada para fins determinados. * Reconhecer os interesses de artistas, instituições científicas, órgãos estatais e autoridades políticas elimina a necessidade de dissimulá-los. * O mapa pode então assumir plenamente seu caráter de instrumento para processamento de dados, raciocínio quantitativo e argumentação persuasiva. * Libertado da pretensão de ser uma visão objetiva da realidade, pode retornar às mãos que o fazem, à mente que raciocina com ele e à linguagem que o mobiliza. * Em lugar de mero objeto passivo de contemplação, transforma-se em instrumento ativo de intervenção disponível aos próprios usuários. ** Qualquer pessoa pode fazer um mapa ** 77. Um mapa improvisado para investigar a distribuição do consumo ilegal de drogas na Carolina do Norte mostra que mapear pode consistir simplesmente em colorir áreas para descobrir padrões espaciais inesperados, como a concentração de problemas em grandes cidades, corredores interestaduais e extensas áreas costeiras. 78. O objetivo desse mapeamento não é contemplativo, mas político e prático: visualizar padrões serve para reivindicar recursos, chamar atenção pública e sustentar determinada posição sobre a alocação de verbas, constituindo explicitamente uma prática de defesa de interesses. 79. O reconhecimento dos interesses cartográficos não exige mapas rudimentares, pois técnicas sofisticadas podem ser empregadas com a mesma transparência de propósito, como demonstram mapas destinados a compreender e combater a disseminação da AIDS. 80. Mapear a AIDS espacialmente é necessário para aprofundar a compreensão científica de uma epidemia cuja modelagem convencional havia privilegiado excessivamente a dimensão temporal e negligenciado sua organização geográfica. 81. A representação cartográfica da epidemia também possui função educativa, pois sequências animadas permitem tornar visível sua proximidade e mostrar processos de difusão hierárquica entre cidades e expansão contagiosa para áreas circundantes, convertendo percepção espacial em estímulo à ação. 82. O mapeamento prospectivo da epidemia possui ainda finalidade assistencial, porque a localização futura de hospitais, hospices e outros serviços depende de saber onde a demanda surgirá, de modo que a cartografia pode servir ao propósito humano de facilitar o contato entre doentes e pessoas próximas. 83. Procedimentos matemáticos e computacionais sofisticados, incluindo transformações do espaço geográfico, filtragem espacial adaptativa e animação televisiva, tornam o mapa uma etapa de um processo de decisão em vez de um produto encerrado em si mesmo. ** Os mapas são momentos no processo de tomada de decisão ** 84. Um mapa orientado para a decisão não deve ser desenhado definitivamente de uma só vez, mas construído e reconstruído tantas vezes quanto necessário para revelar as relações emergentes da interação entre os dados. 85. A construção iterativa torna-se especialmente importante quando o objetivo é ampliar a capacidade de intervenção dos envolvidos, como ocorreu na elaboração de propostas alternativas para a descentralização escolar em Detroit, em oposição a um plano oficial já estabelecido. 86. A produção do relatório sobre descentralização escolar mobilizou técnicas avançadas de programação, equipes universitárias e conhecimentos matemáticos e geográficos com a finalidade explicitamente declarada de transformar ciência abstrata em instrumento prático de intervenção. 87. Entre os mapas produzidos estavam representações da composição racial das escolas, discriminação habitacional, residências de integrantes do conselho escolar e múltiplos planos de redistribuição territorial, além de milhares de possibilidades calculadas computacionalmente. * Foram identificadas 7.367 configurações cartográficas compatíveis com as restrições iniciais. * A multiplicação das alternativas tornou a própria reconstrução sucessiva dos mapas parte central da análise. 88. A comparação sistemática das alternativas revelou diferenças profundas na capacidade das comunidades branca e negra de manter controle sobre suas crianças, fornecendo limites quantitativos para uma discussão política mais realista sobre a redistribuição escolar. 