====== Imagem ====== //BRUNET, Roger. La carte . Mode d’emploi. Paris: Fayard/Reclus, 1987// ** Imagens do mundo ** ** 1. Um desenho do Mundo ** 1. Um mapa é uma imagem, representação do Mundo ou de um pedaço do Mundo, ou, mais exatamente, de algo em algum lugar. 2. Trata-se de um desenho plano, geralmente em papel, mas realizável sobre outros suportes ou em tela, feito à mão ou por máquina mais ou menos complexa, exprimindo a intenção de transmitir informações, sendo que os dados iniciais precisam ser coletados, triados e retraduzidos pelo desenho. 3. Percebe-se, sem imaginar bem, a quantidade incrível de operações e deformações implicadas em colocar em plano uma representação de território, mas, se certos mapas exigem operações complexas e aparelhagens custosas, qualquer pessoa pode esboçar um croqui ou produzir belos mapas com o auxílio de microcomputadores, mesmo antes de ter aprendido a lê-los. 4. Esse primeiro e duplo paradoxo precisa ser esclarecido, pois a noção de mapa cobre objetos muito diferentes, de usos variados. 5. O termo se aplica para além do Mundo, incluindo mapas do céu, da lua ou de partes de outros planetas, bem como a coisas que não são deste Mundo, como países de utopia ou mapas a serviço de uma causa. 6. Pode ser um mapa do Mundo inteiro, chamado mapa-múndi ou planisfério, não podendo ser confundido com representação em volume, que se chama globo, maquete de relevo ou maquete de espaço restrito. 7. Quando a porção de espaço representada é muito pequena, o termo consagrado é antes plano, embora o vocabulário não seja fixo nesse nível, dizendo-se tanto mapa quanto plano do metrô, mas sempre mapa da França e nunca plano de uma casa. 8. Esse pedaço de papel, grande ou pequeno, tem tamanho sem relação com o objeto representado, podendo caber um mapa-múndi em um selo postal ou o mapa de uma vila ocupar toda a parede de uma prefeitura. 9. Todo mapa traz sempre um desenho, simples ou complicado, fruto de semanas de trabalho de um desenhista profissional ou de frações de segundo de um computador, e nunca se basta a si mesmo, exigindo ao menos um título, geralmente uma legenda e, às vezes, um comentário. 10. Esse desenho e seus acessórios servem a muitas coisas, como deslocar-se, viajar ou imaginá-lo, representar um lugar mesmo em sonho, decidir, criar ou destruir, conquistar um mercado ou território, sendo uma imagem que pode dizer muito a quem sabe lê-la. ** 2. Levantamento e registro ** 11. Toda carta se baseia em um levantamento do terreno e um registro dos objetos a representar, implicando duas séries de decisões e os meios para aplicá-las. 12. O levantamento situa pontos de referência uns em relação aos outros, sendo tanto mais preciso quanto mais numerosos forem os pontos, técnica que remonta à trigonometria de Ptolomeu e que, desde o Renascimento, consiste em dotar um território de uma rede de pontos fixos formando triângulos de referência. * A distância linear entre dois pontos, medida com exatidão, torna-se a base do levantamento * Dois ângulos medidos nas extremidades definem qualquer outro ponto, e a orientação da base se calcula * Cada lado do triângulo inicial se torna base de outro triângulo, sucessivamente 13. A carta é construída sobre essa trama, bastando que as distâncias no mapa mantenham sempre a mesma proporção em relação ao terreno, sendo a escala esse rapporto necessário e constante de redução. 14. É segundo essa trama que se registram os objetos notáveis, como pontes, árvores e casas, desenhando-se com maior ou menor exatidão os lineamentos como caminhos, cursos d'água e cercas. 15. Os demais levantamentos, observações ou contagens são feitos dentro de unidades definidas no terreno, como os limites de um município, de uma quadra urbana ou de um quadriculado pré-estabelecido. 16. Na maioria dos casos trabalha-se sobre fundos de mapa já prontos, cuja origem e condições de realização se esquecem, embora tenha sido necessário previamente realizar o trabalho de levantamento e registro que informa a carta e seu leitor. 17. Levantamento e registro correspondem, portanto, ao fundo de carta e aos dados nele representados. 18. A malha de base não aparece nas cartas, sendo que apenas as cartas topográficas conservam os pontos geodésicos e as marcas de triangulação materializadas no terreno, podendo o fundo de carta reduzir-se a poucos elementos, como contornos do país, algumas cidades ou cursos d'água que ajudam na orientação, sendo o fundo de carta, nas cartas estatísticas, muitas vezes reduzido aos limites de circunscrições. 