====== Fenomenologia, Ciência e Geografia ====== //PICKLES, John. Phenomenology, science and geography. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.// * Introdução 1. Ciência e homem 2. Ciência e fenomenologia 3. O plano desta obra 4. "Fenomenologia geográfica" 5. O contexto disciplinar * PARTE I – GEOGRAFIA E METAFÍSICA TRADICIONAL 2. Discurso geográfico e seus temas centrais 6. Conceitos básicos da ciência e o método apropriado à ontologia 7. Objetivismo e subjetivismo 8. Positivismo e naturalismo 8a. O caráter a-histórico do positivismo 8b. O Iluminismo e o positivismo 8c. Naturalismo e idealismo 9. Ontologia kantiana da natureza material 10. Concepções de espaço físico e geografia 10a. O surgimento da geografia como ciência abstrata e teórica 10b. Física social 11. Espaço físico, behaviorismo cognitivo e a virada para a subjetividade 12. O modo de ser característico dos objetos geográficos * PARTE II – GEOGRAFIA E FENOMENOLOGIA 3. A interpretação da fenomenologia na geografia 13. A base fenomenológica da geografia 14. Fenomenologia geográfica 14a. Fenomenologia e pesquisa "prática" 15. Abordagens à fenomenologia geográfica 15a. A necessária distinção entre humanismo e fenomenologia 15b. Existencialismo 16. A visão da ciência 16a. Fenomenologia como crítica 16b. Fenomenologia como anticiência 16c. O papel fundacional da fenomenologia 16d. Fenômenos da experiência vivida 17. A virada para o mundo da vida e a ambiguidade entre fundamento e objeto 18. O método fenomenológico 18a. Intencionalidade 4. Fenomenologia geográfica: uma crítica de seus fundamentos 19. A metafísica da fenomenologia geográfica 20. Humanismo e a confusão entre o "objetivo" e o "subjetivo" 20a. Subjetividade e intencionalidade 20b. Individualismo 20c. As "próprias coisas", a "consciência" e "o problema do mundo objetivo" 20d. Idealismo 21. Fenomenologia geográfica: sua crítica interna 21a. Fenomenologia e critérios de validade 22. A virada para a fenomenologia constitutiva de Schutz e a justificativa para um retorno a Husserl * PARTE III – FENOMENOLOGIA E A QUESTÃO DA CIÊNCIA HUMANA 5. Fenomenologia husserliana: o projeto fundacional 23. O que é fenomenologia? 23a. Fenomenologia: suas origens e fundamentos 23b. A atitude natural 23c. Ciência empírica e ciência pura 23d. Intuição originária 23e. Fenômenos e intencionalidade 24. A necessidade da fenomenologia 24a. A crise do distanciamento entre ciência e vida 24b. A crítica das ciências positivas 24c. A estrutura do mundo e os "objetos" da ciência 24d. Fenomenologia e a ideia diretriz da ciência 6. Fenomenologia, ciência e geografia fenomenológica 25. Fenomenologia descritiva e ciência 25a. Ciências de fatos e ciências de essências 25b. Fenomenologia descritiva 26. Fenomenologia, ciência e mundo da vida 26a. A ontologia do mundo da vida 26b. As ciências e o mundo da vida 26c. A ciência do mundo da vida 26d. Mundo da vida e fenomenologia transcendental 7. Rumo a uma ontologia fundamental da ciência 27. Fenomenologia e uma ontologia fundamental da ciência 28. Ciência e objetivação na geografia 28a. Como surge a descoberta teórica? 28b. O mundo cotidiano e a atitude teórica 29. O desenvolvimento da ciência e o conceito de "progresso" 30. Ciência humana e objetificação 31. Rigor e exatidão na ciência 32. Teoria e seu alcance e domínio sobre a natureza e o mundo 33. Ciência e o mundo vivido * PARTE IV – CIÊNCIA HUMANA, MUNDANIDADE E ESPACIALIDADE 8. Implicações para as ciências humanas e para uma ciência humana da geografia 34. Fenomenologia 35. Fenomenologia e a ciência da geografia 36. Rumo a uma ciência humana projetiva formal 37. Husserl e a ciência humana 38. Rumo a uma "mathesis do espírito e da humanidade" formal e a priori 39. A analítica existencial e as ciências humanas 40. A analítica existencial e a "concepção natural do mundo" (ou