===== Filosofia da ciência ===== //IHDE, Don. Instrumental Realism. Bloomington: Indiana University Press, 1991.// ** A nova filosofia da ciência ** 1. A nova filosofia da ciência surge parcialmente da insatisfação explícita com a concepção desencarnada, idealista e abstrata de ciência que predominava nas tradições da antiga filosofia da ciência. 2. A emergência da nova filosofia da ciência resulta tanto da contribuição independente de diversos pensadores quanto de uma transformação mais ampla de perspectiva, marcada pela crescente atenção às formas concretas de incorporação da ciência em comunidades, práticas e experiências perceptivas. * Karl Popper e Imre Lakatos recolocaram a ciência no interior de comunidades de pessoas mutuamente interessadas e privilegiaram seus processos de surgimento e desenvolvimento. * Stephen Toulmin também participou da transformação das perspectivas tradicionais sobre a ciência. * Michael Polanyi introduziu a noção de conhecimento tácito, reconhecendo uma dimensão corporal da práxis e da percepção que atua implicitamente até mesmo na atividade científica. * Thomas Kuhn foi aquele que, no interior das tradições anglo-americanas, conferiu a forma mais decisiva à nova configuração da filosofia da ciência. 3. A contribuição fundamental de Thomas Kuhn não se reduz às controvérsias sobre um suposto sociologismo ou irracionalismo, pois sua interpretação sugere um modelo diferente de compreensão da ciência no qual fatores perceptivos e dimensões históricas da práxis passam a integrar a formação e a transformação do conhecimento científico. 4. A interpretação de Kuhn pode ser aproximada da fenomenologia, sobretudo da concepção merleau-pontyana segundo a qual a percepção sensorial ou corporal está sempre situada em uma percepção cultural e contextual mais ampla, fazendo com que aquilo que em Kuhn parece metáfora de uma percepção intelectual corresponda também a estruturas efetivamente perceptivas. 5. O modelo de práxis-percepção implícito na nova filosofia da ciência não se limita a Kuhn, pois encontra desenvolvimento paralelo nas ciências humanas por meio de Michel Foucault, cuja formação remete a Maurice Merleau-Ponty e, através deste, ao desenvolvimento anterior dessa problemática na obra tardia de Edmund Husserl. 6. A reconstrução dessa convergência exige um percurso cronologicamente descontínuo que parte de Kuhn, retorna a Husserl e avança novamente até Michel Foucault, mantendo como preocupação central as funções frequentemente indiretas desempenhadas pela tecnologia nesses diferentes contextos filosóficos. 7. A revolução kuhniana inicialmente assume uma dimensão crítica dirigida contra o modelo analítico, positivista e nomológico da ciência, pois leis, regras, induções e deduções deixam de constituir seus fundamentos últimos e passam a depender de algo mais originário, o paradigma, invertendo-se assim a prioridade tradicional entre estrutura nomológica e prática científica. 8. O paradigma é inicialmente caracterizado por Kuhn como modelo ou padrão aceito capaz de orientar a ciência normal, embora essa definição possa sugerir equivocadamente que se trate apenas de uma organização superior dos componentes de uma teoria ou de uma regra implícita. 9. Diferentemente de um modelo comum destinado simplesmente à reprodução, o paradigma científico funciona como uma decisão jurisprudencial que deve ser ulteriormente articulada e especificada em circunstâncias novas ou mais rigorosas, orientando desenvolvimentos que não consistem em mera repetição. 10. O paradigma constitui condição prévia das operações da ciência normal, de maneira que leis, regras e estruturas nomológicas deixam de fundá-la e passam a ser por ela fundadas. * As regras derivam de paradigmas, enquanto paradigmas podem orientar a pesquisa mesmo na ausência de regras explicitamente formuladas. * O paradigma torna possível a própria operação da teoria ao proporcionar aos fenômenos, com exceção das anomalias, lugares determinados no campo de visão científico. * A ciência normal depende, em última instância, do compromisso com algum paradigma que delimite antecipadamente aquilo que pode ser investigado e reconhecido. 11. Embora a ciência normal constitua a modalidade predominante da atividade científica, sua própria fundamentação depende da ciência revolucionária e das mudanças de paradigma, pois a ciência normal corresponde à sedimentação de uma transformação anterior e realiza sobretudo refinamentos e extensões de um paradigma previamente estabelecido. 12. A estrutura das revoluções científicas tornou-se controversa precisamente por inverter pressupostos tradicionais sobre a ciência, mas acabou realizando em sua própria recepção uma espécie de mudança paradigmática na interpretação científica, a ponto de seu vocabulário passar a integrar amplamente a autocompreensão dos próprios cientistas. 13. A comunidade estabelecida da filosofia da ciência reagiu com maior resistência a Kuhn, frequentemente classificando-o como simples sociólogo do conhecimento ou irracionalista por admitir fatores irredutíveis ao cálculo racional e às relações lógicas na transformação científica. * Apesar da incorporação crescente de Kuhn por gerações mais jovens de historiadores e filósofos da ciência, as antigas orientações filosóficas conservaram considerável persistência institucional. * Tradições filosóficas raramente desaparecem quando criticadas, podendo recolher-se temporariamente ou reaparecer posteriormente sob novas formas. * A persistência institucional das comunidades filosóficas apresenta analogias com a permanência de estruturas cognitivas encontradas em outras atividades humanas. 14. Comunidades e tradições estabelecidas dificilmente originam tecnologias radicalmente novas, pois práticas comunitárias consolidadas delimitam um universo cognitivo que dificulta o reconhecimento de alternativas profundamente divergentes, como se observa na passagem dos motores a pistão aos turbojatos, das máquinas alternativas às turbinas a vapor e das locomotivas a vapor aos motores diesel. 15. A resistência das comunidades industriais diante de alternativas tecnológicas radicais possui equivalente nos estabelecimentos filosóficos, cujas práticas intelectuais consolidadas também podem dificultar a formação de novos campos e perspectivas. 16. A crítica à antiga filosofia da ciência constitui apenas a dimensão negativa da transformação, enquanto sua dimensão positiva consiste no surgimento de um modelo perceptivo de interpretação explicitamente reconhecível em numerosos aspectos da obra de Kuhn. 17. Nas mudanças de paradigma, não se altera apenas uma interpretação abstrata da realidade científica, pois os cientistas passam a utilizar novos instrumentos, investigar novos lugares e, sobretudo, ver coisas diferentes até mesmo quando observam com instrumentos familiares os mesmos domínios anteriormente examinados. 18. As mudanças paradigmáticas podem ser compreendidas como transformações no modo de ver e, mais precisamente, como mudanças de macropercepção estruturada, pelas quais diferentes seletividades perceptivas reorganizam aquilo que pode aparecer como fenômeno, à maneira das mudanças de Gestalt exemplificadas pelas figuras ambíguas discutidas por Wittgenstein. 19. As mudanças de Gestalt científicas implicam descontinuidades capazes de transformar radicalmente a identidade perceptiva dos fenômenos, como ocorreu entre 1690 e 1781 quando Urano deixou de ser percebido como estrela para ser reconhecido como planeta, promovendo uma subsequente reorganização classificatória de outros fenômenos astronômicos. 20. No século XVII, investigadores orientados por teorias de eflúvios percebiam partículas atraídas eletricamente como corpos que recuavam ou caíam mecanicamente, enquanto um observador moderno reconheceria nelas repulsão eletrostática, fenômeno que só se tornou perceptivelmente identificável após a amplificação de seus efeitos pela aparelhagem de Hauksbee. 