====== Renascença ====== A “Renascença” da Geografia Em continuidade ao //Risorgimento// italiano, introduz-se no inicio do século XV, o ensino da língua grega na universidade de Florença, graças à Emmanuel Chrysoloras (1350-1415). Um novo ímpeto é dado ao desenvolvimento das ciências naturais, ainda incondicionalmente baseadas na obra de Aristóteles. Através do acesso direto ao acervo de obras da Antiguidade, em particular da Grécia e da Alexandria, aos poucos transladados de Constantinopla para Veneza e Florença, o humanismo abre outros caminhos em meio à //Rinascita// em curso, que iam muito além da renovação artística. Entre os primeiros trabalhos resgatados do passado e traduzidos do grego para o latim, encontravam-se as obras geográficas de Claudius Ptolomeu (II dC) e de Estrabão (I dC). A obra magistral de Ptolomeu se tornou logo um clássico, com suas sucessivas edições (mais de 40 nos 200 anos que se seguiram). Ela vai estabelecer um formato decisivo na constituição da “geo-grafia” ocidental moderna, enquanto um “discurso do mundo”. Dois modos de representação geográfica vão se consagrar desde então: o “cosmo-gráfico” de Ptolomeu, privilegiando a representação gráfica do mundo, e o choro-gráfico de Estrabão, enfatizando a representação textual do mundo conhecido, o ecúmeno. Estes modos de representação, resgatados da antiguidade, guardavam também uma certa associação com duas noções que se encontravam em situação conflituosa à esta época: a da “Terra plana” e a da “Terra esférica”. Para Randles (1994) as sínteses bíblico-cartesiana ((Se assentava na posição de Crates de Malo (II aC) de que a Terra seria uma esfera coberta em sua maior parte por água, tendo apenas algumas ilhas habitáveis. Dentre estas o pequeno ecúmeno cristão perdido na superfície da esfera podia parecer desta forma plano. Ela foi amplamente difundida na Idade Média pela obra de Martianus Capella (V dC) e Macóbio (V dC).)) e bíblico-aristotélica ((De inspiração aristotélica, dava ao cosmo a forma de quatro esferas concêntricas, reconhecendo a Terra como uma destas esferas, ou seja, mundo sublunar. Foi amplamente difundida na Idade Média, através da obra de João de Sacrobosco (século XIII).)), cada uma a sua maneira, pretendiam justamente conciliar essas duas noções, buscando tornar compatível o mito bíblico, que parecia indicar a natureza plana da Terra, com a ideia grega de uma Terra redonda. Ou seja, estas sínteses medievais, com nuanças próprios, admitiam que a Terra seria plana no nível do ecúmeno habitável e esférica apenas no nível da astronomia. As obras geográficas de Estrabão e Ptolomeu repercutem positivamente neste debate, na medida que o mesmo se depara também com a experiência concreta da esfericidade da Terra, conforme indicada pelos grandes descobrimentos. Não é sem razão que Gusdorf (1967) afirma com muita propriedade que “a descoberta da Antiguidade [foi] a primeira em data das Grandes Descobertas”. Podemos até mesmo dizer, que estas obras de Estrabão e Ptolomeu se alinham entre as obras fundadoras de um “nova” epistemologia do mundo moderno. Escritas no apogeu do Império Romano, elas já haviam ajudado a constituir este império, além de terem sido ao mesmo tempo constituídas por ele, ou melhor, por aqueles cidadãos de Roma que se diziam os “mestres do mundo”. Com efeito, os governantes romanos aplicavam uma estratégia de apropriação do ecúmeno que implicava na obediência a representações geográficas, ao mesmo tempo científicas e míticas. A necessidade de governar sobre um espaço gigantesco os forçava a utilizar, e até mesmo a inventar, meios aperfeiçoados de recenseamento, de levantamentos topográficos e cadastrais, que influenciariam sua, e posteriormente nossa, visão do mundo, constituindo desde então as bases de uma “geo-grafia” apta para gestão do território [Nicolet, 1988]. A geografia ocidental moderna, herdada de saberes e práticas já adotadas no auge do Império Romano, não deve ser entendida como ordinariamente fazemos hoje em dia: um simples retrato do mundo, que se estuda em livros ou atlas escolares. A geografia que aqui nos referimos foi para os romanos, e ainda é para nós, uma “representação” do mundo. Aliás a própria etimologia do termo “geo-grafia”, “discurso do mundo”, nos aponta para este entendimento, que guarda em si um certo movimento, o de representar. Referências: * NICOLET, Claude (1988), L’inventaire du monde. Géographie et politique aux origines de l’Empire romain. Paris, Hachette. * RANDLES, William G.L. (1994), Da Terra plana ao globo terrestre. Uma mutação epistemológica rápida (1480-1520). Campinas, Papirus. {{tag>Geografia geografização renascença}}