====== Quente e frio ====== //MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação com extensões do homem. Tr. Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix// ** 2. Meios quentes e frios ** 1. O surgimento da valsa no século XVIII expressou uma aspiração coletiva à verdade, à simplicidade, à natureza e ao primitivismo, rompendo explosivamente as barreiras formais da sociedade feudal representadas pelas danças corais e palacianas. * A valsa constituiu uma forma humana quente por sua intensidade, velocidade e concentração sensorial. * A dança de pares substituiu parcialmente as estruturas coletivas e cerimoniais das antigas formas coreográficas. * A familiaridade posterior com o jazz tende a ocultar a força revolucionária originalmente exercida pela valsa. * A transformação da dança correspondeu a mudanças mais amplas na sensibilidade e na organização social. 2. A distinção entre meios quentes e frios depende do grau de definição informacional e da quantidade de participação exigida do receptor, pois os meios quentes prolongam intensamente um único sentido, enquanto os frios oferecem poucos dados e solicitam complementação ativa. * O rádio e o cinema são meios quentes porque apresentam informações sensoriais altamente definidas. * O telefone e a televisão são meios frios porque fornecem dados incompletos que precisam ser preenchidos. * A fotografia possui alta definição visual, enquanto a caricatura e o desenho animado apresentam baixa definição. * A fala é fria porque o ouvinte precisa completar sentidos, intenções, contextos e relações não inteiramente expressos. * Quanto maior a saturação de dados, menor tende a ser a participação da audiência. * Meios quentes e frios produzem efeitos diferentes mesmo quando transmitem conteúdos semelhantes. 3. Os caracteres hieroglíficos e ideogramáticos atuam como meios frios e participativos, enquanto o alfabeto fonético e sua intensificação tipográfica constituem meios quentes que fragmentam as estruturas sociais, ampliam o individualismo e reorganizam as relações entre tempo e espaço. * A tipografia intensifica a abstração visual do alfabeto fonético. * A palavra impressa rompeu os vínculos corporativos e monásticos da sociedade medieval. * A fragmentação tipográfica favoreceu empresas e monopólios individualistas. * O monopólio levado ao extremo produziu uma reversão e restaurou formas corporativas de domínio impessoal. * A intensificação repetitiva da escrita pela imprensa contribuiu para o nacionalismo e para as guerras religiosas do século XVI. * A pedra, pesada e durável, liga épocas e preserva a continuidade temporal. * O papel, leve e transportável, favorece a expansão horizontal dos impérios políticos e do entretenimento. * A temperatura de um meio depende de suas propriedades formais e de seus efeitos ambientais, não apenas do material utilizado. 4. Os meios quentes excluem e especializam, enquanto os meios frios incluem e solicitam participação, razão pela qual a intensificação de uma experiência tende a fragmentar funções e precisa ser posteriormente esfriada para tornar-se assimilável. * A conferência envolve menos participação que o seminário, assim como o livro envolve menos que o diálogo. * A imprensa suprimiu diversas formas culturais anteriores e intensificou outras. * A dança nas pontas dos pés aqueceu o balé e produziu uma aparência de espiritualização. * A nova intensidade técnica contribuiu para excluir as figuras masculinas do balé. * A industrialização fragmentou o papel doméstico feminino ao transferir funções para lavanderias, padarias e hospitais. * Experiências intensas precisam ser esquecidas, censuradas ou reduzidas antes de integrar-se à consciência. * A censura freudiana constitui uma condição perceptiva do aprendizado, e não apenas uma repressão moral. * O sistema nervoso protege-se contra choques excessivos por meio do arrefecimento da experiência. * Quando esse mecanismo se torna permanente, pode produzir rigidez psíquica e sonambulismo diante das novas tecnologias. 