====== Lógica ====== //BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.// **A Mística da Lógica** 1. Ainda que nada tivesse escrito, Wittgenstein já seria uma figura extraordinária do século, dada a forte impressão que causava em seus discípulos, os quais mantiveram viva sua doutrina durante os anos em que se recusou a publicar, a ponto de Russell, homem parco e mundano, declarar tê-lo conhecido como uma das aventuras intelectuais mais excitantes de sua vida. 2. Dotado de extraordinária multiplicidade de talentos, desde a construção precoce de uma máquina de costura na infância até patentes em aeronáutica e a edificação de uma casa em Viena para sua irmã, Wittgenstein poderia ter seguido carreiras diversas, ainda que em retrospecto pareça inevitável que tenha se tornado filósofo. 3. Contrariamente à profusão renascentista de seus dons, a direção de seu pensamento é de estreitamento e concentração em questões aparentemente triviais, comparando-se ironicamente a uma anciã em busca de suas chaves perdidas, sem jamais conseguir escapar definitivamente do incessante questionamento filosófico que o reclamava como um desamparado em busca de abrigo. 4. Nascido em 1889 numa família rica e culta de origem predominantemente judaica mas batizado católico, Wittgenstein jamais se sentiu particularmente judeu, num caso extremo de desamparo identitário, agravado pela tragédia de três irmãos suicidas. 5. Embora não seja simples estabelecer influências detalhadas do ambiente vienense sobre seu pensamento, é certo que Wittgenstein pertence profundamente ao meio espiritual do qual emergiu, retratado por Robert Musil como frívolo, vazio e nihilista, mas que também produziu a psicanálise e a música atonal como vozes do desamparo moderno. 6. Segundo relato de sua irmã, os traços de seriedade e intensidade religiosa surgiram muito cedo, consolando-se a família com a comparação a Alyosha de Dostoiévski, protegido por algum anjo benigno que, sem lhe poupar tormentos, permitiu-lhe sobreviver. 7. Wittgenstein ingressou na filosofia de modo abrupto, encontrando em Russell e na lógica matemática o homem e o tema para centrar suas perguntas, sendo logo reconhecido por Russell como quem daria o próximo passo decisivo da disciplina. 8. Uma carta escrita por Wittgenstein a Russell no primeiro ano de amizade, declarando que não poderiam ser amigos por terem valores demasiado diferentes, revelou-se profética, pois o rompimento final em 1922 confirmou essa incompatibilidade de fundo. 9. Essa diferença manifestou-se já em 1914, quando Russell se opôs à guerra e foi preso como dissidente, enquanto Wittgenstein se alistou voluntariamente, movido por lealdade espontânea à autoridade legítima e por sua exigência religiosa de serviço e autossacrifício, até alcançar o front como tenente de artilharia. 10. Durante a guerra, a leitura do Evangelho segundo Tolstói o impressionou profundamente, ao mesmo tempo em que carregava o manuscrito do Tractatus Logico-Philosophicus, sendo capturado por tropas italianas pouco antes do Armistício de 1918. 11. O reencontro com Russell em 1919, narrado numa carta deste a Lady Ottoline Morrell, revelou surpreendentemente que Wittgenstein havia se transformado em um místico convicto, leitor de Kierkegaard e Angelus Silesius, cogitando tornar-se monge, tendo essa disposição religiosa raízes anteriores à leitura de William James apontada por Russell. 12. Uma observação da mesma carta, mais reveladora do que o próprio Russell percebeu, apontava que o misticismo atraía Wittgenstein por seu poder de fazê-lo deixar de pensar, afinidade que o aproxima de Pascal e Kierkegaard e ecoa a frase de Tolstói sobre o intelecto obscurecer o sentido da vida. 13. De volta à Áustria, Wittgenstein quase abandonou a publicação de seu manuscrito, dedicando-se a outras ocupações, até que a intervenção de Russell viabilizou a edição de 1922, cuja introdução, porém, o próprio Wittgenstein rejeitou, impedindo a plena restauração da amizade. **I** 14. Dissipadas as controvérsias iniciais, a leitura do Tractatus tornou-se mais simples, embora os avanços posteriores da lógica tenham revelado limites em suas previsões, permanecendo o interesse pelo autor como filósofo, não como técnico. 15. Ainda hoje o livro surpreende por suas suposições extremistas e arbitrárias, conservando contudo a marca intensa do gênio de Wittgenstein como expressão cabal de uma visão filosófica que ronda a mente moderna mais profundamente do que se costuma reconhecer. 16. Essa visão, chamada Atomismo Lógico, ultrapassa em Wittgenstein o mero procedimento analítico proposto por Russell, apresentando o mundo como a totalidade de fatos desconectados entre si, segundo a fórmula de que qualquer fato pode ocorrer ou não sem alterar todo o resto. 17. Esse quadro austero e desolado de um mundo fragmentado, sem vínculo interno necessário entre seus fatos, ecoa outras expressões de fragmentação na cultura moderna, especialmente na narrativa experimental, mas em nenhuma parte recebeu formulação intelectual tão descarnada quanto na proposição de Wittgenstein. 