====== Sistema ====== //MORIN, Edgar. La méthode. 1: La nature de la nature. Paris: Ed. du Seuil, 1977.// **I. Do objeto ao sistema; da interação à organização** * A ciência clássica funda-se na ideia de objetos isolados e substanciais, dotados de realidade própria e independentes do observador e do meio. * O método explicativo dito reducionista decompõe todo objeto fenomênico em elementos simples, culminando na consagração do átomo como unidade insecável e irredutível. * No início do século vinte o átomo deixa de ser unidade primeira e revela-se um sistema de partículas em interação mútua, o que provoca uma dupla crise da ideia de objeto e da ideia de elemento. * A partícula perde substancialidade e identidade estáveis, hesitando entre onda e corpúsculo e exigindo ser definida pelas interações em que participa. * As propriedades do átomo, como a coesão nuclear e o comportamento dos elétrons regido pelo princípio de exclusão de Pauli, não podem ser deduzidas das propriedades isoladas das partículas constituintes. * O universo físico revela-se fundado não em unidades insecáveis mas em sistemas complexos, fenômeno que se repete da física à biologia e à sociologia sob a forma de um arquipélago de sistemas. * A natureza aparece como um todo polissistêmico, constituído por sistemas de sistemas de sistemas encadeados, sobrepostos e interdependentes, sem existência real de sistema simples isolado. * Apesar da presença evidente de sistemas em todas as disciplinas científicas, o conceito de sistema permanece pouco elaborado teoricamente até os trabalhos de von Bertalanffy. * As definições clássicas de sistema associam interrelação de elementos e unidade global, mas apenas ao vincular esses dois traços pela ideia de organização, como fez Saussure, alcança-se uma definição articulada. * A organização constitui o conceito que liga interrelação e totalidade, sendo até então a grande ausente das teorias físicas apesar de sua evidência fenomênica. * A organização é definida provisoriamente como o agencinamento de relações entre componentes que produz uma unidade complexa dotada de qualidades desconhecidas ao nível dos componentes isolados. * Interrelação, organização e sistema constituem um conceito trinitário indissociável, cada termo remetendo reciprocamente aos outros dois. **II. A Unidade complexa organizada. O Todo e as partes. As emergências e as constrições** * O sistema apresenta-se como unitas multiplex, sendo ao mesmo tempo uno sob o ângulo do todo e diverso sob o ângulo dos constituintes, configurando um compromisso entre variedade máxima e redundância máxima. * O todo é mais que a soma das partes, possuindo organização, unidade global e qualidades novas emergentes que não se deduzem logicamente dos elementos isolados. * As emergências manifestam-se tanto no nível global do sistema quanto em microemergências ao nível das próprias partes, que adquirem qualidades ausentes quando consideradas isoladamente. * A emergência constitui simultaneamente produto de síntese e princípio ativo capaz de retroagir sobre aquilo que a produziu, tornando questionável a hierarquia simples entre infraestrutura e superstrutura. * O tanto quanto emerge, também há o inverso: o todo é menos que a soma das partes, pois toda organização impõe restrições que fazem certas qualidades das partes desaparecerem ou permanecerem reprimidas. * As restrições organizacionais tornam-se opressivas apenas no nível de indivíduos dotados de capacidade de escolha, sendo esse o cerne trágico e ambivalente das sociedades humanas. * Todo sistema é simultaneamente mais, menos e outro que a soma das partes, e as próprias partes são transformadas, menos, mais ou de outra forma diferentes daquilo que seriam fora do sistema. * A formação do todo é inseparável da transformação das partes, estabelecendo um princípio sistêmico segundo o qual tudo que forma também transforma. **III. A organização da diferença. Complementaridades e antagonismos** * A organização transforma diversidade em unidade sem anular a diversidade, ao mesmo tempo em que cria e mantém diversidade no interior da própria unidade sistêmica. * As partes de um sistema possuem dupla identidade, própria e comum ao todo, ilustrada pela linguagem, onde identidades e diferenças se sustentam mutuamente. * A organização da diferença institui complementaridades entre partes diversas, seja por interações, ligações compartilhadas, especializações funcionais ou comunicações informacionais. * Toda interrelação organizacional supõe forças de atração e forças de repulsão simultaneamente neutralizadas e mantidas, de modo que complementaridade e antagonismo coexistem em qualquer sistema. * As restrições organizacionais que produzem complementaridade geram também antagonismos virtuais, de modo que todo sistema apresenta uma face