5. A introdução de uma tecnologia quente numa cultura fria pode destruir rapidamente hierarquias, papéis e valores tradicionais, como ocorreu quando machados de aço substituíram os machados de pedra entre povos australianos. * O machado de pedra possuía raridade material e valor simbólico ligado ao prestígio masculino. * A distribuição de machados de aço a mulheres e crianças dissolveu a exclusividade que sustentava a hierarquia. * A necessidade de os homens tomarem os instrumentos emprestados às mulheres abalou a dignidade e a organização tribal. * Dinheiro, roda e escrita fragmentam sociedades tribais ao acelerar intercâmbios e especializar funções. * Tecnologias mecânicas uniformes e repetitivas promovem a destribalização. * A eletricidade, por sua velocidade extrema e seu caráter pouco especializado, recupera padrões de envolvimento tribal. * O rádio favoreceu a retribalização europeia, enquanto a televisão tende a produzir efeito semelhante nos Estados Unidos. * A defasagem cultural leva as pessoas a interpretar situações novas mediante categorias antigas. * A expressão “explosão demográfica” conserva uma imagem mecânica de expansão num ambiente elétrico caracterizado pela implosão. * Newton representou o universo à imagem do relógio porque sua percepção estava condicionada pelo mecanismo temporal. * William Blake reconheceu que a visão newtoniana repetia inconscientemente a forma da tecnologia que pretendia explicar. * Newton e Locke aparecem como figuras narcísicas hipnotizadas por suas próprias extensões mecânicas. 6. O epigrama de William Butler Yeats representa Locke adormecido no associacionismo mecânico, enquanto a consciência orgânica desaparece e o tear tecnológico assume poder criador sobre o mundo humano. * O jardim simboliza a consciência integral e unificada. * O sono de Locke representa a submissão inconsciente à linearidade mecânica. * O fuso e o tear condensam a extensão industrial das funções humanas. * A imagem da criação feminina pelo mecanismo associa tecnologia, reprodução e sexualidade. 7. Locke aparece hipnotizado pela imagem mecânica que projetou, enquanto o desaparecimento do jardim indica a perda da consciência unificada e a transformação da mulher numa extensão tecnológica do homem. * O associacionismo reduz a consciência a sequências lineares de elementos. * O tear prolonga mecanicamente o ser humano e reorganiza sua imaginação. * A significação sexual atribuída por Yeats ao mecanismo revela que as tecnologias penetram também nas representações do corpo e das relações entre os sexos. * A mulher torna-se simbolicamente um produto extraído da extensão técnica masculina. 8. A oposição de Blake ao mecanismo mediante o mito orgânico foi adequada à era mecânica, mas na era elétrica o próprio mito se tornou uma forma automática de condensação instantânea de processos complexos. * O mito apresenta simultaneamente aquilo que normalmente se desenvolve durante um longo período. * A implosão mítica comprime acontecimentos, relações e etapas numa única configuração. * A velocidade elétrica confere dimensão mítica às atividades sociais e industriais cotidianas. * A vida contemporânea ocorre miticamente pela simultaneidade, embora o pensamento permaneça fragmentado e dividido em planos. * A repetição simples da forma elétrica não constituiria uma resposta imaginativa comparável àquela elaborada por Blake contra o mecanismo. 9. A discrepância entre objetos relacionais e métodos lineares aparece inclusive nos estudos bíblicos, pois as relações simultâneas entre Deus, humanidade e mundo continuam a ser examinadas por procedimentos analíticos incompatíveis com sua estrutura. * O pensamento oriental e hebraico articula simultaneamente problema e resposta. * A mensagem oral é traçada repetidamente em espirais concêntricas. * A aparente redundância permite recuperar a totalidade a partir de diferentes pontos. * A compreensão exige escavar a mensagem em profundidade, e não seguir apenas uma progressão linear. * A estrutura espiral do Museu Guggenheim, de Frank Lloyd Wright, corresponde a esse princípio concêntrico. * A velocidade elétrica favorece planos superpostos e interseções simultâneas. * A forma concêntrica constitui uma técnica de introvisão porque permite reconhecer relações internas. * Nenhum meio possui sentido isoladamente, pois sua existência depende da interação constante com outros meios. 10. A configuração elétrica da vida torna insuficientes os métodos lineares e fragmentários da era mecânica, deslocando a investigação do conteúdo isolado para o efeito total produzido sobre a situação. * Kenneth Boulding define o significado de uma mensagem pela transformação que ela provoca na imagem mental. * O efeito abrange a configuração integral, enquanto a informação ocupa apenas um plano do processo. * A prioridade do efeito também aparece no princípio jurídico inglês segundo o qual uma verdade pode tornar-se mais ofensiva quanto maior for sua força pública. * A mudança de imagem importa mais que a simples exatidão do conteúdo transmitido. 