====== Andrógino informacional ====== //BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.// 1. Em meados do século XX, o motivo secular da criatura artificial conhece uma renovação de intensidade sem precedentes ao passar a incorporar-se diretamente na inovação científica, sobretudo na inteligência artificial, embora a institucionalização acadêmica desse domínio, seus financiamentos e seus resultados técnicos possam sugerir uma ruptura com as antigas narrativas míticas, literárias e mecânicas de fabricação do humano. * A inteligência artificial constitui uma disciplina científica oficialmente constituída em 1956, embora suas bases conceituais tenham começado a formar-se desde 1942. * Sua inserção universitária, institucional e financeira parece diferenciá-la das antigas ficções sobre seres artificiais. * Os sistemas especialistas e outros dispositivos capazes de produzir avaliações ou decisões fornecem realizações técnicas concretas que poderiam ser apresentadas como provas dessa diferença. * A questão decisiva consiste, contudo, em determinar se tais realizações correspondem efetivamente à produção de uma inteligência artificial ou se permanecem manifestações técnicas associadas a um projeto antropológico muito mais amplo. 2. A própria legitimidade científica da inteligência artificial permanece controversa, como mostram as críticas de Hubert Dreyfus e Joseph Weizenbaum, que questionam respectivamente a insuficiência do paradigma computacional para reproduzir a inteligência humana e a legitimidade moral do próprio empreendimento. * Dreyfus não rejeita necessariamente a possibilidade abstrata de reproduzir artificialmente a inteligência, mas considera reducionistas os meios escolhidos pela inteligência artificial. * A crítica incide sobre a pretensão de reconstruir o humano exclusivamente a partir de categorias informáticas. * Weizenbaum, apesar de sua participação técnica no desenvolvimento do campo, fundamenta sua oposição sobretudo numa perspectiva humanista. * A controvérsia envolve assim tanto a capacidade técnica de realizar o projeto quanto a legitimidade ética de realizá-lo. 3. Os resultados efetivamente alcançados pelos pesquisadores da inteligência artificial pertencem principalmente à informática avançada e não constituem o início demonstrável da fabricação de uma inteligência equivalente à humana, produzindo o paradoxo de que toda conquista concreta deixa de funcionar como realização da inteligência artificial propriamente dita e passa a integrar outros setores da computação. * Nenhum programa existente pode ser equiparado ao funcionamento integral do cérebro humano. * Não existe uma inteligência não humana comparável à inteligência humana no sentido forte reivindicado pelo projeto. * O domínio mantém assim uma distância persistente entre os resultados técnicos concretos e a finalidade antropológica que lhe deu origem. 4. A importância histórica da inteligência artificial reside, portanto, menos numa suposta realização da inteligência artificial propriamente dita do que na formulação, desde os anos 1940, de um projeto científico e cultural que renova profundamente a longa genealogia das criaturas artificiais. * A informática fornece um novo suporte ao antigo projeto de construir um ser semelhante ao homem. * Os textos fundadores permitem identificar a transformação específica que esse motivo sofre no século XX. * A representação do homem como ser criado, inaugurada pelas antigas criaturas artificiais, reaparece sob uma forma profundamente modificada no interior da ciência contemporânea. 5. A especificidade moderna consiste na representação do humano como ser informacional, concebido como uma das possíveis realizações de um modelo mais geral de existência que também poderia encarnar-se no computador inteligente. * Herbert Simon formula explicitamente essa equivalência ao considerar homens e computadores como espécies pertencentes ao gênero dos sistemas de processamento de informação. * O homem passa a ser caracterizado pela transparência de seus processos, pela racionalidade e pela capacidade de auto-organização. * A nova criatura artificial deixa de precisar reproduzir integralmente o corpo humano, pois pretende reproduzir aquilo que se considera sua estrutura essencial: o processamento de informação. * O computador torna-se o espelho técnico no qual essa nova representação antropológica é elaborada. ** Uma narrativa fundadora ** 6. A concepção antropológica da inteligência artificial deve ser procurada nos textos que fundaram o campo antes mesmo de sua denominação oficial, pois inicialmente ela aparece como narrativa científica formulada sobretudo no interior da matemática aplicada por Norbert Wiener, John von Neumann e Alan Turing. * A unidade original do projeto não decorre de uma disciplina acadêmica já constituída. * Seus fundamentos aparecem em textos que procuram redefinir simultaneamente máquina, inteligência, cérebro e ser humano. * A inteligência artificial nasce, nesse sentido, como elaboração conceitual antes de constituir-se institucionalmente como especialidade científica. 