====== Self ====== //BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.// **Dispersão** **Hegel e o Espírito do Tempo** 1. Hegel, embora frequentemente criticado por sua linguagem abstrata e por ter sido mal interpretado por seus seguidores, oferece uma visão de mente que supera a de Kant ao reconhecer a historicidade da consciência, e sua filosofia, que via a história como a história da mente humana, serve como um corretivo para o "behaviorismo histórico" que domina a história social contemporânea. 2. A consciência humana é essencial para a história, e a história é essencial para a consciência, pois a mentalidade de uma época histórica difere de outra, e os indivíduos são profundamente marcados pelo clima espiritual (Zeitgeist) de seu tempo, como demonstrado pelas obras de arte, que carregam as marcas de seu período. 3. A tarefa da consciência humana, segundo Hegel, não é escapar da história, mas reunir em si as vertentes significativas da história e torná-las plenamente explícitas, mas o conceito de "mente concreta" de Hegel, que privilegia a mente do sábio erudito, foi alvo da crítica de Kierkegaard, que lançou a filosofia existencialista ao enfatizar o self concreto e apaixonado. **Kierkegaard e o Existencialismo** 4. A mensagem central de Kierkegaard, de que a paixão e a auto-ocupação estão no centro do self, é de suma importância para a filosofia, pois a experiência cristã e a busca pela salvação pessoal são fatos da experiência que os filósofos não podem ignorar, e sua ênfase na subjetividade como um fato existencial, em oposição ao subjetivismo epistemológico, aprofunda a compreensão do self. 5. A descrição kierkegaardiana dos estágios da existência humana (estético, ético e religioso) revela a tentativa desesperada de escapar do self, que culmina em uma rendição e compromisso final, e o reconhecimento do "self concreto e humilde" que cada um é, e ao qual se está irremediavelmente preso, é o ponto de partida para qualquer transformação pessoal, o que coloca a decisão e a auto-ocupação no centro da subjetividade concreta. 6. Apesar de Kierkegaard ter lançado as bases do existencialismo, o movimento subsequente, ironicamente, moveu-se em direção oposta à sua ênfase na integração do self, contribuindo para a desintegração do indivíduo, e filósofos e intelectuais construíram teorias que, de fato, abetam esse processo de despersonalização. **A Desconstrução do Self** 7. O movimento crítico francês conhecido como desconstrucionismo, que se tornou uma filosofia em si mesma, propõe um método de desmontagem de textos literários que desemboca na negação do self, pois a obra literária é reabsorvida em uma vasta rede de signos, e o poeta, como voz individual, desaparece nessa matriz flutuante, exigindo o "desubstancialização" do pensamento. 8. A desconstrução, ao rejeitar a noção de substância e a referência clara da linguagem a objetos definidos, instaura um relativismo total, onde qualquer interpretação é válida, e a consequente negação do self como uma presença contínua e uma voz individual na obra de arte empobrece a apreciação poética, tornando a linguagem um sistema flutuante de signos e uma manifestação do niilismo cultural. 9. Há uma conexão específica entre o desconstrucionismo e a filosofia de Heidegger, e para entender essa conexão, é necessário passar pela figura de Jean-Paul Sartre, cuja combinação de imaginação filosófica e sensibilidade ao momento histórico o tornou o porta-voz do existencialismo na França, com a liberdade como tema central de sua filosofia. **O Padrão de "Desubstancialização": Sartre** 10. Apesar de Sartre ser um não-materialista e parecer defender o poder da mente, sua visão da liberdade humana é abstrata e total, sem conexão com o self concreto que deve ser livre, e sua liberdade, que exalta como absoluta, revela-se condicionada, como demonstrado por sua subordinação da liberdade a uma visão a priori da história em sua defesa da União Soviética. 11. Os exemplos de liberdade que Sartre favorece, como o escritor Jean Genet, são geralmente rebeldes ou anormais, e sua análise da escolha revela que a escolha de uma compulsão é uma escolha do self, mas a celebração da liberdade absoluta ignora que a escolha em uma direção pode limitar a liberdade em outra, e o esforço de Sartre para eliminar um self fixo para aumentar a liberdade resulta em uma potencialidade que flutua no vazio, invertendo a tradição filosófica que prioriza a atualidade sobre a potencialidade. **Heidegger e a Desubstancialização do Ser** 12. Heidegger, com seu projeto de reinterpretar o significado do ser, oferece uma visão que pode refletir o sentido do ser operante na cultura moderna, e sua intuição original sobre a verdade, que afirma que a correspondência entre pensamento e objeto é possível porque há um "domínio do aberto" (das Offene) onde eles se encontram, é uma proposta radical. 13. Apesar da originalidade de sua intuição, Heidegger a leva de forma exclusiva, e sua análise do ser humano em "Ser e Tempo" (Sein und Zeit) expõe os modos de ser, mas elide a questão do "quem" que sofre esses modos, reduzindo o "eu" a apenas mais um modo de ser (Icheein), o que resulta em um vazio no centro do ser humano e na ausência de uma ética substantiva. 14. A filosofia de Heidegger, com sua imagem desolada do ser, pode ser a expressão do sentido do ser que opera em toda a cultura moderna, e para superá-lo, é preciso vivenciar esse sentido até alcançar o outro lado, e a próxima etapa dessa investigação sobre o self na cultura moderna voltar-se-á para a filosofia analítica e a teoria dos computadores, onde se espera encontrar conclusões semelhantes sobre o desaparecimento da mente e do self. {{tag>Barrett self}}