11. A tecnologia elétrica produziu inicialmente angústia e posteriormente tédio, conduzindo as sociedades industrializadas pelos estágios de alarme, resistência e exaustão característicos das condições de estresse. * O primeiro choque elétrico despertou temor diante da perda das estruturas mecânicas familiares. * A resistência procurou preservar hábitos de especialização e linearidade. * A exaustão posterior favoreceu apatia e expectativa passiva de novos problemas. * Países pouco industrializados encontram-se mais preparados para o eletromagnetismo porque não precisam superar hábitos especializados tão profundos. * As culturas orais preservam uma experiência de campo unificado próxima da simultaneidade elétrica. * As sociedades industrializadas destruíram suas tradições orais e precisam recuperá-las para compreender o novo ambiente. 12. A temperatura de uma cultura e a temperatura de seus meios variam segundo a relação histórica entre especialização, participação e reversão, fazendo com que formas consideradas quentes num período possam esfriar depois da assimilação de seu impacto. * Países pouco industrializados são culturalmente frios, enquanto sociedades urbanas especializadas são quentes. * A era mecânica foi quente por sua intensidade fragmentária, enquanto a era televisiva é fria por exigir participação. * A valsa corresponde à rapidez, à repetição e à cerimônia do industrialismo. * O twist é improvisado, envolvente e gestual, aproximando-se de uma conversação corporal. * O jazz apareceu como forma quente durante o impacto inicial do rádio e do cinema. * Sua estrutura dialogal e informal, contudo, contém propriedades frias. * Depois da assimilação dos meios quentes, surgiu naturalmente o jazz frio. 13. A aceitação do charleston e a proibição do twist na Rússia indicam que uma sociedade em industrialização prefere formas mecânicas compatíveis com seu projeto de desenvolvimento e rejeita manifestações frias de envolvimento espontâneo. * O charleston reproduz movimentos semelhantes aos de um boneco mecânico. * Sua repetição fragmentada aparece como vanguarda numa cultura que intensifica o industrialismo. * O twist ameaça essa orientação por sua participação corporal livre e não especializada. * As sociedades ocidentais já industrializadas procuram sua vanguarda em formas frias e primitivas. * O primitivo promete recuperar profundidade participativa e expressão integral perdidas pela mecanização. 14. A era televisiva tornou cômicas as formas agressivas da venda e da comunicação quente, esfriando a cultura norte-americana e exigindo transformações sociais integrais que ainda não foram plenamente reconhecidas. * O vendedor viajante pertencia ao ambiente quente da persuasão verbal e da expansão mecânica. * A televisão substituiu a pressão argumentativa pela participação e pelo envolvimento ambiental. * Margaret Mead defende que a aceleração somente é proveitosa quando toda a estrutura social se transforma conjuntamente. * Mudanças educacionais, recreativas e sociais precisam acompanhar as mudanças técnicas. * A transformação eficaz não pode restringir-se a setores isolados nem ser imposta sem participação coletiva. 15. A concepção de mudança como aquecimento ou esfriamento uniforme permite imaginar a programação tecnológica do clima emocional de culturas inteiras, mediante a dosagem de meios com diferentes efeitos perceptivos. * A intensificação do rádio pode aquecer e tribalizar uma população. * A televisão pode esfriar determinadas formas de intensidade coletiva ao exigir outra espécie de participação. * O equilíbrio cultural poderia ser administrado de modo análogo ao controle das economias comerciais. * Essa possibilidade revela que os meios atuam sobre disposições coletivas, e não apenas sobre opiniões individuais. * A programação de culturas também expõe o risco de manipulação sistemática dos ambientes sensoriais. 