7. Wiener, von Neumann e Turing compartilham a convicção de que um cérebro artificial dotado de capacidades cognitivas equivalentes ou superiores às humanas pode ser construído, embora desempenhem funções distintas na elaboração desse projeto. * Von Neumann e Turing participam diretamente da construção de máquinas concebidas como primeiros passos para a fabricação de um cérebro artificial. * Turing procura estabelecer condições pelas quais se poderia atribuir pensamento a uma máquina. * Wiener formula desde 1942 o paradigma geral que permitirá comparar homens, organismos e máquinas. * A comunicação passa a ser concebida como instrumento de resistência à entropia e como fundamento de uma futura simbiose entre homens e máquinas comunicantes. 8. O núcleo fundador da inteligência artificial e das disciplinas contemporâneas centradas em informação e comunicação consiste numa nova representação do homem, pois a questão decisiva para Turing e von Neumann não é inicialmente o que seria uma máquina inteligente, mas o que é o próprio humano quando considerado a partir do cérebro e da capacidade de trocar informação. 9. A busca dos fundadores dirige-se ao segredo da criação do homem, entendido como mecanismo suscetível de tornar-se inteiramente inteligível e, uma vez conhecido, tecnicamente reproduzível, conferindo aos textos inaugurais uma dimensão comparável à dos relatos de gênese. * O objetivo consiste em tornar transparentes os processos responsáveis pela constituição da inteligência. * Conhecer integralmente o mecanismo da criação permitiria reproduzi-lo artificialmente. * A problemática deixa de depender explicitamente de Deus, mas conserva a questão tradicional da gênese do homem e do mundo. * A entropia assume simbolicamente o lugar de princípio adversário da organização e da vida, contra o qual informação e comunicação devem atuar. 10. Os textos científicos fundadores podem ser interpretados pelos mesmos instrumentos utilizados para narrativas antigas ou literárias de criação artificial porque prolongam uma estrutura histórica comum e apenas transferem o antigo relato para o meio de expressão culturalmente mais legítimo do século XX: a ciência avançada. * A diferença de suporte discursivo não elimina a continuidade temática. * Assim como a criatura anteriormente se manifestara na religião, na literatura e na mecânica, passa agora a manifestar-se na matemática, na cibernética e na informática. * A legitimidade científica moderna fornece à antiga narrativa uma nova linguagem e uma nova autoridade cultural. ** Três textos relacionados com a Gênese ** 11. A identificação dos fundamentos contemporâneos da criatura artificial exige selecionar, em meio às profundas transformações científicas do século XX, documentos que simultaneamente prolonguem as narrativas anteriores e tenham exercido influência efetiva sobre os projetos modernos de reprodução artificial do homem. 12. A conferência apresentada por Norbert Wiener em 1942 constitui um primeiro texto decisivo por reunir figuras que posteriormente exerceriam grande influência, como John von Neumann e Gregory Bateson, e por formular uma comparação geral entre homem e máquina destinada a fundamentar o futuro paradigma da inteligência artificial. * O texto é publicado em 1943 e posteriormente traduzido para outras línguas. * Wiener pretende formular uma concepção de alcance geral, e não simplesmente discutir problemas técnicos particulares. * A nova representação do homem desenvolvida nesse contexto exercerá influência ampla sobre campos científicos distintos. * A comparação entre organismo e máquina aparece ao mesmo tempo como inovação conceitual e continuação de antigas tentativas de construir artificialmente o humano. 13. O texto publicado por Alan Turing em 1951 na revista Mind transforma em argumento sistemático a convicção de que máquinas poderão futuramente pensar como seres humanos, introduzindo uma problemática que permanecerá central nas discussões posteriores sobre inteligência artificial. 