====== Matemáticas e existência ====== //PARROCHIA, Daniel. Mathématiques et existence. Seyssel: Champ Vallon, 1991.// //François Dagognet// 1. Reconhece-se dificuldade em avaliar plenamente a obra volumosa de Daniel Parrochia, mas o entusiasmo suscitado pelo texto leva ao comentário pessoal sobre ele. 2. Trata-se de obra filosófica de primeiro plano, de leitura difícil por sua estrutura em camadas sobrepostas, coerente com a noção central de intromissões, que não designa simples intersecção ou intermediação entre territórios, mas introduz um universo de turbulências, hibridações, transbordamentos e interpenetrações que apagam recortes e fronteiras. 3. O acesso a essa região é facilitado por trabalho anterior do mesmo autor, ainda inédito, que já aplicava ferramentas lógico-matemáticas modernas às obras filosóficas de Platão, Spinoza, Kant e Hegel, cuja descoberta dos algoritmos morfogeradores revolucionou a história da filosofia tradicional, antes limitada a repetir e reproduzir construções. 4. Neste novo trabalho, o foco desloca-se para a existência em geral, abrangendo o real em toda sua amplitude, incluindo o homem e o campo econômico-social. 5. Uma primeira camada de capítulos demonstra que, onde a ciência e a lógica clássicas fracassam em conceber o real — dando razão às críticas de Hegel —, novos instrumentos como a topologia aplicada, a teoria das catástrofes e uma Analysis situs modernizada permitem reconquistar esse universo, infligindo derrota contundente à irracionalidade sob todas as suas formas. 6. Essa vitória permanece condicionada ao constante reaperfeiçoamento dos instrumentos e ao recurso permanente a esquemas mais maleáveis. 7. A história das disciplinas empíricas confirma a mesma lição, ao evidenciar o sucesso inicial das primeiras taxonomias, como a cristalografia, seguido de seu fracasso final, uma vez que o real por elas ordenado logo se desfez, exigindo mudança de escala do molar ao molecular, até as partículas elementares, e o consequente rejuvenescimento das grades classificatórias. 8. Ao longo dessas florestas conceituais, o leitor pode deter-se em clareiras que permanecem constantemente reconhecidas e exploradas. 9. Entre elas, destaca-se a defesa da complexificação contra os esquemas hierarquizados que marcaram o pensamento ocidental, sobretudo a imagem da árvore, que se esvai e deve desaparecer, tendo imposto enraizamento, arborescência, bifurcação, ramificação e relações de estrita vizinhança. 10. Outro modelo dominante no passado, igualmente suspeito, é o do labirinto, que embora pareça superar o do caminho, continua sugerindo meta, direção, deslocamento e linearidade. 11. Em toda parte impõem-se abalos e reconversões. 12. Ao longo da análise incisiva e implacável aplicada ao real, quanto mais se penetra na existência, mais esta se revela desperta e escapa à apreensão conjuntista, abrindo espaço à perspectiva mereológica, à valorização dos fragmentos e de sua alteridade, à impossibilidade de encerrá-los ou incluí-los uns nos outros, fazendo surgir assim um novo universo. 13. Uma segunda camada evidencia o fracasso último de toda cartografia, redes, tramas e grafos, permitindo o acesso ao embaralhado, ao recoberto e, sobretudo, ao desterritorializado. 14. Emergem em seguida outras camadas, relativas a uma moral desrigidificada, a um esboço de estética e teologia, e até ao questionamento de uma cerebralidade cada vez mais envelhecida e esclerosada. 15. Seria erro grave considerar a obra Mathématiques et Existence apenas como tratado de epistemologia moderna, quando ela propõe igualmente uma filosofia do mundo. 16. O subtítulo indica não uma direção, a ser evitada, mas um movimento: da ordem que se inscreveu na existência e absorveu a vida, aos fragmentos finalmente reconhecidos, e destes aos empiétements que devolvem mobilidade ao que fora separado, até a possível transgressão de fronteiras sempre imaginárias. 17. Duas paisagens filosóficas provocam fascínio particular: a conquista do real mais singular por técnicas lógico-matemáticas, cujo desempenho é demonstrado ao incorporar também sistemas de pensamento como os de Husserl, Heidegger e Bachelard, doravante inconcebíveis fora de referências topológicas latentes; e a evidenciação de outro mundo subjacente, espécie de oceano de caminhos fluidos não preexistentes, onde coexistem separação e encontro. 18. Permanece incerto se esse segundo universo constitui horizonte, limite ou recompensa do primeiro. 19. A obra configura-se como viagem intercontinental por um território que aboliu suas barreiras, revelando tanto imensas planícies entregues à luz quanto incessantes turbilhões. 20. Ao final, Daniel Parrochia convence de que nada pode ser escrito de antemão e que os caminhos nascem de toda parte, concluindo com acentos borgianos. 21. Quanto a esse último ponto, permanece a convicção pessoal de que o futuro há de reconhecer, cedo ou tarde, suas direções, seu talento e seus lampejos. {{tag>Parrochia matemática existência}}