19. Em princípio, todas as distâncias físicas entre pontos são respeitadas na escala escolhida, mas diversas fontes de perturbação intervêm nesse processo. * O relevo impede tomar as distâncias verdadeiras entre pontos, calculando-se as distâncias entre as projeções dos pontos sobre o elipsoide de referência * A escala faz com que esse elipsoide seja assimilável a um plano apenas para pequenas superfícies, exigindo projeção para grandes extensões * A percepção das distâncias, muitas vezes mais relevante que a distância métrica, levou à criação de deformações do fundo de carta segundo outras métricas * A esquematização sacrifica distâncias e configurações em favor da estética ou clareza da imagem em cartas que se assemelham mais a esquemas ou modelos ** 3. Do terreno ao território ** 20. As cartas conhecidas do público são pouco numerosas e dão apenas uma imagem pobre de suas possibilidades, restando jornais e televisão a esboçar contornos sumários, alunos diante de mapas antiquados, administradores presos a tabelas numéricas e apenas turistas e militares bem servidos por mapas rodoviários e de cidades. 21. O conjunto de cartas é, entretanto, infinitamente mais rico do que esses fragmentos deixam supor, mas raramente se aprende a conhecê-lo em toda sua extensão, mesmo exposições bem-sucedidas privilegiando os acervos de arquivo em detrimento das cartas atuais e futuras. 22. A carta serviu primeiro para orientar-se, explorar e comerciar, indicando referências visíveis como baías, cabos, montes, cidades e rios, além de itinerários, nomeando desde a origem esses pontos de referência. 23. Os sinais mais precisos foram por muito tempo os da água, litorais e rios, enquanto as montanhas eram apenas aproximações, surgindo gradualmente cidades e vilas com nomes de povos, e enfeitando-se as cartas com figuras fantasiosas e depois alegóricas, marcando o início da arte de manejar os signos, ou semiótica. 24. Mais tarde, sobretudo a partir dos séculos XVII e XVIII, passou-se a representar atividades e ocupação das terras nos cadastros e nas primeiras cartas econômicas, sendo apenas no século XIX que surgem cartas com valores figurados e representações abstratas, marcando o início da geografia moderna. 25. Por muito tempo, a carta mais elaborada e cara de se produzir foi, junto com a carta marítima, a carta topográfica, destinada sobretudo a fins militares, representando com minúcia relevos, hidrografia, habitações e demais obstáculos ou abrigos. 26. O progresso recente está na carta temática, que representa elementos das atividades humanas e características sociais e culturais das populações, movimento que vai da topografia superficial à profundidade dos seres, constituindo a grande renovação da cartografia atual com o auxílio dos microchips. ** 4. Autores e leitores da carta ** 27. Cabe perguntar quem faz cartas e para quem. 28. Na sua já longa história, a maioria das cartas cumpre funções muito utilitárias que justificam custos elevados, provindo de vertentes distintas e relativamente autônomas entre si, cujas formas guardam o rastro dessas origens e funções. 29. As primeiras cartas serviram provavelmente para deslocar-se e viajar, sendo exploradores, comerciantes e depois turistas seus principais usuários, tendo Cristóvão Colombo desenhado, vendido e sonhado com elas, herança que hoje se manifesta nos mapas rodoviários e turísticos. 30. Rapidamente foi preciso alocar terras e definir propriedades e usos, exigindo a delimitação, o levantamento do terreno e a transcrição reduzida dessas limites em papel para valer como lei, trabalho por excelência dos agrimensores e origem dos planos cadastrais. 31. A gestão dos territórios acompanha sua apropriação, exigindo controle por parte de administradores e militares, cuja herança é a carta topográfica, recentemente enriquecida por observações aéreas e depois pela sensoriamento remoto por satélite. 32. A carta topográfica tornou-se também indispensável a uma quarta função, a de construir e equipar, trabalho de arquitetos e engenheiros que acrescentou uma dimensão estética presente em muitos planos urbanísticos. 33. Essas quatro necessidades fundamentais desenvolveram a arte e depois a ciência da medição do terreno, tanto em planta quanto em elevação, dando origem à topometria, à geodésia e à fotogrametria, apoiadas recentemente pelo sensoriamento remoto por satélite. 