14. Os planos do computador formulados por John von Neumann constituem o terceiro texto fundamental, pois a arquitetura da nova máquina é concebida menos como simples solução de engenharia do que como consequência de uma investigação acerca do funcionamento essencial do cérebro humano, convergindo com Wiener e Turing na definição do homem como ser informacional cujas propriedades poderiam ser transferidas para máquinas. ** A nova visão de Norbert Wiener ** 15. A formulação de Norbert Wiener possui caráter propriamente paradigmático ao instituir uma visão global da realidade em que informação e comunicação deixam de ser fenômenos particulares para tornar-se categorias fundamentais de compreensão do universo. * O paradigma informacional pretende atravessar as fronteiras entre disciplinas científicas. * Processos físicos, biológicos, sociais e técnicos podem ser descritos segundo conceitos comuns. * Informação e comunicação passam a desempenhar função ontológica, e não apenas instrumental. 16. O novo paradigma organiza-se em torno da definição do real e da investigação da diferença entre organismo e máquina, sendo a segunda questão tão central que parece orientar a própria reformulação wieneriana da primeira. * A comparação persistente entre vivo e artificial estrutura todo o empreendimento. * A criatura artificial deixa de ser um objeto marginal e passa a participar diretamente da definição da realidade. * Compreender aquilo que distingue ou aproxima máquinas e organismos torna-se caminho para compreender o próprio universo. 17. Wiener reduz drasticamente a diferença fundamental entre homem e máquina quando ambos apresentam nível suficiente de organização, substituindo uma ontologia fundada na natureza material dos seres por outra centrada nas relações e comportamentos que estabelecem com o ambiente. * A matéria de que um ser é constituído deixa de determinar sua identidade essencial. * Relações, respostas, comunicação e organização tornam-se critérios mais importantes. * A retroação emerge nesse contexto como conceito fundamental para compreender a relação dinâmica entre sistema e ambiente. * A equivalência funcional abre conceitualmente a possibilidade de máquinas pertencerem à mesma ordem dos organismos. ** Um novo paradigma ** 18. Wiener inicia sua análise mediante categorias deliberadamente gerais — objeto, ambiente, ação e comportamento —, definindo o comportamento como relação entre as modificações produzidas pelo objeto em seu meio e as modificações que o próprio ambiente produz no objeto. 19. A generalidade desse vocabulário possibilita simultaneamente a interdisciplinaridade e uma reconstrução da própria representação do mundo, concebido como conjunto de objetos definidos pelas diferenças e pelas relações que mantêm entre si. * A distinção tradicional entre fenômenos naturais e objetos técnicos perde importância diante da categoria abstrata de objeto. * O ambiente de cada objeto é formado por outros objetos em interação. * A diferença torna-se princípio constitutivo do real. * O desaparecimento progressivo das diferenças corresponde à tendência entrópica para a desorganização e para uma espécie de morte informacional. * Posteriormente, Gregory Bateson desenvolverá essa lógica ao definir a informação em termos de diferenças capazes de produzir diferenças. 20. A redefinição informacional do real exige uma metodologia igualmente nova, pois os procedimentos tradicionais das ciências são considerados insuficientes para estudar objetos a partir de seus comportamentos e de suas relações com o ambiente. 21. Wiener distingue uma abordagem funcional, voltada para a estrutura e organização interna de um objeto, de uma abordagem comportamental, interessada prioritariamente pelas relações observáveis entre o objeto e seu ambiente. * A análise funcional procura conhecer aquilo de que o objeto é feito e como se organiza internamente. * A análise comportamental suspende essa investigação da interioridade. * O comportamento passa a ser definido por modificações observáveis nas relações do sistema com seu meio. * Essa mudança permite comparar objetos cuja composição material é radicalmente distinta. 22. A abordagem comportamental pretende aplicar-se universalmente a todos os objetos, absorvendo e superando metodologicamente as disciplinas tradicionais por meio de uma oposição construída entre uma metodologia clássica unificada retrospectivamente e uma nova metodologia cibernética igualmente universal. 