====== Máquina universal ====== //LÉVY, Pierre. La machine univers. Paris: La Découverte, 1987.// 1. A máquina universal constitui uma estrutura subjacente característica do Ocidente, vinculada à sua história, ao ideal democrático, à arte e ao poder industrial e científico, tendo encontrado no computador apenas sua manifestação técnica mais recente. * A configuração da máquina universal já operava no imaginário social e na vida concreta antes de sua formulação pela lógica matemática e pela informática teórica. * Sua presença deve ser reconhecida na dinâmica e nos produtos da arte ocidental anteriores à informatização. 2. A compreensão da máquina universal no campo artístico exige inicialmente a definição de seu significado matemático. ** Cálculos, algoritmos, máquinas universais ** 3. A máquina não se reduz a um mecanismo pesado de transformação material, pois também pode ser concebida como dispositivo capaz de tratar informação mediante a transformação regulada de uma mensagem de entrada em uma mensagem de saída. 4. O tratamento informacional distingue-se do tratamento industrial pela pequena quantidade de energia empregada, embora todo processo industrial também possa ser compreendido como produção de diferenças e imposição de formas à matéria. * Os processos informacionais servem frequentemente para conhecer, vigiar, controlar ou comandar processos que mobilizam níveis superiores de energia. 5. O cálculo constitui a forma exemplar do tratamento da informação, pois consiste em operações organizadas e reguladas sobre entidades matemáticas, cuja representação física permite mecanizar e automatizar os procedimentos. 6. O conceito de cálculo pode ser ampliado para abranger operações de seleção, classificação, permutação, combinação, comparação, substituição e transcodificação. * Ações percebidas globalmente podem ser decompostas em poucas operações elementares, repetidas numerosas vezes e aplicadas segundo uma ordem determinada. * O computador realiza cálculos complexos combinando e repetindo um conjunto muito reduzido de ações simples. 7. Os circuitos do computador operam sobre impulsos elétricos que representam os valores binários 0 e 1, permitindo codificar letras, números e tudo aquilo que possa ser expresso por alfabetos ou quantidades. * Operadores físicos simples produzem tratamentos informacionais extremamente elaborados porque representam operações matemáticas fundamentais sobre números binários. 8. Os trabalhos baseados em organização, combinação ou arranjo de um número finito de elementos podem ser decompostos em sequências ordenadas de operações mais simples. 9. A ampla competência humana permite compreender e executar instruções globais, enquanto os circuitos elementares do computador somente realizam poucas operações sobre 0 e 1. * Para ser processada pela máquina, uma tarefa deve ter seus objetos traduzidos em código binário e sua instrução global decomposta em comandos elementares. * A decomposição manual de cada tarefa tornaria inútil o recurso ao computador. 10. As operações mais comuns são incorporadas aos circuitos da máquina, enquanto planos gerais de cálculo são elaborados para classes inteiras de tratamentos semelhantes, originando a construção de algoritmos. 11. Um algoritmo consiste em uma sequência finita e ordenada de regras, instruções ou operações destinada a resolver uma classe de problemas ou executar determinado tipo de tarefa. 12. A formalização de uma tarefa exige a identificação dos objetos envolvidos, das operações elementares aplicáveis e da ordem precisa de sua execução. * Um mesmo cálculo admite diferentes algoritmos conforme a competência do operador e o critério otimizado, como velocidade ou generalidade. 13. A formalização desfaz a aparência familiar das ações, substituindo a percepção global e os polos de significado por uma descrição rigorosa fundada em uma lógica estritamente operatória. 14. Um programa informático é um algoritmo ou conjunto de algoritmos que dirige integralmente a execução automática de uma tarefa dentro de um sistema computacional. * Cada elemento do programa deve possuir interpretação unívoca, e sua sintaxe deve obedecer a regras extremamente rigorosas. * Programas e dados são armazenados conjuntamente na memória, permitindo que o tratamento ocorra sem intervenção humana e em grande velocidade. 15. Em informática, a máquina ou o autômato designa sobretudo uma estrutura lógica, que pode ser materializada por dispositivos mecânicos, microprocessadores ou sequências de instruções executadas por um operador humano obediente. 