16. A manutenção do equilíbrio social e pessoal exige a modulação das temperaturas comunicacionais, como demonstram a exclusão de temas intensos nos clubes ingleses e a adoção de atitudes informais em ambientes excessivamente aquecidos. * Religião e política são evitadas em espaços altamente participativos para preservar o convívio. * O coração pode permanecer visível sem ser colocado diretamente na mão, conforme a formulação de W. H. Auden. * O Renascimento aquecido pela imprensa produziu, como compensação, o comportamento lúdico e descontraído do cortesão. * Hamlet e Mercúcio exemplificam essa informalidade contrastante. * Iago aquece deliberadamente sua própria imagem ao imitar a seriedade rígida de Otelo. * A projeção de honestidade permite que Otelo reconheça no assessor uma imagem de seu próprio coração inflexível. * As identidades sociais podem ser manipuladas por ajustes calculados de temperatura expressiva. 17. As cidades frias, abertas e informalmente estruturadas oferecem maior participação que os centros urbanos quentes, densos e especializados, nos quais o alto desenvolvimento reduz as possibilidades de descoberta e colaboração. * A grandeza de Atenas correspondeu à permanência de hábitos democráticos aldeões. * A participação comunitária favoreceu ampla variedade de expressões e investigações humanas. * O desenvolvimento urbano intensivo exige especialização daqueles que controlam suas estruturas. * O chamado enriquecimento de funções devolve ao empregado alguma liberdade para descobrir e definir seu papel. * A narrativa policial envolve o leitor como coautor ao omitir informações decisivas. * A meia de malha larga pode ser mais sensual que o nylon uniforme porque exige preenchimento visual. * A imagem televisiva funciona como mosaico incompleto que solicita participação semelhante. 18. A escassez de dados na imagem pública de Calvin Coolidge transformou-o numa figura fria que a imprensa precisava completar, enquanto personalidades mais definidas e meios mais quentes produziam diferentes formas de rivalidade comunicacional. * A equipe de imprensa preenchia as lacunas da personalidade pública de Coolidge. * Sua falta de articulação funcionava como caricatura incompleta. * A imprensa quente dos anos 1920 encontrava prazer em construir uma imagem para ele. * Franklin Delano Roosevelt possuía uma personalidade quente e suficientemente definida para rivalizar com os jornais. * Roosevelt utilizou o rádio, igualmente quente, para enfrentar o poder da imprensa. * Jack Paar combinou um espetáculo frio com o meio frio da televisão. * O conflito com os colunistas exemplificou o choque entre televisão e imprensa. * O escândalo dos programas manipulados resultou em parte da incompatibilidade entre as exigências participativas da televisão e práticas herdadas de meios quentes. * A disputa publicitária entre imprensa, rádio e televisão confundiu e superaqueceu a controvérsia envolvendo Charles Van Doren. 19. Em agosto de 1962, aproximadamente cem infratores de trânsito foram submetidos, em Santa Mônica, à exibição de um filme policial sobre acidentes como alternativa parcial ao pagamento de multas. 20. A apresentação de ferragens retorcidas, corpos mutilados e gritos de vítimas produziu choque emocional e náusea em alguns espectadores, demonstrando a intensidade de um meio e de um conteúdo simultaneamente quentes. * A redução da multa condicionava a participação no espetáculo. * O filme procurava modificar o comportamento por saturação visual e emocional. * A reação física dos espectadores revelou que o excesso informacional podia ultrapassar a capacidade de assimilação. 21. O emprego de um meio quente e de um conteúdo igualmente quente para esfriar comportamentos intensos pode provocar brutalização, entorpecimento ou reversão, em vez de empatia e transformação consciente. * A exibição extrema da violência não assegura participação reflexiva. * Um anúncio com um pai num pulmão de aço pode despertar mais horror que advertências racionais. * A pena severa não necessariamente impede os crimes mais graves. * A ameaça de retaliação nuclear maciça pode intensificar, e não reduzir, a precipitação do conflito. * A saturação de uma estrutura com energia pode inverter seu funcionamento. * A brutalidade utilizada como dissuasão pode habituar e brutalizar o público. * Em determinadas situações esportivas, a representação controlada da agressividade pode exercer função humanizadora. * O terror prolongado produz insensibilidade, como indicou a reação pública aos planos de abrigos nucleares. * A vigilância permanente pode ser paga com indiferença e incapacidade de resposta. 