===== Psicologia ===== //LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.// **2. A psicologia diante das soluções cognitivistas** 1. Entre as diferentes formas assumidas pela psicologia ao longo dos séculos, a psicanálise constitui um contraexemplo particularmente significativo em relação à psicologia cognitivista, e a relação entre ambas pode ser examinada segundo duas perspectivas fundamentais. 2. A psicanálise pretende constituir uma investigação científica do espírito e uma teoria do ser humano e de sua atividade cerebral situada em nível superior ao neurobiológico, tendo contribuído para uma compreensão mais estratificada da relação humana com o mundo. 3. A psicanálise constitui, tanto no plano teórico quanto no terapêutico, um paradigma científico alternativo ao paradigma das ciências cognitivas. 4. A relação entre psicanálise e ciências cognitivas apresenta-se como confronto entre paradigmas concorrentes cujos pontos de partida são, entretanto, próximos, pois Freud era médico e atribuía importância fundamental à dimensão fisiológica. 5. A própria psicanálise pode ser concebida como ciência da natureza, conforme a caracterização formulada por Freud. 6. A dificuldade fundamental reside no intervalo entre o nível biológico do cérebro e do sistema nervoso e o nível psicológico dos estados de consciência, intervalo que Freud reconhece como desconhecido enquanto as filosofias cognitivistas procuram suprimi-lo ou preenchê-lo sem interrogá-lo propriamente. * Freud mantém como problema aberto a região intermediária entre os processos biológicos e os estados conscientes. * O materialismo eliminativo procura resolver a dificuldade negando a própria existência de um dos polos do problema. * Outras posições cognitivistas tentam preencher o intervalo mediante formalizações e tratamentos quantitativos. * A permanência do problema mente-corpo demonstra que nenhuma dessas soluções alcançou resultado satisfatório. 7. O antigo problema da distância entre o biológico e o psicológico reaparece sob novas formas e continua resistente ao cognitivismo apesar do desenvolvimento de instrumentos matemáticos explicativos sem precedentes. 8. As posições cognitivistas anteriormente consideradas aparecem, quando examinadas pelas perspectivas psicanalítica ou fenomenológica, como concepções desincorporadas nas quais o corpo vivo pode ser substituído por simples substrato físico de implementação. * A contingência do corpo torna-se ontológica, e não apenas epistemológica, dissolvendo a corporeidade concreta em possibilidades abstratas ou estatísticas. * Tanto as redes neuronais quanto a decomposição modular do conhecimento independem de um corpo vivido, Leib, exigindo apenas um corpo físico, Körper. * Tal desincorporação revela uma contradição particularmente significativa em filosofias que pretendem apresentar-se como materialistas. 9. Os modelos cognitivistas construídos por artefatos matemáticos e informáticos produzem formas de inteligência privadas de corpo e de mundo, relacionando-se com o ambiente apenas como sistemas externos destinados a receber sinais, transformá-los em informações e preservar sua própria organização. * O mundo aparece como espaço exterior de exploração, e não como dimensão originariamente compartilhada pelo organismo. * Os órgãos ou apêndices corporais tornam-se instrumentos destinados a transmitir sinais ao sistema cerebral. * A transformação de sinais em informações permanece subordinada às operações programadas e à manutenção da homeostase. * Na perspectiva psicanalítica, uma inteligência sem capacidade relacional, social ou incorporada corresponderia à abstração extrema de um comportamento psicopático. * A psicologia derivada desses materialismos acaba constituindo um ente sem corpo, sem mundo e sem consciência. 10. A psicanálise permite interpretar os processos cognitivistas de redução e aniquilação como mecanismos de defesa, cuja relação com o inconsciente constitui simultaneamente uma questão central e problemática da tradição psicanalítica. 