21. A transformação perceptiva descrita por Kuhn revela uma relação decisiva entre percepção e instrumentação tecnológica, pois instrumentos idênticos podem ser inseridos em diferentes regimes perceptivos, embora historicamente certas mudanças de percepção somente tenham ocorrido quando a própria instrumentação foi transformada. 22. As mudanças de Gestalt são mudanças no “ver como”, mediante as quais se alteram simultaneamente critérios de relevância, seletividades perceptivas e a organização integral do campo fenomenal. * Aristóteles e Galileu podiam observar pedras oscilantes e perceber respectivamente uma queda constrangida e um pêndulo. * O pêndulo somente pôde aparecer como tal após uma reorganização perceptiva comparável a uma mudança de Gestalt induzida por paradigma. * Paradigmas reorganizam amplas regiões da experiência simultaneamente, e não apenas elementos isolados. * Aquilo que conta como fato somente se constitui depois que alguma estrutura macroperceptiva já organiza o campo científico. * Leis e previsões também dependem da formação prévia de uma totalidade perceptivamente estruturada. * A percepção funciona, portanto, como precursora do fenômeno científico posteriormente explicitado em detalhes, caracterizando uma estratégia interpretativa orientada do todo para as partes. 23. A incorporação kuhniana de um modelo perceptivo foi particularmente ousada no contexto anglo-americano por contrariar a filosofia da ciência dominante sem dispor da tradição fenomenológica europeia mais desenvolvida de análise da percepção, embora tenha encontrado em Wittgenstein uma referência importante para compreender a estreita relação entre aprendizagem linguística e aprendizagem perceptiva. 24. A criança que aprende progressivamente a empregar corretamente a palavra “mamãe” não adquire apenas uma definição linguística, mas simultaneamente aprende diferenças entre homens e mulheres, padrões de comportamento e expectativas que reorganizam uma parcela significativa de seu mundo percebido. 25. O modelo kuhniano possui estrutura fundamentalmente wittgensteiniana ao conceber Gestalten como contextos perceptivos nos quais elementos podem ser radicalmente rearranjados, desaparecer ou surgir pela primeira vez, aproximando-se assim da fenomenologia da percepção e até mesmo da noção de intencionalidade. * Se o “mundo” muda com uma transformação paradigmática, altera-se o objeto da percepção em seu campo integral e transforma-se correlativamente o próprio sujeito perceptivo. * Na macropercepção estruturada da comunidade científica, paradigmas sucessivos determinam diferentes populações do universo e diferentes modos de compreender seus comportamentos. * Os paradigmas reorganizam simultaneamente a natureza investigada e a própria ciência que a investiga. * Mudanças paradigmáticas fazem os cientistas perceberem de maneira diferente o mundo no qual sua atividade investigativa está comprometida. 26. A história e a filosofia anglo-americanas da ciência produziram, assim, um modelo perceptivo de interpretação do desenvolvimento científico que possui consequências potenciais para a filosofia da tecnologia, pois a instrumentação constitui a condição material e a incorporação mediante a qual a ciência moderna percebe, embora Kuhn não tenha desenvolvido explicitamente essa dimensão por permanecer predominantemente orientado pela teoria. 27. A compreensão da relação entre percepção, práxis e ciência requer retornar aos primeiros fenomenólogos, entre os quais o modelo de práxis-percepção alcançou desenvolvimento muito mais completo, permitindo integrar essa tradição europeia à genealogia da nova filosofia da ciência. 28. Edmund Husserl constitui o principal fundador do movimento fenomenológico, enquanto Maurice Merleau-Ponty, leitor francês sobretudo de suas obras tardias, prolongou a investigação fenomenológica da percepção, tendo ambos atribuído importância à percepção científica e empregado alguma forma do conceito de mundo da vida como princípio interpretativo. 29. A crise das ciências europeias, publicada por Husserl em 1936, apresenta importantes paralelos com aquilo que posteriormente se tornaria a nova filosofia da ciência, embora preserve características distintas ligadas à concepção alemã das ciências (Wissenschaften), à busca de uma racionalidade específica do pensamento ocidental e a uma compreensão segundo a qual cada transformação histórica envolve simultaneamente ganho e perda. * Os exemplos centrais de Husserl concentram-se na emergência da física moderna em Galileu e Descartes. * Sua interpretação pode adquirir aparência normativa e parcialmente linear devido à busca de uma racionalidade peculiar à tradição ocidental. * Embora reconheça transformações comparáveis a mudanças de paradigma, Husserl recusa compreendê-las como progresso simples, pois cada aquisição também implica algum encobrimento ou perda. 30. O modelo husserliano de práxis-percepção desenvolve-se no interior da estrutura do mundo da vida e permanece marcado por uma ambiguidade fundamental entre sua dimensão fenomenológica e seu caráter fundacionalista. * Determinada camada da atividade humana é tomada como fundamento do qual outras formas de experiência dependem. * A práxis humana ordinária e a percepção constituem o estrato fundamental no qual seres humanos interagem com coisas materiais e com outros seres humanos. * A abertura ao outro ocorre inicialmente de maneira sensorial e prioritariamente perceptiva. 31. A percepção e a práxis ordinárias constituem um fundamento geralmente não tematizado criticamente, pois formam o contexto básico, compartilhado e espontaneamente pressuposto da experiência humana. 32. A existência consciente transcorre permanentemente no mundo da vida, normalmente sem que este seja tematizado universalmente, porque a experiência cotidiana se organiza segundo fins momentâneos ou projetos duradouros que selecionam determinados horizontes de realidade e deixam outros aspectos em segundo plano. 33. No domínio universal da percepção e da práxis ordinárias podem surgir atividades especializadas dotadas de seletividades próprias que se constituem como ciências, permanecendo relacionadas ao mundo da vida ao mesmo tempo que formam, dentro dele, “mundos” particulares definidos pelas práticas e horizontes compartilhados das comunidades científicas. 34. A constituição comunitária e prática da ciência já se encontra antecipada em Husserl, pois os diferentes “mundos” científicos somente podem desenvolver-se no horizonte mais amplo do mundo da vida, como se torna particularmente visível na investigação sobre a origem da geometria. 35. A geometria e as ciências correlatas pressupõem um mundo histórico de coisas corporalmente constituídas, dotadas de formas espaço-temporais e qualidades materiais, no qual necessidades práticas fizeram determinadas formas destacarem-se e serem progressivamente produzidas e aperfeiçoadas por uma práxis técnica. * O mundo dos primeiros geômetras necessariamente continha seres humanos corporalmente inseridos entre outras coisas materiais. * As formas geométricas possuem uma origem anterior à idealização matemática em experiências concretas de corpos espaço-temporais. * Necessidades práticas selecionaram formas específicas e estimularam procedimentos técnicos para sua produção e aperfeiçoamento. 36. O mundo da vida e os “mundos” científicos diferenciam-se porque percepção e ação ordinárias possuem prioridade e universalidade, o mundo da vida contém a ciência sem ser por ela contido e a percepção científica possui estrutura distinta da percepção cotidiana, permanecendo esta última como fundamento primeiro. 