34. Paralelamente, com objetivos menos diretamente utilitários, desenvolveu-se o conhecimento geográfico, trabalho de universitários mais do que de engenheiros, que buscou precisar e medir as atividades humanas com auxílio da estatística, produzindo desde o século XVII, e sobretudo no XIX, os chamados cartogramas ou cartas temáticas, cujo uso se estendeu a outras disciplinas como ecologia, arqueologia, história, economia e ciência política. 35. Esse desenvolvimento tornou-se explosivo à medida que progrediam a estatística e os meios de cálculo, ultrapassando o simples conhecimento científico e passando a interessar vivamente empresas, administrações e forças armadas em estudos de mercado, pesquisas de opinião e análises estatísticas de população, renda, profissões, comportamentos e crenças. 36. Trata-se de um novo tempo da carta, que não nega os anteriores mas os prolonga e completa, sendo que as novas técnicas beneficiam e renovam todas essas formas, dando aos cartogramas uma dimensão de gestão e apoio à ação cotidiana que, ao contrário das demais, o próprio leitor pode muitas vezes produzir. ** 5. A carta para "ver" ** 37. Um dos primeiros usos da carta é ajudar a representar aquilo de que se trata, curiosidade nem sempre presente em todos, mas comum a quem gosta de ver por si mesmo e situar as coisas em um mapa, compreendendo assim melhor muitos assuntos. 38. Pode-se tentar traçar o mapa de paisagens ou itinerários descritos apenas por texto, ainda que se descubram, ao fazê-lo, impossibilidades ou contradições que escaparam ao narrador, como no caso de mais de um país de utopia impossível de cartografar. 39. Representar-se é também comparar, faculdade rara de proporções, sendo preciso aprender a jogar com as cartas para perceber semelhanças de tamanho e distância entre lugares aparentemente muito diferentes, como o Canal da Mancha e o golfo do São Lourenço, ou o Pacífico e o Atlântico. 40. É verdade que um globo terrestre expressa isso ainda melhor, fazendo compreender por exemplo a passagem pelo polo entre Paris e Tóquio, mas ele só diz esse tipo de coisa, sendo o universo das cartas incomensuravelmente mais rico. 41. Ver é também apontar e situar um lugar entre os demais, gesto mais elementar ao consultar um atlas, recorrendo-se ao índice de lugares e às coordenadas que definem um único ponto no cruzamento de duas referências, exigência de extrema precisão para militares e navegadores. 42. Busca-se um lugar em um mapa para chegar até ele, como uma cidade ou um castelo a visitar, seguindo os itinerários sugeridos pela carta, ou simplesmente para saber, isto é, ver o que está ao redor de um lugar mencionado nas notícias, servindo o mapa como excelente suporte da memória. 43. Ver é também informar-se sobre o que existe em determinado local, sendo que atlas, cartas regionais e temáticas revelam o que se sabe de uma cidade, um lugar ou um país, funcionando como prelúdio de descobertas. 44. Ver é também situar-se, sabendo onde se está e o que há ao redor, recurso oferecido por plantas de cidades e bairros que permitem identificar edifícios e escolher caminhos, apoiando-se em referências como esquinas, praças e escolas, exercício também praticado ao viajar de avião. 45. Situar-se é ainda posicionar-se entre os demais, um dos usos mais fortes da carta temática sendo classificar-se, comparando cidades, departamentos ou cantões vizinhos, oferecendo a carta uma visão sinóptica que o simples quadro numérico não proporciona. ** 6. A carta para descobrir ** 46. Que a carta permita ver, situar-se e reconhecer não é novidade, sendo frequentemente tudo o que dela se pede, mas o que menos se sabe é até que ponto ela permite descobertas. ** Onde estão os homens e as coisas? ** 47. Traçar a carta de um fenômeno já pode revelar muito, sendo raro que ela seja uniforme, e quando ocorre, isso também constitui informação relevante, normalmente mostrando diferenças, contrastes e estruturas espaciais cuja origem e significado exigem verificação além das respostas espontâneas. ** Com quem, com quê? ** 48. Comparar cartas é exercício apaixonante, buscando configurações semelhantes entre fenômenos diferentes, questão sobre com quem ou com o quê se está associado em determinado lugar. 49. Esses problemas só podem ser levantados pela carta, que serve em dois sentidos opostos: descobrir um problema insuspeito partindo de uma distribuição observada, método indutivo, ou verificar uma hipótese teórica esperada pela teoria, método dedutivo, sendo ambas as abordagens complementares. 