====== Gênese da ideia ====== //LOVEJOY, Arthur. The Great Chain of Being. Harvard: Harvard University Press, 1964.// **A GÊNESE DA IDEIA NA FILOSOFIA GREGA: OS TRÊS PRINCÍPIOS** 1. A ideia mais fundamental do conjunto a ser examinado surge primeiro em Platão, cuja obra contém duas tendências opostas e conflitantes — o outromundanismo e o mundanismo — que marcam toda a tradição filosófica ocidental subsequente. * o outromundanismo não se confunde com a mera crença numa vida futura semelhante à terrena, como ilustram Browning e Tennyson, que expressavam antes uma forma extremada de apego a este mundo 2. O outromundanismo consiste na crença de que o real e o bom verdadeiros são radicalmente antitéticos a tudo que se encontra na experiência natural do homem, situando-se apenas num reino superior de ser inteiramente distinto do mundo mutável dos sentidos. 3. Esse tipo de pensamento tem sido, ao longo da história, a filosofia oficial dominante da maior parte da humanidade civilizada, ainda que o homem comum jamais tenha verdadeiramente acreditado nele nem desejado o fim que ele propunha, continuando a atribuir realidade e valor às coisas sensíveis. * mesmo onde o outromundanismo é oficialmente professado, ele molda a escala de valores social e os objetivos do esforço intelectual * por paradoxo frequente, tanto na Europa medieval quanto na Índia, o poder efetivo tende a cair nas mãos daqueles que se retiraram do mundo 4. Interessa menos o efeito social e político do outromundanismo do que sua natureza própria como modo de pensamento e sentimento, existente em diversos graus e por vezes dissociado, como no caso de Herbert Spencer, de qualquer temperamento moral e religioso correspondente. 5. Diversas características distintas do mundo da experiência comum podem motivar a negação de sua realidade ou de seu valor — sua temporalidade, sua relatividade, sua multiplicidade, o engano dos sentidos —, sendo o outromundanismo integral, que reúne todos esses motivos, exemplificado sobretudo nos Upanixades, no Vedanta e no budismo primitivo. 6. Nenhuma forma de outromundanismo consegue, contudo, explicar ou justificar a própria existência do mundo que pretende negar, recorrendo por isso ao ilusionismo, que constitui uma contradição filosófica, pois afirma e nega simultaneamente a mesma proposição. 7. O duplo papel de Platão no pensamento ocidental só pode ser compreendido à luz dessa antítese primária entre outromundanismo e mundanismo, embora subsistam entre os especialistas divergências radicais quanto à autenticidade e à atribuição das doutrinas contidas nos Diálogos. 8. Sem pretender entrar em controvérsias de exegese, é necessário reconhecer a divergência entre estudiosos quanto à atribuição das doutrinas platônicas, sendo a visão tradicional — de que Platão expunha uma metafísica própria — ainda sustentada por Constantin Ritter. 9. Uma corrente recente de estudiosos britânicos, sobretudo Burnet, atribui a Sócrates, e não a Platão, as concepções postas na boca dos interlocutores dos diálogos, considerando que a filosofia própria de Platão tratava sobretudo de Deus e da Alma, sem a Teoria das Ideias. 10. Nessa leitura, o Deus antropomórfico do Timeu e das Leis, e não a Ideia do Bem, seria o tema supremo do pensamento de Platão, posição corroborada de modo semelhante por A. E. Taylor a respeito dos diálogos tardios, o que reduziria Platão à condição de mero historiador de doutrinas alheias. 11. Apesar da erudição desses argumentos, é psicologicamente improvável que Platão tenha dedicado sua vida a expor com fervor uma doutrina em que não acreditava, havendo ainda o testemunho de Aristóteles, que atribui explicitamente a introdução das Ideias a Platão, e não a Sócrates. 12. A Sétima Carta, escrita sem o recurso à ironia dramática ou ao mito, apresenta na primeira pessoa a convicção mais profunda de Platão, reafirmando a Teoria das Ideias em sua forma mais mística e inequívoca como aquilo que ele "muitas vezes expôs" em seus escritos anteriores. 13. Ainda que haja peso considerável na opinião acadêmica contrária, a distinção entre Platão autor e outros pensadores anteriores é de importância secundária para o propósito destas conferências, cujo Platão é o autor dos Diálogos tal como foi lido por toda a tradição posterior. 