====== Causa eficiente ====== //ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006// **A assim chamada causa eficiente em Aristóteles** 1. Ao investigar em Aristóteles a compreensão da [[causas|causalidade]] como coadjuvar, verifica-se que o Estagirita não usa em momento algum o termo "causa eficiente", não lhe dando sequer propriamente um nome, de modo que qualquer tradução que fixe um nome definido constitui já uma interpretação. 2. No Livro II da Física, capítulos 3 e 7, Aristóteles designa essa causa sete vezes, havendo uma palavra-chave recorrente que não é bem um nome, ou é o nome mais indeterminado possível: ὅθεν (hothen), termo relativo usado substantivamente que significa "aquilo de onde" ou "o donde". * As diversas designações de Aristóteles tornam-se, assim, variações da noção dessa causa como "o donde do movimento", por exemplo "o primeiro donde do movimento" ou "aquilo donde emerge o início da mudança", indicando apenas onde buscar a causa, sem estipular como se dá a procedência do movimento a partir da fonte. 3. Aristóteles também fornece três designações que não empregam a palavra "donde", recorrendo antes a algo mais próximo de um nome próprio, o termo κινῆσαν (kinesan), particípio aoristo neutro do verbo que significa "mover, pôr em movimento, agitar, suscitar, incitar, instigar". * Essa palavra pouco acrescenta à designação inicial como "o donde", pois também deixa indeterminado o modo como o donde se relaciona ao movimento, não dizendo que o donde é a causa eficiente do movimento, uma força que impõe o movimento. 4. Uma coisa pode ser fonte de movimento em muitos sentidos diferentes — impondo o movimento ou apenas suscitando-o, incitando-o —, sendo a causa eficiente propriamente dita uma fonte no primeiro sentido, ao passo que, segundo Heidegger, o sentido próprio de causalidade em Aristóteles é o segundo: não eficiência (imposição pela própria ação), mas coadjuvar, fomentar, encorajar, suscitar. 5. Como o nome não determina a questão, é preciso recorrer aos exemplos que Aristóteles fornece, precisamente na escolha destes se exprimindo seu sentido de causalidade, seu sentido do "donde". * O primeiro conjunto de exemplos apresenta o aconselhar, "tal como um pai aconselha seu filho, e, em geral, o fabricante é esse tipo de causa da coisa fabricada". * O segundo conjunto acrescenta: "o semeador de sementes, o médico, o conselheiro, e, em geral, o fabricante, são todos coisas donde emerge o início de uma mudança". * O exemplo final, ao ser essa causa chamada de primeiro κινῆσαν, "o primeiro pôr em movimento", ilustra-se assim: "por que foram à guerra? Por causa do rapto." 6. O caso paradigmático de tal causalidade foi tomado, após a morte de Aristóteles, como sendo o fabricante, o artesão, sobretudo o escultor, tendo os demais exemplos — aconselhar, semear — sido sempre reconhecidos como pertencentes à causalidade eficiente, mas como formas derivadas, remotas, a serem entendidas por referência a esse caso paradigmático. * Constata-se, porém, pelos exemplos de Aristóteles, que tal fabricante não é de modo algum o caso paradigmático do próprio Estagirita, que não o coloca em primeiro lugar, sugerindo antes que o fabricante pertence à lista de exemplos apenas se falarmos de modo aproximado, geral, "em linhas gerais", sendo o fabricante a forma derivada, e os casos puros, os paradigmas, o aconselhar, o semear, o curar e o raptar. 7. Somente em um sentido particular esses exemplos podem ser chamados de "o donde" do movimento: são aquilo que suscita ou libera o movimento, não aquilo que o produz por eficácia ou agência própria. * Aconselhar alguém não é forçá-lo à ação, não é ser o agente da ação, que permanece ação do outro; nem, por certo, é fazer nada — é encorajar o outro, incitá-lo, suscitá-lo; aconselhar é apelar à liberdade do outro, não usurpar essa liberdade. 