====== Razão ====== //FEENBERG, Andrew. The ruthless critique of everything existing: nature and revolution in Marcuse’s philosophy of Praxis. Brooklyn, NY: Verso, 2023.// **Um Novo Conceito de Razão?** **As Duas Naturezas** 1. No pano de fundo das críticas heideggeriana e marcuseana à ciência, existe senso de perda da relação imediata com a natureza viva característica dos tempos pré-modernos e relembrada na arte, sendo a representação científica da natureza radicalmente simplificada. * Heidegger escreve que as plantas do botânico não são as flores da sebe, temendo que os seres humanos passassem a ver-se como meros recursos nesse novo mundo tecnológico 2. Ao escrever O Homem Unidimensional, Marcuse também acreditava que a consciência cotidiana correspondia agora à visão de mundo unidimensional da ciência natural, justificando-se a perspectiva distópica desses filósofos pela aceitação aparentemente universal do mundo tecnificado. * o movimento socialista estava morto nos Estados Unidos e o ambientalismo ainda era minúsculo, conservando apenas filosofia, literatura e arte os valores humanos, vasos frágeis para depositar esperanças 3. Benjamin explicou o destino da natureza vivida no contexto da produção cinematográfica, podendo suas observações ser tomadas metaforicamente para a vida moderna: não há imediato que já não esteja mediado pela tecnologia. 4. Se assim é, não há caminho de volta à natureza, mas talvez seja possível avançar, exigindo isso transformação da forma de racionalidade que preside as mediações tecnológicas, daí o chamado marcuseano por novo conceito de razão pertencente a "projeto histórico transcendente". * esse projeto deve estar de acordo com as possibilidades reais abertas no nível atingido de cultura material e intelectual, e sua realização deve oferecer maior chance de pacificação da existência 5. O socialismo corresponde a essas exigências e a dialética marxista o valida racionalmente, oferecendo porém O Homem Unidimensional pouca esperança de sua realização, exigindo o cumprimento desse último requisito revolução social e nova ciência e tecnologia, condições inseparáveis na prática. 6. Ao menos por um tempo, a Nova Esquerda refutou o pessimismo marcuseano, sendo a teoria crítica retransmitida pela consciência difundida de segunda dimensão de propósito e crescimento no contexto de ethos afirmador da vida. * a nova sensibilidade rompeu a reificação na criação artística, na luta e no protesto, exigindo a "União entre arte libertadora e tecnologia libertadora" sob o socialismo, encontrando Marcuse antecipação desse futuro nas proclamações dos estudantes de Belas Artes em Paris 7. Os Manuscritos marxianos inspiraram a noção de nova ciência, escrevendo Marx que a indústria é a relação histórica real da natureza, e portanto da ciência natural, com o homem, perdendo esta sua tendência abstratamente materialista ou idealista e tornando-se base da ciência humana. * o ponto de Marx não é que a ciência dependa do progresso técnico, mas que a tecnologia desvela a natureza em duas formas, à ciência e ao "homem", unindo verdadeira ciência essas naturezas duais erroneamente separadas 8. Nos termos marcuseanos, isso marca o papel das potencialidades na nova ciência, relacionando-se a sensibilidade a potencialidades da natureza correspondentes a necessidades humanas, sendo essa relação imediata na medida em que dada aos sentidos, mas historicamente mediados estes e dotados de aspecto cognitivo. * a base sensível da ciência implica os humanos na natureza não como observadores indiferentes, mas como seres ativos informados pela cultura 9. O ensaio tardio "Natureza e Revolução" argumenta que cada época histórica objetiva a natureza segundo a priori social específico, sendo o a priori capitalista prevalente unicamente destrutivo e assim objeto de luta política, reconhecendo um a priori socialista a natureza como sujeito por direito próprio. * resolve Marcuse essa aparente contradição perguntando se a natureza é apenas força produtiva ou também existe "por si mesma" e, nesse modo de existência, para o homem 10. Marcuse reconhece as implicações "metafísicas" da ideia de "natureza como manifestação da subjetividade", pretendendo, como Kant, evitar a metafísica mantendo algo muito parecido com conceito de teleologia, reconhecendo nossa experiência da natureza qualidades estéticas excluídas da ciência natural. * segue Marcuse a Kant ao interpretar esse aspecto sob a categoria de liberdade, que a natureza exibe onde exibe "capacidade de formar-se a si mesma" 11. O ambientalismo valoriza o senso cotidiano de natureza carregada de potencialidades, lembrando aos seres humanos suas responsabilidades para com ela, tendo essa ideia cotidiana sempre existido, mas fundando-se a ciência moderna em sua rejeição desde Bacon. * Bachelard formulou essa resistência em sua teoria da "ruptura epistemológica", devendo a ciência formar-se contra a natureza, presumindo-se a experiência cotidiana domínio de erro 12. Como todo humano, a experiência é falível, concordando certamente Marcuse que alguns erros devem ser corrigidos pela ciência, mas ampla gama de fenômenos decorre de desvelamento diferente da realidade acessível no mundo da vida. * mais óbvio isso quanto à vida social, mas aplica-se também a disciplinas científico-técnicas socialmente inseridas, adjudicando o conceito marcuseano de afirmação da vida entre fenômenos destrutivos como preconceito e normativamente válidos como proteção ambiental 13. Com essas qualificações, o mundo da vida pode desempenhar papel indireto na revisão da conceitualização científica, retornando como fonte válida de conhecimento capaz de orientar a ciência a preocupações essenciais. * essas potencialidades podem ser portadoras de valores objetivos, envolvidas em frases como "violação da natureza", significando isso que a ação humana ofende contra certas qualidades objetivas da natureza essenciais à intensificação e realização da vida 14. Qual a relação entre verdade "existencial" e "matemática"? essa questão delineia claramente o problema marcuseano: a coordenação entre potencialidades experienciadas e natureza objetiva, pertencendo uma ao mundo da vida e outra às ciências com seu ponto de vista ideal de terceira pessoa. * para Marcuse, a lacuna entre essas disciplinas e a ciência natural deve ser superada, explorando este capítulo suas reflexões sobre arte, ciência e tecnologia **As Leis da Beleza** 15. Os Manuscritos propõem distinção incomum entre seres humanos e animais, não sendo linguagem ou razão, mas estética que marca a diferença, construindo o homem "também segundo as leis da beleza", retornando Marcuse a essa frase várias vezes ao longo dos anos. 16. Esse texto tardio contém outros ecos da interpretação marcuseana do jovem Marx, parecendo Marx ter-se afastado dessa concepção antropomórfica e idealista, ou seria essa noção aparentemente idealista antes a ampliação da base materialista? * o homem é diretamente ser natural, corpóreo, vivo, real, sensível, objetivo, tendo objetos sensíveis reais como objetos de sua vida, sendo essa a extensão do Materialismo Histórico a dimensão vital na libertação do homem 17. Os sentidos humanos percebem propriedades que vão além das qualidades primárias reconhecidas pela ciência natural, incluindo essas propriedades a beleza como "dimensão" real do mundo objetivo, sendo essa dimensão modo erótico de desvelamento articulado tanto no julgamento estético quanto na afirmação da vida. 18. A noção de que a beleza tem "leis" sugere estética objetivista, referindo-se Marcuse a artigo de Morawski em que a posição objetivista se expõe em três princípios: propriedades objetivas dos objetos definem seu valor estético, essas propriedades determinam a experiência estética, e fornecem base para julgamento estético. 