16. O modelo de máquina formulado por Alan Turing em 1936 estabeleceu que todo processo decomponível em uma sequência finita e ordenada de operações sobre um alfabeto restrito pode ser executado mecanicamente. * Reciprocamente, todo trabalho realizável por uma máquina de Turing corresponde a um algoritmo ou procedimento efetivo. * A formalização também demonstrou a existência de tarefas que nenhuma máquina de Turing pode executar. 17. A máquina de Turing funciona mediante um número finito de estados, uma fita indefinida dividida em casas binárias, uma cabeça de leitura e uma tabela de instruções. * Cada ação depende simultaneamente do estado atual da máquina e do símbolo observado. * As instruções determinam a escrita ou o apagamento de símbolos, o deslocamento de uma casa e a mudança de estado. * O cálculo termina quando se executa uma instrução de parada, permanecendo o resultado registrado na fita. * Para cada problema calculável existe ao menos uma máquina de Turing capaz de resolvê-lo. 18. Turing demonstrou ainda a existência de máquinas universais capazes de executar todas as tarefas calculáveis e todos os procedimentos efetivos. 19. A máquina universal pode imitar qualquer máquina particular porque recebe tanto os dados do problema quanto a descrição codificada da máquina destinada a resolvê-lo. * A descrição da máquina particular corresponde à transcrição finita e padronizada de sua tabela de instruções na fita da máquina universal. 20. A arquitetura proposta por John von Neumann em 1945 incorporou programas e dados em uma memória comum e rapidamente acessível, realizando tecnicamente o princípio da fita da máquina universal de Turing e definindo a estrutura do computador moderno. 21. A máquina universal constitui o antepassado abstrato do computador, enquanto a descrição codificada das máquinas particulares antecipa o conceito de programa informático. * Quase todos os computadores podem, em princípio, executar qualquer algoritmo e simular outras calculadoras, embora sejam limitados pela velocidade e pela memória. * Linguagens formais capazes de descrever todos os procedimentos efetivos também podem ser consideradas máquinas universais. 22. A máquina universal, concebida como forma organizadora da arte ocidental, mantém uma relação analógica com o autômato de Turing e pode ser identificada por três características essenciais. 23. A máquina universal apresenta-se como potência de todos os possíveis, orientada para abranger e recapitular a totalidade, inclusive aquilo que ainda não se manifestou. 24. A máquina universal realiza um trabalho formal, sintático ou puramente operatório sobre signos. 25. Os símbolos elementares processados pela máquina universal situam-se abaixo dos limiares da percepção imediata. ** Uma potência de todos os possíveis ** 26. A passagem do século XIX ao XX transformou o horizonte artístico ocidental ao confrontar o criador com a multiplicidade das culturas mundiais. * A expansão comercial, industrial e colonial do Ocidente, os estudos históricos e etnológicos e os meios técnicos de reprodução e difusão reuniram tradições culturais passadas e presentes em um espaço comum. * O artista deixou de relacionar-se apenas com sua própria tradição ou com civilizações vizinhas para enfrentar diretamente o conjunto das criações humanas. 27. A extraordinária expansão dos museus entre os séculos XVIII e XX exprime a progressiva reunião dos testemunhos da natureza e da atividade humana. * As antigas coleções principescas foram sucedidas pelos museus nacionais, arqueológicos, históricos, artísticos, industriais, científicos e técnicos. * No século XX, o museu reservado a especialistas e amadores transformou-se em instituição de massa. 28. As artes antigas e extraeuropeias influenciaram decisivamente a pintura moderna, oferecendo aos artistas novos enquadramentos, formas, cores, composições e repertórios simbólicos. * Degas, Van Gogh, Bonnard, Gauguin, Matisse, Derain, Picasso e Kirchner incorporaram elementos japoneses, africanos, islâmicos, ibéricos, egípcios, pré-colombianos e polinésios. * Exposições universais, fotografias, coleções e museus tornaram possível o contato contínuo com essas tradições. 29. A presença física de objetos exóticos somente se converte em influência artística quando o criador reconhece a contingência de sua própria tradição e já se encontra disposto a buscar outras soluções. * A rejeição da música chinesa por Berlioz contrasta com a descoberta da música javanesa por Debussy. * A revelação das artes orientais a Olivier Messiaen repercutiu posteriormente na formação de compositores como Boulez e Stockhausen. 