37. A análise reflexiva mostra que a percepção ordinária difere da percepção científica, diferença especialmente evidente na reconstrução husserliana das origens dos métodos geométricos. 38. No mundo circundante intuitivamente dado, as formas espaço-temporais são encontradas inicialmente em corpos efetivamente experimentados e dotados do conteúdo concreto da experiência, e não como corpos geometricamente ideais. 39. A micropercepção corresponde a essa dimensão sensorial primária da experiência, constituindo o estrato básico do mundo da vida husserliano no qual seres humanos interagem corporalmente com um mundo material circundante. 40. A geometria surge por uma particularização do campo perceptivo na qual determinadas formas são notadas, privilegiadas e aperfeiçoadas, passando progressivamente, por abstração e variação, da experiência concreta à idealidade imaginativamente constituída. 41. O método geométrico de determinação de formas ideais remonta às práticas pré-científicas de determinação e medição desenvolvidas inicialmente de modo rudimentar e posteriormente como artes no interior do mundo circundante intuitivamente experimentado. 42. A seleção e o aperfeiçoamento das formas produzem novos interesses e novas práxis orientadas para a idealização, das quais emergem formas-limite e, finalmente, uma práxis especificamente geométrica. 43. A aquisição de uma nova práxis transforma simultaneamente a percepção, pois aquilo que inicialmente exigiu procedimentos históricos específicos pode tornar-se familiar, transparente e espontaneamente verdadeiro, adquirindo o caráter de uma macropercepção cultural, movimento exemplificado pela interpretação husserliana da ascensão da ciência moderna em Galileu e Descartes. 44. A perspectiva geométrica de Galileu somente pôde tomar certas estruturas como evidentes porque se apoiava em aquisições históricas anteriores já sedimentadas, enquanto aquilo que atualmente parece imediatamente evidente corresponde a um estágio ainda posterior no qual a transformação galileana já se consolidou como horizonte cultural. 45. Galileu recebeu como evidente uma longa tradição platônica de aplicação da geometria antiga ao mundo empírico, incluindo medições parciais e correspondências entre comprimentos, sons e formas, mas introduziu uma nova universalização matemática que somente posteriormente se tornaria intuitiva e aparentemente natural. 46. A dificuldade fundamental da matematização reside na percepção sensorial, pois formas geometricamente analisáveis constituem apenas parte do mundo percebido, ao lado das qualidades sensíveis plenas, como as cores, que não podem ser diretamente submetidas aos mesmos procedimentos geométricos. 47. A inovação galileana consiste em desenvolver um procedimento indireto de matematização das qualidades plenas, traduzindo fenômenos sensíveis em relações espacialmente mensuráveis para torná-los acessíveis à análise geométrica. 48. A distinção moderna entre qualidades primárias e secundárias desloca as qualidades sensíveis plenas dos objetos para o sujeito e concebe a coisa em si como entidade geométrica extensa, tornando necessário encontrar regularidades pelas quais propriedades como a cor possam ser correlacionadas indiretamente a grandezas espacialmente mensuráveis. 49. A matematização indireta das qualidades sensíveis somente é possível mediante relações regulares entre essas qualidades experienciadas nos corpos e as formas espaço-temporais que lhes pertencem. 50. A nova perspectiva galileana prepara decisivamente o caminho para a física moderna e acaba tornando seus procedimentos tão familiares que deixam de ser normalmente problematizados. 51. Cores, sons, calor e peso, experimentados pré-cientificamente como qualidades das próprias coisas, passam a ser interpretados fisicamente como vibrações, movimentos e acontecimentos formalizáveis, tornando-se essa tradução tão habitual que se chega a afirmar espontaneamente que se “veem” comprimentos de onda. 52. Uma vez consolidada como Gestalt cultural, a perspectiva galileana transforma-se numa macropercepção espontaneamente pressuposta, mas nesse ponto também se intensifica a ambiguidade de Husserl, pois a aquisição cultural possibilitada pela práxis científica tende a ocultar sua diferença em relação ao mundo da vida fundamental. 53. Desde Galileu ocorre a substituição silenciosa do mundo efetivamente dado e experimentável da vida cotidiana por um mundo matematicamente subestruturado de idealidades, substituição transmitida às sucessivas gerações de físicos. 54. O mundo da vida permanece fundamentalmente sensorial e corporal, constituído pelas relações práticas entre seres humanos e coisas concretas, embora também possa surgir uma segunda forma de intuitividade cultural na qual perspectivas adquiridas pela práxis se sedimentam até constituírem uma ciência aparentemente imediata. 55. Toda aquisição científica permanece ambígua porque aquilo que se ganha mediante a matematização pode simultaneamente provocar a perda da concretude própria do mundo da vida fundamental. 56. Galileu aparece simultaneamente como gênio descobridor e encobridor, pois inaugura a natureza matemática e abre possibilidades indefinidas para descobertas físicas, ao mesmo tempo que inicia a substituição da natureza pré-cientificamente intuída por uma natureza idealizada. 57. A aquisição do novo paradigma científico encobre o fundamento ordinário do mundo da vida sobre o qual sua própria constituição permanece dependente. 58. A interpretação husserliana de Galileu antecipa de maneira significativa a noção de mudança de paradigma, pois descreve uma transformação histórica do modo de ver que, depois de estabelecida, sedimenta-se como tradição e passa a constituir a ciência normal de uma época. 59. Práxis e percepção constituem em Husserl a base focal do mundo da vida, compreendido como estrutura simultaneamente perceptiva e histórica que incorpora sedimentações e tradições decisivas para a reconstrução da formação da ciência moderna. 60. A interpretação que reduz a fenomenologia husserliana a um recurso à “experiência imediata” subjetivamente intuída impede reconhecer sua proximidade com a nova filosofia da ciência, pois na fenomenologia tanto intuições quanto tradições são constituídas em campos históricos de sentido, e não simplesmente dadas de modo absoluto. 61. Intuições e tradições somente revelam sua constituição quando se torna explícito o campo que as torna possíveis, de maneira que as evidências sedimentadas correspondem à ciência normal kuhniana e a instituição de uma nova perspectiva, como em Galileu, corresponde a uma revolução científica. * Aquilo que aparece como óbvio e transparente é familiar porque já foi historicamente constituído e sedimentado. * Toda evidência deve ser remetida tanto ao campo que possibilita sua constituição quanto à atividade que efetivamente a constitui. 62. O conceito husserliano de mundo da vida contém uma tensão entre duas formas de perceptibilidade, pois a micropercepção sensorial conserva o estatuto de fundamento, enquanto a macropercepção hermenêutico-cultural é tratada como apercepção derivada, apesar de também poder tornar-se intuitiva mediante sua sedimentação cultural. * O mundo da vida comporta tanto uma práxis ordinária quanto uma práxis matemática. * O fundacionalismo permanece porque a percepção sensorial conserva prioridade sobre as formas culturais derivadas. 63. Enquanto Husserl mantém a micropercepção como fundamento e considera a macropercepção científica uma formação derivada, Kuhn desloca a prioridade para a macropercepção, pois observações científicas particulares somente ocorrem dentro de paradigmas cultural e hermeneuticamente estruturados. 