====== Realismo incorporado ====== //LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.// **Realismo Incorporado: Ciência Cognitiva Versus Filosofia a Priori** 1. Duas objeções naturais surgem aos resultados da ciência cognitiva: primeiro, muitos cientistas cognitivos, educados na tradição da filosofia analítica, rejeitam a existência de conceitos metafóricos ou a imposição de estrutura racional pelo corpo e cérebro; segundo, muitos filósofos pós-modernos negam que a ciência cognitiva possa ter "resultados" que forneçam uma base para criticar uma visão filosófica específica, argumentando que a ciência não pode ser livre de suposições filosóficas cruciais que determinam seus resultados. 2. A ciência cognitiva de primeira geração, que surgiu nos anos 1950 e 1960, aceitou sem questionamento a visão prevalente de que a razão era "desincorporada" (disembodied) e literal, como na lógica formal ou na manipulação de sistemas de signos, e assumiu que a mente poderia ser estudada em termos de funções cognitivas, ignorando como essas funções surgem do corpo e do cérebro, adotando uma perspectiva funcionalista onde o corpo não contribuía em nada para a natureza dos conceitos e da razão humanos. 3. A ciência cognitiva de primeira geração assumiu um dualismo estrito onde a mente era caracterizada em termos de funções formais, independentes do corpo, e o pensamento era visto como a manipulação de símbolos formais e sem significado de acordo com regras formais, e o termo "representação mental" tinha dois significados: representação de um conceito definido por suas relações com outros conceitos dentro de um sistema formal, ou representação simbólica de algo fora do sistema formal. 4. Por volta de meados dos anos 1970, uma pesquisa empírica começou a questionar cada um dos princípios fundamentais da "cognitivismo" anglo-americano, e uma visão concorrente da ciência cognitiva se desenvolveu, onde todas as suposições anteriores tiveram que ser abandonadas diante de evidências de (1) uma forte dependência de conceitos e razão em relação ao corpo, e (2) a centralidade de processos imaginativos, especialmente metáfora, imagens, metonímia, protótipos, frames, espaços mentais e categorias radiais, para a conceituação e raciocínio. 5. A visão incorporada da mente de segunda geração afirma que a estrutura conceitual surge da experiência sensório-motora e das estruturas neurais que a originam, que as estruturas mentais são intrinsecamente significativas por virtude de sua conexão com os corpos e a experiência incorporada, que há um "nível básico" de conceitos que surge em parte de esquemas motores e capacidades de percepção gestáltica e formação de imagens, e que a razão é incorporada porque as formas fundamentais de inferência surgem de formas de inferência sensório-motoras e outras baseadas no corpo. 6. A distinção entre ciência cognitiva de primeira e segunda geração não tem a ver com a idade dos indivíduos, mas com suposições filosóficas e metodológicas, e a primeira geração baseia-se em compromissos a priori específicos: funcionalismo, manipulação de símbolos, teoria representacional do significado, categorias clássicas e significado literal, enquanto a segunda geração baseia-se em evidências empíricas e não em suposições filosóficas a priori. 7. As suposições metodológicas necessárias para uma investigação empiricamente responsável incluem o Compromisso com a Realidade Cognitiva, o Compromisso com a Evidência Convergente e o Compromisso com a Generalização e Abrangência, e essas suposições não determinam os resultados da investigação, mas apenas garantem que o método não determine o resultado ou o distorça artificialmente. 8. Na mudança da primeira para a segunda geração da ciência cognitiva, a relação entre filosofia e ciência cognitiva se inverteu: na primeira geração, a filosofia controlava a ciência cognitiva, com princípios da filosofia analítica tomados como verdadeiros antes da pesquisa empírica; na segunda geração, a filosofia deve começar com uma ciência cognitiva empiricamente responsável baseada em suposições metodológicas, especialmente a suposição de evidência convergente. 9. A evidência para a existência da metáfora conceitual é de três tipos principais: generalizações de inferência, onde o mapeamento da metáfora "Amor é uma Jornada" (Love Is A Journey) generaliza o uso de inferências do domínio da viagem para raciocinar sobre o amor; generalizações de polissemia, onde palavras como "cruzamento" (crossroads) e "beco sem saída" (dead end) têm significados sistematicamente relacionados nos domínios de viagem e amor; e generalizações de casos novos, onde os mesmos mapeamentos cobrem expressões metafóricas novas e convencionais. 10. Além das evidências de generalização, há experimentos psicológicos, como o de Albritton, que testou a realidade cognitiva da metáfora "Amor é uma Força Física" (Love Is A Physical Force) usando priming, e os resultados confirmaram que a metáfora está "viva" e é cognitivamente real, pois os participantes que foram preparados (primed) por uma expressão metafórica reconheceram outra expressão da mesma metáfora significativamente mais rápido. 