====== Misticismo ====== //BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.// **Misticismo** 1. Transformar a lógica em mística exige atribuir-lhe o poder extraordinário de determinar a estrutura do mundo e resolver as perguntas tradicionais da metafísica, sendo o misticismo autêntico o polo oposto dessa mística, localizado por Wittgenstein precisamente onde a lógica abdica de seus poderes. 2. Os aportes substantivos à lógica na primeira parte do Tractatus têm hoje interesse apenas histórico, cabendo às últimas páginas da obra, muitas vezes tomadas por acréscimos tardios, revelar o verdadeiro sentido do pensamento de Wittgenstein e sustentar sua permanência como pensador vivo. 3. O lugar do místico identifica-se na afirmação de que o fato de o mundo existir é o que é místico, permanecendo apenas o silêncio diante desse mistério primordial do Ser sobre o qual não se pode falar. 4. Para Wittgenstein, contudo, esse âmbito indizível encerra o mais valioso da vida humana, sendo esse silêncio, que deixa o filósofo acadêmico sem assunto, exatamente o ponto em que sua posição diverge radicalmente de seus seguidores positivistas. 5. Uma carta reveladora ao editor Ficker afirma que o assunto do livro é ético e que sua parte mais importante é justamente aquela que não foi escrita, tendo Wittgenstein traçado os limites da esfera ética a partir de dentro por meio do silêncio. 6. Essa carta constitui declaração direta sobre a intenção do livro e indica que o místico se identifica também com o ético, ou com a fonte do que é verdadeiramente ético na vida. 7. Cabe perguntar como o reconhecimento do mistério da existência pode ter substância ética, já que, nessa etapa, falar significa expressar-se claramente, e do mistério só é possível o mero gesto de apontá-lo. 8. Wittgenstein não possui sistema ético, mas seu lado negativo é claramente positivista, reduzindo a vontade e a conduta a fatos empíricos e as afirmações morais a expressões de emoção, postura que os positivistas seus seguidores usaram para desacreditar a ética tradicional. 9. Há, porém, outro aspecto em seu pensamento: o significado do mundo situa-se fora do mundo, apontando a vontade ética para além dos fatos, o que descarta qualquer ética naturalista ou utilitarista fundada na felicidade, aproximando-o surpreendentemente da ética kantiana. 10. Kant situou os requerimentos da ação moral no âmbito nouménico, inacessível aos conceitos do entendimento, exigindo fé em Ideias práticas indemonstráveis, e embora superficialmente distinta, essa ética também desemboca, como a de Wittgenstein, no que não pode ser articulado em conceitos definidos. 11. As insinuações finais do Tractatus sobre essa região além da linguagem agrupam-se em três categorias complementares. * o místico corresponde ao assombro cosmológico diante do fato de existir algo em vez do nada * essa mesma região inexpressável constitui todo o ético do livro, âmbito em que ações e vida encontrariam significado * o chamado sentido da vida é outra forma do ético, inexprimível como fato, e por isso os homens que o descobrem não conseguem explicá-lo 12. Reunidas essas três insinuações como indicações convergentes para a mesma região da experiência, o misticismo de Wittgenstein uniria intelecto e vontade, fundindo o assombro cósmico, o esforço ético e a sensação inexprimível de que tudo faz sentido. 13. Esse ponto se reforça na consideração sobre a imortalidade: nem a vida eterna resolveria as interrogações da existência, sendo apenas os momentos de eternidade no presente capazes de redimir a vida ao unir mistério do mundo e ser ético na sensação de que tudo está bem. 14. Esse misticismo, qualificado como são, distingue-se dos excessos tradicionais místicos, pois suas ocasiões de origem não se afastam da experiência cotidiana, ainda que a pessoa comum se mova nele sem consciência das bases éticas de sua existência. * o homem comum sustenta suas virtudes pelo hábito e pela decência nas rotinas da vida moral * em situações extremas, quando o hábito falha e os conceitos éticos elevados parecem vazios, o que sustenta o esforço, embora inexprimível em palavras, constitui o meollo mais valioso da vida, correspondente à parte não escrita do livro 15. Por sua austeridade lógica e ausência de dramatismo alucinatório, esse misticismo esquemático alcança a todos e não apenas a temperamentos místicos especiais, sendo seu desaparecimento dos limites da consciência sinal de uma civilização tecnocrática estreita. 16. A tática do silêncio, contudo, torna-se discutível: embora estrondosa no primeiro contato com o texto, seu efeito diminui com o tempo, e ainda que a maioria dos autores religiosos de fato fanfarroneie, o silêncio frente ao incomunicável conserva dignidade própria apenas quando não assumido como tática deliberada. 17. Os positivistas seguidores de Wittgenstein tomaram esse silêncio como prova de que nada havia ali sobre o que falar, atitude que reflete uma tendência cultural crescente a só admitir como real aquilo comunicável em boletins ordenados pelos meios de comunicação, ameaçando fazer o mistério desaparecer por completo. 18. Adotar a tática do silêncio equivale, sobretudo, a ceder com excessiva cortesia às restrições formalistas da linguagem, como se o mistério fosse mera falha do instrumento linguístico, quando na verdade o mistério nos envolve e nele existimos junto com nossa linguagem, deslocando-se aqui a ênfase da linguagem para o Ser. 19. Heidegger, por caminho diferente, chegará igualmente à região do inominável, mas recusará o silêncio como entrega ao inimigo, atribuindo ao filósofo a tarefa da expressão poética do Ser como modo sóbrio de manter vivo o mistério para uma cultura que, de outro modo, o deixaria perecer. 20. Wittgenstein não poderia permanecer indefinidamente nos limites austeros do Tractatus, pois a lógica de Russell revelou-se estrutura rígida demais, um único lenguaje formal artificial incapaz de mostrar os múltiplos usos da linguagem no fluxo real da vida, comparável a olhar uma paisagem através de um quadriculado que ignora seus contornos naturais. 21. Nessa etapa posterior e igualmente original de seu pensamento, Wittgenstein empreenderá a exploração desses contornos vivos da linguagem tal como usada habitualmente. {{tag>Barrett misticismo Wittgenstein}}