8. Para Heidegger, o aconselhar (Rat), em seu sentido genuíno, equivale ao cuidar: no sentido próprio, dar conselho significa tomar sob cuidado, reter em cuidado aquilo que é cuidado, fundando assim uma afiliação, ao passo que ordinariamente dar conselho significa quase o oposto — transmitir uma diretriz e depois dispensar o aconselhado. * Se Heidegger está correto, o exemplo aristotélico do pai como conselheiro é especialmente bem escolhido, sendo o pai precisamente o conselheiro que toma o aconselhado sob seu cuidado, retendo-o em cuidado, nunca o dispensando, de modo que ser conselheiro é ser pai, e vice-versa. * Para Aristóteles, portanto, o pai, como homem que gera um homem, é causa desse tipo, mas isso não o torna causa eficiente: "gerar um homem" deve ser tomado em seu sentido pleno, exigindo cuidado, afiliação, conselho, questões não de força, mas de nutrição, não sendo o homem causa eficiente de outro homem, mas causa nutridora. 9. Semear sementes obviamente não faz o milho crescer no sentido de forçá-lo a subir, pois o milho não pode ser forçado: semear é apenas prover as condições certas para que o milho surja, encorajando-o a crescer, liberando seu potencial de crescimento, mas sem produzir essa ação pela própria agência do semeador. 10. Do mesmo modo, os médicos (ao menos os do tempo de Aristóteles) não causam a saúde por sua própria agência, limitando-se a prescrever as condições certas para que a saúde natural do corpo se reafirme, sendo a natureza que cura e o médico apenas parteiro da saúde. 11. De maneira perfeitamente análoga, um rapto não é causa eficiente de guerra, não forçando por si só as partes ofendidas a declarar guerra, mas apenas as suscitando, agitando-as, talvez apenas liberando sua hostilidade latente, respondendo elas mesmas livremente, ou não, a essa provocação percebida. 12. É claro, então, que os exemplos paradigmáticos de Aristóteles não são de modo algum instâncias de imposição de uma forma sobre uma matéria submissa, não sendo essa assim chamada causa eficiente, de fato, o agente responsável que, supostamente, por sua própria eficácia produz o efeito. * Trata-se de uma causa eficaz apenas por atuar em parceria com aquilo sobre o que atua, devendo haver alguma mudança ou produto latente na matéria, consistindo essa causa em assistir esse vir a ser mediante liberação ou suscitação; sem a cooperação da matéria — sem o potencial de atividade de sua parte — a eficácia dessa causa se anularia. * Essa causa requer, portanto, uma verdadeira contraparte, um verdadeiro compartilhante num empreendimento comum, devendo ambas as partes ser agentes, ambas desempenhando papel ativo. 13. Nos exemplos paradigmáticos de Aristóteles, os papéis de atividade e passividade estão inteiramente entrelaçados, tratando-se de genuínas parcerias em que cada parte é ao mesmo tempo ativa e passiva, cada qual dando direção e recebendo direção da outra, sendo ordinariamente extremamente difícil dizer de que lado se encontra a primeira ação absoluta. * No caso do rapto e da guerra, é quase impossível dizer qual lado inicia a guerra, já que não existe provocação ou motivo em si mesmo: um motivo obtém sua força motivadora apenas por meio da decisão do motivado de reconhecê-lo como motivo, e uma provocação só se torna provocação quando a parte provocada confirma que foi provocada. * É a declaração de guerra que faz da provocação uma provocação, tanto quanto a provocação faz a guerra, sendo impossível provocar à guerra uma nação que se recusa a ser assim provocada, razão pela qual a provocação não pode ser causa eficiente de uma guerra, mas apenas causa suscitadora, que "desperta a espada adormecida da guerra" — só o que dorme, isto é, o que está potencialmente desperto, pode ser despertado. * Os provocadores, por seu turno, embora deem o primeiro passo e sejam fonte de todo o movimento que é a guerra, tomam também direção de seus inimigos, na medida em que seu ato provocador deve nascer de um conhecimento destes e ser-lhes apropriado, respondendo, assim, tanto quanto agindo sobre eles. 14. O coadjuvar pressupõe igualmente essa genuína parceria, em que atividade e passividade ocorrem de ambos os lados, não sendo nada por si só, isto é, não sendo nada para quem não pode responder a ele — não é possível aconselhar uma pedra —, devendo haver atividade tanto da parte do coadjuvante quanto do coadjuvado, e passividade em ambos. 