19. Marcuse propõe várias versões diferentes de estética objetivista, identificando a beleza com aquilo que "intensifica a vida", tendo as necessidades estéticas conteúdo social próprio: são reivindicações do organismo humano por dimensão de realização negada pela sociedade estabelecida, manifestando-se esse conteúdo na arte. 20. O ensaio tardio "Arte e Revolução" explica a significância cognitiva dessa manifestação: a "verdade" na arte refere-se não apenas à consistência interna e lógica da obra, mas à validade daquilo que diz, revelando e comunicando fatos e possibilidades da existência humana. * nesse sentido, a obra autêntica tem sentido que reivindica validade geral, objetividade 21. Em Um Ensaio sobre a Libertação, Marcuse sugere que Kant deveria ter considerado forma de intuição da beleza ao lado das intuições de espaço e tempo, fundamentando assim a validade da percepção estética na correlação entre consciência e objetividade. 22. O Homem Unidimensional oferece noção mais expansiva desse ver especificamente estético, a "racionalidade da arte", referindo-se à noção hegeliana de "redução estética" que elimina os aspectos contingentes dos objetos de representação para permitir que se expressem livremente. * na Forma estética, o conteúdo é reunido, definido e arranjado para obter condição em que as forças imediatas não dominadas da matéria são dominadas, "ordenadas" 23. A redução cria distância entre arte e realidade, distância na qual mundo idealizado se revela, sendo esse mundo reino de potencialidades no qual o mundo atual se cumpriria caso existissem meios para reconciliar humanos entre si e com a natureza, liberdade com necessidade, sujeito com objeto. * é nesse sentido que a estética contém a resposta às questões colocadas no capítulo anterior: apenas através de fusão entre racionalidade tecnológica e racionalidade da arte podem ciência e tecnologia transcender sua instrumentalização a serviço da dominação 24. Formulado nos termos do Eclipse da Razão de Horkheimer, Marcuse busca transcender a antinomia entre razão "subjetiva", preocupada apenas com meios, e razão "objetiva", que põe fins outrora justificados por metafísica já não crível. * a solução horkheimeriana, a "autocrítica da razão", é demasiado abstrata para satisfazer Marcuse, que busca alternativa social concreta, chamando Reitz sua solução "filosofia da práxis esteticamente orientada" 25. Marcuse elaborou isso em três estágios: primeiro, em O Homem Unidimensional, argumenta pela revisão da racionalidade científico-técnica para incorporar a imaginação estética; segundo, em Um Ensaio sobre a Libertação, argumenta pela possibilidade de realização total da nova racionalidade; terceiro, em "Arte e Revolução" e A Dimensão Estética, reafirma a separação intransponível entre arte e vida. **Arte e o Conceito de Razão** 26. Marcuse imagina história ideal da razão que começa com o livre jogo da imaginação, unindo ciência, filosofia e arte em faculdade unificada, quebrando-se essa forma original de razão de modo que a ciência racionaliza o mundo praticamente enquanto filosofia e arte transcendem esses limites apenas no pensamento. * essa é a diferenciação entre logos e eros subjacente à civilização e que culmina na modernidade capitalista 27. Para Marcuse, filosofia e arte postulam outro estado de ser, mundo erótico orientado ao florescimento da vida, não constrangido pela lógica da dominação, podendo só agora ser vislumbrada uma reunião entre ciência, filosofia e arte graças ao poder da tecnologia moderna. * a famosa sequência de estágios de Saint-Simon, da metafísica à ciência, pode agora ser revertida e os conceitos metafísicos realizados em tipo radicalmente novo de sociedade moderna que Marcuse identifica com o socialismo 28. Que forma tomaria o novo conceito de razão? Marcuse vislumbra renovação do antigo conceito de techné que unia considerações técnicas e estéticas no trabalho artesanal, tendo essa techné duas pressuposições alheias à ciência e tecnologia modernas. * a matéria do ofício era vista como contendo potencialidade para sua própria transformação, e o ofício era orientado por logos no sentido de propósito intrínseco, refletindo-se essas pressuposições na exigência "ultrajante" marcuseana de "libertação da natureza" 29. A beleza artística desempenha agora novo papel, não mais confinada a reino separado de ideais irrealizáveis sem consequências no mundo real, sendo antes suas idealizações apreensão imaginativa de potencialidades capazes de guiar a prática técnica. * a racionalidade da arte, sua capacidade de "projetar" a existência, poderia então ser vista como validada pela e funcionando na transformação científico-tecnológica do mundo 30. Isso poria fim à neutralidade da razão científico-técnica, deixando a ciência de ser subserviente ao capitalismo para ser guiada pela consciência de potencialidades, não sendo a "libertação" da natureza evento externo mas podendo afetar o próprio método científico. 31. Marcuse persegue essas reflexões após os Eventos de Maio de 1968 e a ascensão da Nova Esquerda, argumentando que sua "nova sensibilidade" restaurou relação erótica com o ambiente, tendo emergido em escala massiva "Lebenswelt estético". * sob a revolução cultural, a técnica tenderia a tornar-se arte e a arte a formar realidade, invalidando-se a oposição entre imaginação e razão, emergindo novo Princípio de Realidade 32. A tecnologia socialista perseguiria estratégias idealizantes similares às da arte, sendo miséria, injustiça, sofrimento e desordem removidos não apenas da ilusão artística mas eliminados praticamente por soluções tecnológicas apropriadas. * não haveria retorno ao artesanato pré-capitalista, mas ao contrário, perfeição da nova ciência e tecnologia mutiladas e distorcidas na formação do mundo objetivo segundo "as leis da beleza" 33. Com isso, Marcuse renova a ambição das vanguardas do início do século vinte, esperançosas de superar a separação entre arte e vida em existência estetizada, invocando a noção surrealista de hasard objectif. 34. Conforme a ofensiva da Nova Esquerda recuava, Marcuse tornou-se mais cauteloso, concedendo que a realização da arte na realidade seria sempre incompleta, insistindo em Contrarrevolução e Revolta no estranhamento inevitável da arte. * no ótimo, poderíamos vislumbrar universo comum a arte e realidade, mas a arte reteria sua transcendência 35. Essa é também a posição de sua última obra, A Dimensão Estética, ainda vislumbrando ali a realização das potencialidades estéticas no mundo social, mas mesmo sob essas condições ideais a arte testemunharia os limites inerentes da liberdade e da realização, não havendo "fim da arte". **O Dilema de Marcuse** 36. As especulações mais radicais marcuseanas seguem o chamado marxiano por nova ciência, vislumbrando fusão das duas dimensões em física informada pela estética, realizando-se os altos ideais da arte e filosofia em futura ciência natural. * infelizmente, a retórica marcuseana promete resultados que não pode entregar, havendo dissonância peculiar entre o tom quase escatológico de seu relato e os poucos exemplos, bastante pobres, com que ilustra sua tese 37. Essa estratégia retórica foi eficaz em meio à turbulência social do final dos anos sessenta e início dos setenta, tornando-se claro depois que sua posição sofria de duas falhas sérias. * leitura literal de muitas passagens convida ao ceticismo, tão extraordinárias são suas reivindicações, parecendo a crítica da racionalidade quantitativa implicar validade de ciência qualitativa como a aristotélica, que Marcuse explicitamente rejeita 38. Ambos os problemas são evidentes em passagens onde Marcuse explica a transformação que o método científico deve sofrer numa sociedade socialista, significando a "base sensível de toda ciência" algo mais que verificação empírica: o cientista seria guiado por necessidades sensíveis emancipadas. * é animador saber que Marcuse aprova o "rigor do método científico", mas não é isso precisamente o que reduz o mundo a qualidades primárias? como pode uma "razão de ser" ser inserida em tal mundo? 