====== Faces ====== //BRUNET, Roger. La carte . Mode d’emploi. Paris: Fayard/Reclus, 1987// ** OS ROSTOS DO MAPA ** ** 19. As vestes do mapa ** 1. Todo mapa possui, ou deveria possuir, cerca de dez elementos indispensáveis, vestimentas sem as quais não poderia se apresentar, tornando-se ilegível. 2. Um título deve ser breve, nítido, técnico ou sedutor conforme a necessidade, mas sempre claro. 3. Uma moldura é questão de clareza e estética, tendo sido muito trabalhada e ornamentada nos mapas antigos, mas tendendo hoje a se tornar discreta, reduzida a um simples traço fino ou mesmo a desaparecer. * A verdadeira questão é saber se se preenche toda a moldura ou se limita ao território apresentado, sendo a primeira solução geralmente melhor por informar sobre o entorno do território * Essa solução costuma ser impraticável por falta de dados, e as cartas estatísticas por computador a evitam sistematicamente 4. Uma legenda constitui o dicionário exaustivo dos sinais utilizados, salvo evidências, devendo ser tão breve quanto possível e classificada segundo princípios claros, com unidades de medida definidas. * A legenda é colocada em um ângulo vazio do mapa ou fora dele, ao longo de um lado, abaixo, raramente acima * Por falta de espaço, ou para facilitar traduções, os símbolos são às vezes numerados e explicados fora do mapa, o que impõe esforço adicional ao leitor 5. A escala é indispensável para avaliar distâncias e dimensões dos territórios, dando-se seu valor numérico apenas quando o mapa não deve ser reduzido nem ampliado, sendo preferível desenhá-la como escala gráfica sem adornos supérfluos. 6. A orientação também deve ser indicada, salvo evidências, sobretudo quando o Norte não está exatamente para cima, servindo para situar-se, conservar as silhuetas e considerar a posição em relação ao sol, aos ventos ou aos vizinhos. 7. Coordenadas nas bordas do mapa são úteis para bem situar territórios distantes ou pouco conhecidos, sendo que sobre mapas do Mundo se incluem meridianos e paralelos para avaliar as deformações da projeção escolhida. 8. A fonte deve ser precisada, ao menos nas cartas estatísticas, esclarecendo a origem da informação, sua validade e sua margem de confiança. 9. A data é capital, já que o mundo muda, nunca sendo omitida nas cartas estatísticas e sempre presente nas cartas topográficas. 10. A nomenclatura varia conforme o propósito do mapa, sendo algumas cartas feitas para nomear o máximo de lugares possível e outras deliberadamente vazias, dependendo do uso pretendido para a carta. * Se o que importa é a lista, é preciso nomear amplamente * Se o que importa é a forma, a nomenclatura é dispensável, salvo alguns pontos de referência * Se o que se busca é a localização, nomeiam-se os pontos-chave e os lugares estratégicos 11. O décimo elemento é o próprio conteúdo do mapa, por vezes complementado por um recorte em pequena ou grande escala, separado do restante e dotado de escala própria, sendo que mapas antigos traziam ainda cartelas ornamentadas. ** 20. A carta topográfica ** 12. A carta topográfica é considerada a carta de base, pois reúne e posiciona com precisão as informações fundamentais sobre lugares, fronteiras e limites administrativos, vias de comunicação e habitações, fixando os topônimos e possuindo assim interesse jurídico. 13. A carta topográfica traz em geral o relevo, hoje representado por curvas de nível que ligam pontos de mesma altitude, mais ou menos próximas conforme a vigor das encostas. * A hidrografia é indicada em azul, com convenções específicas para litorais marítimos * Os caminhos e estradas, geralmente em preto, são classificados por importância, incluindo canais e ferrovias * Os lugares habitados aparecem com mais ou menos detalhe conforme a escala * Elementos de ocupação do solo, como florestas, pomares e vinhedos, indicam obstáculos ou abrigos * Pontos de referência como moinhos e castelos d'água, além de cercas e toponímia, completam a representação 14. Essas cartas foram desenhadas primeiramente para fins militares, o que explica a valorização daquilo que constitui obstáculo, abrigo ou referência, sendo também muito úteis à gestão cotidiana dos territórios. 15. Fora dos profissionais especializados, essas cartas servem sobretudo para deslocamentos lentos, situando comodamente um lugar, uma propriedade ou uma casa em seu entorno, orientando-se no terreno com bússola ou pontos notáveis. 16. Servem também como instrumento de aprendizado da geografia, permitindo relacionar formas de relevo, habitat, toponímia e cursos d'água, embora se exagerem frequentemente suas possibilidades, já que fornece apenas informações pontuais sobre a paisagem real e quase nada sobre as populações e seus comportamentos. 17. A legenda da carta topográfica é uma espécie de dicionário relativamente limitado, embora já complexo, sendo recomendável conhecê-la de memória para um dado país, e todo cidadão deveria saber utilizá-la. 18. Existem formas particulares da carta topográfica, como as cartas marítimas, minuciosas quanto aos acidentes costeiros, profundidades e balizas. 19. O conjunto de cotas de altitude e curvas de nível serve para estabelecer os modelos numéricos de terreno, permitindo representações tridimensionais do relevo e diversos cálculos. ** 21. Cartas rodoviárias ** 20. A carta rodoviária, embora derivada da carta topográfica, é bem menos rica que ela, porém mais legível ao viajante, sendo publicada em escalas menores em razão do aumento das velocidades e distâncias percorridas. 