22. Os efeitos de um meio dependem da temperatura da cultura em que ele é introduzido, pois o rádio provoca transformações violentas em sociedades frias e orais, mas pode funcionar como simples entretenimento em culturas quentes e letradas. * Meios quentes perturbam intensamente culturas que não desenvolveram distanciamento visual. * Rádio e cinema não podem ser recebidos como distrações neutras por sociedades pouco letradas. * A televisão fria provocou desorganização semelhante no Ocidente altamente alfabetizado. * A relação entre meio e ambiente cultural é mais decisiva que a classificação isolada de uma tecnologia. 23. O humor e o jogo constituem estratégias necessárias para esfriar o terror da guerra e da ameaça nuclear, embora formas competitivas e piadas transplantadas para culturas frias possam produzir agitação em vez de distensão. * O jogo imita situações reais e reduz sua intensidade. * A competição esportiva entre blocos políticos pode conservar ou ampliar a hostilidade. * Esportes investidos de nacionalismo tornam-se inflamáveis. * Aquilo que funciona como entretenimento numa cultura quente pode converter-se em mobilização política numa cultura fria. * A temperatura de uma prática depende do campo cultural em que ela opera. 24. A transmissão televisiva de um ensaio sinfônico utiliza adequadamente um meio frio ao envolver o público no processo de criação, enquanto a apresentação acabada de um concerto corresponde melhor a meios quentes. * A televisão mostra Glenn Gould durante a gravação e Igor Stravinsky durante o ensaio, expondo decisões, interrupções e descobertas. * O processo incompleto convida o espectador a participar. * Rádio e gravação fonográfica favorecem mensagens bem definidas e concluídas. * Francis Bacon distinguia a prosa quente das exposições completas e a prosa fria dos aforismos. * Fórmulas como “a vingança é uma espécie de justiça selvagem” permanecem abertas à investigação. * O consumidor passivo prefere pacotes concluídos. * O pesquisador das causas escolhe formas incompletas que exigem aprofundamento e participação. 25. A diferença entre óculos comuns e óculos escuros exemplifica a oposição entre saturação e abertura, pois a imagem visualmente intensificada tende a excluir aproximações, enquanto a aparência inescrutável convida à complementação imaginativa. * Os óculos comuns reforçam a emissão visual e saturam a imagem da pessoa. * A figura tradicional da bibliotecária associa essa definição visual a uma imagem pouco acessível. * Os óculos escuros ocultam dados e produzem uma superfície incompleta. * A falta de informação estimula curiosidade, participação e projeção. 26. Numa cultura visual e letrada, a aparência pode ofuscar o som do nome, enquanto nas culturas auditivas a dimensão sonora da identidade exerce uma força quase hipnótica sobre a pessoa. * A predominância visual dificulta a retenção imediata dos nomes. * A necessidade de repetir o nome revela a competição entre imagem e som. * James Joyce reconheceu no nome uma forma de hipnose verbal. * A identidade sonora acompanha o indivíduo e condiciona sua relação consigo mesmo e com os demais. 27. As brincadeiras práticas e os trocadilhos revelam a resistência da cultura letrada a formas participativas que interrompem a sequência uniforme da tipografia, embora essa mesma cultura frequentemente confunda intensidade sensorial com calor e abstração literária com frieza. * Pregar peças envolve fisicamente os participantes e não pode ser reduzido a observação distanciada. * O trocadilho rompe a linearidade ao reunir simultaneamente sentidos distintos. * A pessoa letrada tende a considerar essas formas de mau gosto porque desorganizam o percurso tipográfico. * A elevada abstração da imprensa permanece invisível para quem foi formado por ela. * Formas artísticas ruidosas e participativas parecem quentes, apesar de poderem exigir preenchimento e envolvimento. * A apresentação pessoal rigidamente correta reproduz a ordem limpa e regular da página impressa. * O conforto surge quando a dominância visual é relaxada e os sentidos podem participar informalmente. * O aquecimento exclusivo da visão reduz a integração sensorial. 28. A inclusão extrema e simultânea de todos os sentidos provoca um processo intenso de preenchimento que pode culminar em alucinação, enquanto a intensificação isolada de um único sentido tende a produzir hipnose. * A hipnose decorre da concentração especializada e da exclusão das demais faculdades. * A alucinação resulta da participação total em dados insuficientemente estruturados. * O equilíbrio perceptivo depende da proporção dinâmica entre definição sensorial e atividade de complementação. {{tag>McLuhan comunicação meio mensagem}}