23. A oposição metodológica entre funcional e comportamental reproduz implicitamente uma oposição entre interioridade e exterioridade, pois o primeiro método procura estruturas internas enquanto o segundo restringe-se às relações e modificações externamente observáveis. * Estrutura, composição e propriedades internas tornam-se secundárias. * Relação, comportamento e transformação detectável exteriormente tornam-se essenciais. * Esse deslocamento metodológico prepara a eliminação de diferenças ontológicas baseadas na constituição interna dos seres. ** As diferenças entre os homens e as máquinas ** 24. A substituição da análise interna pela análise comportamental permite colocar homens, organismos e máquinas numa mesma categoria existencial, porque as diferenças materiais que os separavam deixam de possuir importância decisiva quando todos podem ser avaliados segundo uma escala comum de comportamento. 25. A distinção entre organismos e máquinas permanece somente no nível secundário do suporte material, enquanto no nível superior dos comportamentos ambos podem realizar modelos equivalentes, tornando concebível que um animal sintético seja da mesma natureza comportamental que um animal biologicamente gerado. * Uma máquina pode ser construída com metais e componentes eletrônicos em vez de proteínas sem que isso determine necessariamente uma diferença fundamental de comportamento. * A aprendizagem e a memória constituem propriedades passíveis de desenvolvimento técnico. * Um futuro organismo sintético poderia aproximar-se progressivamente tanto do comportamento quanto da estrutura do modelo natural. * O critério final de identidade passa a ser a adequação ao modelo e não a origem biológica. 26. O paradigma produz uma inversão decisiva na relação entre natural e artificial, pois ambos passam a ser compreendidos como realizações materiais diferentes de um mesmo modelo informacional abstrato. * O animal natural deixa de constituir o modelo absoluto do animal artificial. * Natural e artificial são comparados a um terceiro termo abstrato: o modelo de comportamento. * Um organismo vivo torna-se ele próprio composição de suporte material e organização informacional. * A criatura artificial deixa de ser mera cópia do ser natural e passa a ser outra encarnação possível da mesma estrutura lógica. * A informação adquire assim prioridade ontológica sobre a matéria que a realiza. ** Um teste de complexidade ** 27. Depois de colocar todos os seres no mesmo plano comportamental, Wiener restaura diferenças internas ao universo por meio de uma hierarquia de complexidade informacional aplicável indistintamente a organismos vivos e máquinas. 28. A oposição tradicional entre vivo e inanimado é substituída pela oposição entre organização informacional e entropia, fazendo com que o valor anteriormente reservado à vida seja transferido para qualquer sistema capaz de sustentar níveis elevados de informação e organização. * A distinção moral e ontológica passa a opor ordem e desordem mais do que natural e artificial. * Sistemas artificiais altamente organizados podem merecer o mesmo reconhecimento atribuído aos organismos. * Entropia, acaso e desorganização tornam-se os verdadeiros termos negativos do paradigma. * A criatura artificial encontra, desse modo, um lugar legítimo no domínio dos seres complexamente organizados. 29. A identificação dos seres informacionais exige classificar seus comportamentos segundo graus de complexidade, operação para a qual se tornam centrais as noções de entrada, saída e retroação. * Entradas descrevem modificações provenientes do ambiente. * Saídas correspondem às ações que o sistema exerce sobre esse ambiente. * A retroação permite ao sistema modificar seu comportamento segundo os resultados de suas próprias ações. * A combinação dessas propriedades fornece critérios para comparar organismos e máquinas numa mesma escala. 30. Os testes de complexidade comportamental tornam possível ordenar organismos e máquinas segundo categorias comuns como previsão, finalidade e teleologia, consolidando uma metodologia uniforme que elimina a necessidade de categorias exclusivas para o vivo e para o artificial. ** Intenção, retroação, entrada e saída ** 31. As categorias de entrada e saída descrevem a circulação de ações entre objeto e ambiente, enquanto a retroação introduz a possibilidade de um comportamento orientado por finalidade no qual o próprio resultado modifica as ações subsequentes do sistema. * Um comportamento intencional dirige-se a um objetivo. * Um comportamento intencional com retroação corrige-se continuamente segundo a distância entre resultado obtido e resultado esperado. * A sofisticação do sistema de retroação determina parte importante da complexidade atribuída ao