50. Confrontam-se então cartas, simplesmente ao observá-las, aprendendo-se que existem métodos desigualmente seguros para isso e que a coincidência de extensão entre dois fenômenos não implica causalidade nem vínculo real, ainda que a confrontação abra pistas e aproximações inesperadas, como entre a carta dos farmacêuticos e a dos idosos, ou de outras profissões liberais e pequenos comerciantes. ** Cartas sobre cartas ** 51. Uma vez feitas as aproximações e descobertas as regularidades, torna-se ainda mais interessante distinguir os lugares onde a regra se aplica mal ou não se aplica, aquilo que em estatística se chama resíduo e constitui o sal da pesquisa. 52. Produzem-se então cartas de segundo grau, cartas sobre cartas, representando coisas que não existem no terreno mas se calculam a partir de cartas tomadas como dados de base. 53. Existem duas grandes vias para isso: o cálculo e a cartografia dos desvios entre o esperado e o observado, e a medida direta sobre as cartas, como frequência, densidade e declividade, aplicável tanto a cartas topográficas de base quanto a cartas temáticas. ** 7. A carta para decidir ** 54. A carta auxilia a decisão, fornecendo informações úteis, ou mesmo necessárias, às escolhas e estratégias. ** Escolher um objetivo ** 55. Um dos usos mais comuns é consultar a carta turística, rodoviária ou topográfica para decidir um destino de passeio, excursão ou viagem, escolhendo local de férias, itinerário de montanha ou atração dentro de um raio aceitável. 56. A carta topográfica, entre outras, permite ao militar mirar seu objetivo, seja a passagem a forçar ou minar, a posição a manter ou o alvo a bombardear. 57. O comerciante e o empresário podem e deveriam usar cartas para escolher seu alvo, revelando-se a clientela potencial por meio de cartas de renda, localização de profissões e faixas etárias, assim como o prospector examina a carta para decidir onde perfurar. ** Escolher um caminho ** 58. Fixado o objetivo, que pode ser também um itinerário, a carta ajuda a alcançá-lo minimizando tempo e investimento ou maximizando o prazer do trajeto, sendo usada instintivamente por montanhistas, motoristas, caixeiros-viajantes e carteiros, embora existam métodos matemáticos célebres para resolver tais problemas. 59. A estratégia, originalmente arte militar hoje estendida a todos que planejam conscientemente meios e fins, tem muito a extrair da carta para suas bases avançadas e retaguardas, cabeças de ponte e ligações. 60. O engenheiro usa a carta para decidir o traçado de uma estrada, ferrovia ou gasoduto, considerando natureza dos terrenos, declividades, posição de habitações, custos de aquisição fundiária e áreas protegidas, decidindo em função de suas próprias hipóteses e restrições. ** Escolher uma implantação ** 61. De modo mais geral, a carta esclarece decisivamente escolhas de localização, como onde instalar um supermercado, fábrica ou posto de combustível, sendo que empresários informados costumam encomendar estudos fundamentados em cartas sobre clientes, concorrentes, fornecedores, mão de obra e vantagens fiscais, existindo gabinetes especializados nesses trabalhos e modelos matemáticos desenvolvidos para tal fim. ** Recortar, destinar o território ** 62. A carta é um dos melhores instrumentos para dividir ou especializar espaços, sendo nela que se traçam fronteiras, se recortam circunscrições entre concessionários, hospitais, escolas ou eleitores, e se inscrevem vocações e especializações de uso do solo definidas por planos de ordenamento. ** Fixar o direito ** 63. Desse modo, a carta pode ela própria constituir instrumento jurídico, sendo o plano cadastral fixador de limites de propriedade e o plano de uso do solo oponível a terceiros, assim como as cartas de fronteiras e limites marítimos são objeto de intensa disputa e de inúmeras conferências internacionais. 64. Contempla-se a carta também para sonhar com aqueles que ela põe em movimento, sendo reproduzidos em livros e revistas os trajetos de grandes exploradores, a rota da seda ou as marchas de exércitos e revolucionários, como forma de viajar por procuração através de nomes e lugares que encantam e fascinam. 65. Sobrepõe-se à carta toda a coleção de imagens, falsas, ingênuas ou precisas, que se tem em mente, projetando-se fantasias ou tentando-se imaginar paisagens, pessoas no trabalho, atividades ilícitas ou riquezas a explorar, associações inevitáveis ao olhar mapas de certas regiões. 66. Tomando-se qualquer carta, mesmo algo tão comum quanto a do cultivo de beterraba na França, é possível visualizar de imediato campos, caminhões, máquinas e toda a agitação regulatória em torno dela, sendo sonhar, brincar e imaginar tão importante quanto decidir. 