64. A crescente atenção às descontinuidades e à natureza polimorfa da macropercepção cultural caracteriza também os desenvolvimentos posteriores à fenomenologia husserliana, manifestando-se de modo especialmente intenso em Maurice Merleau-Ponty. 65. Merleau-Ponty ocupa posição central na tradição fenomenológica da percepção, distinguindo na Fenomenologia da percepção uma teoria rigorosa da percepção corporal e sensorial e aproximando-se posteriormente, em O visível e o invisível, de uma investigação da dimensão cultural da percepção ou macropercepção relevante para as filosofias da ciência e da tecnologia. 66. A recepção francesa de Husserl por Merleau-Ponty parte sobretudo do período tardio do mundo da vida, cuja estrutura é adaptada na Fenomenologia da percepção mediante a consideração da experiência comum como base de todas as formas especializadas de conhecimento. 67. Todo conhecimento do mundo, inclusive o científico, pressupõe uma experiência situada sem a qual os símbolos científicos permaneceriam destituídos de sentido, de modo que a ciência constitui uma expressão de segunda ordem construída sobre o mundo diretamente experimentado. 68. Conserva-se assim uma distinção husserliana entre relação primária e comum com o mundo e relação científica especializada e secundária, cabendo à fenomenologia compreender precisamente a medida dessa diferença. 69. A experiência comum que fundamenta o mundo da vida permanece inicialmente no registro do pressuposto não tematizado, de modo que uma fenomenologia crítica precisa despertar seu sentido mediante uma transformação correspondente à epoché husserliana. 70. A suspensão fenomenológica não rejeita as certezas do senso comum ou da atitude natural, mas interrompe provisoriamente a adesão espontânea a elas para tornar visíveis as relações com o mundo que, justamente por fundamentarem todo pensamento, costumam permanecer despercebidas. 71. Merleau-Ponty interpreta a relação primária entre mundo e si mesmo, isto é, a intencionalidade, como estrutura perceptiva e ativa, fazendo do mundo percebido o fundamento pressuposto de toda racionalidade, valor e existência. 72. A percepção não constitui uma síntese comparável a juízos ou predicações, pois o mundo é aquilo que se percebe e a própria percepção deve ser compreendida como acesso à verdade, e não como simples representação cuja verdade ainda precisasse ser externamente demonstrada. 73. A racionalidade somente ocorre no interior da experiência perceptiva, constituindo-se quando perspectivas convergem, percepções se confirmam mutuamente e um sentido emerge dessa articulação. 74. A prioridade atribuída à percepção aproxima Merleau-Ponty de uma espécie de empirismo fenomenológico radicalmente diferente das teorias empiristas da sensação, embora sua permanência parcial no fundacionalismo husserliano também reproduza dificuldades na interpretação da ciência. 75. A perspectiva científica que considera a existência individual simples momento de um mundo objetivo permanece ingênua quando esquece a experiência consciente pela qual esse próprio mundo se constitui, pois retornar às coisas mesmas significa retornar ao mundo prévio ao conhecimento, relativamente ao qual qualquer esquematização científica é uma linguagem abstrata e derivada. 76. A oposição fundacionalista entre percepção comum e percepção científica estabelece uma diferença excessivamente rígida entre a práxis cotidiana e a atividade científica, obscurecendo uma estratégia alternativa que poderia ser desenvolvida a partir da própria fenomenologia. 77. O modelo merleau-pontyano de práxis-percepção contribui potencialmente tanto para a filosofia da ciência quanto para a filosofia da tecnologia ao reinterpretar existencialmente a fenomenologia husserliana, deslocando-a da análise da consciência pura para a relação material e encarnada entre corpo e mundo. * A fenomenologia existencial prolonga a redução fenomenológica ao compreender a existência como concretamente inserida em percepção e práxis. * O ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) de Heidegger aparece nesse contexto como transformação existencial possibilitada pelo horizonte aberto pela redução fenomenológica. * A materialidade relevante não é uma coisa meramente objetiva, mas a relação vivida entre mundo, corpo e existência. 78. A intencionalidade é reinterpretada como correlação entre ambiente experimentado e experiência realizada por um ser encarnado, tornando a corporalidade condição constitutiva de toda percepção. * O corpo vivido participa do que é percebido e do modo como algo pode ser percebido. * Uma teoria do corpo torna-se inseparável de uma teoria da percepção. * Espacialidade existencial e posição corporal precisam ser permanentemente incorporadas à análise perceptiva. 79. A percepção contínua de um mesmo apartamento durante o deslocamento corporal somente é possível porque as diferentes perspectivas são implicitamente relacionadas às posições ocupadas e ao reconhecimento do próprio corpo como unidade persistente através do movimento. 80. A existência corporal possui um privilégio específico em toda perspectiva fenomenológica, pelo menos no domínio da micropercepção, pois espacialidade, temporalidade, mortalidade, expressividade, sexualidade e demais dimensões da percepção ativa não podem ser excluídas sem empobrecer e desumanizar a análise. 81. A teoria merleau-pontyana da percepção pode ser condensada em determinados traços que esclarecem a constituição do modelo de práxis-percepção. 82. A recuperação da percepção do mundo da vida exige restituir sua complexidade e multidimensionalidade contra os diversos reducionismos das ciências humanas do século XX, especialmente da psicologia, reconhecendo que a experiência perceptiva originária possui riqueza irredutível. 83. A percepção visual distingue imediatamente situações que uma descrição puramente física poderia tratar como equivalentes, porque a visão já se encontra habitada por significações ligadas à existência e às relações concretas entre sujeito encarnado, objetos e ambiente. * Uma roda de madeira simplesmente colocada no chão não aparece da mesma maneira que uma roda sustentando uma carga. * Um corpo em repouso por ausência de forças não possui o mesmo sentido perceptivo que um corpo imóvel devido ao equilíbrio entre forças opostas. * O objeto percebido pode concentrar em si uma cena inteira ou adquirir o sentido de um segmento de vida. * A experiência sensorial constitui comunicação vital com o mundo e confere espessura tanto ao objeto percebido quanto ao sujeito perceptivo. 84. A experiência perceptiva originária é complexa e multidimensional, exigindo uma análise essencialmente não redutiva. 85. A motricidade corporal e a ação possuem prioridade decisiva na percepção, de maneira que ilusões mantidas à distância podem desfazer-se quando o corpo se envolve praticamente na situação. * Experimentos com lentes inversoras e ambientes espacialmente deformados mostram que a experiência perceptiva depende da ação corporal. * O corpo relevante não é simplesmente um objeto situado no espaço objetivo, mas um sistema de ações possíveis. * O lugar fenomenal do corpo é determinado pela tarefa e pela situação, de modo que ele se encontra onde há algo a ser realizado. 86. A existência corporal é simultaneamente ativa e orientada, pois direções como acima e abaixo, direita e esquerda ou frente e trás adquirem sentido em relação às capacidades corporais e às tarefas possíveis de um ser dotado de determinada postura e organização motora. 87. A orientação do ser e a espacialidade da existência pertencem ao encontro primordial com o mundo, pois a experiência perceptiva revela que existir corporalmente significa necessariamente encontrar-se situado. 88. Quando as relações entre corpo e mundo são compreendidas de maneira ativa, o modelo perceptivo fundamental assume a estrutura gestáltica de figura e fundo. 