====== Progresso e absurdo ====== //ELLUL, Jacques. Le bluff technologique. Paris: Hachette, 1988.// 1. A filosofia do absurdo, desenvolvida na França do pós-guerra em relação com o existencialismo sartriano, sustentava a ausência radical de sentido na vida, na história, na moral e na comunicação entre os homens. * a História não obedece a nenhuma regra nem permanência, não havendo Bem nem Mal possíveis * a relação com o outro revela-se impossível, marcada pelo mal-entendido permanente e pelo peso insuportável do olhar alheio * não existe ponto de referência fixo a partir do qual julgar o evento ou a ação, restando apenas o Existente, tão instável quanto a água ou a areia 2. Essa filosofia conduzia a comportamentos desarticulados e contraditórios, sobretudo na relação amorosa, onde a única não-absurdidade possível consistia em ser honesto consigo mesmo, rompendo assim que o amor deixasse de ser vivido com intensidade. 3. Na política, a mesma lógica implicava um engajamento puramente instantâneo, sem doutrina fixa, explicando as tomadas de posição contraditórias e sucessivas de Sartre, bem como sua recusa em conceder à ciência qualquer certeza superior à do filósofo. 4. Diante desse deserto de sentido, restava apenas a ajuda ao ser humano como única atividade escolhível, ainda que também absurda, sendo o suicídio igualmente desprovido de necessidade, permanecendo o homem apenas "ao pé do muro". 5. Essa filosofia do absurdo gerou uma rica produção literária e teatral que, a partir de uma dupla derivação, evoluiu do teatro do absurdo, que ainda narrava uma história, para o teatro absurdo em si mesmo, feito de palavras sem significação ou onomatopeias. * o teatro de Beckett representa essa passagem, culminando em espetáculos de sons sem significado discernível * no romance, essa evolução corresponde à escola do Nouveau Roman, na qual se nega até a existência do autor e do leitor enquanto sujeitos 6. A outra derivação da filosofia do absurdo foi o niilismo, seja explicitamente teorizado, seja infiltrado na vida cotidiana de pessoas comuns, podendo conduzir ao suicídio juvenil ou ao terrorismo, sem que isso implique conhecimento filosófico direto por parte dos terroristas. 7. Essa filosofia do absurdo desenvolveu-se num contexto político explicativo, marcado pela ocupação nazista, pelo terror da Gestapo e pela descoberta atroz dos campos de concentração, que tornavam compreensível a afirmação de que a vida é absurda e sem saída. 8. É possível reconhecer certa influência dessa filosofia do absurdo sobre a própria reflexão científica recente, evidenciada pela valorização de noções como ruído, desordem e turbulência, antes tidas como puramente negativas e agora integradas positivamente às teorias da comunicação e da física. 9. Situando-se o físico "entre o cristal e a fumaça", essa valorização científica do desordem parece funcionar, além de seu rigor teórico, como justificação inconsciente de uma sociedade excessivamente ordenada e coercitiva, introduzindo assim, sob outra forma, o próprio absurdo. **I. A absurdidade tecnicista** 10. Diante da filosofia do absurdo erguia-se o monumento das ciências e da expansão tecnicista, modelo de racionalidade e eficácia, no qual as reações incoerentes ou violentas do homem, como em 1968, eram atribuídas ao próprio homem, permanecendo o sistema técnico coerente em si mesmo. 11. O que parece novo nas evoluções técnicas recentes, sobretudo na informática e na telemática, é que essas técnicas passaram a produzir e exigir comportamentos absurdos por parte do homem, colocando-nos em situações economicamente absurdas, numa aproximação inesperada entre a técnica de ponta e a filosofia do absurdo. 12. Um primeiro exemplo dessa absurdidade reside na expansão inexorável da rede telefônica francesa, cuja subutilização levou não à contenção, mas à criação do sistema Télétel destinado a forçar artificialmente o uso do telefone, suprimindo anuários impressos para obrigar o usuário à consulta técnica. * discute-se a noção de "necessidade" para esclarecer que, mesmo sem necessidade real, o progresso técnico impõe seu próprio uso 13. Um segundo exemplo é o da produção de energia elétrica francesa, cujo excedente após a construção maciça de centrais hidráulicas levou a campanhas de incentivo ao consumo e, posteriormente, ao lançamento do programa nuclear apesar de