39. Marcuse propõe duas respostas distintas a essa questão, aparentemente sem registrar a diferença entre elas: sob o socialismo, a "racionalidade científica como um todo" incorporaria ideias antes rejeitadas, sendo isso ciência sucessora. * por outro lado, recorre ao conceito de tradução de Simondon, articulando noção do futuro da ciência e tecnologia através da conquista histórica de traduzir valores em tarefas técnicas, a materialização de valores 40. A frase final dessa passagem parece prometer ciência sucessora, mas a aplicação da ideia de tradução à tecnologia sugere abordagem mais plausível, oferecendo o próximo parágrafo exemplos que desinflam as expectativas: quantificar valores como recursos necessários para libertar do desejo. * não há nada de novo nisso, consistindo apenas em calcular meios para fins escolhidos sem questionar os próprios meios 41. Vários outros indícios são oferecidos para explicar a significância concreta da fusão entre arte e tecnologia, mas nenhum é muito convincente, mencionando Marcuse parques e reservas, cultivo das potencialidades naturais, objetos artesanais significativos, estetização de bens de consumo. * um intérprete descaridoso poderia encerrar o caso aqui, elevando-se a retórica a alturas improváveis e descendo, na hora de pagar a conta, às profundezas da banalidade, não podendo porém Marcuse ser tão facilmente descartado **Ciência Sucessora e Tradução** 42. Marcuse antecipa o que Kuhn chama "revolução científica", que derrubaria a ciência tal como a conhecemos, baseando-se a ciência normal em "paradigma" que funciona como fundamento a priori. * ao definir entidades aceitáveis em termos de "relações calculáveis e previsíveis" e assim excluir potencialidades, a ciência abandona seu logos original, o serviço à vida 43. Sob o socialismo, o logos retornaria: a beleza seria o a priori de nova construção do objeto que restauraria o logos concedendo validade epistêmica às potencialidades, evoluindo ciência sucessora estetizada da física contemporânea. * existe porém algo incoerente nessa ideia de nova revolução científica, levando a ciência natural tripla vida: como métodos científicos, como visão de mundo, e como consciência unidimensional, não havendo conexão intrínseca entre os métodos, que permanecem os mesmos, e a visão de mundo correspondente, que se transforma 44. Terá Marcuse deixado de atentar para a separação estrita entre investigação filosófica e factual alcançada pelo neokantismo e pela fenomenologia? sugere seu argumento por revolução científica certamente retorno à metafísica, reivindicação filosófica ao conhecimento de fatos. * a tentativa marcuseana de validar fenomenologicamente sua ciência futura imaginada introduz outros problemas sem resolver este 45. Como observa Ian Angus, Marcuse depende da reivindicação husserliana de que o retorno do conteúdo perdido do Lebenswelt pode curar a ferida infligida pelo naturalismo científico, mas a natureza da ciência moderna proíbe tal retorno ao concreto. * a formalização do ser que o torna matematicamente calculável não pode ser compensada com o conteúdo concreto do qual foi abstraída, cortando a formalização a conexão ao conteúdo e substituindo variáveis abstratas por objetos concretos 46. Exemplo esclarece o ponto de Angus: o referente de d na equação física distância igual velocidade vezes tempo é qualquer e toda medida possível de separação espacial, excluídas todas as qualidades concretas. * distingue Angus isso das meras generalizações, que podem ser preenchidas com conteúdo perdido, concluindo que a tentativa de infundir a ciência natural com o conteúdo da percepção estética está condenada ao fracasso 47. Não há de fato caminho de volta da "fonte" do geógrafo à "nascente no vale", mas a "fonte" é construção definível em termos dos valores associados ao conceito vernacular de "nascente", podendo a pureza da água identificar-se como aspecto significativo dessa construção. * há conexão entre os dois objetos, o experiencial e o científico, mas essa conexão se estabelece por tradução, não por fusão de atitudes incompatíveis quanto à natureza 48. Isso é evidente no caso da mudança climática, prevendo a ciência desastre civilizacional em cálculos numéricos e gráficos neutros, igualmente úteis a investidores buscando lucros da mudança climática e ao público buscando sua mitigação. * como Marcuse explica, essa neutralidade favorece o que Adorno chama "os canhões grandes", os investidores em vez do público 49. Algo mudou porém que Marcuse não antecipou: a ciência não transcendeu seus limites, mas seu foco evoluiu em resposta à preocupação social por mundo habitável, intervindo novo "projeto" que não corresponde aos imperativos capitalistas. * articulado em opinião pública, protestos e reflexão filosófica, traduzido pela ciência em termos científicos, modificando a tradução o objeto da ciência para incluir aspectos antes ignorados 50. Claramente, precisamos de ambas as interpretações da natureza, a científica e a não científica, não sendo a ciência sozinha suficiente pois suas explicações abstraem do sentido humano de seu objeto. * "minhas fibras C estão disparando" não equivale a "estou com dor", sendo uma afirmação de fato baseada em abstração científica e a outra também pedido de socorro implicando contexto social concreto ausente da neurobiologia 51. Onde tais proposições se encontram, como na medicina ou na ecologia, segue-se "o fazer", como diz Marcuse em sua discussão do sentido existencial da verdade, seguindo-se o fazer da reflexão sobre a situação revelada pela ciência apenas se seus objetos forem apropriadamente construídos por consciência afinada aos "instintos de vida". 52. Ciência e experiência ambas surgem da complexidade infinita do mundo da vida, mas focalizam aspectos diferentes, devendo o fato de compartilharem a mesma fonte possibilitar comunicação entre elas, preocupando-se Marcuse com o rompimento dessa comunicação. * restaurar o status epistêmico da experiência concreta é assim essencial à compreensão plena **Um Experimento** 53. Marcuse falha em encontrar concretização plausível da física, caindo com isso sua estratégia na revisão filosófica da razão, saindo-se melhor seu argumento político sobre tecnologia, mas omitindo, exceto quanto à ciência da administração, mediação essencial: as muitas disciplinas científico-técnicas socialmente inseridas. * disciplinas como medicina, contabilidade, meteorologia, enfermagem, arquitetura e muitas outras são o fundamento daquilo que se chama "tecnossistema" que organiza a vida moderna 54. A diferença tem a ver com o alcance de considerações que essas disciplinas socialmente inseridas traduzem, contendendo estas com relações múltiplas em muitos registros diferentes, podendo alcançar "concretude" em sentido hegeliano-marxista, síntese de muitas determinações. * essas traduções são objetivações no sentido marxiano do termo, tendo entre 1844 e o presente o trabalho sido