11. Uma interpretação psicanalítica radical poderia compreender as abstrações e reduções das ciências cognitivas como formas de defesa relacionadas ao inconsciente, deslocando a crítica das teorias para os próprios homens que as elaboram; mais importante, porém, é examinar os procedimentos pelos quais as ciências cognitivas recusam as pretensões psicanalíticas. * O conflito ultrapassaria uma simples concorrência entre paradigmas, pois a análise psicanalítica poderia dirigir-se aos próprios cientistas e filósofos enquanto sujeitos. * A questão principal passa a ser compreender as estratégias epistemológicas pelas quais o cognitivismo rejeita a psicanálise. * Essas estratégias revelam pressupostos implícitos que sustentam o empreendimento cognitivista. * O confronto com a psicanálise concentra uma parte decisiva da problemática epistemológica das ciências cognitivas. 12. As ciências cognitivas, sobretudo em sua vertente eliminativista herdada da cibernética, pressupõem um encaixe progressivo das ciências no qual o paradigma mais abrangente deverá finalmente absorver as disciplinas atualmente separadas em razão das limitações do conhecimento. 13. Se a capacidade de absorver paradigmas menos abrangentes constitui o critério epistemológico decisivo, torna-se igualmente possível interpretar as próprias ciências cognitivas no interior do modelo conceitual da psicanálise. 14. A observação de André Green indica ironicamente que neurocientistas e cognitivistas parecem excluir de si próprios a fantasia, exceto quando fantasiam uma máquina capaz de causar os estados psíquicos envolvidos em suas próprias fantasias. 15. A causalidade atribuída à máquina deve ser entendida em sentido estrito de produção causal, e não simplesmente como modo discursivo de expressão. 16. Segundo o próprio critério reducionista cognitivista, o modelo psicanalítico poderia ser considerado mais poderoso por codificar fenômenos que escapam à psicologia cognitiva e, por isso, deveria ser capaz de absorvê-la em vez de ser absorvido por ela. 17. A ameaça representada por essa possibilidade pode ser enfrentada epistemologicamente por duas estratégias principais: negar à psicanálise o estatuto de ciência, seguindo uma linha associada a Wittgenstein, ou procurar reformular de outro modo seu conceito fundamental de inconsciente. **2.1 A psicanálise não é uma ciência** 18. A exclusão epistemológica da psicanálise do domínio científico apoia-se sobretudo em duas linhas argumentativas, relativas à falsificabilidade e à suposta natureza contraditória da teoria, representadas respectivamente por Karl Popper e Adolf Grünbaum. 19. A crítica cognitivista apresenta conceitos freudianos como sonho, desejo, id, ego e superego como construções de um aparelho psíquico independente do cérebro cuja refutação experimental seria impossível. 20. A caracterização popperiana da psicanálise como modelo não falsificável por seu caráter fundador não implica necessariamente sua exclusão da prática científica, pois a ausência de prova experimental direta de um modelo fundador não equivale à impossibilidade de avaliar suas produções. * A prática analítica poderia oferecer pelo menos uma verificação indutiva da eficácia da modelização. * Modelos fundadores não podem ser submetidos diretamente ao mesmo tipo de prova experimental aplicado a hipóteses derivadas. * A condição fundamental de uma modelização consiste antes em sua não contradição. * Os critérios de falsificação podem funcionar internamente ao próprio modelo. 21. Embora a psicanálise enquanto modelo não possa ser diretamente falsificada, suas produções particulares podem sê-lo segundo possibilidades definidas e reguladas internamente pelo próprio modelo. 22. A tentativa de Grünbaum de demonstrar simultaneamente que a psicanálise é falsificável e provavelmente falsa procura critérios de validação em fatos experimentais não clínicos e pressupõe, problematicamente, a existência de uma instância exterior capaz de determinar universalmente a cientificidade. 23. A procura de um critério experimental absoluto para julgar os acontecimentos mentais realiza novamente uma redução que ignora a inseparabilidade entre esses acontecimentos e a representação da realidade. * Os fenômenos mentais apresentam uma relação constitutiva com o problema da representação que não pode ser simplesmente eliminada. * A teoria de Franz Brentano sobre a infalibilidade da percepção interna, mesmo podendo ser contestada, evidencia uma diferença fundamental entre fenômenos psíquicos e naturais. * Uma concepção cientificista consequente precisaria oferecer outra fundamentação dos fenômenos mentais que não o materialismo eliminativo anteriormente considerado insustentável. * As dificuldades encontradas abrem novas possibilidades para compreender os fundamentos das ciências cognitivas. 24. A concepção de modelo utilizada pelas ciências cognitivas exige aprofundamento de seu significado e de suas implicações. 