89. Uma figura sobre um fundo não constitui propriedade contingente de determinadas percepções, mas a própria estrutura elementar de toda percepção, pois qualquer coisa percebida aparece necessariamente no interior de algo mais amplo e participa de um campo. 90. A análise fenomenológica exclui, consequentemente, a possibilidade de uma coisa isolada em si mesma, já que qualquer coisa somente aparece no interior de algum contexto, invariância derivada do caráter essencialmente perceptivo da fenomenologia. 91. O modelo gestáltico merleau-pontyano relaciona-se diretamente à motricidade corporal, porque corpo e mundo alcançam ajuste recíproco quando intenções motoras recebem as respostas esperadas do ambiente e percepção e ação atingem máxima articulação. 92. A estrutura figura-fundo implica também uma estratégia todo-parte, pela qual a certeza fundamental recai sobre o mundo enquanto totalidade, enquanto objetos e apreensões perceptivas particulares permanecem sujeitos a incerteza, correspondendo a um procedimento fenomenológico orientado do todo para as partes. 93. A possibilidade de incerteza das partes dentro de uma totalidade contextual torna a situação perceptiva humana fluida, ambígua e parcialmente polimorfa, como se evidencia nas figuras bidimensionais capazes de produzir diferentes organizações tridimensionais. 94. A introdução de determinadas linhas em uma figura visualmente ambígua pode destruir sua organização em profundidade não por causalidade mecânica, mas porque promove uma apreensão global diferente da configuração perceptiva. 95. A apreensão de linhas e formas não é arbitrariamente imposta por um sujeito, pois os próprios fenômenos recomendam determinadas organizações perceptivas, sendo essa determinação particularmente forte em campos visuais concretamente vividos, nos quais certas inversões figura-fundo praticamente deixam de ser possíveis. 96. A ambiguidade perceptiva possui graus e apresenta certa polimorfia, mas sua variabilidade depende das possibilidades de envolvimento corporal, pois reversões facilmente realizáveis em desenhos abstratos deixam de ocorrer do mesmo modo na práxis motora concreta. 97. O modelo de práxis-percepção elaborado na Fenomenologia da percepção concentra-se principalmente na micropercepção, isto é, na ação e percepção do corpo encarnado em seu envolvimento imediato com o ambiente, permanecendo inicialmente indeterminada sua relação com a nova filosofia da ciência e a filosofia da tecnologia. 98. A análise merleau-pontyana da percepção permite compreender a práxis científica como ação simultaneamente envolvida e incorporada, complementando profundamente o modelo gestáltico posteriormente utilizado por Kuhn, embora Merleau-Ponty não tenha aplicado sistematicamente suas análises à instituição científica. 99. A micropercepção possui consequências ainda mais imediatas para a filosofia da tecnologia porque a materialidade corporal implica relações concretas com artefatos, como mostram os exemplos merleau-pontyanos da pluma de um chapéu, do automóvel e da bengala utilizada por uma pessoa cega. 100. Uma pessoa pode incorporar perceptivamente à própria espacialidade corporal a extensão de uma pluma ou as dimensões de um automóvel sem realizar cálculos explícitos, percebendo imediatamente possibilidades de passagem e obstáculos como se tais artefatos prolongassem operacionalmente o próprio corpo. 101. Esses fenômenos constituem formas de conhecimento tácito e, mais especificamente, relações de incorporação pelas quais artefatos tecnológicos entram na experiência corporal e transformam aquilo que pode ser percebido através deles. * O uso competente não depende necessariamente de juízos conceituais explicitamente formulados. * A tecnologia pode integrar-se à relação existencial entre corpo e mundo. * A experiência por meio de um artefato modifica o alcance e a estrutura da própria percepção. 102. A bengala de uma pessoa cega deixa de ser percebida primordialmente como objeto independente e transforma sua extremidade numa região sensível que amplia o alcance do tato, fazendo com que os objetos sejam experimentados diretamente no limite ampliado da ação corporal. 103. A incorporação perceptiva de plumas, automóveis e bengalas possui consequências tanto para a filosofia da tecnologia quanto para a filosofia da ciência, pois muitos instrumentos científicos são utilizados segundo estruturas existenciais semelhantes que permaneceram largamente negligenciadas pelas interpretações tradicionais da ciência. 104. Além de desenvolver profundamente a micropercepção corporal, Merleau-Ponty começou a reconhecer uma macropercepção cultural que interage com ela, sobretudo em O visível e o invisível, embora essa dimensão tenha permanecido menos desenvolvida devido à incompletude de sua obra tardia. 105. A percepção é historicamente informada pela cultura, como demonstra o aprendizado da perspectiva artística renascentista, pois aquilo que posteriormente parece uma estrutura perceptiva natural resulta de uma orientação cultural capaz de tornar o próprio sistema cultural perceptível. 106. A análise tardia de Merleau-Ponty reconhece claramente a interação e a interdependência entre micropercepção e macropercepção. 107. Embora Merleau-Ponty não tenha aplicado explicitamente as relações gestálticas de figura e fundo à articulação entre micropercepção e macropercepção, sua filosofia permanece aberta a essa possibilidade sem reduzir simplesmente a primeira à segunda à maneira wittgensteiniana ou foucaultiana. 108. Michel Foucault constitui o último pensador europeu relevante para estabelecer uma contraparte continental à nova filosofia da ciência. 109. Apesar de Foucault declarar-se antifенomenológico, sua obra desenvolve um modelo de práxis-percepção especialmente importante para uma filosofia da tecnologia, conservando relações profundas com Merleau-Ponty, de quem foi aluno, e também com Heidegger, cuja obra leu intensamente. 110. A aproximação de Foucault com a nova filosofia da ciência torna-se ainda mais significativa por sua estrita contemporaneidade com Kuhn e pela publicação de História da loucura em 1961, um ano antes de A estrutura das revoluções científicas. * Temas como loucura, punição e sexualidade inicialmente pareceram afastar Foucault das preocupações convencionais da filosofia da ciência. * Sua análise dos contextos de discurso e poder também parecia aplicar-se prioritariamente às ciências humanas. * A influência de Hubert Dreyfus e de uma geração capaz de transitar entre tradições continentais e anglo-americanas tornou mais explícitas as relações entre Heidegger, Foucault e as novas abordagens da ciência. 111. A ordem das coisas desempenha para as ciências humanas função comparável àquela exercida por A estrutura das revoluções científicas para as ciências naturais, pois as arqueologias e histórias da percepção de Foucault enfatizam transformações súbitas e descontínuas da macropercepção, situando-o numa posição decisiva entre fenomenologia e nova filosofia da ciência. 112. A arqueologia do saber explicita uma metodologia deliberadamente contrária às histórias intelectuais tradicionais, substituindo linearidade por descontinuidade, evolucionismo por análise antianacrônica e histórias centradas em indivíduos por uma história anônima vinculada às práticas sociais. 113. A estratégia foucaultiana pode ser interpretada como uma mudança deliberada de Gestalt, transformando em procedimento metodológico aquilo que em Kuhn aparece como ocorrência histórica e aproximando-se do método fenomenológico de variação que remonta a Husserl. 