transformado pela intervenção dessas disciplinas científico-técnicas 55. As intervenções públicas nos objetos dessas disciplinas traduzem entre a natureza "mais estreita" e a "mais ampla", entre natureza científica e natureza do mundo da vida, determinando a escolha entre esses objetos sua relação com "a recuperação das forças intensificadoras da vida na natureza". * chama Marcuse isso "materialização" dos valores no design tecnológico, sendo na crítica dessas disciplinas que suas preocupações filosóficas e políticas se encontram 56. Neste capítulo, tentar-se-á experimento com os conceitos marcuseanos: aplicar suas noções de tradução e ciência sucessora, potencialidade e concreto dialético, universais formais e substantivos, não à física mas às disciplinas científico-técnicas que efetivamente organizam a vida hoje. * isso é afastamento do pano de fundo husserliano da crítica marcuseana da ciência, permitindo mostrar tanto os limites quanto a relevância de sua abordagem 57. Os limites são óbvios, considerando-se o tremendo desenvolvimento da pesquisa em estudos de ciência e tecnologia desde a época de Marcuse, sendo sua reivindicação de que a ciência moderna foi moldada pelo capitalismo antecipação filosófica da crítica construtivista da "tecnociência". * embora o construtivismo tenha entrado na filosofia principalmente em torno de questões epistemológicas, suas implicações para a filosofia social são igualmente significativas, tendo estudiosos feministas e pós-coloniais demonstrado o viés de gênero e raça da ciência 58. A conexão entre ciência e sociedade estabelecida por Marcuse em bases fenomenológicas é agora verificada empiricamente nos estudos de ciência e tecnologia, tendo Callon estudado o papel das lutas sociais na orientação da pesquisa, e Jasanoff desenvolvido teoria da "coprodução". * talvez a contribuição mais próxima das visões marcuseanas seja a teoria da ciência "pós-normal" de Funtowicz e Ravetz, argumentando que as ciências "socialmente inseridas" envolvem incerteza e risco, advogando por "comunidade estendida de pares" 59. Katharine Farrell argumenta que a ciência pós-normal pode ser interpretada como manifestação da nova modalidade de ciência prevista por Marcuse, aparecendo semelhanças ao traduzir-se para a linguagem filosófica marcuseana. * a referência a partes interessadas públicas sugere o retorno do mundo da vida como fonte de conhecimento válido, relacionando-se a dificuldade de separar fatos de valores à incerteza das atribuições de potencialidades 60. Propõe-se ir mais além e argumentar que a "pós-normalidade" aplica-se onde quer que disciplinas tenham efeitos imediatos sobre o mundo social e vice-versa, servindo as disciplinas socialmente inseridas dimensões valorativas da experiência inscritas nos objetos que constroem. * o termo "tecnociência" aplica-se apropriadamente a algumas dessas disciplinas, sendo mais óbvio isso em campos como a pesquisa farmacêutica, onde ciência e produto comercial emergem simultaneamente do laboratório 61. Número crescente de disciplinas similares às tecnociências participa da tecnificação da sociedade sem serem propriamente ciências, emulando a ciência da administração e outras disciplinas de controle social a ciência sem base metodológica requerida. * diferentemente das ciências naturais, essas disciplinas têm impactos causais imediatos e não intencionais sobre seus objetos 62. Apesar da dissolução da Nova Esquerda nos anos setenta, emergiu nos anos recentes tanta resistência a políticas que governam vasta gama dessas disciplinas socialmente inseridas que os temores distópicos marcuseanos já não parecem justificados. * contrariamente às suas expectativas, o desafio real historicamente ativo não envolve a ciência física mas as muitas disciplinas efetivamente em questão nas lutas sociais, emergindo a natureza experiencial em meio ao mundo tecnológico não como imaculada mas como danificada e perigosa 63. Como visto no capítulo 4, Marcuse estava ciente do movimento ambientalista emergente dos anos setenta e o discutiu positivamente em dois discursos tardios, sendo seu argumento primariamente político, referenciando a guerra freudiana entre eros e thanatos. * o capitalismo é força destrutiva contraposta pela "politização da energia erótica" em defesa da natureza e de vida pacífica e realizadora 64. Esses discursos mostram que o foco marcuseano na estética pertencia a projeto maior aplicável não apenas à física mas a todas as ciências implicadas na sociedade moderna, significando a estética os impulsos afirmadores da vida negados pela sociedade existente. * hoje, conceito normativo de vida desafia o mundo tecnificado, sendo o movimento climático o nexo contemporâneo entre essa noção de estética e a política da tecnologia 65. Sua própria presciência levanta questão: por que Marcuse não estendeu sua crítica a todas as disciplinas científico-técnicas que engajam o mundo social? revelando as várias disciplinas que abordam o ambiente social e natural dimensões da realidade ocultas à física. * a abordagem fenomenológica marcuseana poderia ter validado a multiplicidade de verdades reveladas por essas disciplinas, mas ele persistiu em sua visão de transformação futura da física supostamente capaz de abarcar essa multiplicidade 66. A resposta talvez tenha a ver com o papel da física como ciência paradigmática, tendo desempenhado, durante e após a Segunda Guerra, papel dramático no mundo comensurável com sua significância filosófica, parecendo que a ciência natural mais básica era também a fonte última dos problemas sociais mais básicos. * dado o prestígio exorbitante da física e a fraqueza das lutas sociais sobre ciência e tecnologia, tal noção era plausível no período em que Marcuse desenvolveu suas ideias 67. Posteriormente, pequenos movimentos de profissionais radicais em ciência, engenharia, medicina e planejamento foram inspirados pela Nova Esquerda, mas Marcuse falhou em teorizar sua significância como tentativas inovadoras de criar ciências sucessoras em seus campos. * em sua estimativa, a reconstrução da razão científica era tarefa para futuro socialista distante, focalizando-se em movimentos contemporâneos mais relevantes contra a guerra e a discriminação, vendo-se isso como oportunidade perdida significativa **Construção do Objeto** 68. No capítulo 3, argumentou-se que Marcuse segue o precedente da filosofia antiga ao relacionar valores éticos à racionalidade, o logos, citando a associação entre arte e técnica, ambas significadas pelo termo "techné" no grego antigo. * o ponto dessa referência aos gregos não é provar a validade dos valores mas mostrar que são ou deveriam ser concebidos como potencialidades guiando a prática técnica 69. Platão reivindica que o artesão autêntico é guiado por logos, consistindo este, no caso da medicina, na ideia de saúde e nos meios de provê-la, distinguindo Platão techné própria de mera coleção de regras práticas como a "culinária", que carece de logos. * meios neutros indiferentes a qualquer fim próprio são empregados por impostores, como oradores e maquiadores, que lucram de simulacros das conquistas do argumento moral e do exercício saudável 70. Em certo aspecto, a teoria platônica é bastante moderna, embora formulada objetivistamente, não em nossos termos neokantianos, não sendo difícil ver que está na verdade explicando a construção do objeto de disciplina técnica ao distinguir o objeto "verdadeiro" de simulacro falso. * o objeto da medicina não está simplesmente lá, aguardando ser descoberto, mas é ativamente construído através de experimentos, conjecturas e escolhas 71. No capítulo 