25. A inseparabilidade psíquica entre realidade e representação conduz à compreensão concreta de uma vida que existe sempre em situação. **A naturalização do inconsciente e o modelo implícito das ciências cognitivas** 26. A relação entre psicanálise e ciências cognitivas concentra-se em dois problemas intimamente relacionados: a tentativa de traduzir quantitativamente o inconsciente e o tratamento das representações em conexão com a naturalização da intencionalidade. * O conceito de inconsciente utilizado pela psicanálise difere profundamente daquele empregado pelas ciências cognitivas. * A diferença conceitual exige distinguir ordenadamente os níveis e significados envolvidos. 27. O inconsciente cognitivista pode designar tanto um inconsciente neurológico, correspondente aos processos cerebrais dos quais não há consciência, quanto um inconsciente mental, formado por mecanismos mentais que permanecem fora da consciência e que constituem o possível ponto de aproximação com a psicanálise. 28. O inconsciente mental cognitivista constitui fundamentalmente um inconsciente computacional, isto é, um nível oculto de computação cujas operações permanecem estruturalmente inacessíveis à consciência, como ocorre com os processos envolvidos na composição da percepção visual. 29. A concepção cognitivista do espírito como computação simbólica aproxima-se apenas aparentemente da concepção freudiana do inconsciente como simbólico, pois o significado de símbolo utilizado pela cognição é radicalmente diferente daquele empregado pela psicanálise. 30. O inconsciente psicanalítico pode tornar-se consciente em determinadas condições, é simbólico e intencional e encontra-se submetido às vicissitudes do processo primário, enquanto o inconsciente cognitivista corresponde a uma causalidade algorítmica oculta cujos símbolos possuem caráter fundamentalmente sintático. * No cognitivismo, a causalidade inconsciente funciona segundo relações mecanicamente comparáveis ao choque entre corpos físicos. * A ligação qualitativa entre consciência e conhecimento é dissolvida e substituída pelo domínio quantitativo da computação. * A consciência deixa de constituir condição do conhecimento, pois a própria operação algorítmica inconsciente passa a ser considerada conhecimento enquanto processamento de símbolos. 31. A tese cognitivista sustenta que pode haver cognição sem consciência porque nenhuma ligação essencial ou necessária vincularia as duas. 32. A consequência mais radical dessa concepção é tornar a própria consciência teoricamente dispensável e transformar a verificabilidade informática numa condição indispensável da epistemologia cognitivista. * A inutilidade atribuída à consciência suscita o problema de explicar por que ela existe. * A ausência de necessidade de consciência também permite substituir o homúnculo integrador por uma simples função computacional de coordenação. * A inteligência artificial deixa de constituir mera metáfora ou aplicação da teoria cognitivista e torna-se sua necessária verificação. * É preciso demonstrar informaticamente que conhecimento equivale a computação simbólica para que o projeto cognitivista preserve sua consistência. 33. A exclusão do senso comum e da posição individual produz teorias filosóficas inteiramente afastadas da realidade vivida, permanecendo vinculadas sobretudo à realidade abstrata dos modelos informáticos. 34. A naturalização cognitivista do inconsciente consiste na criação de um nível intermediário de computação e na identificação desse nível com o único significado admissível de inconsciente, operação que representa menos uma explicação filosófica do que uma renúncia da razão à pretensão de explicar o mundo. 35. A intencionalidade constitui outra dificuldade central para o cognitivismo e para a possibilidade da inteligência artificial, pois concentra a diferença qualitativa entre acontecimentos psíquicos e relações puramente físicas. * A intencionalidade designa a condição pela qual as atividades humanas existem sempre em situação e se orientam direcionalmente para o mundo. * Essa orientação constitui uma especificidade dos fenômenos psíquicos que não se deixa facilmente traduzir em causalidade física. * Diversas tradições filosóficas transformaram a intencionalidade em obstáculo fundamental às interpretações puramente causalistas da vida psíquica. * A causalidade física mostra-se insuficiente para explicar a fenomenologia dos acontecimentos psíquicos e seu caráter intencional. 