114. Os resultados das arqueologias foucaultianas e das histórias da percepção apresentam paralelismo notável com as mudanças de paradigma kuhnianas, embora Foucault enfatize transformações de discurso e práxis mais amplas do que as mudanças predominantemente conceituais descritas por Kuhn. 115. Apesar da autodeclaração antifенomenológica, a obra de Foucault permanece inserida numa trajetória marcada por problemas provenientes de Merleau-Ponty. * A ordem das coisas inicia-se com Las meninas, de Velázquez, uma pintura sobre o próprio ato de pintar e estruturada por relações de reflexividade, contrariando implicitamente uma afirmação merleau-pontyana acerca da impossibilidade de uma pintura sobre a pintura. * O capítulo seguinte, “A prosa do mundo”, retoma diretamente o título de uma obra de Merleau-Ponty. * A ausência explícita de Merleau-Ponty na obra foucaultiana não elimina a profunda presença estrutural de suas questões. * A rejeição declarada da fenomenologia permanece mais superficial do que o modelo efetivamente empregado na análise da percepção e da práxis. 116. As transformações foucaultianas da fenomenologia prolongam implicações internas da própria tradição, sobretudo ao rejeitarem a herança transcendental que, desde Descartes e Kant, localizava no sujeito a fonte e a estrutura fundamentais do conhecimento. 117. A abordagem rejeitada por Foucault é aquela que atribui prioridade absoluta ao sujeito observador, concede função constituinte aos seus atos e situa sua perspectiva na origem de toda historicidade, culminando numa consciência transcendental. 118. A crítica foucaultiana dirige-se, portanto, ao quadro simultaneamente transcendental e fundacionalista preservado por Husserl, embora Merleau-Ponty e Heidegger já tivessem abandonado profundamente essas dimensões, convertendo a fenomenologia pós-husserliana em orientação existencial e hermenêutica da qual Foucault implicitamente parte. 119. Foucault combina estruturalismo e semiótica com uma finalidade ainda reconhecivelmente fenomenológica, substituindo o sujeito cognoscente por um quadro de discurso-práxis e macropercepção social no qual a análise histórica da ciência deve remeter à prática discursiva e não a uma teoria do sujeito do conhecimento. 120. A crítica foucaultiana participa do movimento europeu de descentração das filosofias transcendentais e fundacionalistas, deslocando o eu, a consciência cognoscente e a intencionalidade concebida como ato deliberado para privilegiar histórias anônimas, modelos não conscientes de conhecimento e descontinuidades perceptivas. 121. A afirmação de que o “homem” constitui invenção recente significa que a figura epistemológica do humano não é fundamento universal do conhecimento, mas configuração histórica surgida há poucos séculos e destinada a desaparecer quando a própria ordem do saber assumir uma nova forma. 122. O caráter aparentemente provocador da tese sobre o desaparecimento do homem somente se esclarece quando situado nas substituições realizadas por Foucault dentro do modelo de práxis-percepção. 123. A trajetória fenomenológica da percepção parte do Husserl tardio, no qual a micropercepção sensorial continua vinculada a uma filosofia transcendental e fundacionalista, enquanto a familiaridade cultural já aparece como formação secundária capaz de sedimentar-se historicamente, como exemplifica a perspectiva galileana transformada em norma cultural das ciências físicas. 124. Merleau-Ponty radicaliza a fenomenologia ao existencializar o arco perceptivo husserliano, afastando-se progressivamente do transcendentalismo e do fundacionalismo, pois o corpo vivo constitui um foco situado e um lugar de ação sem tornar-se fundamento último do mundo ou do conhecimento. 125. A intencionalidade merleau-pontyana assume caráter existencial e frequentemente tácito, enquanto o corpo permanece meio concreto de acesso a um mundo ambíguo e polimorfo cuja própria percepção é historicamente configurada por diferentes contextos culturais. 126. Foucault prolonga essa radicalização ao transformar o corpo numa realidade simultaneamente material e cultural, como se evidencia em Vigiar e punir pela análise do corpo do condenado como ponto de incidência de uma práxis política na qual o poder soberano se torna publicamente visível. * A execução pública do regicida em 1757 organiza ritualisticamente cada etapa da violência sobre o corpo. * O corpo individual torna-se suporte concreto da manifestação do poder político. * A presença da população integra a própria estrutura perceptiva do castigo, destinado a tornar visível a potência soberana. 127. A transformação moderna da punição constitui uma mudança paradigmática na qual o corpo deixa de ser o alvo público principal da repressão e o castigo se desloca para espaços ocultos, acompanhando uma reorganização integral da Gestalt penal voltada para o controle da interioridade do indivíduo. * A execução pública é substituída pela prisão prolongada e pelo desaparecimento do castigo do campo visual coletivo. * A dor corporal perde sua função política explícita e passa a ser minimizada mesmo quando a própria vida é retirada. * A nova economia penal busca privar direitos e controlar a pessoa sem reproduzir ostensivamente o espetáculo corporal da soberania. 128. As transformações históricas dos dispositivos de controle analisadas por Foucault constituem modificações do modelo de práxis-percepção orientadas para macropercepções estruturadas, aproximando-se novamente do modelo kuhniano apesar da centralidade especificamente foucaultiana do poder. 129. A aproximação entre Foucault e Kuhn também decorre da incorporação foucaultiana do estruturalismo, da linguística de Saussure e da semiótica francesa, que conduzem a uma posição funcionalmente próxima de Wittgenstein na qual percepção e linguagem são inseparáveis e o discurso fornece o contexto no qual o mundo pode ser percebido. 130. A ordem das coisas aproxima-se particularmente das preocupações da filosofia da ciência e inicia sua investigação com a perturbadora classificação atribuída por Borges a uma suposta enciclopédia chinesa. 131. A taxonomia fantástica de Borges, que organiza animais segundo categorias mutuamente estranhas e incomensuráveis, produz estranhamento porque rompe as coordenadas familiares pelas quais determinada época organiza o pensamento e evidencia, por contraste, os limites históricos do próprio sistema de classificação. 132. As epistemes foucaultianas são ordens históricas de conhecimento e percepção radicalmente descontínuas entre si, correspondendo a transformações paradigmáticas que não se limitam à passagem medieval para a ciência renascentista, mas incluem rupturas entre Renascimento e período clássico e entre este último e os séculos XIX e XX. * A história intelectual tradicional tende a pressupor continuidade onde a arqueologia identifica rupturas profundas. * Cada episteme constitui simultaneamente determinada organização do conhecimento e determinado modo de percepção. * Botânica e biologia fornecem casos privilegiados para observar essas reorganizações perceptivas. 133. A percepção de plantas e animais deve ser compreendida como conhecimento ordenado, manifestando-se simultaneamente na forma pela qual os seres são organizados, representados, descritos e observados. 134. A episteme do século XVI organiza-se segundo uma extensa rede de semelhanças na qual analogia e similitude orientam a interpretação dos textos, os símbolos, o conhecimento do visível e do invisível e as próprias artes da representação. * Perceber o mundo medieval significa simultaneamente vê-lo e lê-lo. * Natureza, céus e coisas são tratados como um texto repleto de signos. * A interpretação constitui o modelo fundamental de conhecimento dessa época. 135. A percepção botânica e zoológica integra-se à ordem medieval das semelhanças, fazendo com que plantas e animais sejam apreendidos como sinais inseridos em uma rede de correspondências cujo sentido ultrapassa suas características imediatamente visíveis. 