mundo da vida) 9. Rumo a uma compreensão da espacialidade humana 41. Geografia, mundo e espaço 42. Mundo e mundanidade 43. Espaço 43a. A visão tecnológica do espaço 43b. A espacialidade do simplesmente-dado 44. O modo cotidiano de ser-no-mundo 45. A espacialidade do pronto-à-mão: lugares e regiões 46. Espaço e ciência 47. Espacialidade do homem 48. Espaço e espacialidade do homem 49. Lugar e espaço: implicações para uma ontologia regional da espacialidade para uma ciência humana geográfica ---- **Prefácio** 1. As ciências humanas modernas operam com duas concepções amplas de práxis: uma que confia no método e na técnica, fortalecida pelos avanços das décadas de 1950 e 1960, e outra que reconhece a influência decisiva de fatores extralógicos e extrametodológicos, como ideologia, linguagem e relações sociais, sobre a validade das alegações científicas. 2. A multiplicidade de formas de evidência e interpretação, decorrente da segunda concepção, gera um ambiente de incerteza em relação a técnicas e metodologias únicas, e a ausência de reflexão crítica faz com que a ciência pratique a perpetuação do mundo do status quo, negando seu papel crítico; essa ênfase na reflexão pode parecer herética para aqueles que aprenderam a objetividade do método como meta e a eliminação da metafísica como ideal do positivismo, que tem sido o modus operandi das ciências sociais na maior parte do século. 3. As ciências sociais, em grande medida, falharam em compreender o que as ciências físicas há muito sabiam: que método e compreensão estão integrados e necessariamente relacionados, e que o ato de observar e o observado são fundamentalmente inseparáveis, como demonstrado por Heisenberg. 4. Sem o reconhecimento de que percepção e concepção são indissociáveis e de que a ciência é uma forma de conhecer o mundo metodicamente restrita, a ciência reivindica para si uma posição privilegiada, na qual método e técnica se tornam árbitros da compreensão social e da verdade, relegando outras formas de saber e de habitar o mundo a posições secundárias; a partir disso, o ser humano é padronizado como máquina, processador de informações ou reserva genética, e a ciência se cala sobre a experiência humana, empobrecendo o ser e esquecendo a diferença ontológica. 5. Questões fundamentais sobre a compreensão ontológica de uma disciplina são frequentemente relegadas a cursos esporádicos sobre história e teoria, deixando o entendimento basilar de cada disciplina, incluindo a geografia, em grande parte negligenciado; nesse esquecimento do mundo em favor das coisas no mundo, a pergunta crucial é por que e como essa fascinação pelo mundo óptico da natureza material se torna tão predominante. 6. Este trabalho realiza uma incursão preliminar e necessária nessa questão, partindo do princípio de que o discurso geográfico tem delimitado o reino do possível e do aceitável de forma muito estreita; a compreensão do homem, da terra e da criação do mundo humano é inerentemente filosófica, pois lida com a natureza do ser humano, com a criação e manutenção de mundos e com o papel do significado como estrutura para a ação. 7. A questão crucial para as ciências humanas não é qual abordagem é mais útil ou produtiva, mas em que bases cada abordagem se fundamenta e quais pressupostos são carregados ao aceitar seus requisitos e modelos implícitos de homem, sociedade, cultura, história e mundo; não se defende a rejeição a priori de qualquer perspectiva, mas se argumenta que o conhecimento dos quadros a priori de significado é essencial para qualquer tradição de pesquisa autêntica e para a própria disciplina. 