estudos que já indicavam sua irracionalidade econômica, confirmada décadas depois pela própria comissão oficial. * a absurdidade reside na incapacidade estrutural de avaliar corretamente as necessidades reais, mesmo por parte de técnicos honestos e competentes 14. Um terceiro exemplo é o da televisão e da rádio, cujo imperativo de emissão contínua obriga ao preenchimento constante das grades de programação com mediocridade e novidade permanente, produzindo necessariamente a baixeza generalizada dos conteúdos difundidos à Massa. * o mesmo fenômeno ocorreu com as rádios livres francesas e com a banda cidadã, onde o aparelho técnico existe sem que haja, de fato, algo relevante a comunicar **II. O absurdo econômico** 15. A vida econômica permanece organizada segundo o antigo esquema industrial de investimento, produção e consumo de massa, seja segundo lógica liberal seja segundo lógica socialista, esquema que se choca hoje com as novas exigências técnicas de produtividade. 16. A automatização e a informatização elevaram as possibilidades de produtividade a níveis quase absolutos, tornando o trabalho humano cada vez mais dispensável e conduzindo previsivelmente a um desemprego de proporções absolutas nas próximas décadas. 17. A lógica econômica permanece inalterada apesar dessa mutação, persistindo a ilusão de que a retomada econômica resolverá o desemprego, quando na verdade a maior parte dos novos bens produzidos, como fornos de micro-ondas e vídeo cassetes, reduz-se à categoria do gadget, sem correspondência a necessidade real. 18. A vantagem competitiva obtida por um país pioneiro na produção informática, como o Japão, revela-se ilusória assim que os demais países industrializados passam a imitá-lo, colocando a questão inescapável de a quem, afinal, vender tais produtos. 19. Instala-se assim uma contradição próxima do delírio entre as economias desenvolvidas, condenadas a multiplicar falsas necessidades e gadgets, e a economia do terceiro mundo, que não consegue satisfazer necessidades vitais, sendo absurdo pretender integrar esses países ao mesmo circuito industrial que já demonstrou seus resultados perversos. 20. Esse sistema econômico erratico decorre da aceitação integral do primado da inovação técnica, tornando insensata a crença de que o computador possibilitaria a decolagem econômica do terceiro mundo. 21. Ao gasto cotidiano habitualmente denunciado soma-se o desperdício inelutável produzido pela própria técnica, exemplificado pela substituição constante de aparelhos ainda funcionais e, sobretudo, pela renovação permanente do armamento militar, cuja produção representa desperdício puro, seja utilizado seja descartado. 22. Existe ainda o desperdício de elementos essenciais à vida humana, como ar, água, espaço e tempo, sem valor econômico direto, mas sistematicamente sacrificados e ocultados pela lógica técnica. 23. Um terceiro tipo de desperdício, aparentemente menos trágico, manifesta-se em espetáculos puramente técnicos como as corridas de Fórmula 1 ou as regatas oceânicas, cujos custos exorbitantes se justificam por melhorias técnicas destinadas na prática a um número ínfimo de privilegiados. 24. A absurdidade econômica atinge seu ápice na imensidão dos números envolvidos, como o déficit orçamentário americano e o endividamento fabuloso e irreembolsável dos países do terceiro mundo, decorrentes diretamente da rapidez da expansão técnica e não de qualquer organização econômica particular. 25. Constata-se que há em circulação recursos monetários excessivos para que possam servir racionalmente a qualquer finalidade, evidenciado também pelo peso esmagador dos gastos militares sobre praticamente todos os países do mundo. 26. A crença de certos políticos e economistas de que a tecnologia avançada resolveria o desemprego e conduziria a um crescimento universal constitui um diagnóstico equivocado, pois não se trata de um impasse econômico, mas de uma desordem generalizada de natureza quase religiosa. **III. O absurdo humano da técnica** 27. Questiona-se filosoficamente se a técnica torna o homem mais humano, tal como acreditava Teilhard de Chardin, quando na verdade, como demonstrado pela arte moderna, ela produz uma ruptura radical com o projeto humano milenar de sentido, beleza e harmonia. 