36. A questão da intencionalidade constitui um ponto privilegiado de encontro e conflito entre filosofia cognitiva e fenomenologia, para a qual esse conceito ocupa posição central, permitindo observar novamente as estratégias reducionistas cognitivistas sob uma forma particularmente significativa. **2.3 A impossibilidade das estratégias elementares e o problema da intencionalidade** 37. As filosofias cognitivistas mais comuns respondem ao problema da intencionalidade mediante uma abstração inicial seguida de naturalização, retirando-a do contexto vivo da existência orientada no mundo e reformulando-a como estrutura suscetível de tratamento lógico. * A intencionalidade é inicialmente separada da especificidade concreta dos seres vivos que existem orientados em um mundo. * Depois da abstração, o fenômeno é convertido em estrutura formal manipulável por instrumentos lógicos. * As respostas assim obtidas permanecem estritamente formais. * Permanece sem solução a questão de relacionar os resultados lógicos com a realidade intencional própria do mundo da vida. 38. A filosofia cognitiva aborda historicamente a intencionalidade sobretudo a partir de Franz Brentano e, secundariamente, de Alexius Meinong, ignorando largamente Husserl e a tradição fenomenológica até que Hubert Dreyfus recolocasse essas perspectivas no debate por meio de sua crítica à inteligência artificial. * A teoria husserliana da intencionalidade permaneceu praticamente ausente das primeiras abordagens cognitivistas. * A intervenção de Dreyfus mostrou aos cognitivistas a existência de uma reflexão fenomenológica muito mais desenvolvida sobre problemas que lhes eram centrais. * Mesmo posteriormente, a fenomenologia foi frequentemente mal compreendida e os contatos entre as tradições produziram poucos resultados. * Torna-se mais importante compreender as estratégias mediante as quais a filosofia cognitiva procura neutralizar a dificuldade representada pela intencionalidade. 39. As estratégias cognitivistas para naturalizar a intencionalidade reproduzem aquelas utilizadas na naturalização do inconsciente, pois tornar a intencionalidade naturalizável constitui condição mínima para uma teoria cognitiva suficientemente abrangente do conhecimento. 40. Entre as numerosas tentativas de naturalização da intencionalidade, as posições mais radicais associadas a Richard Rorty e ao chamado conexionismo duro prolongam as consequências do materialismo eliminativo, prevendo o desaparecimento dos conceitos de espírito, intencionalidade e consciência quando uma neurociência suficientemente desenvolvida substituir as ciências humanas. * A mesma orientação aparece parcialmente em outras filosofias cognitivas. * Daniel Dennett oferece uma formulação particularmente importante ao considerar a psicologia fundamentalmente como convenção ou modo útil de falar. 41. Dennett admite a utilidade da atitude intencional, pela qual sistemas são descritos em termos de crenças e desejos, mas nega que qualquer sistema, inclusive os seres humanos, seja realmente intencional. * Essa posição pode ser caracterizada como instrumentalismo, pois atribui aos conceitos intencionais função descritiva sem realidade correspondente. * A eliminação futura da intencionalidade mediante explicações neurofisiológicas ou traduções não intencionais ainda não possui demonstração. * A crença nessa futura redução constitui um ato de fé nas possibilidades de determinadas disciplinas científicas. * Paradoxalmente, essa própria crença constitui um comportamento orientado para um objetivo futuro e, portanto, um comportamento intencional. * A intencionalidade é, assim, negada mediante uma atitude que reproduz precisamente sua estrutura. 42. A reflexão cognitivista prossegue sem resolver essa dificuldade de coerência interna e dela extrai consequências adicionais para a explicação da intencionalidade. 43. Toda psicologia do senso comum seria derivada da adoção de uma atitude intencional e, portanto, não corresponderia ao que realmente acontece no cérebro. 44. Objetos de interpretação intencional como crenças e esperanças não seriam causas reais do comportamento, mas apenas rótulos empregados para descrever acontecimentos comportamentais. 