5, mostrou-se que Husserl, Heidegger e Marcuse compartilham a noção moderna de construção do objeto aplicada à ciência e tecnologia, sustentando, como Platão, que cada campo de pesquisa define tipo específico de objeto através de seus métodos e conceitos. * contendem que tal corte transversal adquiriu significância ontológica na sociedade moderna como definição do próprio real: o objeto da física agora prevalece como o próprio ser 72. Kant argumentou que a conexão entre ciência e ser depende de sujeito "transcendental", inventando a abordagem transcendental como operação que o sujeito realiza sobre os dados da experiência, sendo essas formas transcendentais impostas pela mente ao conteúdo bruto das sensações. * mas Husserl, Heidegger e Marcuse concordam que as formas são mutáveis, confinada sua universalidade a período histórico específico, atribuindo Marcuse as mudanças à evolução dos modos de produção 73. Em O Homem Unidimensional, crítica de inspiração fenomenológica do objeto da física explica o conceito prevalente de razão, recorrendo Marcuse à noção husserliana de que a fonte dos conceitos científicos reside no refinamento de ideias e práticas circulantes no mundo da vida. * sendo o mundo da vida capitalista orientado à dominação e exploração de seres humanos e natureza, a ciência incorporou essa herança prática em sua estrutura conceitual 74. Como Marcuse aponta, essas não são as únicas práticas técnicas possíveis, exigindo a técnica ao longo da maior parte da história cultivo cuidadoso, habilidades artesanais e capacidade artística, todas formas de reconhecimento das potencialidades dos materiais. * aquilo que Husserl chama ciência "galileana" dá poder sobre as coisas que explica enquanto elimina qualquer noção de potencialidade que pudesse guiar interação reconhecedora com elas 75. Argumenta-se aqui que a ciência não pode ser redimida pela introdução de potencialidades como novo tipo de dado, nem é possível reverter geralmente a formas anteriores de práticas técnicas, pertencendo o controle à essência da ciência moderna, mas podendo ser contextualizado por potencialidades nas construções de objeto de disciplinas socialmente inseridas. 76. Consideremos brevemente os modos diversos pelos quais a medicina constrói seu objeto, não aplicando esta apenas princípios técnicos ao corpo em sua imediaticidade, mas organizando esses princípios em torno de concepção específica do corpo como objeto. * descreve Levi-Strauss sistema médico indígena que emprega narrativa falada da luta do paciente com a doença, sendo os objetos curativos meros adereços na história narrada, atestando a "eficácia simbólica" de tal narração aqueles que ela cura 77. A medicina moderna também vem carregada de conteúdo valorativo implícito que não depende de desiderata subjetivo de usuário, mas flui de crenças e práticas culturais inscritas em concepção do corpo médico, sinalizando-se saúde e doença por exame de sangue. * nada há de "humano" nesses resultados que parecem lista de medições objetivas quaisquer, mas dentro da ciência médica o exame mede apenas parâmetros correspondentes ao bem-estar do corpo humano como todo vivo 78. Diferentemente do objeto da física, que se relaciona a pura instrumentalidade em sistemas físicos, o objeto da medicina contém referência teleológica implícita afirmadora da vida, aparecendo nesse contexto a saúde, o logos da medicina, como potencialidade do corpo humano dentro da ciência. **A Estrutura das Revoluções Tecnocientíficas** 79. Hoje, em medida muito maior que na época marcuseana, a "verdade existencial" intervém para introduzir novos objetos científicos refletindo potencialidades antes ignoradas, sendo campos como medicina, ciência da computação, engenharia e ecologia cada vez mais constrangidos a construir seus objetos segundo normas impostas por movimentos sociais. * as interações entre experiência e disciplinas socialmente inseridas engajam assim coconstrução mútua 80. O processo de crítica e reconstrução reflete situação histórica particular, tendo tecnologia e disciplinas socialmente inseridas evoluído ao longo de séculos em ambiente capitalista influenciado pelas preocupações dos proprietários capitalistas. * como resultado, as disciplinas desenvolveram pontos cegos, chocando-se com as necessidades de trabalhadores e comunidades excluídos do processo 81. Apenas no mundo da vida os efeitos indesejáveis do viés das disciplinas tornam-se visíveis, antecipando Platão, interessantemente, nossas noções atuais: na República, escreve que o usuário deve saber mais sobre o desempenho da coisa que usa e deve reportar seus pontos bons ou maus ao fabricante. * usuários, e deve-se acrescentar vítimas, de arranjos técnicos trazem à luz fenômenos ocultos aos "fabricantes" e através de seus protestos inspiram desenvolvimento progressivo 82. Essa dinâmica justifica intrusões no mundo da ciência que violam sua presumida autonomia, tendo sido esse de fato o papel dos protestos operários em estimular a transformação radical marxiana da ciência econômica, podendo argumentar-se que O Capital é a ciência social sucessora original. * Marcuse tentou prolongar a crítica marxiana para esboçar os contornos de futura ciência natural sucessora, não tendo sido bem-sucedido nesse projeto, embora sua crítica da teoria weberiana da racionalização estenda de fato a abordagem marxiana às ciências sociais modernas 83. Existe diferença significativa entre a crítica marcuseana da ciência natural e da ciência socialmente inserida da administração discutida em seu ensaio sobre Weber, aplicando ambas a noção de construção do objeto, mas concernindo esta última não ao ser enquanto tal. * a exigência capitalista de controle a partir de cima é reificada, tratada como restrição natural, embora historicamente contingente na separação entre trabalhadores e meios de produção 84. O que é verdade para a ciência da administração aplica-se igualmente a muitas outras disciplinas socialmente inseridas, baseando-se em padrões particulares de comportamento observados na vida cotidiana da sociedade, refinados e formalizados esses materiais vernaculares em conceitos técnicos. * embora reivindiquem o mesmo status neutro da ciência natural, seu viés deve-se a características específicas das relações sociais capitalistas incorporadas a seus objetos 85. Assim como Marcuse critica a teoria weberiana da racionalização, pesquisadores críticos nesses campos expõem as restrições socioeconômicas ocultas que reificam os objetos de suas disciplinas, abrindo a crítica novos objetos de pesquisa refletindo potencialidades negligenciadas. * os novos objetos são formalmente indistinguíveis dos objetos neutros da física, mas sua construção específica os coloca a serviço de potencialidades que sua tradição disciplinar negligenciou 86. Escrevendo um pouco depois de Marcuse, Foucault formulou a nova situação de profissionais em campos contestados como esses, introduzindo o conceito de "intelectual específico" para significar a resistência nas ciências. * menciona Foucault, por exemplo, Oppenheimer, que liderou a criação da bomba atômica e depois clamou por desarmamento, podendo caso similar fazer-se hoje quanto aos profissionais de computação que criaram a internet 87. O sucesso desses dissidentes científicos em remodelar sua disciplina frequentemente depende de pressão pública, encontrando-se ciência e sociedade através de protesto público e diálogo, política e tradução, formando embora institucionalmente diferenciadas um todo único. * a coconstrução, interação do público com as ciências, transgride a diferenciação entre teoria e