67. Michel Serres compara a passagem das ciências sociais às ciências físicas a um caminho extraordinariamente complexo e hesitante, com becos sem saída e retrocessos, semelhante à busca histórica da Passagem do Noroeste através dos canais e ilhas do Ártico canadense, tão aleatória e múltipla quanto um conjunto de fractais de Mandelbrot. ** 9. Uma imagem diferente das demais ** 68. Sendo a carta uma imagem e um documento, cabe perguntar o que constitui sua originalidade. 69. Outras imagens e documentos também permitem representar um território ou uma distribuição espacial. 70. Um texto ou descrição literária já produz uma imagem, mas, por mais precisos que sejam, dificilmente ordenam os lugares uns em relação aos outros e respeitam distâncias e proporções, exigindo grande imaginação para representar mentalmente uma realidade geográfica a partir dele. 71. Um quadro estatístico organizado por lugares pode falar claramente a quem está habituado a números, revelando valores extremos e diferenças, embora nenhum quadro permita uma verdadeira visão de conjunto como a carta proporciona, mesmo oferecendo também o detalhe. 72. A fotografia, ao contrário, alcança a visão de conjunto de modo imediato, sendo reprodução direta da realidade visível e não manipulada, ainda que trabalhada por um artista possa transfigurar a realidade sem alterar completamente as formas. 73. A fotografia é bruta e muda, exigindo longo aprendizado e conhecimento aprofundado das paisagens para fazê-la falar, além de limitar-se a espaços restritos e mostrar apenas aparências, nada dizendo sobre o invisível. 74. É a fotografia aérea, sobretudo vertical, ou por satélite, que mais se aproxima da carta, exigindo interpretação, sendo que a maioria dos documentos de sensoriamento remoto resulta hoje de medições diretas mais do que de tomadas de imagem, constituindo verdadeiras cartas. 75. Em comparação com um quadro numérico ou uma fotografia, a carta implica intervenção muito mais direta do operador e maior arbitrariedade, sendo por isso documento menos confiável, nunca mais fiável que a tabela original da qual deriva. 76. A carta é, além disso, documento que nunca se basta a si mesmo, sendo impossível conceber uma carta sem um mínimo de texto, já que porta sempre uma lista de sinais convencionais traduzidos em legenda. 77. Essa é a contrapartida do esforço de comunicação que ela representa, sendo mais fácil de ler que uma fotografia, mais precisa que um texto e mais expressiva que um quadro, embora sujeita aos vieses introduzidos por seus tratamentos e escolhas. 78. Todos esses documentos são complementares, desempenhando a carta um papel particular ainda subestimado e subutilizado por disciplinas inteiras como a história e a economia, que a conhecem mal e subestimam a dimensão espacial dos fenômenos que estudam. ** 10. O geoscópio ** 79. A carta é um instrumento de precisão para escrutar o Mundo, constituindo o que se pode chamar de geoscópio. 80. Esse instrumento é sinóptico, fornecendo de imediato uma representação de algo, ou de várias coisas, em algum lugar do Mundo, com as chaves para compreendê-la. 81. Por definição, a carta diferencia o espaço, ou melhor, evidencia suas diferenças, pois se o espaço fosse uniforme ela seria inútil, não existindo cartas totalmente vazias. 82. É, portanto, a diferença que a carta expressa primeiro, embora fale igualmente de semelhanças, regularidades e até leis. 83. Uma boa carta é panóptica, não deixando na sombra nada do que se escolheu representar, ressalvado apenas o nível de detalhe abaixo do qual o instrumento não consegue mostrar informação. 84. Esse geoscópio pode também funcionar como microscópio, questão de escala, como ao representar populações por pontos equivalentes a mil habitantes ou parcelas cultivadas de um município, casos em que a exaustividade é garantida. 85. Menos conhecido é que a carta também pode ser um excelente macroscópio, no sentido de Joël de Rosnay, representando um sistema em funcionamento e relacionando diretamente fenômenos de natureza diferente cuja interação faz sistema, exigindo formas particulares de representação, os chamados modelos cartográficos. 86. Uma boa carta, de fato, diz uma ou duas coisas, mas as diz com clareza e por inteiro, sendo a confrontação de cartas, reunidas em atlas ou futuramente em videodisco, o verdadeiro geoscópio. 