15. O aconselhar é exemplo primordial desse entrelaçamento de atividade e passividade, devendo o conselheiro tomar direção daquele que aconselha tanto quanto lhe dá direção, devendo conhecê-lo intimamente, de modo que o aconselhado suscita o aconselhamento quase tanto quanto o aconselhamento suscita o aconselhado, sendo extremamente difícil dizer de que lado está o início absolutamente primeiro, o "donde" absolutamente primeiro. 16. Esse entrelaçamento peculiar de atividade e passividade, agente e paciente, dirigente e dirigido, talvez explique por que as formulações aristotélicas dessa causa se tornam tão complexas, chegando Aristóteles a formulá-la como "o donde de onde surge o primeiro início da mudança", buscando não mais a primeira fonte, mas a fonte dessa fonte, numa investigação que se adiaria indefinidamente a um donde anterior — não havendo, portanto, um primeiro donde absoluto e definitivo. * Sustenta-se que há reflexividade nessas formulações precisamente porque há reciprocidade na causa que coadjuva, a qual tem também seu próprio donde, devendo ser apropriada àquilo que coadjuva, isto é, receber sua direção das possibilidades do objeto de ser coadjuvado. * Com uma causa suscitadora, é quase impossível determinar a fonte absolutamente primeira da ação, pois o agente e o paciente são mutuamente implicados e tomam direção um do outro, respondendo assim tanto os exemplos quanto a própria formulação de Aristóteles indicarem que ele não tem em mente uma causa eficiente, mas uma causa suscitadora ou nutridora. 17. Resta considerar o fabricante, o artesão, o escultor: seria este uma causa eficiente, ou deve ser entendido no sentido de uma causa nutridora, como nos casos paradigmáticos, havendo a mesma parceria entre o artesão e seu material? * Hoje, por meio de lasers, praticamente qualquer forma pode ser imposta a qualquer matéria, sendo o feixe de laser indiferente à matéria, encontrando-se aí uma causa eficiente em estado puro. * Tomando-se, porém, um escultor tradicional como Michelangelo, tem-se, pelo próprio testemunho deste, que a tarefa do escultor consiste apenas em cinzelar os fragmentos supérfluos de mármore para expor a estátua já ali presente, não impondo o escultor a forma, mas apenas permitindo-a emergir ao liberá-la, tomando direção do mármore, determinando o que este mesmo, por assim dizer, quer trazer à luz. * Sendo ele tão pouco causa eficiente que é impossível dizer se sua ação suscita a estátua ou se a estátua latente suscita sua atividade, o fabricante, suposto paradigma de causa eficiente, pode ser entendido como forma derivada do caso paradigmático da causa coadjuvante — nutridor, não impositor. * Essa é precisamente a interpretação heideggeriana da causalidade antiga: para os antigos, ser causa significava respeitar e coadjuvar, constituindo essa perspectiva respeitosa a essência da técnica antiga, técnica esta que é o desvelamento das coisas em geral como havendo de ser respeitadas. 18. A acusação de violência interpretativa frequentemente dirigida a Heidegger em sua leitura dos antigos não se sustenta aqui, apontando antes a evidência para sua visão como a fiel, em contraste com a imputação tradicional da noção de causalidade eficiente a Aristóteles, que se revela, esta sim, violenta. * Aristóteles duas vezes coloca o fabricante em último lugar em sua lista de exemplos, e numa terceira ocasião (o exemplo do rapto) sequer o inclui, distanciando-se dele ao afirmar explicitamente que o fabricante se encaixa na lista apenas de modo aproximado, "em linhas gerais". * Tomar o fabricante como paradigma é ser infiel a Aristóteles, e interpretá-lo ainda como causa eficiente é ser duplamente violento para com ele, apontando a evidência, assim, na direção da posição de Heidegger de que tanto o nome quanto o conceito de causa eficiente são estranhos a Aristóteles. 