30. A difusão técnica das obras colocou o indivíduo contemporâneo em contato com uma diversidade musical e pictórica muito superior àquela conhecida pelos grandes artistas do passado. * O artista já não é conduzido por uma tradição singular que deve reinterpretar, mas atua em um espaço ocupado pelas formas de todas as culturas. * A arte assume, assim, a função de recapitular estilos, épocas e países, adquirindo a forma da máquina universal. 31. Determinadas obras modernas condensam universos culturais reduzidos e transformam a diversidade dos estilos em matéria da própria criação. * Picasso confronta diferentes maneiras pictóricas, enquanto Luciano Berio reúne tradições musicais variadas em antologias e colagens. * Musil organiza um repertório das ideias possíveis, Borges faz convergir autores de toda a literatura mundial e Joyce combina numerosas línguas, histórias e mitologias. 32. A imersão em um espaço pluricultural favorece o aparecimento de metaliteraturas, metapinturas e metamúsicas voltadas para a multiplicidade das obras, ideias, linguagens e tradições. * A recepção moderna de uma obra estrangeira distancia-se de seu contexto estético, social e religioso originário. * O objeto passa a evocar o mundo que o produziu como uma figura entre inúmeras outras no conjunto universal das culturas. 33. A pintura florentina do Quattrocento possuía funções religiosas e pedagógicas precisas, ao passo que o pintor contemporâneo perdeu sua função de produtor de imagens populares e passou a repensar explicitamente os modos instituídos de representação. 34. A reprodução técnica altera profundamente a condição de recepção das obras, pois uma composição antes ouvida raramente pode ser repetida indefinidamente por meios mecânicos. * A saturação sonora e visual do ambiente contemporâneo obriga o criador a questionar continuamente as linguagens tradicionais para que a obra ainda possa constituir um acontecimento. 35. O fluxo dos meios de comunicação e o acesso à diversidade cultural impõem ao artista a criação integral de um estilo e de uma tradição próprios. * A tarefa deixa de consistir apenas em produzir uma nova obra dentro de uma linguagem existente e passa a exigir a invenção de uma nova linguagem. 36. O artista da sociedade informatizada deve ultrapassar a produção de obras isoladas e elaborar sistemas de obras, reinventando-se continuamente fora de qualquer tradição. * A comunicação mundial e as possibilidades computacionais convergem para a mesma exigência de criação em nível lógico superior. * Os sintetizadores e sistemas digitais de imagens materializam tecnicamente a máquina universal já presente no imaginário cultural. ** Um trabalho formal sobre signos ** 37. A máquina de Turing representa fisicamente um algoritmo e opera exclusivamente sobre símbolos de um alfabeto segundo regras formais, sem considerar qualquer significado ou interpretação. * Seu caráter abstrato manifesta-se tanto por constituir um modelo independente da tecnologia material quanto por executar operações que nada representam por si mesmas. * Somente um observador exterior pode atribuir significado a um sistema formal. 38. A máquina de Turing constitui o modelo formal de todas as máquinas capazes de calcular a mesma função, independentemente dos dispositivos materiais que a realizem. 39. O funcionamento da máquina é intrinsecamente abstrato e puramente operatório, pois os símbolos processados somente adquirem significado mediante uma interpretação exterior. 40. A concepção da atividade artística como trabalho formal sobre signos constitui uma característica central da modernidade na pintura, na música e na literatura, embora conviva com tendências voltadas para expressão, emoção, espontaneidade e engajamento. 41. Mallarmé concebeu a escrita como operação realizada com palavras segundo a lei interna da linguagem, aproximando a criação poética das experiências de axiomatização, formalização e combinação que conduziriam à teoria computacional. 42. Parte significativa da poesia do século XX orientou-se para uma linguagem sem referência e para a autonomia das estruturas verbais. * O formalismo russo, a escrita automática surrealista e as pesquisas textuais francesas trataram a linguagem como objeto independente. * Essa tendência produziu poemas sem conteúdo determinado, romances não narrativos e obras que manifestavam o funcionamento abstrato de sistemas de signos. 43. A escrita contemporânea pode aproximar-se da música e da programação, afastando-se da simples notação da fala ou da narração. * Em Proust e Joyce, a descrição de acontecimentos torna-se ocasião para a criação simultânea de uma linguagem e de um cosmos. * A narrativa deixa de cumprir a mesma função que possuía no romance tradicional. 