136. O paradigma da semelhança ultrapassa a botânica e a biologia e organiza também monumentos culturais como as catedrais europeias, nas quais a história do mundo pode ser “lida” em pedra e vidro mediante sistemas de analogias e correspondências que incorporam inclusive elementos extrabíblicos. 137. Simetria, semelhança e analogia constituem o horizonte no qual a própria percepção medieval das plantas se torna possível. 138. A afinidade entre plantas e partes do corpo humano pode ser reconhecida mediante “assinaturas” visíveis, como a semelhança das sementes de acônito com olhos ou da noz com cérebro e cabeça, permitindo que aparência, função medicinal e posição cosmológica sejam integradas numa mesma rede perceptiva de correspondências. 139. Uma organização do conhecimento fundada nessas analogias aparece à percepção contemporânea tão estranha quanto a classificação fantástica da enciclopédia chinesa de Borges. 140. A estranheza dessa ordem pode ser aprofundada quando suas proposições são consideradas seriamente segundo os critérios internos que as tornavam pensáveis. 141. A ideia de uma correspondência numérica entre seres aquáticos, terrestres e celestes manifesta uma concepção do mundo como sistema universal de conveniências e similitudes no qual os diferentes domínios da realidade refletem-se mutuamente. 142. A dificuldade contemporânea não consiste propriamente em demonstrar a falsidade empírica de tais correspondências, pois sequer se dispõe de levantamentos totais que permitiriam verificá-las, mas em compreender o sentido da própria pergunta dentro de um paradigma abandonado. 143. A questão tornou-se estranha porque a semelhança deixou de organizar a percepção e o conhecimento a partir do século XVII, tornando incompreensível aquilo que anteriormente podia constituir uma relação significativa entre as coisas. 144. No início do século XVII, a similitude deixa de constituir forma legítima do conhecimento e passa a ser entendida como fonte de erro e confusão, marcando uma inversão fundamental relativamente ao paradigma renascentista. 145. A passagem da semelhança ao seu descrédito constitui uma transformação paradigmática radical e uma descontinuidade na própria percepção cultural. 146. A descontinuidade histórica ocorre quando, num intervalo relativamente curto, uma cultura deixa de pensar segundo sua antiga ordem e começa a organizar objetos e problemas de maneira inteiramente diferente, transformação cujas condições parecem surgir das margens impensadas do próprio pensamento. 147. A análise foucaultiana apresenta uma transformação independente mas paralela àquela descrita por Kuhn, pois a mudança não afeta uma variável isolada, mas reorganiza uma constelação inteira de percepção, linguagem, observação e relações. * Na episteme medieval não existe separação rigorosa entre aquilo que se vê e aquilo que se lê. * Plantas e animais aparecem simultaneamente em sua visibilidade sensível e numa rede invisível de relações cosmológicas, históricas, práticas e teológicas. * A percepção inclui cores, formas, usos, histórias e conexões simbólicas numa superfície contínua de significações. * O caráter atualmente considerado não empírico desses conhecimentos decorre menos de ausência de observação do que de uma concepção diferente daquilo que deveria contar como perceptivamente relevante. 148. A passagem do período medieval ao moderno transforma simultaneamente percepção e linguagem, dissolvendo a antiga afinidade entre palavras e mundo e separando progressivamente o visível do legível e o observável do expressável. * A palavra escrita perde sua antiga primazia ontológica. * Os sentidos são progressivamente diferenciados em funções discretas. * O olho passa a ser destinado a ver e o ouvido a ouvir, em vez de participarem de uma rede ampliada de correspondências simbólicas. * Modifica-se, portanto, não apenas o conteúdo percebido, mas a própria compreensão cultural da percepção. 149. Nem Foucault nem Kuhn conseguem explicar de maneira conclusiva por que essas transformações paradigmáticas ocorrem. 150. A hipótese foucaultiana de uma erosão proveniente do exterior encontra paralelo na acumulação kuhniana de anomalias internas, mas em ambos os casos os argumentos favoráveis ao novo paradigma somente adquirem plena força depois que uma nova maneira de ver já se estabeleceu. * As críticas de Bacon aos ídolos, de Descartes à semelhança e de Hume à analogia tornam-se possíveis no interior de uma perspectiva que já alterou o valor cognitivo da similitude. * Os debates do século XVII não podem ser reduzidos a uma antecipação do empirismo positivista. * Sua transformação fundamental dirige-se contra a semelhança enquanto princípio de conhecimento. 151. Embora a distância em relação à episteme medieval seja facilmente reconhecida, Foucault sustenta que a própria ordem moderna do conhecimento, frequentemente percebida como contínua com a contemporaneidade por estar associada à ascensão da ciência moderna, também se tornou historicamente arcaica e descontínua em relação ao presente. 152. A substituição da semelhança pela Ordem caracteriza a época clássica ou moderna, na qual a análise geométrica assume função organizadora comparável àquela desempenhada anteriormente pela interpretação, sendo a ordenação inicialmente mais fundamental que a própria medição. 153. As relações entre os seres passam a ser concebidas segundo ordem e medida, mas os problemas de medida podem ser reduzidos a problemas de ordenação, fazendo da análise um método potencialmente universal para estabelecer sucessões entre coisas inclusive quando estas não são diretamente mensuráveis. 154. A análise foucaultiana aproxima-se da reconstrução de Husserl, mas a consideração de disciplinas além da geometria e da física revela problemas específicos do mundo orgânico, no qual a mesa classificatória assume durante os séculos XVII e XVIII o papel central de organização do conhecimento. * Botânica e história natural passam a ordenar seres visíveis mediante taxonomias. * As controvérsias científicas concentram-se na localização e organização dos seres dentro das tabelas classificatórias. * O mecanismo galileano e cartesiano encontra limites quando aplicado à complexidade dos organismos. 155. A reorganização ocorre como inversão simultânea de figura e fundo e pode ser acompanhada pela transformação do próprio significado de “história”, pois aquilo que durante o século XVI compreendia múltiplas narrativas e relações progressivamente se converte em descrição sistemática dos seres naturais. 156. Na História natural dos quadrúpedes de Jonston, publicada em 1657, a descrição do cavalo organiza-se segundo categorias como nome, partes anatômicas, habitat, idade, geração, voz, movimentos, simpatias, antipatias e usos, indicando a transformação daquilo que passa a contar como história natural. 157. Embora essa classificação ainda pareça estranha a partir das taxonomias contemporâneas, já corresponde a uma reorganização profunda das relações mediante as quais os seres são conhecidos. 158. A diferença essencial relativamente às descrições anteriores encontra-se sobretudo naquilo que desaparece, pois a semântica animal e as palavras anteriormente entrelaçadas ao próprio ser do animal são retiradas, fazendo surgir um organismo aparentemente desnudo em sua anatomia, forma, hábitos, nascimento e morte. 159. A história natural fundada na tabela ordenadora reduz, desse modo, as múltiplas dimensões e relações pelas quais os seres eram anteriormente percebidos e compreendidos. 