14. Platão constitui a fonte histórica principal da vertente indígena do outromundanismo ocidental, embora Ritter sustente que a Teoria das Ideias não implica nenhuma "visão fantástica da realidade", reduzindo-a à validade objetiva dos juízos e à correção das classificações conforme relações reais das coisas. 15. Essa leitura naturalizada de Ritter é, contudo, essencialmente equivocada, pois pressupõe implausivelmente que Aristóteles tenha deturpado substancialmente a doutrina de Platão, indo de encontro à evidência dos próprios diálogos e da Sétima Carta, sendo mais justa a posição de Shorey, para quem as ideias hipostasiadas constituem o Ding-an-sich platônico, aceito com plena consciência de seu paradoxo diante do senso comum. 16. Enquanto a metafísica de Platão se ocupa de uma multiplicidade de Ideias eternas correspondentes à variedade natural das coisas, seu outromundanismo permanece parcial, pois o Mundo das Ideias era antes réplica glorificada e destemporalizada do mundo sensível do que sua negação — inconsistência apontada por Santayana, mas que se revela, no fundo, uma inconsistência feliz. 17. Somente quando, na República, Platão introduz uma Ideia das Ideias, da qual as demais parecem derivar, ele se revela plenamente como pai do outromundanismo ocidental, ainda que Ritter reduza a Ideia do Bem a uma fé otimista na providência divina, deixando de lado o que há de mais distintivo em suas expressões oraculares sobre o tema. 18. A República estabelece claramente certas características da Ideia do Bem: sua realidade indubitável, sua natureza de essência oposta às coisas mutáveis, sua polaridade em relação a este mundo, sua ineficabilidade em termos ordinários e sua condição de objeto universal do desejo, cuja contemplação constitui o bem supremo do homem. 19. A disputa entre intérpretes sobre se essa Ideia do Bem equivale ao conceito de Deus só faz sentido se se toma "Deus" no sentido do ens perfectissimum escolástico, caso em que ela se tornou, de fato, o Deus de Platão, de Aristóteles e de quase toda a teologia filosófica medieval. 20. Platão alcançou esse clímax outromundano por uma dialética própria, na qual o termo "bem" conota, como em quase todo pensamento grego, autossuficiência absoluta e independência de tudo que é externo ao ser, atributo pleno do Ser Absoluto. 21. Dessa dialética decorreu a consequência de que a existência de todo o mundo sensível e de seres finitos não acrescenta excelência alguma à realidade divina, sendo essa a fonte primária da doutrina teológica de um Deus autossuficiente e indiferente ao mundo, ecoada por Aristóteles, Jonathan Edwards e, na contemporaneidade, por C. E. M. Joad. 22. Contrariando essa direção, a própria filosofia de Platão reverte seu curso ao encontrar, na Ideia do Bem transcendente, o fundamento lógico necessário da existência deste mundo, exigindo a realidade de todos os tipos concebíveis de seres finitos, temporais e imperfeitos. 23. Essa reviravolta torna-se explícita na República, onde o Bem é causa não apenas do conhecimento, mas também da existência e da realidade das coisas, e sobretudo no Timeu, ao qual cabe responder por que existe um Mundo do Devir e qual princípio determina o número de espécies que o compõem. 24. Essas duas questões, hoje consideradas por muitos filósofos como insolúveis ou sem sentido, foram transmitidas por Platão como legítimas e respondíveis, fazendo da história aqui revisada parte do esforço ocidental por tornar o mundo racionalmente inteligível. 25. A resposta à primeira questão está na afirmação de que o Demiurgo, sendo bom e destituído de inveja, desejou que tudo fosse, tanto quanto possível, semelhante a si mesmo, sendo esse Demiurgo interpretado ora como personificação poética da Ideia do Bem, ora como fusão das noções platônicas de Ideias e almas. 26. O ser supramundano responsável pela existência deste mundo é dito "bom" num sentido que inverte o significado usual do termo entre os platônicos, pois um ser autossuficiente e perfeito, por não poder ter inveja de nada, converte-se, por inversão lógica, de Perfeição Autossuficiente em Fecundidade Autotranscendente, introduzindo na filosofia ocidental a concepção contraditória de um Absoluto ao mesmo tempo completo e gerador. 