45. A redução de crenças, esperanças e demais estados intencionais a etiquetas descritivas revela pressupostos implícitos que estruturam tanto as possibilidades quanto os limites das ciências cognitivas. * Esses pressupostos condensam dificuldades e opções não explicitadas do cognitivismo. * A análise deles permite identificar a verdadeira estrutura axiomática subjacente à escola cognitivista. * Os mesmos pressupostos delimitam antecipadamente aquilo que pode ou não ser investigado por essa perspectiva. 46. Determinadas noções adquirem estatuto de pressupostos porque justamente aquilo que garante a consistência interna do sistema nunca é interrogado explicitamente e permanece operante na forma de preconceitos implícitos das ciências cognitivas. 47. A caracterização dos estados intencionais como simples maneiras de falar exige perguntar qual perigo a naturalização pretende evitar e por que a intencionalidade é tratada como se implicasse necessariamente uma concepção mística ou espiritualista. 48. O pressuposto fundamental consiste em negar que a intencionalidade possa agir sobre configurações neuronais, uma vez que a tradição científica atribui ação causal exclusivamente aos sistemas físicos. * A filosofia cognitiva interpreta a intencionalidade como sobrevivência de uma concepção espiritualista que deveria ser eliminada pela ciência. * As relações psíquicas são admitidas apenas quando podem ser traduzidas em causalidade física estrita por meio de sinais. * A rejeição inicial de qualquer dimensão espiritual condiciona antecipadamente todas as possibilidades posteriores da reflexão cognitivista. * A atribuição de espiritualismo à fenomenologia e a outras concepções de intencionalidade impede compreender aquilo que essas tradições efetivamente consideram essencial. 49. A incompreensão cognitivista da fenomenologia poderia permanecer simples divergência filosófica, mas transforma-se em problema epistemológico quando a concepção fisicalista é convertida em paradigma universal para a compreensão do psiquismo. * A absorção do psíquico pelas ciências positivas implica tratá-lo segundo as mesmas categorias utilizadas para compreender o mundo físico. * Não ocorre propriamente uma substituição de paradigmas fundamentada, mas a transferência para o psiquismo de um paradigma bem-sucedido em outro domínio. * O sucesso das ciências físicas é tomado como garantia antecipada da futura eficácia de sua aplicação ao mental. * O próprio paradigma científico fisicalista permanece fora de qualquer questionamento. 50. A redução e a abstração características do paradigma científico passam a orientar diretamente a fabricação dos paradigmas cognitivistas sem serem submetidas à problematização correspondente. * Essa passagem multiplica as dificuldades e favorece algumas das teorizações mais reducionistas do cognitivismo. * A afinidade entre uma concepção funcional da sociedade e uma teoria igualmente funcional do indivíduo pode favorecer a difusão social do cognitivismo, embora essa questão seja secundária. * O problema fundamental permanece a atribuição não examinada de primazia teórica ao pensamento científico fisicalista. * A compreensão dessa primazia exige examinar ainda mais de perto as outras tentativas cognitivistas de tratar a intencionalidade. 51. A teoria da intencionalidade de Roderick Chisholm oferece um exemplo representativo do estilo analítico compartilhado pelo ambiente intelectual no qual se desenvolvem as abordagens cognitivistas. 52. Chisholm identifica os estados intencionais por meio das estruturas lógicas das proposições que os exprimem, produzindo uma dupla redução do fenômeno intencional ao linguístico e do linguístico ao logicamente formalizável. * A intencionalidade é primeiramente reduzida às frases mediante as quais se fala dela. * Essas estruturas linguísticas tornam-se então manipuláveis pelas leis da lógica. * A substituição de “atitudes intencionais” por “enunciados intencionais” ou “atitudes proposicionais” decorre diretamente dessa operação. * A análise do discurso sobre objetos intencionais permite evitar o problema de determinar o estatuto ontológico desses objetos. * A coerência lógica do sistema passa a ter precedência sobre a descrição do próprio fenômeno. * O máximo que tal procedimento pode explicar são as características da linguagem empregada para falar de estados intencionais, e não os estados intencionais propriamente ditos. 53. Surge uma situação paradoxal quando se constrói uma linguagem específica para falar da intencionalidade e depois se analisam criticamente as propriedades dessa própria linguagem como se fossem propriedades do fenômeno originário. 