21. A carta rodoviária privilegia as estradas trafegáveis, podendo eliminar caminhos e ferrovias, hierarquizando as vias segundo convenções que variam de país para país. * Indica em princípio as distâncias entre referências, retém a numeração das vias e às vezes menciona limitações de circulação em regiões montanhosas * Nunca, porém, indica os pontos de acidentes frequentes 22. A carta rodoviária pode fornecer outras informações, como localização de postos de combustível, maciços florestais e pontos de atração turística, sendo sempre nomeados os lugares e aglomerações. 23. A carta turística é geralmente uma adaptação da carta rodoviária, valorizando pontos de interesse e itinerários de acesso, sendo muitas vezes imprecisa, de modo que uma boa carta rodoviária costuma ser preferível. 24. A escala da carta é adaptada à extensão do deslocamento, sendo a carta topográfica mais agradável para trajetos curtos e lentos, enquanto escalas intermediárias servem a passeios de carro e o milionésimo basta para grandes distâncias. 25. Existem cartas mais especializadas, como as de navegação aérea, fluvial ou marítima, muito elaboradas e precisas devido aos riscos envolvidos. 26. A maioria das cartas ferroviárias e de transporte coletivo se aproxima de simples esquemas ou listas ordenadas de pontos de parada, tendência que também alcança as cartas de autoestradas. ** 22. Cartas em áreas ** 27. Pode-se chamar de carta em áreas o que se costuma nomear carta corográfica ou corocromática, forma extremamente difundida que delimita estados de superfície ou a extensão de certos objetos ou fenômenos. * Identifica-se a extensão considerada por uma cor, uma trama ou um simples contorno, considerando-se o fenômeno em sua presença e qualidade, não em quantidade 28. O fundo de carta dessas representações varia muito, podendo ir de um fundo topográfico detalhado até a ausência total de indicação de fundo. 29. Apesar da simplicidade de sua definição, a carta em áreas pode ser bastante complexa, reunindo gêneros e usos muito diferentes. * A carta administrativa de base fornece a extensão e os limites das circunscrições, coloridas por vezes apenas como artifício de comunicação redundante * As cartas geológicas, pedológicas e fitogeográficas atribuem cores a qualidades segundo um nuancier estudado * As cartas de uso do solo, empregadas em agricultura e urbanismo, seguem convenções jurídicas de destinação * As cartas econômicas, sociais, políticas e culturais representam espaços ocupados por etnias, religiões ou práticas sociais 30. Existem situações ambíguas de transição entre a carta corográfica e a carta em faixas, como cartas que derivam de um cálculo, ou cartas em áreas nuançadas segundo intensidade, que já sugerem uma classificação hierárquica. 31. Embora fundamentalmente qualitativas, essas cartas podem ser comparadas e tratadas estatisticamente por quadriculado ou transecto, segundo a álgebra booleana. ** 23. Cartas em faixas ** 32. A carta em faixas é uma variedade de carta em áreas que apresenta a particularidade de ser graduada, mostrando variações de intensidade de um fenômeno de superfície por meio de uma hierarquia de tonalidades. 33. Por definição, a legenda é classificada segundo a ordem dos valores, discretizados e organizados em classes, cada faixa correspondendo a uma classe representada por uma tonalidade. 34. Os valores são obtidos para cada circunscrição de base considerada uniforme, sendo a média da circunscrição atribuída a todos os seus pontos, o que só é adequado quando essa hipótese não é absurda. * Se a circunscrição for muito grande e heterogênea, a carta se torna pouco interessante ou mesmo absurda 35. Essas representações são extremamente numerosas no universo das cartas temáticas estatísticas. 36. Todo o fundo de carta é coberto, inclusive o valor zero, sendo os contornos das circunscrições conservados para identificação, embora isso possa prejudicar a leitura por atrair o olhar indevidamente. 37. Essas cartas são feitas tingindo as circunscrições de um fundo preexistente, o mesmo que serviu à coleta dos dados, não podendo ser usadas em nível mais detalhado do que aquele em que os dados foram obtidos. 38. Por definição, essas cartas só podem representar taxas ou classificações, e não quantidades absolutas, cuja amplitude estaria ligada às diferenças de superfície das circunscrições. 39. O problema de fundo é trabalhar sobre uma superfície fixa para representar valores diferentes, dispondo apenas da intensidade da tonalidade para expressar gradação, o que às vezes é mal empregado, levando a tentativas de deformar as superfícies como alternativa. ** 24. Cartas em curvas ** 40. As cartas em curvas expressam diferenças de valores no espaço como as cartas em faixas, mas aqui a informação é obtida em pontos, sendo as curvas chamadas isarítimas por unirem pontos de mesmo valor. 41. Em certos casos os valores são efetivamente medidos sobre pontos da curva, em outros são interpolados, sendo as curvas de nível topográficas hoje calculadas mais automaticamente a partir de imagens estereoscópicas. 