89. Ao produzir e expor toda a gama de soluções possíveis, a prática cartográfica ultrapassa a simples defesa de uma opção e alcança uma profissionalidade fundada na responsabilidade perante a decisão, em vez de restringir-se à competência técnica do cartógrafo. ** Os mapas são responsabilidades pesadas ** 90. A cartografia comprometida com a condição humana exige reconsiderar o próprio significado de exploração geográfica, pois uma superfície não está verdadeiramente conhecida apenas porque rios e montanhas foram posicionados com precisão se permanecem desconhecidas as condições de vida de seus habitantes. 91. Nenhum mapa existe sem tema nem ponto de vista, pois representar um lugar implica necessariamente escolher aquilo que nele será mostrado e decidir a partir da perspectiva de quem esse espaço será compreendido. * A escala também participa dessa escolha ao determinar o que pode tornar-se visível. * Em pequenas escalas, por exemplo, as crianças podem simplesmente desaparecer da representação e ser absorvidas espacialmente pelo mundo dos adultos. 92. Uma geografia das crianças exigiria investigar seu próprio espaço vivido, incluindo áreas de brincadeira, velocidades de deslocamento, travessias de ruas e comportamentos cotidianos frequentemente excluídos das representações adultas e institucionalizadas. 93. A resposta a essa ausência consiste em organizar expedições humanas nas quais geógrafos acadêmicos, conhecedores locais, urbanistas e moradores participem diretamente da exploração de seus próprios espaços de vida. 94. Nessas expedições, os habitantes locais deixam de ser meros informantes para assumir a condução da investigação e produzir mapas orientados não apenas para aquilo que existe, mas para aquilo que deveria existir, convertendo a geografia em instrumento de transformação. 95. A mesma instrumentalidade pode servir à conservação da biodiversidade, na qual a necessidade de escolher áreas prioritárias exige identificar espacialmente ecossistemas ameaçados e concentrar recursos limitados onde possam produzir maior efeito. 96. Assim como a cartografia da AIDS procura maximizar o acesso humano à assistência, a cartografia conservacionista procura minimizar a destruição das áreas de maior diversidade biológica, demonstrando que a decisão espacial pode ser guiada por valores distintos da eficiência econômica. 97. Levantamentos rápidos realizados em habitats tropicais pouco estudados podem revelar áreas excepcionalmente biodiversas que haviam permanecido fora das políticas de proteção justamente porque sua riqueza biológica ainda não fora conhecida nem representada. 98. Uma resposta prática consiste em colocar tecnologias de produção cartográfica nas mãos daqueles que delas necessitam, integrando dados ecológicos, sociais, econômicos e físicos para produzir mapas capazes de orientar decisões sobre conservação e desenvolvimento sustentável. 99. Um atlas de biodiversidade baseado em sistemas de informação geográfica torna explícitos os critérios empregados para definir prioridades de conservação, combinando dados sobre diversidade biológica, perturbação humana dos ecossistemas e capacidade nacional de proteção. 100. Nesse programa, mapas participam de todas as etapas — geração de dados, definição de prioridades, distribuição de recursos, conscientização pública e captação de financiamento — e sua instrumentalidade é assumida abertamente. * As fontes são explicitadas por extensa bibliografia e procedimentos analíticos. * O interesse conservacionista não é ocultado sob aparência de neutralidade. * Ferramentas cartográficas sofisticadas são tratadas como instrumentos a serem distribuídos aos que precisam agir. 101. Um mapa acadêmico de Sikkim oferece o contraste de uma cartografia que afirma ter sido compilada a partir dos melhores mapas disponíveis e de pesquisas de campo, mas deixa praticamente invisíveis os critérios de seleção, os propósitos concretos e a qualidade diferencial de suas fontes. 