54. A análise linguística cognitivista, inclusive quando passa pela filosofia da linguagem e pela semântica dos mundos possíveis, perde a especificidade da intencionalidade ao reduzi-la a um jogo linguístico passível de formalização. * A análise desloca-se do fenômeno intencional para os atos linguísticos mediante os quais se fala dele. * A verdadeira ligação entre esses atos linguísticos e a experiência intencional permanece incerta e não examinada. * A insistência nesse procedimento conduz a uma investigação rigorosa de um objeto distinto daquele que originalmente deveria ser explicado. 55. A dificuldade torna-se ainda mais evidente quando se examinam respostas mais elaboradas aos problemas da intencionalidade. **2.4 O conexionismo e as propriedades emergentes** 56. As formas anteriores do cognitivismo permanecem incapazes de justificar satisfatoriamente a passagem entre cérebro e espírito, pois a tentativa de reduzir tudo a cálculo formal apenas transfere o problema para a relação entre sintaxe e semântica. * No funcionalismo, o cérebro é apresentado como sistema de manipulação puramente sintática de símbolos. * Depois dessa redução, permanece necessário explicar como os símbolos adquirem significado. * A introdução posterior da semântica exige uma instância explicativa adicional comparável a um deus ex machina. 57. O conexionismo procura superar esse impasse mediante a noção de propriedade emergente e a substituição da computação simbólica serial por uma computação massivamente paralela inspirada na organização cerebral. * As observações neurofisiológicas dificultam localizar no cérebro equivalentes claros de componentes típicos dos computadores tradicionais. * Não existe no sistema nervoso um processador central que comande toda a atividade, um disco rígido onde todo conhecimento seja armazenado ou um conjunto fixo de regras perfeitamente delimitadas. * A atenção desloca-se para processos de auto-organização distribuída. * O cérebro passa a ser concebido como sistema que opera prioritariamente em paralelo e não em série. * Essa transformação computacional exige avaliar suas consequências filosóficas para o problema da relação entre cérebro e espírito. 58. O conexionismo parte de unidades simples, os neurônios, cujas interações prosseguem até que alcancem estados mutuamente satisfatórios no interior da rede. 59. Em uma rede conexionista, cada componente opera apenas localmente e nenhuma instância externa governa o sistema, enquanto uma cooperação global emerge espontaneamente das interações quando os estados neuronais alcançam uma configuração mutuamente satisfatória. 60. As propriedades globais deixam de ser explicadas por um princípio diretor total e passam a ser concebidas como emergentes da combinação dos estados locais, permanecendo entretanto a dificuldade de justificar conceitualmente essa emergência espontânea. 61. Embora o conexionismo produza resultados mais flexíveis e interessantes do que diversas formas anteriores do cognitivismo, deixa sem solução dois problemas fundamentais. 62. O primeiro problema consiste em justificar logicamente a passagem entre processos locais e propriedades emergentes. 63. O segundo consiste em estabelecer continuidade epistemológica entre o nível inferior dos neurônios e o nível superior das propriedades globais ou simbólicas. 64. A tentativa de resolver esses problemas recorre à matemática dos sistemas dinâmicos e à matemática não linear, mas o sucesso formal dessa estratégia não fornece automaticamente sua justificação filosófica. * O conexionismo introduz instrumentos matemáticos capazes de tratar problemas anteriormente resistentes à formalização. * A aplicação bem-sucedida desses instrumentos tende a substituir a fundamentação filosófica por uma espécie de pragmatismo matemático. * A matemática torna-se progressivamente o critério decisivo para determinar aquilo que possui ou não sentido. * A filosofia procura posteriormente atribuir significado às construções já legitimadas matematicamente. * Uma consequência extrema consiste em prever, como Churchland, que redes conexionistas poderão tornar desnecessárias a psicologia e a filosofia. * Outra possibilidade consiste em procurar respostas externas à tradição cognitivista ocidental, inclusive em tradições como a meditação budista. 65. A solução mais aceita para estabelecer continuidade entre neurônios e propriedades simbólicas consiste em introduzir um nível intermediário denominado subsimbólico. 