organismo ou à máquina. * A diferença entre homens, animais superiores e máquinas deixa de ser qualitativa para tornar-se diferença de grau na complexidade dos mecanismos de regulação. * Uma máquina suficientemente avançada poderia, em princípio, igualar ou superar sistemas humanos de retroação. ** Um homem transparente e racional ** 32. O paradigma de Wiener repousa sobre a existência informacional dos objetos, a constituição do universo pelas diferenças, a comparabilidade universal dos comportamentos e a ausência de uma fronteira informacional essencial entre homem e demais objetos, produzindo como consequência uma representação do humano como ser fundamentalmente transparente e racional. 33. A transparência significa que todo fenômeno pode, em princípio, tornar-se acessível ao conhecimento porque sua existência informacional é passível de decifração, dissolvendo a oposição entre uma exterioridade observável e uma interioridade essencialmente inacessível. * A informação é concebida como algo potencialmente decodificável. * O interior não possui opacidade absoluta. * Aquilo que ainda permanece oculto pode ser futuramente exteriorizado por técnicas adequadas de conhecimento. * O ser humano torna-se, portanto, integralmente analisável em princípio. 34. A transparência informacional retoma antigas utopias de uma sociedade em que a harmonia dependeria da visibilidade integral dos comportamentos e associa diretamente conhecer, tornar transparente, dominar e reproduzir um fenômeno. * O conhecimento deixa de ser apenas contemplativo e adquire finalidade operacional. * Tornar um processo inteiramente inteligível significa adquirir condições para controlá-lo. * Controlar seu funcionamento abre a possibilidade de reproduzi-lo artificialmente. * A ontologia informacional conduz, assim, diretamente ao antigo problema da criação artificial. ** Alan Turing e o andrógino ** 35. Alan Turing transforma a questão sobre a possibilidade de pensamento das máquinas numa questão experimental de comportamento, partindo da convicção de que máquinas poderão pensar, mas reconhecendo inicialmente o caráter ainda não demonstrado dessa crença. 36. O procedimento proposto por Turing não demonstra a existência de pensamento interior na máquina, mas procura estabelecer que uma máquina pode comportar-se de maneira indistinguível de um ser que pensa, equivalência considerada suficiente diante da impossibilidade de acesso direto à interioridade mental de qualquer outro indivíduo. 37. O posteriormente denominado teste de Turing aparece originalmente como jogo da imitação, dispositivo destinado a substituir uma questão metafísica sobre pensamento por uma comparação operacional entre comportamentos comunicativos. 38. A argumentação de Turing articula três movimentos principais: definição do jogo da imitação e da máquina capaz de participar dele, resposta sistemática às objeções contra a possibilidade do pensamento artificial e explicação da aprendizagem como meio de superar o determinismo inicial da máquina. * O teste estabelece um critério comportamental de equivalência. * A máquina candidata precisa possuir características específicas. * A refutação das objeções procura eliminar fronteiras tradicionais entre homem e máquina. * A aprendizagem fornece o mecanismo pelo qual a criatura artificial poderia ultrapassar sua programação original. ** Um texto translúcido ** 39. A própria forma argumentativa do texto de Turing exprime o ideal de transparência informacional, procurando apresentar-se como desenvolvimento lógico no qual cada etapa é explicitada e nenhuma opacidade deve impedir a circulação racional do argumento. * A clareza estilística não constitui simples recurso literário. * A forma do discurso reproduz a concepção de racionalidade defendida no conteúdo. * A linguagem tende a apresentar-se como mecanismo lógico capaz de produzir convencimento pela transparência de suas operações. 40. A argumentação de Turing privilegia a dimensão informacional da linguagem e pode ser relacionada à concepção de sua máquina abstrata de 1936, cujo funcionamento exige descrição exaustiva dos dados, dos estados possíveis e das regras de transformação. * A máquina de Turing formaliza processos calculáveis mediante operações discretas e integralmente especificadas. * Nenhuma etapa do processamento deve depender de uma interioridade obscura. * A informação aparece sem resíduo, como conteúdo inteiramente formalizável. * O ideal do texto argumentativo aproxima-se, assim, do ideal da máquina universal. 