42. Em muitos casos os valores da curva são apenas supostos, interpolando-se entre medições esparsas sem garantia de continuidade da inclinação, podendo o traçado seguir proporções aritméticas ou geométricas conforme o fenômeno. 43. Às vezes o que importa não são as curvas em si, mas os espaços entre elas, o que ocorre quando os valores são medidos sobre superfícies e não sobre pontos, como densidades populacionais ou percentuais de cultivo. 44. Graças a esses artifícios, fazem-se cartas em curvas tanto para valores absolutos medidos em pontos específicos quanto para valores relativos calculados em pontos ou superfícies reduzidas a seu centro. 45. A virtude principal das curvas de nível é dar impressão de relevo e indicar tendências no espaço, sendo esse o efeito buscado, variando o número de curvas conforme a precisão da informação e o efeito desejado. * Quando as curvas são poucas, colorem-se os intervalos entre elas, dando origem às cartas isopléticas, próximas das cartas em faixas mas construídas de modo diferente 46. A literatura especializada é riquíssima em nomes para designar as curvas conforme o objeto representado, como isoípsas, isóbatas, isóbaras e isócronas, entre muitas outras. ** 25. Cartas em pontos ** 47. Certas cartas se limitam a colocar sobre um fundo pontos de mesmo tamanho, podendo ser tão expressivas quanto precisas quando esses pontos são suficientemente numerosos. 48. Todos os pontos são idênticos e têm o mesmo valor, podendo assumir dois significados. * Podem sinalizar com exatidão a presença efetiva de um objeto no local indicado, sem hierarquia entre os objetos * Podem corresponder à localização suposta de coleções de objetos, cada ponto valendo por convenção um número determinado de objetos 49. Em todos os casos a impressão visual corresponde ao menos às densidades em relação à superfície real, podendo revelar verdadeiras estruturas espaciais quando a informação de base é suficientemente fina. 50. Duas vias permitem complicar ou enriquecer essas cartas, fazendo a transição para as cartas em figuras e símbolos. * Pode-se diferenciar os pontos segundo uma gama de valores convencionados, alterando seu tamanho * Pode-se diferenciá-los segundo uma qualidade, mantendo constante o valor do ponto mas variando sua cor ou forma conforme a natureza do objeto 51. Em certas cartas, um ponto representa uma fração constante do total, convenção interessante para comparar visualmente distribuições de fenômenos diferentes ou de um mesmo fenômeno em datas distintas. ** 26. Cartas em proporções ** 52. Esses ajustes das cartas em pontos conduzem naturalmente ao aproveitamento das hierarquias e relações de proporcionalidade para simplificar representações mantendo a gradação das ordens de grandeza. 53. A única proporcionalidade respeitada pela maioria dos fundos de carta disponíveis é a das superfícies territoriais, o que sacrifica a representação das cidades, levando a artifícios como a carta em figuras proporcionais. 54. As figuras mais empregadas são o círculo e o quadrado, eventualmente o retângulo, por se prestarem bem à avaliação de proporções e serem fáceis de construir. 55. A ambição dessas cartas é representar visualmente as proporções exatas dos fenômenos, sendo a escala de valores indicada na legenda tão importante quanto a escala do fundo de carta. 56. As figuras são centradas em pontos precisos, correspondendo a lugares específicos ou ao centro geométrico de circunscrições inteiras reduzidas a um ponto. 57. A escolha da escala depende da amplitude da distribuição e da dimensão do fundo de carta, já que figuras muito grandes se sobrepõem excessivamente e figuras muito pequenas são difíceis de perceber. 58. Círculos e quadrados não privilegiam nenhuma direção, enquanto retângulos, apesar dessa desvantagem, facilitam a avaliação de proporções e evitam sobreposições quando estreitos. 59. Essas cartas são precisas por utilizarem escala contínua, sendo pouco recomendável misturar figuras diferentes na mesma carta, já que o olho tem dificuldade em avaliar formas distintas simultaneamente. 60. Essas cartas são muito eficazes para representar quantidades absolutas, sendo essa a única forma séria de fazê-lo, empregadas frequentemente em indústrias, equipamentos e populações. 61. São compatíveis com representações por pontos, podendo ter sua escala simplificada em poucas classes para facilitar o desenho quando as figuras são numerosas. 62. Quando se trata apenas de representar valores diferentes da mesma variável, a proporcionalidade das superfícies basta, mas as figuras podem ainda ser informadas por uma tonalidade ou símbolo que remeta a outra variável, aproximando-se das cartas em diagramas. ** 27. Cartas em diagramas ** 63. Dispor diagramas mais ou menos complexos sobre um mapa sempre foi tentador, buscando-se exprimir várias coisas ao mesmo tempo em cada lugar, recurso hoje acelerado pela informática. 64. Em geral, porém, essas cartas são pouco eficazes e sua precisão é ilusória, sendo difícil ao olho reconhecer formas espaciais a partir delas, salvo em circunstâncias excepcionais. 