27. À segunda questão — quantas espécies de seres imperfeitos o mundo deve conter — responde-se, pela mesma dialética, que todas as espécies possíveis, pois o Demiurgo, desejando fazer deste mundo a imagem mais perfeita e completa do modelo inteligível, produziu todos os gêneros de seres vivos até que o universo se tornasse plenamente "cheio". 28. Ainda que Platão não tivesse dado forma teológica a essa resposta, ele dificilmente chegaria a conclusão diversa, pois admitir que apenas uma seleção limitada das Ideias tivesse contraparte sensível pareceria uma anomalia incompatível com seu modo de pensar. 29. Esse teorema da "plenitude" da realização de toda possibilidade conceitual em atualidade, nunca antes nomeado, será chamado aqui de princípio da plenitude, do qual decorrem duas implicações latentes na formulação original de Platão. 30. A primeira implicação consiste na reversão do esquema de valores platônico original, pois, sendo o Mundo Inteligível deficiente sem o sensível, a alegoria da Caverna fica implicitamente anulada, abrindo caminho para a inversão futura segundo a qual o Mundo das Ideias passaria a ser visto como mero padrão sem valor próprio. * as sombras tornam-se tão necessárias ao Sol inteligível quanto o Sol às sombras, e sua existência é a própria consumação da perfeição deste * dessa lógica derivaria a convicção de que a função do homem é permanecer em seu lugar designado, sob pena de deixar vaga uma posição exigida pelo princípio da plenitude 31. A segunda implicação é a de que essa expansividade do Bem não resulta de um ato livre e arbitrário do Criador, mas de uma necessidade dialética, implicando um determinismo cósmico absoluto que só encontrará formulação sistemática completa na Ética de Spinoza, apesar da persistente resistência do pensamento ocidental a essa consequência. 32. Esse processo reverso não encontra lugar no sistema de Aristóteles, cujo Deus, sendo autossuficiente, não gera nada e constitui apenas causa final, e não fundamento do mundo, sendo por isso o princípio da plenitude formalmente rejeitado por Aristóteles na Metafísica. 33. Em contrapartida, é em Aristóteles que emerge a concepção de continuidade, aplicada não só às grandezas contínuas mas também à história natural, onde a natureza mostra gradações insensíveis entre classes, como no caso célebre dos zoófitos entre o inanimado e o animado. 34. Aristóteles multiplica exemplos de continuidade em outras classificações, como as focas entre animais terrestres e aquáticos, os morcegos entre quadrúpedes e voadores, e o macaco entre o homem e os quadrúpedes. 35. Há uma oposição essencial entre dois aspectos da influência aristotélica — de um lado, o hábito de pensar em conceitos de classe fixos e rigorosos, de outro, o reconhecimento das limitações da classificação diante da fluência contínua da natureza —, ambos igualmente legados aos séculos posteriores. 36. Do princípio platônico da plenitude decorre diretamente o princípio da continuidade, pois qualquer tipo intermediário teoricamente possível entre duas espécies naturais deveria necessariamente realizar-se, sob pena de deixar lacunas incompatíveis com a bondade da Fonte criadora. 37. Embora Platão apenas sugira vagamente uma ordenação hierárquica das Ideias, foi Aristóteles quem propôs a organização de todos os seres numa única escala graduada de perfeição, seja pelo grau de desenvolvimento da prole ao nascer, seja pelas potências da alma expostas no De Anima, somando-se a isso a noção de privação, que fundamenta o princípio da gradação unilinear. 38. Da fusão dos princípios de plenitude, continuidade e gradação resultou a concepção da "Grande Cadeia do Ser", aceita sem contestação por filósofos, cientistas e homens cultos até o fim do século XVIII, e celebrada poeticamente por George Herbert, Pope e James Thomson. * Pope resume nos versos do Essay on Man os princípios de plenitude e continuidade, deduzindo deles que a quebra de um único elo destruiria toda a ordem cósmica * Thomson evoca de modo mais sóbrio, nas Seasons, a mesma cadeia decrescente do infinito à "desolada abismo do nada" 39. Além das rapsódias poéticas, a Cadeia do Ser teve consequências de grande importância histórica também nas ciências, tendo os princípios de gradação e continuidade desempenhado papel decisivo na biologia do Renascimento, conforme observado por historiadores da ciência classificatória. 