prática, levando a apropriação vernacular do conhecimento teórico a concepção mais rica do objeto 88. Dessa forma, a ciência responde a questões propriamente epistêmicas colocadas por pesquisadores enquanto simultaneamente aborda outras questões colocadas por corporações, governos e o público, sendo essas todas questões legítimas segundo Stengers. * como demonstrou o movimento ambientalista, podem frequentemente reconciliar-se em torno da reconstrução do objeto de pesquisa e das tecnologias correspondentes 89. Essa compreensão da ciência dá novo sentido à reivindicação husserliana de que a essência da ciência é método, não ontologia unidimensional, não havendo fundamento único ao qual tudo se reduza, nem verdade singular do todo. * a ambição marcuseana de derivar novo conceito de razão a partir de transformação da ciência natural estava equivocada, tendo emergido multitude de objetos na consciência pública, introduzindo a tecnociência polifonia de razões 90. A interação entre experiência e ciência orienta o trabalho científico e responde à exigência marcuseana de que a ciência recupere noção de potencialidade, podendo chamar-se essas transformações das tecnociências "revoluções" no sentido kuhniano. * embora não mudem o método científico tão radicalmente quanto os exemplos de Kuhn, mudam a noção científica dos "tipos de entidades que o universo contém", provocando muitas pequenas "revoluções" nas disciplinas socialmente inseridas **Racionalidades Comunicantes** 91. Nesta seção, argumenta-se que o conceito de racionalidade deve ser revisado para dar conta do papel da tradução na construção do objeto, constituindo linguagem técnica e cotidiana duas instâncias diferentes de racionalidade, não incomensuráveis mas comunicando-se frequentemente. * a comunicação entre elas é essencial ao bem-estar tanto da ciência quanto da sociedade, tendo particular relevância para questões ambientais 92. A natureza que ambientalistas esperam proteger é aquela em que todos participamos: a natureza experiencial encontrada na vida cotidiana, tendo aspecto teleológico que a ciência não reconhece, dependendo porém para seu bem-estar de conhecimento científico e técnico imbricado em linguagem e história. 93. "Poluição", por exemplo, foi a princípio categoria sagrada, purificada de conteúdo normativo por cientistas estudando o ambiente, veio o termo a representar a presença de certos compostos químicos no ar e na água, tendo esse conceito científico entrado no vernáculo. * ali, recebe novamente conteúdo normativo, concebendo-se agora a natureza como doente ou saudável, abusada ou protegida, avaliando-se sua condição em termos de potencialidades que servem como critérios normativos 94. É paralogismo contrastar essas potencialidades, reduzidas a valores, diretamente com os fatos científicos, não sendo as primeiras "subjetivas" e os segundos "objetivos", havendo complementaridade entre ciência e mundo da vida corretamente entendida. * o próprio termo "potencialidade" tem equivalente científico: "energia potencial", energia latente mas liberável, havendo intuição comum por trás de ambos os conceitos, mas com significados sutilmente diferentes 95. A energia potencial pode ser quantificada, mas apenas porque troca precisão e legalidade pela liberdade que confere à potencialidade filosófica relação com o novo, com a transcendência do dado, sendo além disso a energia potencial vazia de intenção teleológica intrínseca. * se apenas o conceito científico for considerado válido, torna-se difícil articular a exigência de mudança social, aparecendo agora como mero "valor" subjetivo, sendo esse suposto valor, do ponto de vista marcuseano, o traço na linguagem unidimensional do potencial para nova organização social 96. Na prática, o respeito às potencialidades traduz-se em linguagem científico-técnica para engajar os sistemas técnicos da sociedade moderna em preservação e reparo, mostrando a interação entre leigos e especialistas que a barreira entre senso comum e ciência moderna não é absoluta. 97. Considere-se o exemplo da crise da água iniciada em 2014 em Flint, Michigan, tornando-se conhecida a presença de chumbo através de observação direta de cor e cheiro combinada a testes de cientista que auxiliou a comunidade. * o cientista pôde dar aos residentes causa e nome para sua água nauseabunda: "chumbo", sendo este, tal como testado, simplesmente elemento na tabela periódica com peso atômico e valência específicos 98. O mesmo objeto, "chumbo", cruzou a fronteira entre ciência e compreensão cotidiana, tendo duas vidas diferentes: vida científica como elemento e vida experiencial em que desempenhava papel de ameaça ao desenvolvimento humano "normal". * é nesse sentido que, como escreve Marcuse, há não apenas "verdades matemáticas" mas também "verdades existenciais" da natureza 99. Pontes podem construir-se entre as duas verdades em torno de conceitos como "saúde" e "segurança", universais substantivos aos quais correspondem universais formais da ciência, possibilitando tais conceitos comunicação entre diferentes discursos. * seu efeito é traduzir valores em fatos, demandas formuladas discursivamente em novas especificações técnicas, traduzindo por sua vez o público conceitos científicos em linguagem cotidiana para articular descontentamento 100. A noção de diálogo sugere colóquio pacífico em torno de mesa de seminário, mas na realidade o diálogo entre ciência e sociedade é frequentemente conflituoso, não sendo nem ciência nem sociedade sujeito unificado. * em alguns casos, reconciliação é possível através de inovações que concretizam funções e aliam atores correspondentes, como no resultado da luta pela pesquisa da AIDS; em outros, um ou outro ator prevalece, como no caso da energia nuclear nos Estados Unidos 101. Nos anos oitenta, a infecção pelo vírus causador da AIDS era quase universalmente fatal, sendo a única esperança dos pacientes a participação em pesquisa clínica, mas as oportunidades eram estritamente limitadas por preocupação paternalista. * entraram os pacientes de AIDS na arena médica no auge de importante mobilização política na comunidade gay, estando melhor equipados para resistir ao paternalismo que qualquer grupo anterior de pacientes 102. Isso levou a conflitos entre pacientes, tratados como meros sujeitos de pesquisa, e cientistas envolvidos na pesquisa de sua doença, além de protestos veementes orquestrados pela ACT UP, recusando-se alguns pacientes a servir como controles. * felizmente, encontrou-se acomodação, respondendo a agência reguladora americana à pressão oferecendo aos pacientes com doença incurável acesso mais amplo a terapias experimentais, mudando os pacientes tanto os procedimentos quanto o conceito do objeto da pesquisa clínica 103. Neste caso, concepções diferentes de validade universal estavam em jogo, violando a busca pela verdade tal como a ciência a concebia as expectativas dos pacientes, engajando-se epistemologias e valores diferentes em conflito e compromisso. * a situação assemelha-se em alguns aspectos a lutas de gênero concorrentes em que reivindicações conflitantes devem encontrar resolução, escrevendo Judith Butler sobre práticas de tradução entre noções concorrentes de universalidade 104. Porém, a reconciliação nem sempre é possível, podendo a luta entre atores com prioridades diferentes refletir-se em escolhas de design fundamentalmente incompatíveis, tendo capitalistas imposto suas prioridades à tecnologia industrial com pouca interferência pública até recentemente. * muitas dessas mesmas conquistas agora aparecem como ameaças, exigindo tais casos mudança fundamental