66. O nível semântico superior e o nível subsimbólico inferior são ambos necessários, pois o inferior define o funcionamento do sistema mediante propagação de ativação, enquanto o superior permite compreender seu significado no domínio do problema. 67. A prioridade volta a ser atribuída à coerência interna do sistema e não à descrição unitária do fenômeno, produzindo uma separação epistemológica entre níveis que precisa ser posteriormente relacionada pela noção de emergência. * O nível inferior pode ser tratado autonomamente enquanto permanece o problema de conectá-lo às inferências cognitivas de nível superior. * A coerência lógica do conjunto é preservada mesmo sem uma unidade explicativa completa. * A emergência do nível simbólico a partir do subsimbólico precisa ser postulada. * O pretendido monismo materialista transforma-se, assim, em dualismo epistemológico de natureza matemática. * A passagem entre os níveis ocorre integralmente no interior da formalização matemática. 68. No paradigma subsimbólico, as leis fundamentais assumem a forma de equações diferenciais em vez de procedimentos de manipulação simbólica, os sistemas são concebidos como sistemas dinâmicos em lugar de máquinas de von Neumann e a matemática do contínuo substitui a matemática do discreto. **2.5 O horizonte oculto das teorias cognitivistas e conexionistas** 69. A passagem dos materialismos mais rigorosos ao conexionismo permanece confrontada com o risco de recorrer implicitamente à teleologia ou à causa final para explicar a transição entre níveis qualitativamente distintos. * A emergência de propriedades globais aproxima-se perigosamente de uma forma de finalismo. * A formalização matemática pode ocultar esse aspecto sem necessariamente suprimi-lo. * A causa final constitui uma questão especialmente relevante na biologia e nas ciências relacionadas à vida. 70. A biologia encontra continuamente dificuldades relativas à finalidade, como se manifesta no uso recorrente de vocabulário funcional e intencional aplicado a processos moleculares, exemplificado pelo problema da tradução do RNA. 71. As células são descritas como entidades que devem traduzir sequências de bases do RNA para sequências polipeptídicas, processo cuja explicação, desde a hipótese formulada por Francis Crick em 1955, envolve moléculas adaptadoras capazes de transportar aminoácidos e reconhecer códons correspondentes. 72. O valor das descobertas decorrentes dos trabalhos de Watson e Crick não elimina o problema conceitual criado pelo emprego de verbos como “traduzir” e “reconhecer” para caracterizar relações bioquímicas. * A expressão segundo a qual uma célula deve traduzir uma linguagem atribui aparentemente direção funcional a processos moleculares. * A afirmação de que uma molécula reconhece outra introduz igualmente uma terminologia cujo significado precisa ser esclarecido. 73. O vocabulário teleológico pode ser interpretado como simples modo de falar destinado a facilitar a descrição de processos químicos complexos, mantendo-se uma cadeia causal governada exclusivamente pela causa eficiente, mas permanece a questão de saber se essa redução é suficiente para compreender a complexidade própria da vida. * A antropomorfização poderia ser aceita apenas como recurso explicativo sem compromisso ontológico. * A finalidade seria então mera conveniência linguística dos bioquímicos. * A realidade científica continuaria explicável exclusivamente por relações de causalidade eficiente. * Essa interpretação pode ocultar justamente os problemas centrais envolvidos na organização dos seres vivos. 74. A própria física precisou revisar profundamente conceitos fundamentais, enquanto na biologia a exclusão absoluta da causa final é ainda mais problemática, tendo epistemólogos como Mario Bunge reconhecido a dificuldade de conceber uma biologia inteiramente desprovida de teleologia. * A expulsão da teleologia pode tornar incompreensível a organização das entidades biológicas macromoleculares. * Até mesmo os processos moleculares tornam-se mais difíceis de interpretar sem alguma forma de referência funcional. * A dificuldade repercute também na explicação cognitivista da passagem entre o nível físico e o nível simbólico. 75. Uma biologia completamente privada de finalidade corre o risco de oscilar entre um pseudodeterminismo incapaz de compreender a riqueza da vida e uma teleologia que os instrumentos científicos disponíveis não conseguem controlar conceitualmente. 