8. Sem a compreensão do 'grande quadro', a ciência perde a compreensão de si mesma e seus movimentos são feitos perpetuamente no escuro; o perigo é evidente na cena contemporânea, onde a ciência se vincula cada vez mais à tecnologia e ao controle social e individual, transformando-se em cientificismo e tornando os cientistas perigosos; essa relação só pode ser legitimada com base em bons argumentos, não por padrão, e essa reivindicação não é uma rejeição da ciência, mas uma revitalização de sua natureza essencial. 9. Na geografia contemporânea, o trabalho das últimas três décadas deixou a disciplina atordoada com uma profusão de técnicas e competências, mas a natureza do 'objeto geográfico', se é que existe, foi perdida de vista; a disciplina se preocupa menos com seu núcleo e mais com os meios mais eficazes de se mover para suas franjas, onde a 'abordagem' se torna técnica e a definição do 'geográfico' permanece superficial, tornando a matematização, divorciada da temática consciente dos fenômenos, uma visão ideológica da ciência, desprovida de boas razões. 10. A elucidação do núcleo essencial de qualquer ciência exige uma atitude reflexiva, na qual o mundo em que se vive é o objeto fundamental de preocupação; esse mundo não é derivado do estudo científico, mas da vivência nele, e a tarefa do cientista, seguindo Husserl, é a reconstrução racional de um mundo irracional, ou seja, dar uma explicação da terra como o mundo do homem. 11. A vantagem de uma abordagem formal para essa geografia reflexiva é a capacidade de problematizar o mundo dado como 'imediato', um mundo sempre constituído historicamente e que poderia ser diferente; o dado como certo e o imediato estão intimamente relacionados através da aprendizagem e socialização na tradição da comunidade, e é tarefa de toda investigação reflexiva, tradicionalmente chamada de filosofia, mostrar como esse mundo de possibilidades se concretizou neste mundo particular. 12. É tarefa de uma geografia reflexiva mostrar como a experiência do espaço e do lugar, da terra e da vida, e dos laços com a terra como o mundo do homem, foram constituídos através do desdobramento das tradições do passado para criar o mundo do presente e as possibilidades para o futuro. 13. A busca pelas ideias apresentadas neste trabalho foi possibilitada pelo ambiente do Departamento de Geografia da Pennsylvania State University, que, de 1978 a 1983, serviu como um lar tolerante para aqueles para quem as formas aceitas de prática e discurso se mostraram inadequadas, com a disposição de geógrafos em se engajar em questões filosóficas e de filósofos em trabalhar com geógrafos. 14. Dois colegas, Donald Kunze e Noriyuki Sugiura, percorreram caminhos paralelos e em breve terão seus próprios livros publicados, marcando um fechamento temporário dessa jornada combinada, com planos para a continuação. 15. A jornada exigiu preparação do peregrino, e o autor expressa gratidão a três de seus professores: Joseph Kockelmans, que ensinou filosofia e guiou pelas obras de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, fornecendo a base conceitual; Roger Downs, fonte de encorajamento e questionamento crítico; e Peter Gould, um agente provocador que ajudou imensamente. 16. Greg Knight e Peirce Lewis também tiveram influências formativas, e o autor aprendeu muito sobre a filosofia de Husserl e Heidegger com Thomas Seebohm, Theodor Kisiel, David Carr e Joseph Kockelmans, em parte através da Escola de Verão em Fenomenologia organizada anualmente na universidade; agradecimentos são feitos a revisores como Derek Gregory e Peter Haggett, e a responsabilidade por quaisquer erros é assumida integralmente. 17. O prefácio conclui com uma reflexão sobre os momentos de pós-graduação em que geógrafos, filósofos, sociólogos e psicólogos se reúnem em torno de questões centrais, onde o espírito de investigação acende o espírito de descoberta, e agradecimentos são estendidos a todos os envolvidos, embora apenas alguns possam ser explicitamente reconhecidos. {{tag>Pickles Fenomenologia Geografia}}