====== Techne como revelação ====== //FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.// 1. O diagnóstico heideggeriano de nossa época difere fundamentalmente do de Adorno, Horkheimer e Weber, que aceitam a distinção de senso comum entre racionalidade substantiva e formal, tendo Weber assumido a subjetividade última dos fins, tal como tendemos a fazer numa sociedade moderna sem consenso racional universal sobre sentido e valor. * a fé grega num logos objetivo há muito foi refutada pela ciência moderna, permanecendo a nostalgia do logos em Adorno e Horkheimer apenas isso, nostalgia, esperando eles a redenção do Iluminismo não na recuperação do logos, mas numa consciência reflexiva dos limites e necessidades naturais e humanos 2. Heidegger também acreditava que o triunfo dos meios técnicos neutros sobre o pensamento orientado a fins constitui consequência necessária da condição moderna, mas considerava essa condição historicamente relativa, sendo nossa incapacidade de levar sentido e valor a sério, nosso preconceito favorável ao conhecimento factual, precisamente a marca dessa relatividade que nos faz ignorar o caráter ontologicamente fundamental do ser-no-mundo. * propõe-se assim a tarefa de compreender a techné grega de modo não interno à própria modernidade, tarefa que Heidegger acredita realizável através de uma fenomenologia da existência humana cotidiana 3. A abordagem heideggeriana da techné parte da suposição de que o mundo é originalmente revelado através dela, não preexistindo como coleção de coisas simplesmente dadas e tomadas contingentemente pela atividade técnica humana, sendo mesmo as matérias-primas do trabalho técnico compreendidas a partir de seu lugar na produção, e não como objetos preexistentes. 4. Opera-se aqui algo semelhante a uma redução fenomenológica, suspendendo-se a atitude natural na qual as coisas são dadas objetivamente para permitir que apareçam tal como originalmente reveladas à atividade humana, sendo a própria techné considerada ontologicamente como relação do Dasein com o mundo, e não como interação causal com coisas. * essa inversão de perspectiva não é arbitrária, pois toda sociedade humana conhecida, com exceção da nossa, possui noções equivalentes à ideia grega de techné, atribuindo sentidos objetivos às coisas a partir das práticas subjacentes à sua relação com o mundo, mesmo sem base científica no sentido moderno 5. Deve haver, portanto, algum equivalente fundador também para o mundo moderno, identificando Heidegger esse equivalente com a própria tecnologia moderna, permanecendo porém os modernos singularmente ignorantes da própria ideia de mundo tal como aparece a todos os outros povos e foi teorizada pelos gregos. 6. Considerada como fenomenologia nesse sentido, a análise aristotélica da techné revela uma unidade original subjacente às dicotomias do pensamento objetivista, antecipando a própria análise heideggeriana do ser-no-mundo, o que explica por que "A Questão da Técnica" inicia-se com uma exposição aristotélica da techné. * o ensaio parte da ideia de que a interpretação moderna instrumental da tecnologia é inadequada, havendo algo mais profundo subjacente à suposição usual de que a tecnologia seria mero meio, não sendo a essência da tecnologia, segundo Heidegger, absolutamente nada de tecnológico 7. Prometendo desvelar essa essência através de uma investigação das quatro causas aristotélicas, Heidegger sustenta que a palavra grega traduzida por causa, aition, significa realmente "ser devedor", designando as quatro causas os modos pelos quais uma coisa é devedora de sua existência. * exemplifica-se essa dívida através de um cálice de prata, devedor à matéria de que é feito, ao eidos ou essência que define sua aparência acabada, ao fim ou télos que limita seus possíveis usos e sentidos, e finalmente ao artesão que considera cuidadosamente e reúne essas três formas de responsabilidade e dívida 8. O artesão não é causa do cálice em nosso sentido moderno, mas agente corresponsável por trazê-lo à aparência, ocupando seu lugar na poiésis através de um tipo específico de conhecimento, a techné, que lhe permite reunir as demais causas e completar a obra. * a techné constitui assim modo de revelação na medida em que coloca a obra acabada diante de nós, tornando-a presente, sendo esse modo grego de revelação designado por Heidegger como um "trazer-à-frente", estando a compreensão grega do ser modelada sobre a estrutura da produção artesanal e seu tipo próprio de revelação 9. Essas reflexões constituem apenas o esboço de análises muito mais elaboradas que Heidegger desenvolveu em suas primeiras lições sobre Aristóteles, sendo objeto do capítulo seguinte a interpretação heideggeriana das categorias fundamentais da metafísica aristotélica, como eidos, forma e potencialidade, em termos do conceito de techné. {{tag>Feenberg técnica Marcuse techne Heidegger revelação}}