19. Rejeitando-se a causa eficiente como um dos quatro nomes próprios, propõe-se, num esforço de apreensão mais adequada do sentido aristotélico dessa causa, chamá-la de "causa suscitadora", "causa nutridora" ou, no limite, "causa incitadora". * Quanto à causalidade em geral, o único conceito comum pelo qual as quatro causas o são no mesmo sentido poderia ser chamado de coadjuvar ou de liberação (ativa); o termo heideggeriano "obrigação" ([[lx>termos:v:verschulden|Verschulden]]) visa exprimir esse mesmo sentido de prover condições favoráveis, assistir ao nascimento, obstetrícia — tendo por antítese a imposição. 20. Levanta-se, por fim, a questão de quando e por que o paradigma da causalidade veio a se tornar causalidade eficiente, e a causalidade em geral, imposição — ocorrência situada não muito depois da morte de Aristóteles, encontrando-se já na era medieval a noção de causalidade suscitadora inteiramente obscurecida pela causalidade eficiente, esta reinterpretada retroativamente em Aristóteles. * Na era medieval, a causalidade eficiente desempenha papel central na filosofia, sendo, por exemplo, base de uma das célebres cinco vias de Tomás de Aquino para a prova da existência de Deus, ao estender-se a noção de causalidade eficiente a Deus, que se torna a causa eficiente última, e o ser, em geral, entendido como participação em algum modo dessa causalidade eficiente. * A filosofia medieval não está, contudo, totalmente divorciada da concepção aristotélica de causalidade, permanecendo intacta ali a doutrina das quatro causas, embora não entendida em seu sentido original — sendo a causa final também base de outra das cinco vias tomistas. * Na era moderna, porém, a causa final, a causa material e a causa formal são postas de lado, junto com a noção de que a matéria possa estar prenhe de uma forma e por isso merecer respeito, admitindo-se apenas a causa eficiente, e ficando solidamente entrincheirada a noção de causalidade em geral como imposição. * Certos filósofos modernos foram céticos quanto ao nosso conhecimento de quaisquer conexões causais entre as coisas, mas o que rejeitavam não era o sentido de causalidade como imposição, como causalidade eficiente, e sim a possibilidade de o intelecto humano algum dia conhecer tais conexões causais, sendo esses pensadores precisamente céticos, não reintérpretes da causalidade. 21. Essa mudança na compreensão da causalidade equivale, em termos da história do ser ([[lx>termos:s:seinsgeschichte|Seinsgeschichte]]) heideggeriana, ao domínio dos eventos originais e motivadores, sendo reflexo, ou antes resposta, à retirada do ser, aquilo que os deuses deixam para trás em sua fuga. * Quando o ser se vela, quando os deuses se ausentam, os humanos ficam com um sentido distorcido do que significa ser em geral, e em particular um sentido distorcido da natureza, podendo então vê-la como o que está aí para ser imposto, e a causalidade, como imposição — sendo a técnica impositiva motivada pela fuga dos deuses e, para Heidegger, não uma questão de falha humana, mas um destino ([[lx>termos:g:geschick|Geschick]]). 22. Tendo-se exposto o sentido da causalidade em Aristóteles, compreende-se melhor o sentido desse destino: a causalidade em jogo, pela qual a retirada do ser "causa" a técnica moderna, deve ser a causalidade aristotélica, a saber, o coadjuvar ou o deixar-liberar ([[lx>termos:g:gelassenheit|Gelassenheit]]). * O destino não é, portanto, imposto aos seres humanos como se fossem matéria passiva a ser imposta pelo ser; Heidegger não isenta os humanos de responsabilidade por seu destino, não sendo de modo algum "fatalista" nem sugerindo mera espera passiva, pois os deuses são, sim, os motores primeiros, mas todo motor deve tomar direção das possibilidades latentes naqueles a serem movidos. 