44. O texto literário do século XX aproxima-se de um sistema axiomático capaz de admitir múltiplas concretizações e interpretações. * A ausência de um sentido único torna-se particularmente evidente em obras deliberadamente polissêmicas, como as de Kafka e Joyce. 45. A pintura não figurativa resulta da ruptura progressiva com os códigos convencionais de representação e da busca de novos sistemas de signos. * Impressionismo, pontilhismo, fauvismo e cubismo conduzem à constituição de axiomáticas pictóricas compostas por formas, cores, materiais e regras próprias. * A coerência interna do sistema passa a prevalecer sobre a referência a objetos exteriores. 46. A música revelou-se especialmente apropriada à formalização abstrata porque seu conteúdo não pode ser separado de sua forma. * Nas culturas tradicionais, sua aparente significação provinha da dança, dos ritos, das atividades coletivas e das palavras cantadas. * Concertos, discos e transmissões radiofônicas separaram a música de seus contextos, expondo-a como construção não figurativa. * Uma composição não pode ser traduzida em outra sintaxe preservando um significado independente, como ocorre no discurso. 47. A música do século XX caracteriza-se pela reformulação contínua de sua linguagem e pela importância crescente da formalização. * As técnicas computacionais prolongam tendências anteriores, especialmente as experiências seriais. * A coerência do sistema de signos pode prevalecer sobre a audibilidade e o prazer do receptor, pois certas obras se definem prioritariamente como trabalhos formais. 48. Grande parte da criação contemporânea concentrou-se nas causas eficientes, materiais e formais, em detrimento das causas finais. * Gestos, pulsões, técnicas e procedimentos valorizam as causas eficientes. * Cores, matérias, texturas, significantes, letras e tipografia destacam as causas materiais. * A organização dos sistemas de signos privilegia as causas formais, enquanto o sentido compartilhado e a recepção tendem a enfraquecer-se. 49. A arte medieval elegia temas religiosos e simbólicos, representando a fonte suprema do significado e desempenhando funções de instrução, edificação e transmissão de mensagens. * Imagens, iluminuras, esculturas e vitrais integravam-se à Escritura, aos sermões e à liturgia. * A representação refletia a eternidade mediante temas sagrados, cíclicos e simbólicos. 50. A pintura de Cézanne apresenta objetos em sua densidade, volume, forma e cor, sem convertê-los em símbolos, ilusões ópticas ou expressões sentimentais. * Suas paisagens manifestam a presença objetiva e ontológica de um lugar particular. * Essa atenção aos objetos aproxima-se da cultura científica moderna, que progressivamente analisa a realidade até dissolvê-la em elementos e códigos imperceptíveis. 51. A delicadeza simbólica da arte medieval e a beleza objetiva da arte moderna permanecem igualmente frágeis e ameaçadas. ** O objeto pulverizado ** 52. A máquina de Turing e o computador reduzem toda informação a elementos binários mínimos, independentemente da complexidade dos objetos representados. * Sons, imagens, palavras e processos são decompostos em sequências de impulsos que não apresentam qualquer forma global imediatamente perceptível. * A análise informática substitui as unidades sensíveis e significativas da experiência cotidiana por séries extensas de ocorrências elementares. 53. A literatura moderna realiza uma descida ao imperceptível semelhante à decomposição informática. * Proust e Joyce descrevem microacontecimentos, movimentos interiores e sensações anteriormente ignorados. * O novo romance procura alcançar o contínuo da experiência subjacente às unidades convencionais do senso comum. * Nathalie Sarraute abandona sujeitos e objetos estáveis para representar fluxos e microeventos pré-objetivos. 54. Claude Simon radicaliza a descontinuidade narrativa ao desenvolver simultaneamente numerosas linhas descritivas e alterná-las em intervalos breves. * A escrita dissolve personagens, intrigas e cenários, conferindo igual importância aos detalhes e aos fragmentos, independentemente de sua condição real ou representada. 55. A arqueologia informatizada substitui o reconhecimento intuitivo de objetos por conjuntos codificados de características submetidos a comparações estatísticas. * As categorias deixam de ser previamente fixadas e passam a resultar de agrupamentos provisórios que se modificam com cada nova descoberta. 56. O programa taxonômico e o arqueólogo que reconhece imediatamente um objeto pertencem a diferentes configurações antropológicas. * A informatização dissolve o objeto percebido globalmente e substitui o sujeito do conhecimento e da ação por sequências de operações elementares codificadas. 