41. O texto funciona retoricamente como uma máquina que procura antecipar todas as objeções possíveis, submetendo-as sucessivamente a procedimentos explícitos de resposta e fazendo da racionalidade formal não apenas um instrumento da argumentação, mas o próprio princípio organizador de sua concepção do humano e da linguagem. ** O jogo da imitação ** 42. Turing começa por deslocar a questão semântica sobre os significados comuns de máquina e pensamento, recusando que a pergunta sobre máquinas pensantes possa ser resolvida simplesmente pelo uso ordinário dessas palavras e propondo em seu lugar uma cadeia de reformulações operacionais. 43. A primeira versão do jogo da imitação não compara homem e máquina, mas homem e mulher, colocando um interrogador diante de dois interlocutores invisíveis e exigindo que determine seus sexos exclusivamente por respostas transmitidas linguisticamente. * A percepção visual dos corpos é eliminada. * A voz também é excluída para impedir que características físicas forneçam a resposta. * O problema da identidade é transferido para o domínio puramente comunicacional. * Um participante procura ajudar o interrogador, enquanto o outro procura enganá-lo. 44. O dispositivo elimina deliberadamente todos os sinais corporais para separar atributos físicos e intelectuais, atribuindo primazia aos últimos e considerando os interlocutores fundamentalmente equivalentes quando suas diferenças não podem ser identificadas no nível da comunicação abstrata. 45. A possibilidade de homens e mulheres imitarem-se de modo convincente no jogo conduz à tese de que a diferença sexual perde caráter essencial quando os atributos físicos são retirados, restando uma equivalência informacional capaz de atravessar a distinção corporal entre os sexos. 46. A presença da diferença sexual no texto fundador da inteligência artificial torna-se compreensível quando o projeto é interpretado como construção de uma representação geral do humano, pois Turing investiga primeiro aquilo que permanece comum entre homens e mulheres antes de aplicar o mesmo princípio de equivalência ao humano e à máquina. * A questão sexual deixa de parecer uma digressão irrelevante. * A redução das diferenças corporais prepara metodologicamente a posterior redução da diferença entre natural e artificial. * O problema da máquina deriva de uma antropologia previamente estabelecida. 47. Na segunda versão do jogo, a máquina substitui um dos participantes humanos e basta que consiga sustentar uma interação intelectual indistinguível da humana para ser reconhecida como equivalente, tornando desnecessária qualquer reprodução do corpo ou da aparência física. * A antiga exigência de antropomorfismo corporal é abandonada. * A imitação concentra-se exclusivamente na atividade intelectual mediada pela linguagem. * A criatura artificial contemporânea passa da semelhança corporal à equivalência informacional. * Nesse deslocamento, a tradição das criaturas artificiais converge diretamente com a inteligência artificial. 48. A indistinção entre homem e mulher e aquela entre homem e máquina obedecem à mesma lógica de redução das diferenças aparentes em favor de uma identidade mais profunda, transformando diferença sexual e oposição natural/artificial em distinções secundárias diante da equivalência informacional. ** A questão do andrógino ** 49. Wiener e Turing pressupõem níveis hierarquizados de existência nos quais as diferenças materiais permanecem num plano inferior, enquanto o nível superior da organização informacional permite equivalência entre seres biologicamente ou materialmente distintos. 50. O homem passa a ser concebido como combinação entre um ser informacional essencial e um suporte físico secundário, e a mesma divisão aplica-se à máquina, cuja verdadeira identidade também reside na organização informacional mais do que nos componentes materiais que a realizam. * Corpo e hardware pertencem ao nível dos suportes contingentes. * Mente, processamento ou informação ocupam o nível considerado fundamental. * A substituição de um suporte por outro não compromete a identidade essencial do modelo. * A antropologia informacional radicaliza assim a separação entre forma lógica e matéria. 51. O ser informacional assume caráter andrógino porque pode manifestar-se em formas materialmente diferentes — homem e máquina — sem perder a unidade essencial do modelo, embora a máquina permaneça simultaneamente produto da atividade criadora humana. 