102. O diagrama de confiabilidade e outras marcas de cientificidade desse mapa funcionam mais como sinais de autoridade técnica do que como esclarecimentos efetivos sobre sua produção, enquanto a excelência do relevo sombreado faz desaparecer o cartógrafo e apresentar Sikkim como realidade aparentemente autônoma e diretamente visível. ** Os mapas capacitam ao funcionar ** 103. A democratização de programas de produção cartográfica desloca a ênfase da habilidade secreta do especialista para a possibilidade de qualquer interessado construir mapas, ameaçando o monopólio profissional sobre técnicas anteriormente envoltas em hermetismo. 104. A preocupação profissional com possíveis erros cometidos por usuários de softwares cartográficos enfatiza riscos reais de representações enganosas, como o uso inadequado de sombreamento de áreas ou a comparação de unidades territoriais de dimensões muito diferentes. 105. A alternativa de confiar exclusivamente no especialista não elimina distorções, pois cartógrafos profissionais também trabalham com dados selecionados, projeções deformadoras, atmosferas idealizadas e temas orientados por interesses, tornando problemática a pretensão de que o especialista necessariamente saiba melhor do que os usuários. 106. A autoridade das profissões modernas pode transformar uma relação originalmente concebida como serviço em estrutura de dependência e subordinação, na qual especialistas altamente institucionalizados passam a controlar aspirações e comportamentos de uma clientela progressivamente passiva. 107. A cartografia profissional participa potencialmente dessa mesma lógica quando transforma problemas sociais em problemas supostamente solucionáveis apenas por cartógrafos, embora a questão efetiva seja utilizar mapas como instrumentos para enfrentar drogas, AIDS, segregação escolar, desconhecimento comunitário ou perda de biodiversidade. 108. Um mapa da comunidade de Adams-Morgan produzido para seus próprios habitantes exemplifica uma cartografia destinada à autodefinição territorial e ao conhecimento local em vez de prioritariamente orientar estrangeiros. 109. A elaboração desse mapa resultou de caminhar, conversar e explorar o bairro segundo práticas semelhantes às das crianças, permitindo descobrir lugares e usos conhecidos pelos moradores, mas invisíveis nas representações convencionais. 110. O próprio processo de mapeamento gerou soluções que ultrapassaram a produção do mapa, incluindo propostas de sinalização, caminhos panorâmicos e plataformas de observação, mostrando que mapear constitui uma forma fundamental de organizar e transformar o mundo, além de poder ser realizado coletivamente com recursos relativamente modestos. 111. Os mapas necessários não precisam limitar-se a bairros nem sequer ao espaço imediatamente visível, pois acontecimentos decisivos da vida contemporânea ocorrem em geografias invisíveis de telecomunicações, redes digitais, televisão, cartões de crédito e fluxos informacionais que também podem ser espacialmente representados. 112. Um mapa dos fluxos telefônicos mundiais entre Estados Unidos, Europa e a orla do Pacífico revela uma estrutura global hierarquizada na qual alguns grupos controlam redes de comunicação e outros permanecem na periferia, contrariando a imagem indiferenciada de uma aldeia global. 113. A telegeografia pode fornecer novos mapas mentais da globalização ao substituir a centralidade tradicional das fronteiras políticas e naturais pela representação das conexões e fluxos que estruturam acontecimentos econômicos e políticos contemporâneos. 114. A cartografia de redes contemporâneas prolonga uma função historicamente permanente do mapa, pois mapas de mísseis, fluxos de vinho, ventos alísios, itinerários medievais e estradas romanas igualmente representaram formas de conexão orientadas por interesses específicos. * As conexões cartografadas podem envolver comunicações, comércio, atmosfera, deslocamentos, guerra ou mundos espirituais. * Em todas as épocas, mapas foram utilizados para relacionar seres humanos ao mundo segundo aquilo que determinada sociedade ou indivíduo considerava significativo. * Advogados, jornalistas, ecólogos, arquitetos, ativistas, geógrafos e cartógrafos podem apropriar-se desse poder conforme seus próprios interesses. 115. A multiplicidade de pessoas, técnicas, finalidades e interesses envolvidos na produção cartográfica constitui precisamente o mundo dos mapas. {{tag>Wood Geografia Cartografia mapa simbologia}}