57. A pintura europeia moderna percorre todo o campo da experiência visual ao libertar-se de temas privilegiados, escalas fixas, pontos de vista determinados e formas específicas de representação. * Qualquer elemento visível pode converter-se em objeto de contemplação. * A arte não figurativa prolonga a exploração do visível ao concentrar-se em formas, cores e texturas. * Esse processo afasta a pintura das divisões convencionais e intuitivas da experiência. 58. O cubismo dissolve o objeto em componentes elementares e elimina o sujeito focal que o organizava. * Delaunay, Mondrian, Klee e Kandinsky investigam formas e cores puras como condições de possibilidade da visão. * A obra Trinta, de Kandinsky, organiza pictogramas em uma estrutura semelhante a um alfabeto formal. 59. A codificação descontínua manifesta-se claramente em Mondrian e na arte cinética, alcançando em Vasarely uma aparência modular semelhante à produção computacional anterior à existência efetiva da arte informatizada. 60. A música contemporânea também abandona a nota convencional como unidade fundamental e passa a operar com componentes acústicos elementares. * Timbres, alturas, durações e intensidades são tratados separadamente. * As novas unidades primitivas tornam-se parâmetros físicos que somente podem ser isolados e manipulados mediante sintetizadores digitais. 61. A máquina universal, definida como operação formal sobre um universo pulverizado de símbolos, oferece um modelo comum aos autômatos calculadores e a determinadas transformações artísticas. * As tendências literárias, musicais e pictóricas analisadas não abrangem toda a arte europeia posterior a 1880. * Elas revelam, contudo, os aspectos mais inovadores e significativos da mutação cultural ocidental. 62. A figura da máquina universal estruturava uma parte importante da criação artística contemporânea antes do emprego direto dos computadores. * O modelo computacional manifesta-se tanto na organização interna das obras quanto na configuração cultural geral da criação. * O uso instrumental do computador prolonga a concepção da arte como jogo formal de signos e a necessidade de instituir novas linguagens em um ambiente pluricultural e industrialmente mediatizado. 63. A origem ocidental da máquina universal deve ser investigada historicamente mediante uma comparação diacrônica capaz de revelar suas raízes na cultura europeia. * A história da música permite examinar como uma tradição particular pôde orientar-se para o universal. * A tensão entre singularidade cultural e universalidade contribuiu para o dinamismo histórico do Ocidente. ** A música europeia: tornar-se mecânica ** 64. A tradição musical ocidental distingue-se pela criação de um sistema sistemático de notação escrita e pela identificação progressiva da obra musical com um objeto registrado graficamente. 65. Desde a Grécia antiga, a música foi submetida a conceitos abstratos como tom, ritmo, melodia e harmonia. * A notação grega representava relações de altura entre sons independentemente de instrumentos específicos. * O sistema também se separava de correspondências simbólicas, míticas ou religiosas. 66. A conservação exata e a transmissão escrita da ideia musical constituem uma particularidade cultural, pois a música antiga era geralmente baseada na oralidade e na improvisação. * Na Grécia clássica, certas composições já eram concebidas para a escrita, enquanto a teoria musical objetivava e separava o fenômeno sonoro do corpo e da emoção. * A notação e a composição integravam a formação educacional, e a música era tratada como ciência ao lado da geometria, da aritmética e da astronomia. * Durante o período romano, sua importância educativa e intelectual diminuiu. 67. A cultura grega já realizou uma primeira formalização e universalização abstrata da música por meio de sua projeção sobre um sistema de signos. 68. A notação musical europeia tornou-se progressivamente mais precisa desde os neumas medievais até a partitura clássica. * Alturas, ritmos, compassos, instrumentos, intensidades e expressividade passaram a ser explicitamente registrados. * A formalização reduziu o papel da tradição oral, da interpretação e da improvisação. * A programação digital representa o limite desse processo ao aproximar integralmente composição e execução. 69. Antes da Renascença, a obra musical era identificada com a execução singular e efêmera produzida pelo intérprete mediante improvisação. * A partir do século XVI, a obra passa a ser concebida como estrutura abstrata composta, calculada e codificada em uma partitura. * A interpretação torna-se dependente da estrutura escrita e tende idealmente a ser absorvida pela programação computacional. * Essa transformação manifesta a inversão da relação de subordinação entre linguagem e cálculo. 