87. É preciso reconhecer que essa coleção será sempre incompleta, pois muitas coisas não estão nas cartas e muitas cartas possíveis ainda não existem, dependendo sua criação da disponibilidade dupla de informação, o fundo de carta e o arquivo de valores das variáveis. 88. De certa forma, não há mais terra desconhecida no Mundo nem espaços em branco no mapa, estando as explorações concluídas e os satélites cobrindo toda a superfície, embora o público tenha acesso a apenas parte dos documentos. 89. Existem espaços ocultados, sobretudo por exigência militar, não sendo possível obter cartas de certos países ou regiões, havendo documentos com áreas deliberadamente encobertas ou plantas propositalmente deformadas, sendo mais grave, porém, a degradação de dados sobre regiões como a África oriental, cujas estatísticas regionais deixaram de ser publicadas por alguns países. 90. Por suas próprias restrições e exigências de dados, a carta sempre dirá menos que um excelente texto, mas o diz de uma só vez, deixando transparecer relações e formas que um texto não consegue bem descrever. 91. Não são tanto as cartas clássicas, topográficas ou derivadas, que constituem o geoscópio, mas sim a incontável população de cartas temáticas, capazes de tratar de tudo, inclusive sentimentos e comportamentos, estabelecendo relações inesperadas e revelando a infinita variedade da diferença entre os homens e suas obras na superfície do globo. ** 11. Ordem no Mundo ** 92. A primeira carta topográfica que se olhe já mostra formas estruturadas e embriões de organização, como estrelas de estradas, distribuição de cidades e vilas, elementos de relevo e hierarquia de rios, sendo porém o imenso domínio das cartas temáticas o mais precioso para descobrir ordens do Mundo nas ordens dos territórios. 93. Mesmo que cada lugar tenha sua singularidade e as escolhas de localização pareçam ao acaso, o espaço está organizado, havendo ordem no Mundo colocada pelos homens para agir e durar, sendo as distribuições espaciais aparentemente confusas na verdade não aleatórias, revelando a carta o melhor meio de descobrir essas estruturas ocultas. 94. Posicionar-se em algum lugar ou posicionar algo é buscar e explorar uma ordem, definindo-se em relação a uma organização e modificando-a, sendo esse tipo de estratégia estudado pela proxêmica, que também elabora suas cartas. 95. Na escala dos territórios, as ordens são mais complexas e numerosas em suas interferências, mas o resultado não é o desordem, sendo distribuições como a do desemprego, do ciclismo ou da toxicomania na França expressão de fatores explicáveis, e não do acaso. 96. A distância é o fator de ordem fundamental, influenciando atrações e atritos espaciais, semelhanças de proximidade, vias de dominação e rendas de situação, referindo-se sempre ao custo e ao esforço de deslocamento de populações e informações específicas. 97. O espaço geográfico é composto de lugares com características conhecíveis e mensuráveis, habitados ou não por pessoas, atividades, crenças e culturas definidas, que mantêm entre si relações e vínculos. 98. Um dos fenômenos intrigantes da ordem espacial é a propensão de lugares vizinhos a se assemelharem, chamada autocorrelação espacial, embora a proximidade geográfica só implique proximidade estatística quando os lugares pertencem a um mesmo sistema, sendo diferentes quando pertencem a sistemas distintos. 99. Outro fenômeno é a existência de lugares de lugares, situações geográficas que fazem lugares se assemelharem por compartilharem os mesmos problemas ou recursos, como a determinada distância de uma grande cidade ou ao pé de montanhas, sendo esses lugares reveladores das ordens territoriais que a carta, por sua vez, revela. 100. A carta revela igualmente estratégias e dinâmicas dentro dessas ordens, como sentidos migratórios, movimentos militares coordenados, avanço dos meios de comunicação e deslocamento de atividades produtivas. 101. Essas ordens, estratégias e dinâmicas têm toda a riqueza do vivo, nada sendo fixo ou necessário, existindo até lugares que por natureza escapam a qualquer ordem normal, como os espaços da droga ou do trabalho clandestino, que possuem, ainda assim, suas próprias regularidades cartografáveis. 102. A carta contém e exprime, portanto, parte das estruturas e sistemas que atuam no espaço e o modelam, pois se o Mundo não tivesse ordem, ou se essa ordem fosse inexprimível, a carta seria inútil, bastando nesse caso um simples arquivo alfabético. 103. É esse o sentido da carta que se convida a descobrir. {{tag>Brunet mapa}}