manifesta e uma face de sombra imersa e virtualizada. * Em sistemas de organização ativa, como as estrelas e os seres vivos, os antagonismos deixam de ser meramente virtuais e tornam-se forças ativas que sustentam a própria regulação e a retroação negativa. * Formula-se o princípio segundo o qual não há organização sem antiorganização, sendo esta necessária e ao mesmo tempo antagonista à organização que a contém. * O acréscimo de entropia sob o ângulo organizacional corresponde à passagem irreversível de potencialidades antiorganizacionais virtuais para sua atualização, condenando todo sistema à desintegração eventual. * Apenas sistemas ativos conseguem lutar contra o efeito desintegrador dos antagonismos, integrando-os organizacionalmente, renovando energia e organização, autodefendendo-se e autorreproduzindo-se. **IV. O conceito de sistema** * Superam-se conjuntamente o reducionismo, que explica o todo apenas pelas partes isoladas, e o holismo, que reduz as partes às propriedades do todo, ambos pertencentes ao mesmo paradigma simplificador. * A explicação do sistema exige um circuito relacional recursivo entre partes e todo, no qual cada termo remete ao outro sem que nenhum seja redutível ao outro. * O todo revela-se insuficiente e fissurado, portador de cisões internas entre o imerso e o emergente, o reprimido e o expresso, jamais correspondendo a uma totalidade homogênea e eufórica. * A relação entre indivíduo, espécie e sociedade ilustra a incerteza fundamental quanto à localização do verdadeiro todo, configurando uma politotalidade cujos termos são simultaneamente complementares, concorrentes e antagonistas. * A organização constitui o conceito nuclear que liga interrelação e sistema, sendo ao mesmo tempo relação das relações, formação transformadora, manutenção do que mantém e ordem construída contra o desordem. * A organização é recursiva, produzindo-se a si mesma ao produzir o sistema, o que lhe confere caráter fundamentalmente gerador e ao mesmo tempo fechado sobre si e aberto ao ambiente. * Todo sistema aberto necessita paradoxalmente de fechamento organizacional, e todo sistema fechado permanece parcialmente aberto, de modo que abertura e fechamento tornam-se noções relativas e combinadas. * O sistema constitui um dasein físico, um ser situado no tempo, nascido de interações, sujeito a evolução e desintegração, sendo a seleção física favorável tanto à estabilidade quanto à complexidade adaptativa. * O sistema é um conceito de dupla entrada, físico e mental, dependente tanto da realidade física quanto das categorias do observador/conceptor, o que introduz o sujeito no próprio núcleo do conceito de sistema. * A distinção entre sistema, subsistema, suprassistema, ecossistema e metassistema depende do enquadramento escolhido pelo observador, revelando o caráter incerto e parcialmente arbitrário da delimitação sistêmica. * A relação entre o sistema observado e o observador-sistema constitui uma nova totalidade sistêmica, apontando para a necessidade de um ponto de vista metassistêmico que integre a organização da física e a organização do conhecimento. **V. A complexidade de base** * A simplificação isola, reifica e dissolve o relacionismo consubstancial ao sistema, sendo necessário conceber a unidade complexa por meio de um macroconceito trinitário indissociável. * Pensar o um e o diverso conjuntamente exige superar a disjunção clássica entre Uno e diversidade, reconhecendo que o sistema organiza, produz e mantém diversidade interna ao mesmo tempo em que constitui unidade. * O Uno revela-se complexo, relativo ao ambiente e ao observador, portador de alteridade interna, de modo que a fórmula segundo a qual o sistema não é igual à soma das partes evidencia essa duplicidade. * A inclusão do antagonismo no coração da unidade complexa representa o golpe mais grave contra o paradigma da simplicidade, exigindo reconhecer que a antiorganização integra a própria organização sem deixar de ser ameaça mortal. * O sistema constitui o conceito complexo de base, irredutível a unidades elementares ou leis gerais simples, servindo de fundamento para o desenvolvimento posterior das máquinas naturais e dos seres vivos. * A complexidade não segue desenvolvimento linear nem hierarquia de precedência entre macrosistemas e microssistemas, podendo o átomo ser organizacionalmente mais complexo que a molécula que integra. * A teoria do sistema deve ser simultaneamente defendida e combatida, pois embora todo ser vivo seja sistema, reduzir a vida à noção de sistema significa expulsar dela a existência e o ser. * Quanto mais se ultrapassa a noção de sistema, mais ela se torna necessária, pois a teoria sistêmica ganha vida precisamente onde há jogo ativo de interações, emergências, contrições e antagonismos. {{tag>Morin informação sistema}}