====== Marcuse e os Estudos da Técnica ====== //FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.// 1. Ciência e tecnologia colocam problemas distintos para a teoria de Marcuse que ele próprio não distinguiu claramente, sendo possível compreender sua abordagem da tecnologia de modo relativamente direto, desde que se mostre como suas categorias filosóficas se articulam com o novo campo dos estudos sobre tecnologia. * o discurso próprio de Marcuse possui ressonâncias filosóficas e políticas que não podem ser duplicadas no nível sociológico, tampouco pode a pesquisa contemporânea sobre tecnologia limitar-se exclusivamente ao nível de abstração marcuseano 2. O movimento ambientalista e a informatização da sociedade colocaram-nos em contato com a tecnologia de maneiras não antecipadas por Marcuse, tornando muito mais evidente a contingência do design em relação a escolhas sociais e políticas. * sociólogos e historiadores da tecnologia demonstraram que as aplicações técnicas emergem não de princípios abstratos, mas de disciplinas concretas aplicadas em contextos sociais, moldadas por atores dotados do poder de definir problemas e selecionar soluções segundo seus interesses e ideologia 3. Embora Marcuse jamais tenha desenvolvido conceitos nesse nível sociológico concreto, ofereceu uma interpretação mais abstrata da racionalidade tecnológica aplicável a contextos sociais, encontrando-se em correntes como o construtivismo social, a teoria do ator-rede e o estudo dos grandes sistemas técnicos antecipações e convergências úteis para traduzir suas intuições numa sociologia radical da tecnologia. 4. A noção de que o design tecnológico é decidido por atores socialmente situados, e não por princípios de eficiência ou científicos, assemelha-se à crítica marcuseana da neutralidade da tecnologia, indo Marcuse além dos estudos técnicos atuais ao enfrentar as implicações políticas dessa não neutralidade e ao exigir critérios normativos para julgar seus resultados. 5. Essa abordagem do viés social das decisões técnicas pressupõe dois princípios construtivistas adicionais, a subdeterminação técnica do design e a flexibilidade interpretativa dos artefatos, pressupostos que Marcuse já assumia implicitamente como base de sua própria noção de reconstrução da base técnica. 6. A teoria do ator-rede propõe o conceito de delegação, segundo o qual um valor pode encarnar-se tanto discursivamente como imperativo moral quanto tecnicamente através de escolhas de design que impõem determinado comportamento, podendo Marcuse ser lido como oferecendo a versão macro dessa tese micro segundo a qual normas se incorporam aos dispositivos e roteirizam o comportamento. 7. A teoria dos grandes sistemas técnicos explica como tecnologias como a energia elétrica e a aviação vinculam populações inteiras em relações causais e simbólicas, encontrando paralelo tanto na noção heideggeriana de enquadramento quanto na versão marcuseana desta, acrescentando Marcuse uma perspectiva necessária sobre as implicações políticas dessa sistematização social. 8. Esses exemplos demonstram que Marcuse permite extrair dos estudos tecnológicos conclusões mais radicais do que o habitual, sendo a tarefa filosófica relacionar diferentes níveis de abstração em vez de reivindicar falsa concretude para fatos empíricos cujo sentido depende de elementos não factuais como tradições, imaginário e contexto social global. 9. Nessa direção, propõe-se o conceito de código técnico para explicar de modo sociologicamente mais concreto a noção marcuseana de racionalidade tecnológica, consistindo esse código nos imperativos sociais fundamentais internalizados por uma cultura técnica sob a aparência neutra de padrões e especificações. * as disciplinas técnicas vivem numa ignorância bem-aventurada de seu próprio passado, proclamando autonomia enquanto historiadores revelam os atos de poder que efetivamente as moldaram 10. Essa teoria dos códigos técnicos tem implicações para a relação entre tecnologia e valores, tornando insustentável a concepção weberiana da tecnologia como empreendimento livre de valores, e questionando a compreensão usual dos valores como meros sentimentos subjetivos opostos a fatos sólidos. * Marcuse relativiza essa distinção ao sustentar que os valores aparecem como tais, e não como fatos técnicos, apenas na medida em que foram excluídos da realidade pelos interesses de uma organização social repressiva, podendo a tecnologia acomodá-los caso libertada dessas restrições 11. Pode-se reformular essa intuição afirmando que o design incorpora apenas um subconjunto dos valores circulantes na sociedade, permanecendo os demais no plano discursivo, sem que ambas as formas estejam irremediavelmente separadas, podendo valores ditos ideológicos ingressar no domínio técnico através de diferentes escolhas de design impostas por relações de força política distintas. * esse argumento reveste-se de particular importância para o ambientalismo, cuja oposição conservadora costuma contrapor espuriamente a tecnologia racional a valores supostamente irracionais, emocionais ou ideológicos 12. Imperativos sociais fundamentais como a proteção ambiental começam a configurar uma racionalidade tecnológica alternativa no sentido marcuseano, constituindo o a priori tecnológico incorporado aos dispositivos e sistemas que emergem de determinada cultura e reforçam seus valores básicos. * embora excessivamente geral, a afirmação de Marcuse de que valores afirmativos da vida são internos à tecnologia pode receber conteúdo concreto através dos códigos técnicos, cada qual afirmando a vida dentro dos limites do conhecimento técnico e da estrutura repressiva do regime dominante * mediações éticas e estéticas desempenham papel essencial nesse processo, integrando princípios técnicos a um design coerente com valores sociais e naturais, sendo o capitalismo caracterizado pela redução progressiva dessas mediações sempre que conflitem com o interesse pecuniário estrito 13. Esse processo redutivo constitui a fonte da aparente purificação da racionalidade tecnológica na modernidade, e não, como sustentam Weber e Habermas, a emergência de uma essência original da tecnologia a partir do magma social indiferenciado das sociedades pré-modernas. * a singularidade do capitalismo reside em ter sido o primeiro sistema social a reprimir a população principalmente através da tecnologia, e não da religião, do ritual ou da violência, tratando-a como essencialmente neutra e não governada por um logos inerente, podendo por isso a tecnologia capitalista "neutra" ser dita política sem mistificação nem risco de confusão {{tag>Feenberg técnica Marcuse}}