====== Contra o método ====== //FEYERABEND, P. Against Method. Third ed. London: Verso, 1993.// 1. Muito aconteceu desde a primeira publicação de Contra o Método, incluindo mudanças políticas, sociais e ecológicas dramáticas, tendo a liberdade aumentado mas trazido também fome, insegurança e guerras, reunindo-se líderes mundiais para discursos e acordos insatisfatórios sobre a deterioração dos recursos. * médicos, agentes de desenvolvimento e religiosos que trabalham com populações desfavorecidas perceberam que essas pessoas conhecem mais sobre sua condição do que supunha a crença na excelência universal da ciência, mudando suas ações e ideias em consequência 2. No plano acadêmico, historiadores começaram a abordar o passado em seus próprios termos, ridicularizando Lucien Febvre já em 1933 escritores que julgavam profundamente a vida de camponeses sem sair de suas mesas, tentando historiadores da ciência reconstruir o passado sem distorcê-lo por crenças modernas sobre verdade e racionalidade. * filósofos concluíram então que as diversas formas de racionalismo não apenas produziram quimeras, mas teriam prejudicado as ciências se adotadas como guias, desempenhando a obra-prima de Kuhn papel decisivo 3. A obra kuhniana levou a novas ideias mas também encorajou muito lixo intelectual, aparecendo seus termos principais em várias formas de pseudociência enquanto sua abordagem geral confundia muitos escritores, que tentaram amarrar novamente a ciência com cordas sociológicas. * essa tendência durou até o início dos anos setenta, existindo agora historiadores e sociólogos que se concentram em particulares e permitem generalidades apenas na medida em que sustentadas por conexões sócio-históricas 4. Bruno Latour afirma que a "natureza", referindo-se à ciência em construção, é consequência do assentamento de controvérsias, ecoando isso afirmação já feita na primeira edição de Contra o Método sobre criação de uma coisa e criação de ideia correta serem partes do mesmo processo indivisível. 5. Exemplos dessa nova abordagem incluem obras de Pickering, Galison, Rudwick e Fine, existindo estudos das diversas tradições religiosas, estilísticas e de patronagem que influenciaram cientistas, mostrando a necessidade de relato muito mais complexo do conhecimento científico do que aquele emergido do positivismo. * no plano mais geral, há a obra anterior de Polanyi e depois Putnam, van Fraassen, Cartwright, Pera e Lakatos, este suficientemente otimista para acreditar que a própria história oferecia regras simples de avaliação de teorias 6. Na sociologia, a atenção ao detalhe levou a situação em que o problema já não é por que e como a "ciência" muda, mas como ela se mantém unida, suspeitando filósofos, especialmente da biologia, que não existe entidade única "ciência" mas grande variedade de abordagens contendo tendências contrárias. * para alguns autores isso não é apenas fato, mas também desejável, tendo contribuído modestamente para essa discussão em capítulos de Contra o Método e em contribuição anterior sobre a uniformidade dos paradigmas em Kuhn 7. A unidade desaparece ainda mais quando se atenta não apenas às rupturas no nível teórico, mas ao experimento e especialmente à ciência de laboratório moderna, mostrando Ian Hacking e Pickering que termos como "experimento" cobrem processos complexos com múltiplos fios. * "fatos" resultam de negociações entre diferentes partes, sendo o produto final influenciado por eventos físicos, processadores de dados, compromissos, exaustão, falta de dinheiro e orgulho nacional, assemelhando-se alguns microestudos ao "Novo Jornalismo" 8. Estamos assim distantes da antiga ideia platônica de ciência como sistema de afirmações crescendo com experimento e observação e mantido em ordem por padrões racionais duradouros. 