18. Contrariando a experiência cotidiana, na qual os fatos parecem conectados e nossa própria existência faz diferença para os outros, a doutrina de Wittgenstein reduziria esses sentimentos a mera aparência superficial, alheia à realidade última do mundo. 19. Embora o Tractatus, escrito em estilo aforístico, não explicite suas razões, é possível reconstruí-las, revelando que seu raciocínio expressa toda uma época ideológica e não mera idiossincrasia pessoal. 20. O objetivo de Wittgenstein é descrever o mundo apenas na medida em que pode ser expresso em linguagem lógica, procedimento comparável ao de Kant a partir das estruturas da consciência, dependendo tudo da forma de linguagem escolhida e da relação estabelecida entre linguagem e mundo. * a escolha fundamental recai sobre a lógica matemática de Russell e Whitehead, como se o mundo fosse criado à imagem de Principia Mathematica * a relação entre esse lenguaje e o mundo é a de um espelho que reflete fielmente a realidade 21. Entusiasmado com a metáfora do espelho, Wittgenstein sustenta que a afirmação é um retrato do fato, do mesmo modo que uma partitura retrata os sons de uma sinfonia, concluindo daí que o mundo deve ser composto por fatos atômicos correspondentes às proposições atômicas da análise lógica. 22. Resumindo essa linha de raciocínio, Wittgenstein crê que existem fatos atômicos porque existem proposições atômicas na lógica de Russell e Whitehead. 23. Sem se pronunciar sobre a natureza empírica desses fatos primários, Wittgenstein evita as dificuldades em que se meteram Russell, ao tentar construir objetos físicos a partir de dados sensoriais, e Carnap, cujo projeto sistemático nessa direção acabou abandonado por excessivamente complicado. **II** 24. Ao filosofar como se estivesse alheio a qualquer reflexo histórico, Wittgenstein corre o risco de reproduzir involuntariamente modelos de pensamento já conhecidos, sendo seu Atomismo Lógico, de fato, produto da convergência de duas correntes históricas poderosas. 25. A primeira corrente é a análise humeana da causalidade, segundo a qual não existe vínculo interno necessário entre causa e efeito, apenas associação constante de fatos, ideia posteriormente incorporada pela física de Mach e Helmholtz como dogma do clima empirista dominante. 26. A segunda corrente é a nova lógica matemática que, sem se pronunciar diretamente sobre causalidade, fornece instrumentos que facilitam o movimento dentro do mundo humeano, bastando compreender sua ideia fundamental para perceber como conduz ao atomismo lógico de Wittgenstein. 27. O primeiro passo para transformar a lógica em cálculo matemático foi abandonar a antiga noção aristotélica de proposição como logos apophantikos, que traz a coisa à luz, substituindo-a por uma abstração que descreve apenas a distribuição de fatos no espaço lógico, independentemente de qualquer relação intrínseca entre eles. * fala-se aqui de espaço lógico, não físico, podendo A e B ocorrer em extremos opostos da galáxia 28. Levando essa abstração ainda mais longe, a lógica de Russell e Whitehead formula a implicação material, segundo a qual afirmar que A implica B nada diz sobre vínculo interno, apenas que nunca ocorre A sem B, permitindo afirmações estranhas ao senso comum como a implicação entre proposições matemáticas e fatos naturais desconexos. 29. Tomado esse lenguaje lógico como retrato do mundo, a desconexão que a lógica permite entre os fatos reflete-se na possível desconexão dos próprios fatos no mundo, confirmando a fórmula de que qualquer fato pode ocorrer ou não sem alterar o resto. 30. Wittgenstein apenas levou às últimas consequências as duas correntes do clima empirista de sua época, concluindo que os componentes elementares do mundo permanecem desconectados e sua ocorrência, em última análise, inexplicável, deixando o mundo fundamentalmente irracional. 31. Diferentemente das mônadas leibnizianas, que embora sem janelas se harmonizam na Mônada das Mônadas divina, os fatos atômicos de Wittgenstein carecem de qualquer instância unificadora, estando condenados ao silêncio e à solidão num mundo estéril ditado pela lógica. **III** 32. Apesar do papel dominante da lógica, Wittgenstein a esvazia ao afirmar que suas proposições nada dizem sobre o mundo, sendo meras tautologias que apenas repetem que A é A. 33. Essa visão, hoje comum, representava à época um ataque direto ao platonismo de Russell, para quem a lógica tratava do mundo real tão verdadeiramente quanto a zoologia, comparação que perde sentido se as proposições lógicas forem tautológicas e nada acrescentarem ao conhecimento factual. 34. Wittgenstein demonstra o caráter tautológico das afirmações lógicas por meio das tabelas de verdade, mostrando que uma proposição como a disjunção entre chover ou não chover é sempre verdadeira, porém vazia de conteúdo sobre o clima real. 35. Diante da objeção de que tal verdade ainda diria algo sobre qualquer mundo possível, busca-se um modelo mais convincente através do diagrama de Venn aplicado ao silogismo tradicional, iniciando pela representação gráfica da primeira premissa do argumento. {{tag>Barrett lógica}}