11. Outras fontes de evidência convergente incluem a mudança semântica histórica, onde a metáfora "Conhecer é Ver" (Knowing Is Seeing) fornece "rotas" para mudanças possíveis no significado das palavras ao longo da história em toda a família de línguas indo-europeias; estudos de gestos espontâneos, onde gestos inconscientes traçam imagens dos domínios fonte das metáforas conceituais; estudos de aquisição de linguagem, mostrando um estágio de confluência seguido por diferenciação; estudos de metáfora em línguas de sinais, com centenas de sinais metafóricos; e estudos de coerência do discurso, mostrando que a metáfora conceitual é necessária para dar sentido coerente ao discurso escrito. 12. A evidência convergente mostra que as generalizações sobre inferências e polissemia indicam correlações sistemáticas entre domínios conceituais; as generalizações sobre casos novos mostram que o mapeamento conceitual convencional é produtivo para casos novos; os experimentos psicológicos mostram que os mapeamentos convencionais estão vivos e psicologicamente reais; os dados históricos mostram que as metáforas conceituais devem ter sido reais nas mentes dos falantes por milhares de anos; a evidência de gestos mostra que os usuários usam inconscientemente as metáforas conceituais; a evidência de aquisição de linguagem mostra um mecanismo natural de aquisição; e a evidência da língua de sinais mostra que um grande número de sinais icônicos se encaixa sistematicamente em padrões definidos por mapeamentos metafóricos convencionais. 13. Muitos cientistas cognitivos de primeira geração, tendo internalizado o princípio da filosofia analítica de que os conceitos são necessariamente literais, simplesmente não aceitaram a existência de metáforas conceituais, apesar da evidência, e isso é um caso notável de filosofia colocando limites à ciência, e a ciência cognitiva de segunda geração escapou dessas conclusões colocando a evidência convergente à frente das visões filosóficas a priori. 14. Em resposta à crítica pós-moderna da ciência, que afirma que nenhum "resultado científico" pode ser usado para criticar uma posição filosófica porque esses "resultados" são baseados em uma posição filosófica concorrente, reconhece-se que não pode haver ciência sem suposições, mas a metodologia da evidência convergente e as massas de diferentes tipos de evidência minimizam a probabilidade de que os resultados sejam um artefato de qualquer metodologia específica. 15. O "realismo científico incorporado" (embodied scientific realism) mantém que há um mundo independente da compreensão humana, que se pode ter conhecimento estável dele, mas rejeita a noção de que os conceitos e formas de razão são caracterizados pelo mundo externo em si, e aceita os três resultados estáveis da ciência cognitiva - a mente incorporada, o inconsciente cognitivo e o pensamento metafórico - como base para repensar a filosofia. 16. O realismo científico incorporado baseia-se no engajamento físico com um ambiente em uma série contínua de interações, e a existência de "conceitos de nível básico" (basic-level concepts), caracterizados em termos de percepção gestáltica, imagens mentais e interação motora, é uma das descobertas centrais da ciência cognitiva incorporada, e a ciência estendeu com sucesso as capacidades básicas de percepção e manipulação através da tecnologia, permitindo que o nível básico seja estendido. 17. O que preenche o realismo científico incorporado, permitindo ir além da mera observação e manipulação, são as descobertas sobre conceitos incorporados e capacidades imaginativas, incluindo a existência de "inferências" perceptuais e motoras com uma lógica instanciada neuralmente, e a existência da metáfora conceitual, que permite conceituar um domínio de experiência em termos de outro, preservando a estrutura inferencial do domínio fonte, e a matemática permite modelar teorias metafóricas e calcular inferências sobre categorias literais de nível básico. 18. O realismo científico incorporado é compatível tanto com o sucesso da ciência quanto com o que foi aprendido na tradição Kuhnian: que as teorias mudam ao longo do tempo, que novas teorias muitas vezes não cobrem fenômenos previamente conhecidos, que as teorias podem ser incomensuráveis, e que a política, a cultura e questões pessoais entram na ciência, mas a evidência convergente ampla e profunda é uma marca de ciências bem-sucedidas. 19. O realismo científico incorporado rejeita a dicotomia estrita sujeito-objeto do realismo científico desincorporado, que cria um abismo ontológico intransponível entre "objetos" lá fora e "subjetividade" aqui dentro, e propõe que a única alternativa realista é o acoplamento ao mundo através de interações incorporadas, onde os conceitos incorporados diretamente podem se ajustar de forma confiável a essas interações e às compreensões do mundo que delas surgem. {{tag>Lakoff mente corpo metáfora realismo cognição}}