40. Foi no Neoplatonismo que esses elementos, provenientes de Platão e Aristóteles, se organizaram pela primeira vez num sistema coerente, sendo a dialética da emanação uma elaboração da passagem do Timeu, e em Plotino, ainda mais claramente que em Platão, deduz-se de um Absoluto autossuficiente a necessidade da existência do mundo com toda a sua imperfeição. 41. O Uno é perfeito porque nada busca, nada possui e de nada necessita, sendo justamente por sua perfeição que transborda e produz um Outro, do mesmo modo que o fogo emite calor e a neve, frio, não podendo o Bem Primeiro permanecer fechado em si mesmo como se fosse invejoso ou impotente. 42. Essa geração dos Muitos a partir do Um não pode cessar enquanto restar alguma variedade possível de ser não realizada na série descendente, pois o poder infinito que emana de si para todas as coisas não pode deserdar nenhuma delas. 43. As primeiras etapas desse processo pertencem ao Mundo Inteligível, mas a Alma Universal, terceira hipóstase eterna, é a mãe imediata da natureza, gerando ao voltar-se para trás e depois para diante uma imagem de si mesma — as naturezas sensitiva e vegetativa —, constituindo o mundo uma vida contínua estendida por imensa extensão. 44. A Escala do Ser torna-se assim a concepção essencial da cosmologia neoplatônica, tal como resumida por Macrobio, que descreve a sucessão contínua de todas as coisas desde o Deus Supremo até os últimos resíduos da realidade, empregando as metáforas da cadeia de ouro e da série de espelhos. 45. A geração dos graus inferiores do ser é, para o neoplatonismo, uma necessidade lógica, e não fruto de vontade arbitrária, sendo a desigualdade entre os seres explicada por Plotino não pela mera vontade de quem distribuiu os destinos, mas pela necessidade própria da natureza das coisas. 46. Nessa suposição de necessidade metafísica e valor essencial da realização de todas as formas concebíveis de ser reside a base de uma teodiceia, cuja fórmula otimista, já plenamente presente em Plotino e Proclo, seria retomada por King, Leibniz e Pope, e viria a ser objeto da ironia de Voltaire em Candide. 47. Quem critica a natureza do universo desconhece os graus sucessivos do ser, do primeiro ao último, não devendo exigir-se que tudo seja igualmente bom, tampouco lamentar-se precipitadamente da impossibilidade disso. 48. A diferença de espécie é tratada como equivalente necessária à diferença de excelência e à diversidade hierárquica, de modo que eliminar o pior do universo equivaleria a eliminar a própria Providência. 49. A Razão cósmica produz aquilo que se chama de males justamente porque não desejou que todas as coisas fossem igualmente boas, criando deuses, espíritos, homens e animais em série contínua, à semelhança de um pintor que emprega cores variadas ou de uma tragédia que inclui personagens humildes para constituir sua beleza completa. 50. Um mundo racional deve exibir todos os graus de imperfeição decorrentes da especificação das diferenças entre as criaturas, sendo absurdo que o homem reivindique qualidades que não recebeu, pois ocupa simplesmente o lugar que lhe cabia na escala, um lugar que não poderia permanecer vazio. 51. Os mesmos princípios servem a Plotino para tratar do sofrimento dos animais não racionais, considerando necessária, para o bem do Todo, a guerra perpétua entre eles, pois é melhor que um animal seja devorado por outro do que nunca ter existido, sendo o conflito consequência necessária da diversidade máxima que constitui a essência da Alma-Mundo criadora. 52. Plotino recusa-se, contudo, a afirmar que o número de seres temporais seja literalmente infinito, por aversão estética grega à noção de infinito, mantendo posição equívoca segundo a qual esse número é ao mesmo tempo finito e maior que qualquer número finito, sendo, de todo modo, o mundo tão "cheio" que nenhum tipo possível de ser nele falta. {{tag>Lovejoy história ser outro-mundo mundo}}