70. O desenvolvimento exclusivo da polifonia ocidental relaciona-se diretamente à precisão da notação e à concepção da obra como objeto escrito. * Diferentemente da heterofonia e da homofonia, a polifonia combina vozes independentes previamente fixadas. * As estruturas simultâneas devem concordar como engrenagens de uma máquina organizada em um tempo preestabelecido. * A partitura permite visualizar e controlar essa simultaneidade, aproximando a composição da concepção de uma máquina abstrata. 71. A polifonia conduziu a música europeia do tempo aberto e livre para um ritmo pulsado, medido e quase mecânico. * A regularidade temporal permitiu construir arquiteturas extensas e organizar alternâncias, simetrias, modulações, repetições, contrastes e imbricações calculadas. 72. O sistema tonal europeu distingue-se da música modal ao permitir a transposição de uma mesma escala a partir de diferentes graus. * A gradação homogênea de semitons favoreceu as modulações. * A escala temperada padronizou o espaço sonoro e eliminou obstáculos ao jogo formal das transposições. 73. O sistema tonal depende da neutralização da música e da relativa independência de seus componentes. * Uma mesma melodia pode assumir funções religiosas, militares ou contrapontísticas mediante alterações rítmicas. * A neutralidade favorece a circulação da música ocidental entre diferentes culturas. * Ciência, técnica e capital também obtêm sua força universalizante da capacidade de atravessar identidades culturais em níveis mais profundos que suas tradições históricas. ** A música europeia: tornar-se universal ** 74. A busca ocidental por um instrumento universal antecede o sintetizador digital e manifesta-se no desenvolvimento do órgão, do piano e da orquestra. 75. A instrumentação europeia afastou-se progressivamente da singularidade física e simbólica dos corpos sonoros para buscar o domínio da totalidade dos sons possíveis. * Em tradições antigas, o instrumento era considerado um corpo dotado de voz e sopro próprios. * As tecnologias de gravação e reprodução aprofundaram a separação entre música, corpo, voz e respiração. 76. A música europeia possui vocação universal porque não permanece vinculada à mitologia, à cosmologia ou à metafísica de uma cultura particular. * A ausência de correspondências simbólicas fixas transforma-a em atividade laica e em jogo formal no qual os sons possuem valor equivalente. 77. O ensino musical institucionalizado em todo o mundo adota predominantemente princípios e notações ocidentais por causa de sua codificação abstrata, explícita e racional. * A abordagem ocidental pode traduzir outros sistemas musicais e ser transmitida por manuais, enquanto certas tradições exigem convivência prolongada com um mestre. * A universalidade objetiva desse método não implica superioridade estética. * A eficácia da codificação abstrata prevalece sobre formas de transmissão baseadas na experiência corporal e cultural singular. 78. A música ocidental ingressou no domínio da acumulação, da construção objetiva e do progresso ao ser submetida à escrita. * Sua transformação histórica contínua permite reconhecer estilos e períodos pela audição. * A notação e a neutralidade cultural libertaram a música para modificar seus próprios problemas e soluções. * As tradições orais, por integrarem os sons a sistemas simbólicos abrangentes, tendem a transformar-se mais lentamente. 79. A música ocidental favorece de maneira singular a individualidade criadora porque se apresenta como uma coleção aberta de obras escritas capazes de desafiar o tempo. 80. A racionalidade, o universalismo, a evolução contínua e a valorização do indivíduo fazem da música europeia uma concentração de características distintivas da cultura ocidental. 81. As pesquisas musicais do século XX e o uso do computador prolongam uma história iniciada na Grécia antiga. * Sob a diversidade dos mundos musicais vinculados a instrumentos, lugares, práticas sociais e memórias culturais, o Ocidente descobriu o universo sonoro como dimensão comum. * Essa descoberta é comparável à revelação do universo físico pela ciência moderna sob a diversidade dos mundos míticos e vividos. 82. A máquina universal apresenta-se à tradição ocidental simultaneamente como instrumento privilegiado de universalização e como imagem especular na qual essa cultura reconhece progressivamente a própria identidade enigmática. {{tag>Lévy computador informática}}