nas trajetórias tecnológicas 105. Tome-se o caso da energia nuclear, conquista espetacular da ciência moderna cujo significado mudou ao longo dos anos, significando a princípio a transcendência das restrições naturais e prometendo enriquecer o mundo com "poder ilimitado". * após vários acidentes sérios ganharem publicidade massiva, a energia nuclear passou a ser vista como fonte de perigos aterrorizantes, cancelando o valor Segurança o valor Progresso, tendo essa mudança de sentido levado ao declínio da tecnologia nos Estados Unidos **O Logos do Ambiente** 106. Em 1896, o químico Arrhenius explicou o mecanismo e as consequências do efeito estufa, tendo o termo "ecologia" decolado nos anos trinta quando o botânico Tansley desenvolveu o conceito de ecossistema. * é surpreendente perceber quão antigos os conceitos teóricos disponíveis para prever a crise climática que vivemos hoje, tomando-se contudo as medidas necessárias apenas relutantemente 107. O obstáculo é a disjunção entre racionalidade econômica e racionalidade ecológica, fazendo corporações a maioria dos investimentos tecnológicos segundo a primeira, enquanto a natureza opera segundo a segunda, indiferente a balanços corporativos. * negócios concederam que algo deve ser feito, mas corporações estão presas ao momento de longo prazo de sua tradição e à lógica de curto prazo da depreciação, movendo-se infelizmente a mudança climática muito mais rápido que os negócios 108. Do ponto de vista construtivista, "clima" tem significados muito diferentes em épocas diferentes da história, tendo sido por milênios domínio dos deuses, começando a ciência grega a explicar causas naturais dos eventos celestes. * esse clima naturalizado é objeto fundamentalmente diferente daquele sofrido ou desfrutado segundo humores dos deuses, aperfeiçoando a ciência moderna ideias pré-modernas de causas, tornando possíveis previsões mais ou menos precisas 109. Para a maior parte, os negócios parecem ainda operar com esse conceito puramente contemplativo de clima, mas hoje "clima" tornou-se objeto não apenas da ciência mas da política e do controle técnico. * essa versão de "clima" provoca a intervenção do público na ciência e tecnologia, não diretamente como pesquisadores, mas através da tradução de preocupações em objetos de pesquisa e design 110. Os métodos de física, química e biologia usados para construir o equivalente científico do clima constituem fundo de habilidades que permitem aos cientistas alcançar resultados consensualmente validados, baseando-se, como argumenta Marcuse, em relações calculáveis e previsíveis. * onde o objeto é definido pela preocupação com a experiência "estética" da "violação da natureza" por fogo e enchente, a ciência já não está enredada no projeto capitalista de dominação, sendo animada nesse caso por logos **Harmonia** 111. O ideal de harmonia entre seres humanos e natureza cada vez mais substitui a conquista da natureza como ideal, antecipando as reflexões tardias marcuseanas sobre natureza essa mudança agora difundida de atitude. * argumenta que não há condição natural a restaurar, situando-se o caminho adiante, não de volta ao passado, baseando-se a harmonia a que podemos aspirar não em nostalgia mas na imaginação de mundo habitável 112. Não há necessidade de defender o ideal de harmonia em bases metafísicas, e tal defesa não salvará o planeta, ocupando-se porém boa parte da conversação filosófica sobre ambientalismo em buscar exatamente tal sanção metafísica. * isso subestima a complexidade institucional de uma sociedade moderna em que a coordenação entre ciência e experiência é obstruída pelo capitalismo, agravando-se a confusão quando o problema se identifica com a ideia capitalista de natureza em vez dos imperativos reais da empresa 113. Por exemplo, a refutação latouriana da "constituição moderna" tenta convencer-nos de que a crise ambiental resulta da "grande divisão" cartesiana que separa humanidade e natureza, podendo nova constituição "não moderna" livrar-nos das consequências desse erro. * Latour acredita ter superado a oposição entre humanidade e natureza atribuindo agência "simetricamente" a ambas, negando a pertinência da distinção, estando humanos e "não humanos" sempre combinados, "montados" 114. Como visto no capítulo 2, Uexküll antecipou a rejeição latouriana do dualismo, encontrando lugar no conceito heideggeriano de mundo, rastreando Marcuse isso até o conceito hegeliano de vida na Ciência da Lógica. * todos esses modos anteriores de romper com o dualismo cartesiano distinguem entre agência humana, intencional, e causalidade natural, não separando o humano e o não humano como substâncias separadas mas distinguindo o mundo vivido da objetividade factual 115. Na esteira de Latour, a defesa metafísica da natureza experiencial "mais ampla" confunde-a com a natureza científica ao atribuir à ciência aspectos que na realidade pertencem a desvelamento muito diferente. * alguns filósofos tentam reencantar a ciência, mas isso tem pouco a ver com a pesquisa real, que prossegue como antes, focada nas qualidades primárias que sabe medir, ressuscitando outros o animismo para escapar do dualismo 116. Tais reivindicações metafísicas articulam a experiência de natureza ameaçada, mas também confundem as questões ambientais, devendo, para ter efeito político, a verdade da experiência entrar na ciência e tecnologia através de traduções que constituem objetos e designs correspondentes. * o significado operacional da harmonia com a natureza revela-se ao ser desontologizado e reformulado em termos científico-técnicos, por exemplo, a noção de limitar o aumento de temperatura a 1,5 grau Celsius 117. Unificar humanidade e natureza é projeto prático que não pode ser alcançado no nível teórico, sendo essa a significância da multiplicação das naturezas, a "mais estreita" e a "mais ampla", uma construída teoricamente pela ciência, outra vivida praticamente na experiência. * nesse contexto, a unidade entre humanidade e natureza é norma experiencial com correlatos científico-técnicos 118. A "nova sensibilidade" da Nova Esquerda desvelou a "natureza mais ampla" em que os fatos estão "entrelaçados" com a "existência humana histórica", persistindo hoje esse mesmo desvelamento como reconhecimento das forças na natureza que favorecem a vida. * a natureza "estreita", despojada, do projeto capitalista, que moldou ciência e tecnologia até agora, reconhece apenas propósitos humanos de curto prazo e ignora a dimensão desenvolvimental da natureza 119. Se, como Marcuse supunha, a realização das potencialidades da natureza é incompatível com o capitalismo, apenas o tempo dirá, escrevendo que impulsionar a ecologia ao ponto em que já não é contível dentro do arcabouço capitalista significa primeiro estender esse impulso dentro do arcabouço capitalista. * na medida em que o movimento ambientalista funciona em sociedade capitalista, é necessariamente ambíguo, não escapando mesmo os movimentos mais radicais a esse destino **Abstrato e Concreto** 120. Este experimento com os conceitos marcuseanos mostrou sua relevância para nossa situação contemporânea enquanto abandona a conclusão mais ousada de Marcuse, a noção de que novo conceito de razão algum dia incorporaria os dados da experiência estética na ciência natural. * essa noção pressupõe certa nostalgia pelo concreto que, sob o socialismo, transcenderia as abstrações desumanas do capitalismo 121. A crítica marxiana do capitalismo contrasta as leis abstratas do mercado com o trabalho vivo que produz os bens, consistindo o argumento pelo socialismo na reivindicação de que o mercado reflete