9. Contra o Método ainda é parcialmente orientado a proposições, mas também houve momentos de sanidade, não reduzindo a discussão sobre incomensurabilidade a mera diferença de teoria, incluindo formas de arte, percepções, estágios de desenvolvimento infantil. * afirma-se que as visões dos cientistas, especialmente sobre questões básicas, são frequentemente tão diferentes entre si quanto as ideologias de culturas diferentes, examinando-se nessa conexão os aspectos práticos da lógica na pesquisa em andamento 10. A discussão sobre os muitos eventos que constituem aquilo que é observado, especialmente sobre as descobertas telescópicas galileanas, concorda com as exigências da nova sociologia de laboratório, embora o "laboratório" de Galileu fosse bastante pequeno em comparação. * isso mostra que, como as filosofias mais antigas da ciência, a nova microssociologia não é relato universal mas descrição de aspectos proeminentes de período especial, podendo uma descrição universal da ciência no máximo oferecer lista de eventos, o que era diferente na Antiguidade 11. Fica claro que a nova situação exige nova filosofia e, sobretudo, novos termos, ainda perguntando-se alguns dos principais pesquisadores se determinada pesquisa produz "descoberta" ou "invenção", surgindo esse problema tanto na mecânica quântica quanto na ciência clássica. * devemos continuar usando termos ultrapassados para descrever percepções inovadoras ou seria melhor começar a usar linguagem nova, sendo poetas e jornalistas de grande ajuda em encontrar tal linguagem? 12. Em segundo lugar, a nova situação levanta novamente a questão de "ciência" versus democracia, tendo sido essa a questão mais importante, afirmando-se que a principal razão para escrever o livro foi humanitária, não intelectual, querendo apoiar pessoas, não "avançar o conhecimento". * se a ciência já não é unidade, tendo partes diferentes procedendo de modos radicalmente diferentes, os projetos científicos devem ser considerados individualmente, o que agências governamentais começaram a fazer há algum tempo 13. No final dos anos sessenta, a ideia de política científica abrangente foi gradualmente abandonada, percebendo-se que a ciência não era um empreendimento único mas muitos, não podendo haver política única para apoiá-los todos. * agências governamentais já não financiam "ciência", financiam projetos particulares, não podendo mais a palavra "científico" excluir projetos "não científicos", devendo-se olhar os assuntos em detalhe, colocando-se questão se os novos filósofos e sociólogos estão preparados para considerar essa consequência 14. Houve muitas outras mudanças, tendo pesquisadores médicos inventado instrumentos úteis como os que empregam fibra óptica em substituição a métodos mais perigosos de diagnóstico por raio-X, tornando-se mais abertos a ideias novas ou antigas. * há apenas vinte anos a ideia de que a mente afeta o bem-estar físico era bastante impopular, sendo hoje corrente principal, tendo processos por má prática tornado médicos mais cuidadosos, às vezes cuidadosos demais, mas também forçando-os a consultar opiniões alternativas 15. Na Suíça, pluralidade beligerante de visões é quase parte da cultura, tendo isso sido usado ao organizar confrontações públicas entre cientistas obstinados e pensadores "alternativos", tendo porém filosofias simples, dogmáticas ou liberais, seus limites. * não existem soluções gerais, podendo liberalismo aumentado na definição de "fato" ter repercussões graves, enquanto a ideia de que a verdade é ocultada pelos próprios processos destinados a estabelecê-la faz excelente sentido 16. Adverte-se novamente que não se pretende substituir princípios "antigos e dogmáticos" por "novos e mais libertários", não sendo populista para quem o apelo ao "povo" seria base de todo conhecimento, nem relativista para quem não haveria "verdades enquanto tais". * afirma-se apenas que não especialistas frequentemente sabem mais que especialistas e devem por isso ser consultados, e que profetas da verdade são frequentemente levados por visão que colide com os próprios eventos que a visão deveria explorar, existindo ampla evidência para ambas as partes dessa afirmação 17. Um caso já mencionado é o do desenvolvimento: profissionais lidando com aspectos ecológicos, sociais e médicos da ajuda ao desenvolvimento perceberam que a imposição de procedimentos "racionais" ou "científicos", embora ocasionalmente benéfica, pode levar a sérios problemas materiais e espirituais. * não abandonaram porém o que haviam aprendido nas universidades, combinando esse conhecimento com crenças e costumes locais e estabelecendo assim vínculo muito necessário com os problemas de vida que nos cercam por toda parte, no Primeiro, Segundo e Terceiro Mundos {{tag>Feyerabend ciência método}}