23. É por isso que Heidegger é inteiramente consistente ao chamar a época moderna de destino e ao afirmar que só um destino a superará, exortando ao mesmo tempo a maior resolução e vigilância humanas, não absolvendo os humanos de responsabilidade, mas antes intensificando essa responsabilidade em sentido moral. * O que Heidegger esvazia são as pretensões humanas quanto ao poder da própria eficácia: se os humanos se julgam os únicos responsáveis por seus feitos, se se julgam causas eficientes, se julgam suas produções suas próprias criações, sua filosofia está pronta para expor tais pretensões. * O conceito de responsabilidade pode envolver tanto culpa quanto crédito; Heidegger intensifica a responsabilidade humana quanto à culpa e a diminui quanto ao crédito — a culpa (a responsabilidade moral) é propriamente humana, ao passo que o crédito (a reivindicação de responsabilidade pessoal por algum feito, de tê-lo realizado pela própria eficácia) deve ser compartilhado com o ser ou a natureza, sendo sua filosofia, tal como Sartre caracteriza o existencialismo em geral, austeríssima e nada tendo em comum com a inação ou o laxismo moral. **A causalidade coadjuvante como leitura de Heidegger** 1. Retomando a segunda das duas questões gerais levantadas quanto à visão heideggeriana da causalidade tal como entendida pelos antigos, tendo já se demonstrado base textual em Aristóteles para a interpretação de Heidegger, cabe agora retornar ao ensaio deste sobre a técnica para ver como ele mesmo apresenta e desenvolve sua interpretação. * A causalidade, tal como entendida na doutrina das quatro causas, significa, mais fundamentalmente para Heidegger, coadjuvar ou nutrir, tendo por antítese a imposição, isto é, a força, a compulsão. * Não é de modo algum evidente, à superfície do texto de Heidegger, que essa seja de fato sua compreensão, pois, em vez de se exprimir com inteligibilidade imediata e fácil, sua estratégia consiste em introduzir toda uma série de termos, cada um deles altamente matizado, a fim de esclarecer sua posição por seu efeito cumulativo — matizes facilmente ignorados ou mal compreendidos, mesmo por um leitor do original alemão, e muito difíceis de trazer à tona numa tradução. 2. Na tradução inglesa publicada de "[[h>obra:ga7:|Die Frage nach der Technik]]", a série de termos em questão é a seguinte: "estar em dívida" (being indebted), "ser responsável" (being responsible), hypokeisthai, "pôr algo a caminho", "ocasionar", "induzir", poiesis, "produzir" (bringing-forth), physis, "desvelar" (revealing) e aletheuein — à primeira vista, um conjunto bastante heterogêneo. 3. Quanto ao sentido mais geral de causalidade em Heidegger, no contexto das quatro causas, a causalidade ali é tomada como obrigação ([[lx>termos:v:verschulden|Verschulden]]), no sentido específico de algo situado entre os extremos de compelir e nada fazer, não sendo as quatro causas modos de impor ou forçar a mudança, nem tampouco desempenhando papel meramente passivo. * As quatro causas deixam a mudança acontecer, no sentido ativo do deixar, a saber: nutrir, liberar, coadjuvar, prover as condições próprias, encorajar, incitar, suscitar. 4. As quatro causas não são "responsáveis" pela mudança no sentido de receberem todo o crédito por ela, nem, inversamente, a mudança deve tudo às causas, sendo a obrigação em questão especificamente a de estar em dívida pela assistência recebida para vir à própria autoemergência ou alcançar o próprio feito — o que corresponde ao que se entende coloquialmente em português por "ser muito grato" ou "estar em débito" com alguém. 5. Esse termo, "obrigação" (Verschulden), é vertido na tradução inglesa publicada de modo variado, ora como "estar em dívida", ora como "ser responsável", ora como "ser responsável e estar em dívida", ora como "dever e ser responsável". * Parte da dificuldade reside em que o leitor dessas versões dificilmente perceberá que Heidegger possui um único conceito unificado de causalidade, sendo mais grave, porém, que o termo "ser responsável" seja bastante enganoso, especialmente quando aplicado ao conjunto das quatro causas. * Cita-se, por exemplo, a passagem em que a tradução afirma que as quatro causas "são responsáveis pelo cálice de prata estar pronto e disponível diante de nós como vaso sacrificial". 6. Essa formulação sugere que as quatro causas, agindo em conjunto, teriam feito com que o cálice estivesse ali disponível, isto é, já fabricado e pronto para uso, tornando o cálice efeito das causas, pronto e entregue para uso — impressão infiel à intenção de Heidegger em dois sentidos: primeiro, porque ele não sustenta que o efeito das quatro causas seja produzir algo já pronto; segundo, porque a atividade das quatro causas não deve ser entendida, de modo algum, como um efetuar. 