65. Geralmente essas cartas são empregadas para mostrar variações de estrutura interna de uma variável, subdividindo a figura escolhida ou a circunscrição inteira. * Quatro figuras básicas servem aos diagramas: a barra fragmentada em seu comprimento, o histograma formado por barras desiguais, o círculo ou semicírculo fragmentado em setores, e o quadrado subdividido em células * Desenhistas engenhosos propuseram derivações dessas figuras, como semicírculos confrontados ou ilusões de volumes 66. Para fenômenos contínuos no espaço buscaram-se procedimentos de alternância em faixas que reproduzem as proporções dos componentes, agrupando-se geralmente os valores em poucas classes por dificuldade de precisão. 67. Essas cartas hesitam entre comunicação e inventário, sendo fundamentalmente cartas de inventário a serem decifradas pacientemente, com virtudes de comunicação inferiores ao que seus autores imaginam. 68. Na maioria dos casos é preferível decompor a informação em cartas separadas por componente, ou avançar no tratamento dos dados até obter tipologias que agrupem lugares de espectro semelhante, o que garante classificação mais segura. ** 28. Cartas em símbolos ** 69. As cartas em símbolos são outra forma de figurar presença ou ausência, sendo muito usadas e também as mais frequentemente abusadas. 70. Essas cartas são particularmente aptas a inventários, podendo cada objeto repertoriado ser identificado por um símbolo entre milhares de possibilidades. 71. Vão desde imagens realistas quase caricatas, como um dromedário representando o deserto, até representações abstratas como triângulos e retângulos coloridos, passando por signos parcialmente realistas. 72. A gama de símbolos possíveis é ampla, permitindo jogar com cor, tamanho e textura, embora com precisão muitas vezes duvidosa e legibilidade discutível. 73. Essas cartas, por vezes pouco estéticas, só são eficazes quando rudimentares, com poucos sinais e quase nenhuma legenda, sendo custosas de desenhar e pouco compatíveis com o uso do computador. 74. Algumas, mais discretas e abstratas, podem ser úteis como cartas de inventário, como as de jazidas metalíferas representadas por figuras geométricas ou símbolos químicos. 75. Essas cartas podem se transformar em cartas de figuras proporcionais quando se adota uma escala para os símbolos, embora a irregularidade das formas possa ser obstáculo. ** 29. Cartas de fluxos e redes ** 76. As cartas de redes são bastante comuns e variam sobretudo pelo grau de generalização, sendo as cartas rodoviárias, em seus elementos essenciais, já cartas de redes. 77. Uma rede é composta de pontos e linhas que os ligam, traduzindo um equipamento ou infraestrutura, podendo o cartógrafo diferenciar tanto os nós quanto os arcos segundo suas características. 78. Esses desenhos são às vezes modelizados até se tornarem grafos abstratos com pouca relação com a realidade, como certos mapas de metrô que ignoram distâncias reais, enquanto outros incorporam os tempos de trajeto. 79. Um desenho suficientemente fino e exato das redes também informa sobre sua densidade, que pode igualmente ser calculada por circunscrição ou quadriculado. 80. As cartas de fluxos se assemelham às cartas de redes, mas se afastam delas pela complexidade das relações a cartografar, mostrando a amplitude e desigualdade dos movimentos de bens, pessoas ou informações. 81. Além de certo número de pares, a carta se torna ilegível, exigindo artifícios como o agrupamento de pontos de partida e chegada ou a fixação de um limiar mínimo para cartografia. 82. Novos modos de representação sacrificam o detalhe dos fluxos em favor de movimentos de conjunto, concebidos sobretudo para migrações populacionais. 83. Quando os fenômenos são simples, as cartas de fluxos também o são e geralmente fáceis de ler, variando-se a largura das faixas para evocar a intensidade e indicando-se o sentido por setas. 84. Embarques e desembarques são representados por diagramas simples, como semicírculos confrontados, podendo o diagrama ser indefinidamente complicado sem que isso garanta eficácia da carta. ** 30. Cartas em quadriculado ** 85. A heterogeneidade das circunscrições de base é frequentemente um obstáculo para a cartografia, prejudicando o valor expressivo da carta e complicando comparações ao longo do tempo. 86. Buscaram-se por isso artifícios para se livrar da malha de base, entre eles o alisamento e a busca de tendências, além do quadriculado. 87. O princípio das cartas em quadriculado é simples, consistindo em sobrepor uma grade regular à imagem do território e contar os objetos em cada quadrado, geralmente igual, mas podendo ser retangular ou hexagonal. 88. Os dados podem, no caso mais rudimentar, indicar apenas presença ou ausência, permitindo comparar distribuições de fenômenos qualitativos, ou podem ser valores absolutos ou relativos de um mesmo fenômeno. 89. As contagens podem ser feitas diretamente sobre levantamentos de terreno ou atribuindo a cada quadrado o valor de uma circunscrição correspondente, com precauções quando os tamanhos diferem. 90. A escolha do passo, isto é, a dimensão do lado do quadrado, resulta de um compromisso entre custo da informação e precisão da imagem, sendo possível trabalhar com grades de passo variável para ampliar certas partes do território. 91. A sensoriamento remoto emprega sistematicamente o quadriculado, sendo as medidas tomadas pelos satélites para unidades espaciais elementares chamadas pixels. 92. Na Grã-Bretanha, diante da extrema heterogeneidade das circunscrições, toda a informação de base passou a ser coletada em um quadriculado pré-estabelecido, facilitando enormemente a produção de cartas por computador. 