28. A incapacidade demonstrada por eminentes cientistas em definir qual modelo humano seria desejável diante das manipulações genéticas revela que não se sabe verdadeiramente o que significa tornar o homem "mais humano". 29. O tipo humano efetivamente produzido em massa pelas técnicas correntes é o homem fascinado, alucinado e diversificado pela multiplicação das imagens, pela intensidade dos ruídos e pela dispersão das informações. 30. O crescimento generalizado do ruído na música moderna e o desenvolvimento do walkman revelam um homem intoxicado que não suporta mais viver sem esse ruído esmagador, incapaz de escapar desse magnetismo que o impede de perceber o mundo exterior. 31. A mesma dinâmica ocorre com a invasão das imagens publicitárias móveis e agressivas, que dispersam e diluem o homem num universo factício, sem permitir reflexão ou deliberação, revelando através de seus temas de violência e falsa convivialidade as carências reais do homem moderno. 32. O computador torna-se assistente indispensável justamente porque o excesso de informação ameaça desinformar, mas isso significa também que o homem é despossuído de seu poder específico de escolha e composição subjetiva da informação, essencial à verdadeira decisão. 33. Esse ambiente de ruído e imagem tão invasivo impede o homem de viver segundo a distanciação e a reflexão, confinando-o ao modo da imediaticidade e da ação hipnótica, três características do absurdo em sentido existencial. **IV. Conclusão** 34. Não se trata de afirmar que o homem ou a sociedade sejam absurdos em si, posição de ordem metafísica, mas que estamos, no sentido filosófico, tornando-os absurdos, numa experiência inteiramente nova na história da humanidade. 35. Não existe filosofia da técnica possível, tampouco cultura técnica genuína, pois a técnica não tem relação com a sabedoria, exprimindo antes a hybris, uma desmedida que se produz sem que o homem a queira e que ultrapassa sua própria capacidade de registro, tornando necessário que sejam os próprios aparelhos a registrar o que outros aparelhos produzem. 36. O homem é assim posto fora de jogo por seus próprios engenhos, incapaz de construir uma filosofia da técnica, dado que qualquer construção filosófica elaborada a partir de determinado estágio técnico perde rapidamente todo sentido diante da velocidade e da mutação qualitativa constante. 37. Diante dessa aventura, o homem tecnicizado revela duas orientações principais: a busca de compensação, geralmente através da fuga para o religioso ou o irracional, como o interesse pela parapsicologia ou pelo misticismo, e a busca de justificação, cuja forma suprema é precisamente a justificação pelo absurdo ou pelo niilismo. 38. O Eu só pode se constituir na tensão dialética entre possibilidade e necessidade, entre liberdade e determinação, sendo desesperado tanto o Eu destituído de possibilidade quanto o destituído de necessidade. 39. Esse jogo dialético foi profundamente perturbado pela universalização da técnica, que se tornou simultaneamente possibilidade absoluta e universal, permitindo realizar tudo que o homem deseja, ao ponto de que, se tudo se torna possível, nada mais é verdadeiramente possível para o Eu. 40. Reciprocamente, a técnica que tudo torna possível converteu-se ela mesma em necessidade absoluta e autofundada, confirmando a antiga tese de que a técnica constitui o destino do homem moderno, expressa popularmente pela fórmula "não se detém o progresso". 41. Diante dessa técnica absoluta e inatacável, o homem não dispõe de nenhuma liberdade real, e é exatamente essa impossibilidade de dizer não que constitui a origem e a chave do desespero fundamental do homem moderno, relacionado à droga e a certos aspectos do movimento hippie. 42. Aqueles que tomam consciência apenas de um dos dois aspectos, seja a liberdade absoluta proporcionada pela técnica, seja o determinismo absoluto da história, chegam a conclusões igualmente esmagadoras, seja a responsabilidade total e desumana por todos os males do mundo, seja a escravidão sob a "língua de madeira" que expressa o desaparecimento da consciência. 43. O absurdo definitivo e sem saída manifesta-se quando se toma consciência simultânea de que aquilo que poderia libertar o homem é exatamente aquilo que se tornou sua fatalidade, e que a necessidade se converteu na única possibilidade humana, constituindo essa identidade a verdadeira ontologia do mundo forjado pela técnica. {{tag>Ellul técnica}}