===== V. Conclusão ===== //Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger// //Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.// Lamentavelmente, as respostas à questão “//o que **é** a informática?”// não conseguem evitar o lugar-comum das definições baseadas seja na funcionalidade, seja na estrutura de componentes técnicos, seja nas aplicações do computador. É muito difícil **ver a informática além do computador**. A pobreza das respostas dadas à questão “//o que **é** a informática?//” demonstra que todas sofrem da natural dificuldade de responder //o que **é**//, sem cair em uma “de-finição”, na imposição da finitude do que aparece, nos limites de sua entidade e de suas propriedades, enquanto objeto visado. Neste caso, só há como recolher e promover os aspectos funcionais, estruturais ou aplicativos da informática. Uma possível solução a esta aporia é a investigação da essência da informática no sentido de sua “produção original”, de sua genealogia. Examinando na coalescência dos elementos do //deixar-viger// (causas) que constituem o dar-se e propor-se da informática, a morfogênese deste dar-se e propor-se sob a dinâmica de ideias mentoras, em sua ontogenia comum com o //meio técnico-científico-informacional//, sob luz da essência da técnica moderna, a //[[lx>termos:g:ge-stell|Ge-stell]]//, a com-posição. Outra possível solução seria um esforço de aprofundamento das notas de Heidegger à questão da técnica e tantos outros escritos seus, sob o tema, buscando desvendar a essência da informática, onde fulgura atualmente a //Ge-stell//. Essa última solução é o caminho que responde de fato à essência da informática, enquanto plena manifestação da essência da técnica moderna, preparando um relacionamento livre com a informática, capaz de abrir o //[[lx>termos:d:dasein|Dasein]]// à experiência de “o que **//é//** a informática?”. Um caminho que percorrido em toda sua extensão pode conduzir à re-velação da //[[lx>termos:t:techne|techne]]//, enquanto primeira “forma de atividade da alma de expressão da verdade” (Aristóteles, //Ética a Nicômaco// VI 3), e a confirmação do jogo da “re-presentação” em curso pela metafísica contemporânea. Pode-se chamar, numa única palavra, de “técnica” a forma fundamental de manifestação em que a vontade de querer se institucionaliza e calcula no mundo não-histórico da metafísica acabada. [...] Compreende-se aqui o nome “técnica” de modo tão essencial que, em seu significado, chega a coincidir com a expressão acabamento da metafísica. (HEIDEGGER, 1954/2002, p. 69) É grande a exigência sobre a autenticidade do //ser-o-Aí//, em sendo neste caminho, reconhecendo todos seus meandros e ramificações. O nível de concentração e de sustentação da disposição (//[[lx>termos:b:befindlichkeit|Befindlichkeit]]//) e da ocupação (//[[lx>termos:b:besorgen|Besorgen]]//) necessárias ao pôr-se à escuta dos dizeres de Heidegger ainda estão aquém do necessário para tal a empreitada. O resultado ainda foi uma espécie de solução de compromisso entre as duas soluções possíveis. A abertura a este pensar a “questão da informática”, deve aprender a aprender, deve ser fiel ao pensar na rememoração interrogativa da longa história do ser. Deve trilhar uma nova vereda de aprendizado da técnica que reconheça, como afirma Taminiaux (1983, p. 266), a metafísica, enquanto discurso sobre todo ente como tal, //onto-logia//; enquanto afirmação do ente supremo como fundamento de todos os entes, //teo-logia//; enquanto esquecimento crescente do //ser//, selando o destino do Ocidente e até aquele do próprio planeta; mas, acima de tudo, enquanto longe de algo exterior ao //ser//, mas um disfarce sob o qual o //ser// mesmo se destina ao ser humano “ocidental”. Mas como haveríamos de encontrar a luminosidade do pensamento, se não nos deixamos conduzir pelo amplo caminho do pensamento e, assim, aprendemos a pensar no vagar? Talvez a questão seja mais primária. Talvez precisemos primeiro aprender a aprender, e aprender a poder aprender. E, talvez, seja ainda mais primária. Talvez precisemos primeiro estar prontos para aprender a aprender. O que é isso, aprender? Uma só palavra não é capaz de responder, mas somente de esclarecer: aprender é apropriar-se com