7. A expressão "estar pronto diante de nós" (lying ready before us) e, na linha seguinte, "estar posto diante e estar pronto" traduzem o alemão Vorliegen und Bereitliegen de Heidegger. * Essas traduções são defensáveis gramaticalmente, mas não filosoficamente, sobretudo porque Heidegger coloca imediatamente entre parênteses o termo grego que tenta verter, a saber, ὑποκεῖσθαι (hypokeisthai), cujo sentido para Heidegger é "jazer por baixo", significando ser o terreno preparado para o aparecimento de algo. * O termo não se refere ao que está já pronto para uso, mas ao preparar-se de algo, não a algo que aparece, mas à condição de um aparecer de algo; especificamente, "pronto" em "estar pronto" não significa pronto para uso, mas pronto para vir a aparecer, pronto para vir a ser um cálice, e só então pronto para ser usado. * As quatro causas prepararam, assim, o cálice para seu próprio vir a ser, prepararam o terreno para o cálice, sendo seu ὑποκείμενον (hypokeimenon, "substrato") — o que as causas realizam é o que jaz por baixo do cálice, seu solo, mas as causas não efetuam o cálice, não o produzem, não o compelem a vir a ser sobre seu próprio solo. 8. É por isso que Heidegger, no parágrafo anterior, rejeita explicitamente a noção das causas como efetuadoras ([[lx>termos:b:bewirken|Bewirken]]), afirmando que seu termo Verschulden não deve ser entendido em termos de efetuação, tal como a tradução publicada corretamente coloca — permanecendo em aberto, porém, se ao traduzir Verschulden como "ser responsável" o tradutor de fato o entendeu do modo devido. 9. O sentido correto da passagem em questão é o seguinte: segundo o exemplo dado, o cálice de prata está obrigado às quatro causas por prepararem o terreno sobre o qual ele poderia vir a ser como vaso sacrificial — em contraste com a tradução publicada, que fala das quatro causas como "responsáveis pelo cálice de prata estar pronto diante de nós como vaso sacrificial". * Embora essa última seja possivelmente correta do ponto de vista gramatical, e um leitor casual do alemão original bem poderia tomar a passagem nesse sentido, um texto heideggeriano, tal como um aristotélico, não entrega seus tesouros a uma leitura casual, falhando a versão publicada inteiramente o ponto, em termos de sentido filosófico, ao exprimir uma noção de causalidade como efetuação — precisamente aquilo contra o que Heidegger advertiu. 10. O matiz essencial, dito do modo mais simples possível, é que a causalidade é nutrição, não efetuação, sendo isso que Heidegger exprime ao dizer que o cálice está obrigado às quatro causas por seu hypokeisthai, por aquilo que "jaz por baixo", por aquilo sobre o que ele pode vir a ser. * As quatro causas não são responsáveis pela coisa feita no sentido de produzirem sua existência, compeli-la a existir, entregá-la já pronta; elas oferecem nutrição, jazendo por baixo da coisa no sentido de preparar o terreno, as condições, para que o potencial na matéria se atualize por si mesmo — assim, segundo Heidegger, os antigos concebiam a causalidade: não como imposição, mas como nutrição. 11. O termo hypokeisthai, "jazer por baixo", confirma, portanto, a escolha da palavra "obrigação" (em vez de "ser responsável") para verter Verschulden, colocando as quatro causas o terreno próprio por baixo da coisa, provendo o apoio ou alimento de que ela necessita para vir a ser. * A coisa está, nesse sentido preciso, muito obrigada às quatro causas, mas não lhes deve tudo, não sendo elas por si sós responsáveis pela coisa; consequentemente, "obrigar" e "jazer por baixo", os dois primeiros termos empregados por Heidegger para caracterizar a causalidade antiga, corroboram a leitura de que ele a interpreta no sentido de coadjuvar ou nutrir — interpretação que se confirmará repetidamente ao longo da lista de termos restante, com efeito cumulativo convincente. {{tag>Rojcewicz técnica Heidegger causas responsabilidade causalidade}}