160. A transformação da história opera mediante exclusões e substituições progressivas, como se evidencia no esquema descritivo de Lineu e na redefinição clássica da história como exame minucioso das próprias coisas seguido de sua transcrição em linguagem neutra, regular e fiel. 161. A ordem clássica diferencia-se também do Renascimento, pois a passagem da coleção concebida como teatro para a organização concebida como catálogo modifica não o desejo de conhecimento em si mesmo, mas a maneira pela qual as coisas são articuladas simultaneamente ao olhar e ao discurso. 162. A transformação do significado de história corresponde a uma transformação da percepção, pois a história natural reduz-se progressivamente à nomeação do visível e inaugura uma nova modalidade de ver que pode ser propriamente denominada observação. 163. A observação formada a partir do século XVII constitui conhecimento perceptivo submetido a condições sistematicamente negativas de seleção sensorial. * O testemunho indireto é excluído. * Paladar e olfato são rejeitados devido à sua variabilidade e aparente incapacidade de fornecer elementos universalmente analisáveis. * O tato é restringido a distinções simples, como liso e áspero. * A visão recebe posição privilegiada por permitir apreender extensão e fornecer elementos apropriados à análise espacial compartilhável. 164. A nova ordem determina simultaneamente quais sentidos devem ser privilegiados e quais aspectos de cada sentido contam como cognitivamente relevantes, reduzindo progressivamente a percepção à visão e a própria visão a determinados elementos geometricamente estruturáveis. * Clareza, distinção e extensão espacial recebem prioridade. * A separação metafísica entre qualidades primárias e secundárias influencia o próprio campo do visível admissível. * A visibilidade científica tende a ser purificada de outras cargas sensoriais e reduzida a contrastes formalmente analisáveis. * Linhas, superfícies, formas e relevos tornam-se componentes privilegiados da observação. 165. Nesse contexto surge uma rara consideração foucaultiana sobre tecnologia, segundo a qual a própria ordem do saber determina quais tecnologias são selecionadas e empregadas, pois as condições que restringem o campo da experiência também tornam possível o uso de instrumentos ópticos, preservando assim certa prioridade idealista da ordem epistemológica sobre a materialidade tecnológica. 166. A observação nascida no século XVII constitui percepção rigorosamente ordenada que se contenta em ver sistematicamente apenas determinadas coisas, excluindo precisamente muitas das qualidades plenas destacadas por Husserl e convertendo a ciência numa extensa tarefa de nomear, classificar e organizar o mundo visível. 167. A ordem perceptiva dos séculos XVII e XVIII desaparece com a emergência da episteme do século XIX, não devendo ser interpretada como simples antecipação desta, pois o nascimento propriamente dito da biologia envolve outra mudança paradigmática radical e uma nova reorganização simultânea das variáveis cognitivas e perceptivas. 168. A passagem da história natural para a biologia desloca o conhecimento das características exteriores e visivelmente classificáveis para estruturas internas e funcionais, fazendo da anatomia comparada a ciência paradigmática e subordinando a classificação exterior à organização não imediatamente perceptível da vida. 169. A nova episteme revaloriza as qualidades plenas mediante a substituição predominante do exterior pelo interior, pois a anatomia comparada abre um espaço interno situado entre superfícies corporais e estruturas microscópicas, fazendo da microestrutura interna o princípio de inteligibilidade anteriormente atribuído à aparência exterior. 170. A caracterização foucaultiana dessa passagem como deslocamento ao “invisível” deve ser corrigida para reconhecer a constituição de um novo tipo de visibilidade produzido pela instrumentação científica. * A biologia não abandona propriamente a visibilidade, mas desloca-se para uma visibilidade interna e microestruturada. * Essa nova percepção depende das tecnologias instrumentais que tornaram acessíveis domínios anteriormente invisíveis. * Técnicas de coloração permitiram revelar estruturas que permaneciam invisíveis mesmo quando observadas ao microscópio. * A instrumentação participa, portanto, constitutivamente da transformação histórica do próprio modo científico de ver. 171. Uma vez estabelecido que as diferentes épocas científicas são interpretadas por Foucault mediante reorganizações do “ver como”, torna-se suficiente reconhecer que cada descontinuidade radical envolve simultaneamente linguagem, prática e percepção, sem necessidade de reconstruir com igual detalhe todas as epistemes dos séculos XVIII e XIX. 172. A passagem da ordem moderna para as ciências da vida do século XIX envolve grandes eliminações e substituições, dissolvendo relações anteriormente fundamentais entre classificação, nomenclatura e visibilidade e transformando inclusive a própria concepção de natureza. 173. A “natureza” entendida como espaço homogêneo de identidades e diferenças ordenáveis desaparece e é substituída por uma estrutura aprofundada de oposições e relações funcionais cujos termos já não ocupam necessariamente o mesmo nível. 174. As substituições positivas introduzidas pela anatomia valorizam funções, semelhanças entre processos orgânicos presentes em estruturas corporais distintas e hierarquias de órgãos definidas pelas funções que realizam. 175. Com o reaparecimento de dimensões não diretamente visíveis, surge uma forma renovada de relacionalidade na qual estruturas anatômicas e funcionais tornam-se signos de sistemas que ultrapassam sua aparência imediata, evocando sob nova configuração algumas propriedades da antiga organização medieval. 176. Membros propulsores podem conservar uma mesma posição funcional no plano orgânico mesmo quando aparecem mascarados ou transformados em estruturas morfologicamente distintas, como asas de morcegos, nadadeiras posteriores de focas ou nadadeiras peitorais de cetáceos, revelando uma constância funcional sob diferenças exteriores. 177. A substituição da história natural pela biologia demonstra que o paradigma moderno desapareceu de modo tão profundo que somente uma compressão arqueológica retrospectiva permite imaginá-lo contínuo com o presente, quando na realidade ele se tornou tão arcaico para a contemporaneidade quanto a antiga ordem medieval havia sido para a modernidade. 178. O paralelismo entre Foucault e Kuhn permite reconhecer um desenvolvimento comum do modelo de práxis-percepção no interior da nova filosofia da ciência e das tradições fenomenológicas euro-americanas, mesmo sem reduzir as importantes diferenças entre ambos. * As duas perspectivas compreendem a ciência mediante transformações históricas nos modos de perceber e organizar seus objetos. * A tradição fenomenológica já havia incorporado profundamente percepção e práxis à interpretação da experiência. * A convergência permaneceu durante muito tempo pouco reconhecida pelas correntes filosóficas dominantes da América do Norte. 179. A nova filosofia da ciência introduziu a ciência em contextos históricos, práticos e perceptivos, mas permaneceu incapaz de tematizar suficientemente sua própria tecnologia, pois nem Kuhn nem seus equivalentes europeus reconheceram a incorporação tecnológica da ciência moderna como elemento decisivo da práxis e da percepção científicas. 180. A mesma negligência caracteriza os filósofos da tecnologia provenientes das antigas vertentes da filosofia da ciência, como se evidencia na tentativa de Mario Bunge de submeter a tecnofilosofia a um modelo nomológico, tornando necessário deslocar a investigação para as formas mais concretas da práxis e da percepção humano-tecnológicas, nas quais podem ser encontradas raízes próprias de uma filosofia da tecnologia simultaneamente distinta e relacionada à nova filosofia da ciência. {{tag>Ihde ciência técnica}}