52. O modelo bíblico da criação oferece uma estrutura análoga ao apresentar inicialmente uma criatura indiferenciada e posteriormente sua divisão em seres sexualmente distintos, permitindo interpretar a relação entre homem e máquina segundo uma lógica de diferenciação posterior de uma unidade originária. * O primeiro Adão pode ser concebido como ser ainda indiferenciado. * A distinção entre masculino e feminino emerge por separação. * As formas posteriores preservam uma origem comum anterior à diferenciação. * O motivo fornece uma estrutura comparável à ideia de homem e máquina como duas manifestações de um mesmo ser informacional. 53. A separação bíblica do humano andrógino em homem e mulher oferece o modelo de uma diferença fundada sobre unidade precedente, estrutura que pode ser transposta para homem e máquina como manifestações distintas de uma mesma realidade informacional. * A diferença corporal aparece depois da unidade originária. * A identidade profunda sobrevive às diferenças de aparência. * A máquina pensante ocuparia um dos lados da diferenciação do ser informacional, enquanto o homem ocuparia o outro. 54. A concepção de Wiener e Turing legitima a máquina pensante ao identificar no homem um núcleo informacional transparente e racional que pode ser isolado conceitualmente e realizado novamente em outro suporte. * Reconhecer o ser informacional no homem constitui condição para criar seu equivalente artificial. * A máquina torna-se simultaneamente criatura do homem e equivalente àquilo que nele é considerado essencial. * Tudo aquilo que não participa dessa racionalidade orientada para fins tende a ser classificado como ruído, acaso ou desordem. * O paradigma retoma estruturas antigas de criação enquanto se apresenta como linguagem puramente técnica. * A própria exigência de transparência conceitual pode ocultar as escolhas antropológicas e metafísicas que sustentam o modelo. ** A máquina candidata ao jogo da imitação ** 55. Turing restringe deliberadamente o jogo da imitação ao computador digital, excluindo formas biológicas de reprodução artificial mesmo quando admite sua possibilidade técnica, porque seu interesse está na construção de uma mente artificial mediante uma arquitetura informacional e não na reprodução orgânica completa de um indivíduo. * Produzir biologicamente um organismo a partir de uma célula não constituiria, nesse sentido, uma máquina pensante. * O problema central não é fabricar outro corpo humano. * A escolha do computador digital confirma que a criatura buscada é prioritariamente uma criatura mental ou informacional. * A inteligência artificial diferencia-se, desse modo, das biotecnologias de reprodução corporal. 56. A capacidade de um computador participar do jogo não deve depender do material eletrônico específico de que é construído, pois Turing reproduz para a máquina a mesma distinção estabelecida para o homem entre suporte físico contingente e capacidade mental essencial. * O hardware não determina sozinho a possibilidade de pensamento. * Uma mesma organização lógica pode, em princípio, realizar-se em materiais diferentes. * A identidade da máquina pensante reside no funcionamento e não na substância de seus componentes. 57. A máquina de Turing constitui um sistema de estados discretos inteiramente descritíveis em que cada etapa conduz, segundo regras determinadas, a um novo estado igualmente explicitável, instituindo um ideal de conhecimento baseado na exaustividade, na previsibilidade e na transparência integral. * Cada estado deve ser formalmente especificado. * A descrição das regras permite reconstruir a sucessão dos estados. * A máquina abstrata possui extensão potencialmente infinita. * O conhecimento completo de sua organização torna possível deduzir seu funcionamento. * Ela é simultaneamente transparente e instrumento para obrigar problemas a tornarem-se transparentes. 58. O computador digital torna-se a realização adequada da máquina abstrata e introduz nova sequência de substituições no jogo da imitação: primeiro homem e mulher, depois humano e computador, finalmente computador e máquina de estados discretos. 