saber de algo a partir de uma indicação e assinalamento, a fim de presentear esse algo como propriedade do saber, sem perdê-lo ou empobrecê-lo. Aprender diz respeito a um tornar próprio mediante o saber, uma propriedade do saber que não nos pertence, mas à qual nós pertencemos. Precisamos primeiro aprender a aprender. Tudo deve ser muito primário, muito cheio de espera, muito lento, para que, enquanto o único envio de destino, o verdadeiro possa vir verdadeiramente ao nosso encontro e ao encontro de nossos sucedâneos, sem que seja preciso calcular quando, onde e em que fisionomia isso ocorrerá com propriedade. Deve surgir uma geração de lentos, para que a pressa exagerada da vontade de produção e a corrida das prestações e apontamentos, para que a cobiça de informações imediatas e soluções baratas não nos precipitem num vazio ou nos desviem para a fuga, em opiniões e crenças apenas derivadas, que nunca podem constituir origem, unicamente subterfúgio. (HEIDEGGER, 1994/1998, p. 202-203) Na periferia da questão “o que **//é//** a informática?” sua essência foi de certo modo des-encoberta, embora mantendo-se no lusco-fusco do discurso. A não ser por alguns vislumbres ocasionais onde a força do questionamento fenomenológico de Heidegger ajudou a romper os limites sobrepostos a esta investigação. Mas faltou admitir a técnica como o aquilo que melhor “re-presenta” o homem, na própria ambivalência da metafísica dos Tempos Modernos, onde o //ser// se mascara em representação. A questão da técnica e em especial a questão da informática continua aberta. A re-velação de “o que **//é//** a informática?” empreendida descortina um leque de possibilidades de aproximação de sua essência, mas também aumenta o risco de se deixar de ver a floresta pela diversidade de árvores que se contemplou. Ao concluir, fica ainda a forte sensação que, uma vez relidos e repensados o texto e sua bibliografia, ou seja, refeito e repensado todo o percurso, sem se afastar um só momento do pensamento de Heidegger, sobre o //ser// humano, a técnica e a metafísica, se habilitará o ser capaz de revelar a essência da técnica moderna, a //Ge-stell//, sob o fulgor da informática. Como vislumbrou Chazal, a partir de um quadro de Delvaux, onde diante de um espelho uma bela mulher vestida se reflete inteiramente nua, o computador enquanto “engenho de representação”, em sua mimese da razão e memória humanas, reflete também sob a luz da //Ge-stell// o “animal racional” grotescamente promovido pelo pensamento ocidental. O difícil é ver o //meio// e a luz que ilumina esta mimese, sem se perder no deslumbramento da realização tecnológica. De qualquer modo, no dizer do poeta Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”... A conclusão provisória em um pensar que apenas está começando, é que o dar-se e propor-se da informática culmina todo o avanço tecno-científico moderno, na expressão flagrante da essência da técnica moderna, a //Ge-stell//, em um //“//engenho de representação informacional-comunicacional”, produto e produtor de um //meio técnico-científico-informacional//, mais e mais intenso **//em-o//** o existencial //ser-**em-o**-mundo//. Na “manualidade” deste instrumento a humanidade corre o sério risco de perder-se no encantamento de seu poder de representação e, por conseguinte, na sedução de um ilusório domínio sobre as coisas. A vontade de poder se potencializa com seu êmulo artificial e expõe assim o homem a sanha, a //hubris//, com todas as suas consequências. O que passa muitas vezes des-apercebido em tudo isso, que ora constata-se, é a questão da regência deste dar-se e propor-se da informática. Quem rege e como rege este dar-se e propor-se, são críticos na constituição da informática. O que é o //ser// humano enquanto dialoga com esta tecnologia? Quem //sou// enquanto usuário de informática? Mas, como afirma Heidegger, onde há o risco aí encontra-se também o que pode salvar. Nesta ambiguidade dramática reza o ser capaz de pensar a essência da técnica moderna, em postura de reconhecimento e redenção do perigo extremo que ameaça trancar o //ser// humano na dis-posição da representação informacional-comunicacional, como único modo de des-encobrimento do real. {{tag>Castro informática}}