===== II.1 A “Metafísica Producionista” ===== //Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger// //Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.// Na análise do pensamento de Heidegger sobre a questão da técnica, a referência à técnica moderna parece indicar três sentidos correlacionados entre si: primeiro, tecnologias, dispositivos, sistemas e processos produtivos usualmente associados com o “industrialismo”; segundo, a visão de mundo racionalista, científica, utilitarista, antropocêntrica e secular usualmente associada com a “modernidade”; e, terceiro, o atual modo de compreensão e desencobrimento que torna possível tanto os processos de produção contemporâneos, a //[[lx>termos:p:poiesis|poiesis]]// moderna, como a visão de mundo moderna que a sustenta (ZIMMERMAN, 1990, p. xiii). Sustentando a reflexão sobre o terceiro sentido, Heidegger entende que o primeiro e o segundo sentidos são de fato sintomas do modo contemporâneo de se acercar das coisas como dis-posições e dis-positivos; um modo de compreensão que assim as des-encobrem para exploração. Este des-encobrimento unidimensional das coisas como recursos, não resulta apenas de uma decisão humana, mas de desdobramentos dentro de uma “história do ser” no pensamento ocidental, a investigar (//ibid.//). O atual estágio tecnológico desta história do ser transformou de tal maneira como as coisas são vistas e compreendidas que faz sentido falar e pensar em um //meio// emergente no //ser-o-Aí//. Evidente no próprio //“em-o//” do existencial ser-**//em-o//**-mundo, este //meio// co-rresponde à técnica, co-opta pessoas a operar com tecnologias, segundo a ordem e a visão de //ser// humano e de mundo que, do próprio //meio// e do //a-gente// (//[[lx>termos:m:das-man|Man]]// = impessoal), emerge e domina. Este //meio// já é meu, como o //ser-o-Aí//, e já se dá como //mi-lieu//, entre-lugar, “//em-o//” existencial ser-**//em-o//**-mundo, do //[[lx>termos:d:dasein|Dasein]]//. Ao refletir sobre a questão da técnica Heidegger conduz, por um longo e árduo processo de pensar sua essência, desvendando as condições necessárias dessa experiência unidimensional //ser-meio// de entes [[lx>termos:i:innerweltlich|intramundanos]] como dis-posições e dis-positivos. No reconhecimento da com-posição (//[[lx>termos:g:gestell|Gestell]]//) no fundamento do que é a técnica, pensada desde sua origem grega como //[[lx>termos:t:techne|techne]]//, espera-se alcançar a possibilidade de uma redenção, na confrontação com o perigo e a salvação, imanentes à essência da técnica. Heidegger parece sustentar que as atividades humanas não são de uma maneira geral referentes ou originárias de um indivíduo em si mesmo, mas sim guiadas e configuradas por um jogo histórico de linguagem e conceitos fora do controle individual. Este jogo define as categorias que configuram as possibilidades da ação humana, do conhecimento e da crença, em épocas históricas determinadas. Estes movimentos conceituais e ontológicos que se manifestam em diferentes épocas históricas, parecem indicar, por sua vez, //meios// onde uma “imagem de mundo e de //ser// humano” é dominante, ordenando e balizando o jogo permitido em termos de linguagem e conceitos. A informática dá-se e propõe-se na informatização, segundo a regência e a vigência de quatro modos de dever e responder, diferentes entre si, porém pertencentes um ao outro na unidade de uma coerência. Esta unidade de coerência responde pelo dar-se e propor-se da informatização, entendida como a vigência de algo que está em vigor em um //meio// fundado na Modernidade. O pleno advento da informatização nos dias atuais indica, por sua vez, que este deixar-viger dos quatro modos de dever e responder que levam a tecnologia da informação a aparecer e a conduzem à posição de destaque tecnológico de uma pretensa “Sociedade da Informação”, mobilizam muito mais que um simples instrumento para o ser humano. “Rigorosamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre pertence a seu ser” (HEIDEGGER, 1986/2006, p. 116). A morfogênese da tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, ocorre segundo os princípios ontogênicos de um //meio//, de natureza// técnica-científica-informacional//. Através desta morfogênese reúnem-se e dispõem-se instrumentos que representam a razão e a memória humanas, em um único engenho, constituído em conformidade aos desígnios da técnica moderna e à rede de remetimentos a outros instrumentos deste //meio//, ou ainda melhor, segundo a com-posição que perfaz as dis-posições e dis-positivos deste //meio//. Este engenho, por sua adoção individual e pelo decorrente agenciamento social que pratica, elevado à potência pelo dar-se e propor-se da informática, se torna concomitantemente constituído e constituinte deste mesmo //meio//, assegurando sua sustentabilidade e reprodução. Heidegger já alertava, desde sua analítica do //Dasein//, que aquilo que lhe é mais próprio encontra-se “à distancia”, considerado de fato como “estranheza” (segundo a tradução dada por Martineau de //[[lx>termos:u:unheimlichkeit|Unheimlichkeit]]//) a ponto que o indivíduo, o sujeito mundano, antropológica e historicamente sobre a insígnia do //Ge-stell// toma por si mesmo e como familiar, o que é apenas herdado da estrutura coercitiva do //meio//, do “mundo circundante” (//Umwelt//). A investigação, nas considerações que seguem, se orienta pelas seguintes questões: * Quais as relações que existem entre //meio técnico-científico-informacional//, engenho, e dar-se e propor-se da informática? * Qual seria o sentido, se existe algum, de se reunir //meio//, engenho e dar-se e propor-se da informática, em uma mesma investigação? Assim sendo a estrutura proposta para este capítulo é: * Primeiro, entender o //meio// como o modo atual de redução da mundanidade do “mundo circundante” no dar-se e propor-se da informática; * Segundo, entender os qualificadores //técnico//, //científico// e //informacional//, que atribuem propriedades específicas a este //meio//; e, * Terceiro, e como conclusão, compreender o dar-se e propor-se da informática, como constituído em e por este //meio//; e, o que é mais importante, do ponto de vista da natureza da informática, sob a luz deste meio, que reflete a própria essência da técnica moderna, a //Ge-stell//; deste modo, evidenciar que, sendo a tecnologia da informação produto deste //meio//, qualquer aplicação sua, enquanto dar-se e propor-se da informática, é um agente “re-produtor” deste mesmo //meio//. {{tag>Castro informática pro-dução poiesis}}