mal necessidades sociais concretas. * na "Crítica ao Programa de Gotha", Marx imaginou primeira fase do socialismo que reduziria a desigualdade recompensando os produtores segundo seu trabalho, sendo essa solução ainda abstrata, exigindo florescimento pleno do potencial humano avanço adicional 122. Uma segunda fase do socialismo superaria a abstração inteiramente recompensando cada um segundo suas necessidades, sendo esse o estágio final na descida do abstrato ao concreto, subjazendo a essa concepção metanarrativa implícita: a humanidade dominada por abstrações ao longo da história de classes. * os deuses são a primeira forma em que a abstração governa o mundo, questionando Marx, em suas notas de tese doutoral, se o Moloch dos Antigos não prevalecia, se o Apolo Délfico não era poder real na vida dos gregos 123. Em O Capital, deuses e Estado são substituídos pelas leis do mercado, tendo o universal abstrato perdido seus disfarces religiosos e morais e aparecendo agora como segunda natureza dominando a sociedade, havendo diferença importante entre essas formas de alienação. * os deuses são eternos, pertencendo ao mundo da natureza; como os deuses, o mercado está além do controle humano, mas é abstraído de práticas sociais, não da natureza, sendo controle dessas práticas ao menos concebível 124. Diferentemente dos deuses, com suas preferências estranhas e humores imprevisíveis, a economia tem ordem racional, podendo sociedade baseada na compreensão científica dessa ordem unir as reivindicações da comunidade às necessidades dos indivíduos. * a alienação começa na religião e termina na economia, tornando-se assim a administração racional trabalhando segundo plano a forma da primeira sociedade socialista 125. Os resultados não corresponderam porém à intenção original, aparecendo por volta da época em que Marcuse retoma o tema a administração como mera outra forma de abstração, sendo isso reificação tal como Lukács a descreveu. * o locus principal da abstração já não é o mercado mas agora reflete a lógica da ciência moderna aplicada ao mundo social, não terminando mais a alienação na economia, mas na ciência, exigindo talvez a recuperação do concreto revolução científica 126. Onde para Marx o propósito último da revolução era o reconhecimento do potencial humano em todas as suas formas, Marcuse agora lança rede ainda mais ampla abrangendo a potencialidade enquanto tal, tanto na humanidade quanto na natureza. * isso é consequência do movimento de uma crítica do mercado para crítica da ciência natural, sendo a razão científica reificada do capitalismo avançado superada por nova ciência que reconheceria as potencialidades canceladas pelo conceito existente de razão 127. Para Marcuse, a questão complica-se pela generalização da reificação e o sucesso da tecnologia capitalista, não sendo mais o mundo da vida refúgio de concretude imaculada contrastável com abstração econômica ou científica. * enquanto Marx acreditava que a condição proletária oferecia razão suficiente para revoltar-se, argumenta Marcuse que sua confiança foi invalidada pelos efeitos dos níveis mais elevados de segurança e consumo, não sofrendo classe significativa o suficiente para revoltar-se 128. Portanto, apenas mudança cultural radical poderia motivar a rejeição da sociedade existente, precisando nova cultura baseada na dimensão estética espalhar a necessidade de modo de vida mais pacífico e realizador. * eventualmente, o mundo da vida constituído por tal sociedade afetaria as percepções dos cientistas e conduziria a revolução na ciência correspondente à revolução social, trazendo nova forma de vida nova ciência 129. Argumentou-se neste capítulo que a abstração da ciência moderna não pode ser superada desse modo, oferecendo a breve discussão marcuseana da tradução alternativa ao relato marxista dominante, embora não a tenha desenvolvido. * fez-se isso no "experimento" com seus conceitos, extraindo as implicações dessa alternativa: uma sociedade tecnificada não pode retornar diretamente às relações sociais concretas subjacentes a sua forma abstrata 130. Nesse relato, ciência e tecnologia podem alcançar "concretude" em sentido hegeliano-marxista, senão através de recuperação do imediato, lembrando-se da glosa marxiana sobre o conceito dialético do concreto como soma de muitas determinações. * essa diversidade registra-se no mundo da vida como potencialidades das quais a ciência abstraiu na constituição de seu objeto, tendo movimentos sociais como o ambientalista mostrado que essas potencialidades podem ser recuperadas pela ciência através de traduções 131. Essa alternativa tem implicações políticas para a ideia de socialismo, que passou por revisões drásticas após o fracasso do planejamento em produzir os resultados emancipatórios prometidos, argumentando socialistas democráticos por retorno a comunidades locais para eliminar mediações abstratas. * essa noção de democracia socialista fazia sentido durante o reinado da mercadoria, mas deve ser qualificada em mundo organizado pela ciência e tecnologia, não podendo nesse novo mundo as mediações abstratas ser eliminadas **Conclusão** 132. Marcuse respondeu a situação histórica bastante diferente da nossa, em meio à emergência inicial de novas atitudes, realidades sociais e protestos entre a juventude, chamando muitos participantes esse fenômeno "revolução cultural". * denunciando o sucesso dentro do sistema, o movimento cultural proclamava os valores superiores do amor, da beleza, da realização pessoal e, para muitos, também da paz e da justiça social 133. É fácil hoje descartar essa estranha conflação entre o marxismo marcuseano e a cultura jovem dos anos sessenta, mas isso perderia o ponto significativo: Marcuse identificou a obsolescência de muitas suposições marxistas tradicionais e a emergência de novas fontes de mudança social. * ainda hoje, questões existenciais e preocupações com qualidade de vida motivam resistência à cultura dominante em domínios variados, oferecendo a categoria marcuseana do estético base normativa para crítica progressiva do tecnossistema 134. A perspectiva distópica que preocupava Marcuse e muitos outros críticos sociais recua hoje conforme a expertise perde autoridade absoluta, tendo movimentos progressistas desafiando as disciplinas socialmente inseridas enfraquecido a identificação do objeto da física com o próprio ser. * o viés das disciplinas aparece claramente à luz das necessidades que falham em cumprir, emergindo assim papel maior para o público na política científica 135. Há porém também sinais de perigo que se tornaram claros com a ascensão do ceticismo climático e do movimento antivacina, culminando na eleição de Trump, inimigo declarado da ciência, verificando-se novamente as preocupações marcuseanas quanto à democracia. * movimentos irracionais que desafiam a ciência ao mesmo tempo em que atiçam preconceito de raça e gênero reforçam involuntariamente o status quo que reivindicam combater, sendo mais importante que nunca a consciência crítica 136. A contestação da ciência e da tecnologia expôs a razão ao público de novas maneiras tanto promissoras quanto carregadas de perigo, dando sentido a política da tecnociência ao chamado marcuseano por conceito afirmador da vida de razão sob condições que ele não antecipou. * a revolução tecnocientífica não é apenas para futuro socialista distante, mas está na agenda das lutas contemporâneas contra a rapacidade do capitalismo, apoiando novos objetos tecnocientíficos a realização do telos da natureza vivida da experiência cotidiana {{tag>Feenberg Marcuse razão técnica natureza sociedade}}