76. A flexibilização do determinismo mediante instrumentos matemáticos mais sofisticados não elimina o caráter redutivo das interpretações da vida, pois permanece incerto se o quadro produzido consegue descrever adequadamente a completude própria de um organismo vivo. * A transformação da finalidade em problema estatístico não resolve necessariamente a questão. * O ponto decisivo consiste em saber se uma descrição reduzida pode representar suficientemente a totalidade organizada do ser vivo. 77. A dificuldade aparece de maneira particularmente clara nas explicações pluricausais quando se pergunta, por exemplo, para que servem os pulmões. 78. Uma resposta evolucionista precisa atribuir pelo menos validade estatística à teoria da evolução, enquanto uma resposta teleológica reconhece que a pergunta se refere à organização integral de um organismo cujo funcionamento exige os pulmões. * A pergunta funcional não se limita à organização mecânica isolada do órgão. * O referente efetivo é o organismo corporal como unidade viva. * No uso cotidiano, perguntas equivalentes, como a finalidade dos olhos, recebem espontaneamente respostas teleológicas: os olhos existem para ver. 79. A afirmação de que os olhos servem para ver exprime de maneira mais imediata a realidade de um corpo vivo e possui relevância epistemológica justamente porque preserva a relação entre órgão e vida. * O ato de ver constitui antes de tudo uma característica de um corpo vivo. * Explicações puramente estatísticas encontram dificuldade diante da regularidade com que os órgãos visuais aparecem associados à função da visão. * A probabilidade extremamente elevada dessa associação aproxima a estrutura funcional de uma necessidade e não de uma simples coincidência estatística. 80. A diferença entre a visão de um corpo encarnado e a visão reduzida à descrição científica demonstra que ver significa mais do que aquilo que os estudos laboratoriais isolados conseguem representar. * A fragmentação científica do fenômeno não deve ser confundida com sua compreensão integral. * A causa final preserva um nível de sentido que desaparece nas descrições estritamente fisicalistas. * A finalidade introduz uma referência ao futuro enquanto dimensão capaz de orientar a compreensão do processo. * O resultado funcional é sempre mais rico do que aquilo que o simples objeto físico analisado permite antecipar. * No fenômeno da visão existe muito mais do que apenas a estrutura material dos olhos. 81. A objeção cientificista reduz a visão à recepção de determinadas frequências de radiação eletromagnética pelos órgãos visuais e considera qualquer diferença qualitativa acrescentada a essa descrição como poesia estranha ao conhecimento científico. * Segundo essa concepção, não existiria diferença qualitativa fundamental entre as frequências visíveis e outras regiões do espectro eletromagnético. * Tudo aquilo que ultrapassa a descrição fisicalista tende a ser desqualificado como linguagem poética ou fenomenológica. * Essa operação inverte a ordem efetiva das questões ao pressupor que verbos como “ver” e “ouvir” possuíam originalmente significado científico posteriormente deformado pelo uso cotidiano, artístico ou filosófico. * A experiência perceptiva concreta é, assim, tratada como uso derivado de conceitos cuja significação primária seria determinada pelas ciências naturais. 82. A redução científica do verbo “ver” a processos físico-fisiológicos representa uma transformação posterior de um significado originalmente ligado à experiência vivida, sendo metodologicamente legítima apenas enquanto redução parcial e não enquanto pretensão de substituir o sentido originário do fenômeno. * Ver contém desde o início uma riqueza maior do que aquela capturada pelas descrições cognitivistas e fisicalistas. * O erro metodológico consiste não na redução enquanto instrumento, mas na transformação da redução em significado essencial e exclusivo do fenômeno. * Uma interpretação exclusivamente fisicalista seria incapaz de compreender adequadamente experiências como a contemplação das obras de Giotto ou Mantegna mediante a simples descrição da absorção e reflexão de radiações luminosas. * A elevação desse reducionismo ao estatuto de verdade revela uma tendência histórica mais ampla de compreender tanto o indivíduo quanto a sociedade segundo categorias predominantemente funcionais. {{tag>Lanciani cognitivismo psicologia}}