93. Nessas cartas todos os cálculos são facilitados, incluindo correlações e alisamentos, variando a estética conforme a finura do quadriculado, sendo as mais grosseiras pouco sedutoras e até pouco fiéis. 94. As virtudes dessas cartas para cálculos e comparações farão com que se difundam amplamente, exigindo atenção à qualidade do compromisso entre finura e custo da informação. ** 31. Cartas alisadas ** 95. Outra via para atenuar o ruído introduzido pelo desenho das manchas elementares é o alisamento das cartas. 96. O princípio consiste em trabalhar sobre médias locais, substituindo em cada lugar o valor medido pela média entre esse valor e os dos lugares vizinhos, repetindo o cálculo sucessivamente. 97. A aparência normal de uma carta alisada é a de uma carta em curvas, obtida a partir de uma matriz de pontos cotados entre os quais se interpolam curvas, sendo o número de vizinhos considerados arbitrário. 98. Feito à mão, o trabalho seria fastidioso, sendo a carta alisada essencialmente um produto da informática. 99. As vantagens são consideráveis, eliminando diferenças locais menores e revelando diretamente a tendência espacial ou a estrutura fundamental. 100. Além disso, ao eliminar os valores próprios de cada circunscrição, essas cartas contornam o problema da confidencialidade de certos dados, vantagem que tende a crescer no futuro. 101. Como não é mais possível identificar limites e lugares específicos, quem busca detalhe ficará decepcionado, embora ainda possa situar-se aproximadamente. 102. O inconveniente eventual é apagar rupturas significativas, embora a experiência mostre que descontinuidades bruscas geralmente resistem ao alisamento. 103. Rigorosas em seus cálculos, discretas quanto às fontes e expressivas quanto a tendências espaciais, as cartas alisadas tendem a se multiplicar. ** 32. Cartas de gravidade ** 104. As cartas de gravidade e potencial fundamentam-se numa virtude particular da distância, supondo-se que a atração de um lugar é proporcional à sua massa e inversamente proporcional ao afastamento. 105. Desde W. J. Reilly em 1929, supõe-se que a atração de uma cidade sobre a população vizinha é tanto mais forte quanto maior e mais próxima for a cidade, hipótese extensível a fenômenos muito diferentes. 106. Podem-se assim traçar cartas de risco ou de chance, de gravidade ou de potencial, que predizem situações e revelam desvios entre o observado e o esperado, desvios que também se cartografam. 107. Algumas cartas se limitam a dividir um território em malhas, calculando-se os chamados polígonos de Thiessen, que representam as células de domínio entre cidades rivais. 108. Outras calculam o potencial teórico de um lugar, ponderando o número de pessoas ou objetos pela distância, cálculos preciosos para escolhas de localização de armazéns ou hipermercados. 109. Outras ainda calculam e representam mercados teóricos, evidenciando desvios entre realidade e previsão que revelam comportamentos locais não previstos pelo modelo de gravidade. 110. A qualidade dos resultados depende do rigor das hipóteses, sendo as melhores cartas aquelas que calculam a fórmula a posteriori a partir de dados empíricos, revelando ainda como a fricção da distância varia conforme os temas e as épocas. ** 33. Quando as distâncias se deformam ** 111. A distância é dado maior na distribuição dos fenômenos espaciais, mas logo se perceberam os limites das cartas que conservam distâncias lineares ou quilométricas, sendo tentador introduzir distâncias percorridas ou percebidas. 112. As cartas de isócronas há muito representam em curvas os tempos de acesso, tendo-se mais recentemente buscado deformar as distâncias para melhor representá-las. 113. Certas cartas se tornam esquemas nos quais os lugares mudam de posição, aproximando-se ou afastando-se de um centro escolhido, movimentos aparentes que são interessantes em si mesmos. 114. Outras substituem o fundo de carta normal por um fundo redesenhado segundo o princípio de que o que está longe aparece mais compacto e o que está perto mais diferenciado, substituindo-se distâncias reais por escalas logarítmicas ou outras. 115. Esses novos fundos de carta permitem cálculos diretos de acessibilidade a partir de um ponto escolhido, podendo-se ainda imaginar redistribuições segundo a intensidade das relações vividas entre lugares. ** 34. Anamorfoses ** 116. Para se livrar de um fundo de carta fiel mas restritivo, buscou-se cedo propor fundos diferentes que representem outra coisa que superfícies territoriais, conservando ainda assim a aparência de mapa. 117. A ideia básica é atribuir às porções de espaço uma superfície proporcional a outro dado, como população ou renda, revelando assim massas de outra forma que a mera superfície territorial. 118. As mais antigas dessas anamorfoses esquematizam os Estados do Mundo em polígonos que ainda lembram os contornos continentais, buscando dar outra ideia das massas presentes. 119. Outras partem do fundo de carta normal e deformam todos os contornos simultaneamente para tornar as superfícies proporcionais a outros valores, mantendo certo reconhecimento das formas. 120. Outras ainda dividem o território em quadrados regulares e deformam progressivamente a grade, calculando a nova superfície de cada quadrado sem romper a continuidade da malha. 