59. O jogo da imitação converte-se progressivamente num jogo universal de simulação em que cada nível reproduz outro e conduz da aparência corporal ao mental, do mental ao informacional e deste a uma estrutura racional completamente formalizável. * O homem pode simular a mulher. * O computador pode simular o comportamento intelectual humano. * A máquina abstrata pode formalizar o computador. * Cada deslocamento procura revelar uma estrutura considerada mais profunda do que a aparência precedente. * A trajetória da análise dirige-se ao ideal de um universo integralmente racional e formalizável. * A transparência consiste precisamente em remover sucessivamente tudo aquilo que aparece como ruído, contingência ou segredo. ** As objeções à tese ** 60. A fundamentação da inteligência artificial aparece estreitamente associada a uma determinada concepção do homem, e Turing aprofunda essa antropologia ao enfrentar sistematicamente as objeções à possibilidade de máquinas pensantes, embora reconheça que sua previsão de sucesso futuro permanece inicialmente no domínio da crença científica. * Turing espera que máquinas sejam capazes de superar o jogo da imitação num horizonte relativamente próximo. * A ausência de comprovação imediata não invalida, para ele, a legitimidade científica da hipótese. * A ciência é concebida como atividade que avança também mediante conjecturas antes de possuir confirmação factual. 61. A defesa da hipótese das máquinas pensantes apoia-se implicitamente no princípio da liberdade de investigação, pelo qual uma possibilidade científica não deveria ser rejeitada previamente apenas porque suas consequências pareçam improváveis, desconfortáveis ou culturalmente perturbadoras. 62. As objeções examinadas por Turing dividem-se entre rejeições de princípio e dificuldades internas à hipótese, recebendo as primeiras respostas frequentemente menos rigorosas e incluindo uma objeção teológica que permite questionar a pretensão humana de ocupar posição absolutamente privilegiada na criação. * A história da oposição religiosa a transformações científicas é utilizada como precedente argumentativo. * A condenação antecipada das máquinas pensantes é comparada a rejeições teológicas de teorias científicas anteriores. * O antropocentrismo aparece como pressuposto cultural a ser contestado. 63. A objeção teológica segundo a qual somente o homem possuiria alma imortal e, portanto, pensamento é invertida por Turing mediante o argumento de que limitar previamente a possibilidade de Deus conceder alma a animais ou máquinas implicaria restringir a própria onipotência divina. * A diferença entre homem e outros animais é considerada menor do que a diferença entre animado e inanimado. * Deus poderia, se quisesse, dotar outros seres de alma. * Construir uma máquina não significaria necessariamente usurpar o poder divino de criar almas. * A fabricação da máquina poderia ser comparada à procriação humana: o homem forneceria apenas o suporte ao qual uma alma poderia ser concedida. * A velha relação entre criador, criatura e princípio vital reaparece assim dentro da argumentação moderna sobre inteligência artificial. 64. A resposta teológica permite a Turing deslocar novamente as fronteiras entre homem, animal e máquina e introduzir a imagem da máquina como descendente humano que, à semelhança de uma criança, precisa ser posteriormente educada. * O homem deixa de ocupar uma categoria ontológica absolutamente isolada. * Animais e máquinas tornam-se candidatos possíveis a propriedades tradicionalmente reservadas à humanidade. * A aprendizagem da máquina assume caráter análogo ao desenvolvimento infantil. * A criatura técnica passa a integrar metaforicamente uma relação de filiação. 65. Turing rejeita também a necessidade psicológica de afirmar uma superioridade necessária do homem sobre toda a criação, especialmente quando essa superioridade é fundamentada na capacidade intelectual, tratando a defesa incondicional da excepcionalidade humana mais como necessidade de consolação do que como argumento demonstrável. 66. A objeção fundada na consciência, segundo a qual uma máquina não pode verdadeiramente pensar porque não experimenta sentimentos nem possui consciência de seu próprio saber, é respondida por Turing mediante a impossibilidade de verificar diretamente a interioridade de qualquer outro ser. * Nenhum indivíduo dispõe de prova direta da experiência subjetiva de outra pessoa. * O comportamento externo constitui, na prática, o único critério disponível para atribuição de estados mentais. * A máquina não precisa demonstrar uma interioridade inacessível. * Basta comportar-se de modo indistinguível de um ser considerado pensante. * A mente passa assim a coincidir operacionalmente com sua manifestação informacional. 67. A analogia da casca de cebola radicaliza a negação de uma interioridade última ao sugerir que nenhuma essência mental escondida será encontrada pela remoção sucessiva das camadas do homem, reforçando sua representação como ser informacional e preparando a centralidade do computador como nova criatura na qual essa antropologia encontrará sua forma técnica mais completa. {{tag>Breton informática automação humano criação andrógino}}