====== UTOPIAS DO TRABALHO ====== //BEAUNE, Jean-Claude. Philosophie des milieux techniques. La matière, l’instrument, l’automate. Seyssel: Champ Vallon, 1998.// As utopias e escatologias sociais do trabalho revelam as diversas reduções historicistas e, em última análise, teóricas que caracterizam as projeções precipitadas da subjetividade sobre o técnico. Nessa medida, pode-se considerá-las como o ponto culminante do teórico-técnico, mas também como a busca vertiginosa (e muitas vezes negativa) do sentido prático autêntico da atividade humana. Certas utopias do trabalho, levando ao extremo a vontade de preservar ou redescobrir o sentido humano do trabalho na cultura por meio da natureza, afirmam a vocação universal do ato criador e, ao mesmo tempo, a vocação universalista da civilização industrial em um contexto de solidão heróica. O tema converge ainda para Robinson Crusoé, que condensa e consuma os grandes arquétipos ocidentais. Robinson, conquistando um mundo por meio de sua diligência e seu trabalho diário, um aventureiro sem grande envergadura convertido, pelo trabalho e pela solidão, a Deus e aos homens. Se o temor sagrado de Robinson comove quando ele descobre na areia os rastros daquele outro que ele busca e teme ao mesmo tempo, é porque, algumas páginas antes, vimos ele esculpir uma cadeira a partir de madeira bruta, construir uma paliçada “padronizada” e estabelecer racionalmente sua moradia. É também porque a associação entre trabalho e solidão ressoa no “inconsciente ocidental”. Robinson constrói seu mundo com as próprias mãos, um mundo técnico e político coerente, dotado de um “contrato social” inigualável, mas onde, em toda parte, a necessidade do outro está gravada em relevo, mesmo que Deus tenha retornado. Quando o “outro” chega, ele se torna escravo, e quando Robinson sai de sua ilha, é para monetizar seu trabalho e se tornar comerciante, “capitalista”. Robinson, em sua ilha, constitui sua individualidade tendo como pano de fundo um duplo sistema de relações: relações com Deus por meio da natureza, relações com o outro por meio da cultura. As ficções literárias chamadas de “robinsonnades” referem-se à situação extrema de um homem solitário em confronto com a natureza bruta e, portanto, fora de qualquer referência ao outro, construindo um mundo onde a instituição não aparece, a não ser encarnada em sua própria pessoa; o arquétipo ocidental que é Robinson parece, em sua pureza ficcional, cristalizar a abordagem definitiva de um movimento radical do espírito que visa afirmar a onipotência do homem — homo cogitans, homo faber, ambos, portanto, inseparáveis — apresentando-se como criador de normas e instituições ao opor-se a uma natureza que ele conquista e molda. A radicalidade dessa abordagem é reveladora da missão universal desse homem ocidental: ele só pode pretender realizar em si mesmo a totalidade das experiências culturais ao se colocar, desde o início, como transcendente a essa cultura, sendo, portanto, capaz de encontrar em si mesmo — à margem da sociedade ou além dela — uma vocação demiúrgica que o faz participar da natureza; melhor ainda, que a encarna em sua própria pessoa.