121. O primeiro procedimento pode ser feito à mão, mas os outros dois exigem programas de computador bastante avançados, hoje disponíveis. 122. O resultado dessas transformações é imagem por vezes impressionante, própria para comunicação, podendo até ser animada em vídeo, e as formas assim criadas se memorizam com facilidade, embora sua eficácia dependa de que a imagem original seja conhecida. 123. Essas cartas chocam alguns usuários, que veem os contornos dos países se tornarem abstratos e maleáveis, e as consideram redutoras de informação, confundindo, porém, finalidades diferentes das cartas convencionais. ** 35. Cartas em "3D" ** 124. O universo da carta tridimensional é imenso, multiplicando-se os ensaios desde que se pode confiar o desenho ao computador. 125. A ideia primitiva era reconstituir a aparência do relevo terrestre, acrescentando às duas dimensões do papel o semblante de uma terceira por meio da perspectiva e de uma escala de altitudes. 126. A base de dados é formada pela coleção de coordenadas x, y e das altitudes correspondentes em z, constituindo o fundamento dos modelos numéricos de terreno. 127. É evidente que se pode substituir a altitude de um ponto por qualquer valor medido nesse ponto, gerando um relevo abstrato de quantidades dispersas no território, produzido cada vez mais por programas de computador. 128. Esses programas permitem girar os relevos e produzi-los sob ângulos diferentes, podendo-se ainda criar sequências animadas para mostrar evoluções, e até imaginar hologramas. 129. Frequentemente contenta-se com representações mais rústicas, como barras proporcionais erguidas sobre um fundo em perspectiva, ou circunscrições elevadas a uma altura proporcional às quantidades medidas, as chamadas cartas em prismas. 130. Essas representações nada acrescentam à carta em si, mas comunicam melhor, mostrando proporções e diferenças de valores com mais clareza que uma simples gama de tonalidades. ** 36. Cartas de resíduos ** 131. As cartas de resíduos não têm forma particular, sendo seu conteúdo e sentido o que importa, merecendo exame especial pela sua importância. 132. Respondem a uma dupla ideia da análise espacial: existem regularidades e tendências nas distribuições, mas também singularidades locais que escapam à regra, chamadas resíduos, verdadeiro sal da pesquisa. 133. Esses desvios entre o observado e o calculado podem ser positivos ou negativos e são cartografáveis, gerando cartas segundas cuja configuração é geralmente imprevisível a partir da simples confrontação das cartas de base. 134. As cartas de resíduos são verdadeiras criações que representam fenômenos invisíveis e insuspeitos, apontando para novas hipóteses, fundamentadas sempre em algum ajuste a uma regularidade constatada ou suposta. * O ajuste a um modelo de distância mede a degradação de um fenômeno com o aumento da distância a um centro, calculando-se valores esperados e comparando-os aos observados * O ajuste a uma superfície de tendência considera uma inclinação complexa das valores observados em uma ou mais direções * O ajuste de uma distribuição a outra permite calcular a equação de regressão entre duas variáveis correlacionadas e obter valores esperados * O ajuste a um modelo de estrutura recalcula valores locais supondo estrutura uniforme em todo o país, revelando o quanto essa estrutura não explica, como no caso do exemplo dos salários regionais franceses de 1981, mostrando atraso do Sudoeste 135. As cartas de resíduos exigem o auxílio do computador, mas seus procedimentos são simples e bem estabelecidos, constituindo instrumento valioso de descoberta e apoio à decisão. ** 37. Cartas para classificar ** 136. Se é fácil cartografar um único fenômeno, é delicado cartografar vários simultaneamente ou diferenças de estrutura interna de um mesmo fenômeno, levando alguns a diagramas complexos e pouco legíveis, e outros a decompor o conjunto em várias cartas que fazem perder a combinatória. 137. Na maioria dos casos é melhor cartografar diretamente estruturas diferentes, isto é, tipos de associações de variáveis, sendo a questão central identificar corretamente esses tipos. 138. Após métodos empíricos aproximados, entrou-se no universo dos métodos de classificação automática, cuja complexidade depende do número de variáveis, existindo hoje programas muito eficazes. 139. Há soluções simples, como cruzar dois eixos e atribuir cor a cada quadrante, podendo-se refinar com posições médias, ou combinar três cores fundamentais para três variáveis complementares, base da composição colorida. 140. Na maioria dos casos empregam-se métodos de correlação múltipla, como análise fatorial ou de componentes principais, situando cada lugar em uma nuvem multidimensional que se divide em subnuvens consideradas tipos. * Programas de classificação automática hierárquica ascendente atribuem cada lugar a um tipo, avaliando a proximidade estatística entre tipos, podendo-se escolher o grau de finura da classificação 141. Todos esses métodos são rigorosos e fundamentados no exame das proximidades estatísticas de um conjunto de variáveis, sendo muito superiores a associações feitas visualmente por cores em cartas analíticas separadas. 142. As cartas resultantes têm procedimentos complicados mas resultado de clareza límpida, sendo a legenda muitas vezes o ponto mais difícil de escrever e decifrar, correndo os meios de comunicação o risco de resumir excessivamente os julgamentos sem explicar sua origem. ** 38. Cartas de tendência ** 143. As cartas de tendência propriamente ditas assemelham-se às cartas alisadas, mas implicam cálculos diferentes, buscando deliberadamente um sentido ou lei da distribuição do fenômeno estudado. 144. Aqui o conjunto de valores localizados é tratado em bloco, buscando-se saber se uma orientação privilegiada explica o essencial do fenômeno, calculando-se a equação do plano que melhor passa entre os pontos. 145. Em geral os dados não se reduzem facilmente a essa simplificação, organizando-se muitas vezes em torno de um ponto central, ou envolvendo várias direções que interferem entre si, exigindo cálculos progressivamente mais complexos. 146. Existem tendências bem conhecidas, como o aumento da pluviosidade perto dos oceanos ou a queda das temperaturas com a latitude, sendo especialmente interessante localizar os lugares rebeldes, as exceções a essas regras. 147. As cartas de tendência são instrumentos de pesquisa poderosos, a serem manejados com cautela, mas produzem imagens simples e rapidamente compreensíveis, podendo assumir a forma de curvas de nível ou de blocos tridimensionais. ** 39. Espaços desejados ** 148. A ideia que se faz dos lugares é um poderoso fator de decisão, independentemente de sua distância física real, importando sobretudo a maneira como são percebidos, o que levou a expressar esses sentimentos por meio de cartas. 149. A forma dessas cartas, por vezes chamadas mentais, nada tem de original, pertencendo à família das cartas em curvas e aplicando-se especificamente às cartas de tendência, embora seus ensinamentos sejam frequentemente preciosos. * Essas representações podem variar conforme idade, profissão, origem ou residência dos sujeitos, sendo a comparação entre categorias rica em informações 150. Essas representações são sensíveis ao grau de satisfação ou frustração dos entrevistados, que tendem a supervalorizar seus lugares familiares, sem garantir correspondência entre resposta declarada e comportamento real. 151. Técnicas semelhantes permitem cartografar as deformações do conhecimento dos lugares, as chamadas cartas cognitivas, que tratam das sub ou supervalorizações de distâncias e posições, sendo já exploradas por especialistas em publicidade e localização comercial. ** 40. Cartas da mudança ** 152. Um dos grandes problemas da imagem é a representação das mudanças, já que a imagem tende a fixar o momento, dizendo-se frequentemente que o mapa é um instantâneo, embora essa posição seja ambígua. 153. Dispõe-se de ao menos quatro formas de representar a mudança. * Publicar uma verdadeira sequência de cartas mostrando a extensão do fenômeno em datas diferentes, exigindo do leitor grande parte do trabalho interpretativo * Fixar a massa global a representar para destacar suas variações espaciais, fracionando o fenômeno em partes iguais localizadas a cada data * Cartografar diretamente a intensidade da mudança, obtendo-se uma carta de evolução em vez de cartas justapostas, complicando-se quando há inflexões entre várias datas * Representar de forma esquemática e qualitativa as grandes tendências, focos e frentes, atribuindo valor dinâmico aos próprios símbolos 154. O cinema e o vídeo permitem hoje resolver muitos problemas da cartografia das evoluções, campo ainda pouco explorado fora da meteorologia, mas com grande potencial futuro. ** 41. Cartas de difusão ** 155. Um aspecto particular da mudança territorial especialmente estudado pela carta é o da difusão de um fenômeno no tempo e no espaço simultaneamente, como inovações, invasões, epidemias ou conquistas. 156. Saber de onde vem a mudança e como as estruturas do território facilitam ou dificultam sua difusão é extremamente instrutivo, interessando médicos, líderes religiosos, militares, empresários e políticos. 157. Esse é um dos aspectos mais fascinantes da geografia, tendo geógrafos como T. Hägerstrand realizado análises minuciosas, iniciando pela adoção de inovações técnicas entre agricultores suecos, chegando a simular difusões por métodos de teoria dos jogos. 158. As formas das cartas de difusão assemelham-se às demais cartas de evolução, mas fazem uso intensivo de cartas em curvas e grafos que mostram trajetos e crescimentos ramificados, com forte tendência à modelização. ** 42. Cartas de antecipação ** 159. As cartas de antecipação não são raras, sendo sempre tentador imaginar futuros radiantes ou sombrios, prestando-se o mapa bem a essa finalidade. 160. Na maioria dos casos essas cartas exprimem apenas fantasias ou intenções de propaganda, uns triunfando por antecipação e outros alertando sobre tendências indesejadas, como ocorreu no planejamento territorial francês dos anos 60 e nas críticas às políticas de armamento. 161. Outras registram no mapa a intuição, por vezes genial, do que deve ser, tornando-se a carta expressão de um objetivo e instrumento de sua própria transformação. 162. É mais difícil anticipar a partir de tendências presentes de forma objetiva, mas às vezes se é levado a isso mesmo sem mensagem a transmitir, sendo a questão central saber se as cartas de mudança e difusão permitem realmente prever transformações futuras. 163. Ainda assim, a carta e a análise espacial têm virtudes próprias, permitindo previsões úteis quando a dinâmica geral da mudança se mantém, acrescentando uma dimensão adicional às extrapolações puramente estatísticas. ** 43. Atlas ** 164. Os atlas são coletâneas de cartas cuja função é, antes de tudo, fornecer um inventário tão completo quanto possível, existindo várias modalidades. 165. Os grandes atlas de referência são fundamentalmente arquivos de lugares, cujo índice constitui a parte principal, remetendo a cartas topográficas ou derivadas, diferindo entre si pelo número de nomes citados e pela precisão gráfica. 166. Alguns poucos ateliês fornecem fundos de carta à maioria dos atlas existentes, que compram os direitos alterando apenas nomenclatura e acabamento, sendo o relevo o elemento mais tradicionalmente privilegiado. 167. Alguns atlas propõem fundos diferentes, dando mais espaço às paisagens humanizadas, aproximando-se de coleções de cartas temáticas, enquanto a maioria dos atlas escolares resulta de compromisso entre nomenclatura e cartas econômicas e físicas. 168. Os atlas nacionais e regionais têm função diferente, eliminando quase completamente a nomenclatura em favor de numerosas cartas temáticas, havendo exemplos de excelência técnica como os atlas da Finlândia, Hungria, Cuba e Alemanha Ocidental. 169. Além desses atlas monumentais, existe multidão de atlas de países e regiões de qualidade muito variável, do comercial ao científico detalhado. 170. Existem também atlas temáticos dedicados a um único assunto, havendo há muito atlas climáticos, geológicos, oceanográficos, médicos, econômicos e históricos, tendo proliferado recentemente novos temas como geoestratégia e desigualdades sociais. 171. Trata-se provavelmente do início de uma nova geração de atlas feitos para "ver" e não apenas consultar, usando o mapa como um livro usa seu texto, para comunicar, sem que isso implique menor rigor. 172. Ainda é raro que atlas utilizem plenamente as novas possibilidades dos computadores, sendo nas revistas científicas que essas formas mais aparecem, prevendo-se rápida evolução do domínio. 173. O mapa se move, os atlas estremecem, devendo subsistir os monumentos clássicos ao lado de coleções temáticas obsoletas que tendem a desaparecer, questionando-se ainda como o atlas-livro coexistirá com o atlas-vídeo diante do vídeotexto e do videodisco. ** 44. Cartas regionais ** 174. Muitos atlas se esforçam por incluir cartas regionais, buscando apresentar em uma única página toda a personalidade de uma região ou país. 175. A carta regional é, porém, um desafio em si, unindo necessidade de inventário e espírito de síntese para expressar sinopticamente populações, paisagens, equipamentos e atividades, ainda que só em pequena escala. 176. Muitas cartas são publicadas, frequentemente em preto, o que constitui verdadeiro tour de force, sendo a dificuldade dupla: legenda extensa e hesitação entre inventário e relação entre fenômenos. 177. Essas cartas tendem a representar número restrito de temas sempre os mesmos, geralmente o povoamento urbano, as vias de circulação e os principais usos do solo, sem poder combinar simultaneamente altitude, uso do solo e densidade populacional. 178. Essas cartas tendem a eliminar sistematicamente dados essenciais como renda, desemprego, migrações e idade da população, privilegiando elementos visíveis da paisagem em detrimento dos dados sociais. 179. Por isso o interesse dessas cartas permanece limitado, devendo seu uso ser parcimonioso para não sugerir que ali está representado tudo o que é o país ou a geografia. 180. A síntese regional é melhor mostrada por tipologias que resultam em cartas simples, por representação seletiva do que realmente importa em cada região, ou pelo emprego de modelos que permitem grande economia de meios. ** 45. Cartas por satélite ** 181. Não se pode descrever o universo das cartas sem tratar especialmente das cartas por satélite, resultantes do tratamento de dados coletados por esses instrumentos. 182. Algumas são pouco diferentes de uma fotografia, mas impressionantes, como a Europa Ocidental iluminada à noite revelando seus polos de atividade, sendo necessário transformar essas imagens em cartas por meio de análise de formas e tonalidades. 183. A verdadeira vantagem dos satélites está nas medições que realizam, fornecendo arquivo exaustivo de informações para o espaço e o espectro medidos, passíveis de tratamentos matemáticos complexos, atribuindo-se a mesma cor a pixels de mesma assinatura espectral. 184. Resta identificar no terreno a que corresponde cada conjunto de medidas, processo chamado verificação de campo, que permitiu cartografar fenômenos invisíveis como umidade do solo, turbidez das águas e poluições, além de espaços inacessíveis. 185. As cartas de satélite são originais tanto pelo assunto quanto pela forma de exaustividade, tendo habituado ao uso de falsas cores, seja por convenção infravermelha, seja por liberdade total na escolha das cores. 186. Os autores geralmente buscam manter alguma fidelidade à paisagem real, priorizando sempre a legibilidade dos resultados, e essas cartas contribuem para habituar a considerar o mapa não como reflexo fiel da realidade, mas como interpretação e representação abstrata dela. {{tag>Brunet mapa}}