====== Causas ====== //ROJCEWICZ, Richard. The Gods and Technology. A Reading of Heidegger. New York: SUNY, 2006// **As [[h>obra:ga7:9-11-quatro-causas|quatro causas]] como obrigações, como preparação do terreno** 1. Heidegger começa repetindo os nomes e o modo comum de considerar as quatro causas da mudança ou do movimento, a saber, a matéria, a forma, o agente (ou causa eficiente) e o fim ou propósito (a causa final), exemplificadas pelo caso prototípico de uma estátua. * A matéria, o mármore, é causa como aquilo que há de receber a forma da estátua; a forma, por exemplo a de um cavalo e seu cavaleiro, é causa como aquilo que há de ser imposto ao mármore. * O escultor mesmo é a causa eficiente, o agente que realiza a imposição da forma sobre a matéria, e o propósito, a homenagem a um general, é causa como o fim para o qual se dirige todo o processo de fabricação da estátua. * Tudo isso é bem conhecido, conhecido demais até, tendo se tornado um dogma fácil que barra o acesso ao sentido genuíno de causalidade tal como entendido pelos antigos. 2. Heidegger sustenta que os antigos não entendiam por "causa" ([[lx>termos:u:ursache|Ursache]]) aquilo que hoje entendemos pelo termo, oferecendo uma interpretação radical da doutrina das quatro causas que atinge a raiz, a compreensão básica de causalidade subjacente à promulgação das quatro causas. * A posição de Heidegger não parece, à primeira vista, tão profunda, já que três das causas — a matéria, a forma e o fim ou propósito — evidentemente não são o que hoje entendemos por causas, dificilmente chamando-se o mármore de causa da estátua, devendo ter havido em Aristóteles uma noção diferente, ou ao menos mais ampla, de causalidade. 3. A compreensão contemporânea de causalidade equivale basicamente a isto: uma causa é aquilo que, por sua própria ação, produz um efeito. * Para nós, a causa do cálice não é a prata, mas a artesã que impõe à prata a forma do cálice, sendo ela a única responsável, a única causa própria do cálice, já que é por sua própria ação, sua própria eficácia, que a coisa é produzida — o cálice é seu produto, sua "criação". * A prata é, para nós, mera matéria-prima sobre a qual o agente trabalha; a prata nada faz, nada efetua, não se transforma por si mesma em cálice, sendo inteiramente passiva, mera potencialidade que não seria hoje considerada causa, pois uma coisa é causa em virtude de sua atualidade, e a matéria é precisamente o que carece de atualidade própria. * A matéria é, assim, o completo antítese daquilo que hoje entendemos por causa. 4. De fato, apenas uma das quatro causas, a chamada causa eficiente, seria hoje reconhecida como causa, sendo a interpretação comum de Aristóteles a de que este incluiu em sua teoria o que entendemos por causa apenas no conceito de causa eficiente, tendo incluído os demais fatores da mudança sob um conceito ampliado e não unívoco de causa. 5. A posição de Heidegger é a de que, para Aristóteles, as quatro causas são todas causas no mesmo sentido, sentido que não corresponde a nada que hoje chamamos de causa, não sendo sequer a chamada causa eficiente, em Aristóteles, aquilo que hoje entendemos por esse termo, já que os gregos não conhecem o conceito de eficácia ou agência como imposição de uma forma sobre uma matéria. * Uma vez que a mudança não é a imposição de uma forma, a técnica antiga tampouco será um assunto de imposição. 6. Para que as quatro causas possam ser causas no mesmo sentido, Heidegger sustenta que a distinção aristotélica entre matéria e agente não é a distinção entre passividade e atividade, não sendo a matéria aquilo que é imposto nem o fabricante aquele que impõe. * A matéria participa ativamente na escolha da forma, sugerindo-a ao artesão, que dela toma direção; a matéria está, por assim dizer, prenhe de uma forma, e o papel do artesão é o de parteiro que auxilia essa forma a vir à luz. * Em lugar de um imponente e um imposto, tem-se algo como uma participação mútua num empreendimento comum, uma parceria em que os papéis de atividade e passividade se acham inteiramente entrelaçados. 7. Heidegger exprime essa interpretação da causalidade dizendo que as causas são, para Aristóteles, as condições às quais a coisa produzida está obrigada ([[lx>termos:v:verschuldet|verschuldet]]), sendo a obrigação ([[lx>termos:v:verschulden|Verschulden]]) o conceito comum pelo qual todas as quatro causas o são no mesmo sentido, ainda que cada uma obrigue a coisa a uma condição diferente. 8. O termo alemão de Heidegger é Verschulden, derivado da palavra corrente para "culpa" (die [[lx>termos:s:schuld|Schuld]]), possuindo largo espectro de sentidos, dos quais apenas um matiz particular é aqui invocado. * Heidegger precisa dizer explicitamente que não se trata de obrigação moral no sentido de culpa por alguma falha, nem tampouco do sentido de "responsabilidade" como agente eficaz que por sua própria ação produz um efeito e por isso recebe pessoalmente o crédito por ele. * O que Heidegger rejeita é tanto o sentido passivo (ser culpado por uma falha) quanto o ativo (responsabilidade como agente efetivo), invocando antes um matiz que se situa entre ambos, ou que participa de ambos, atividade e passividade. 9. O matiz buscado por Heidegger talvez se exprima em nossa expressão coloquial de gratidão, "muito obrigado" (Much obliged), pela qual significamos que outra pessoa nos fomentou de algum modo, sem que devamos a ela tudo o que somos ou fizemos, nem que ela tenha sido totalmente passiva. * Estar obrigado a outrem equivale, antes, a isto: essa pessoa proveu as condições a partir das quais pudemos realizar o que realizamos, sendo-lhe devido não a criação, nem a subtração do próprio feito ao realizá-lo ela mesma, mas o coadjuvar nosso próprio feito. 10. Esse é o matiz que Heidegger tenta exprimir: as quatro causas são modos de coadjuvar (Vorschub leisten). * A coisa produzida está obrigada às quatro causas no sentido de que estas provêm as condições, a nutrição, a partir das quais a coisa pode vir a ser; as causas tornam possível que a coisa emerja a céu aberto, podendo mesmo incitá-la a sair, mas não a forçam a sair. * As causas não são "pessoalmente" responsáveis pela coisa, isto é, não a efetuam por ação própria, por força externa; tudo o que fazem é prover as condições adequadas, a nutrição, o coadjuvar exigido pela coisa para cumprir seu próprio potencial, sem impor esse cumprimento, deixando-o antes vir à luz, no sentido ativo do deixar ([[lx>termos:l:lassen|Lassen]]), a saber, o coadjuvar. 11. A diferença fundamental entre a compreensão aristotélica de causa e a nossa compreensão atual é, portanto, aquela entre nutrição e força, entre deixar (Lassen) e constrangimento, entre coadjuvar e compelir, razão pela qual para Aristóteles pode haver quatro causas e para nós apenas uma. * Um cálice pode estar obrigado à matéria, à prata, mas não pode ser forçado a existir por ela; se a causalidade é força, há apenas uma causa, pois a força deve ser aplicada por um agente ativo, ao passo que, se a causalidade significa nutrição, tanto o artesão quanto a matéria, a forma e o propósito podem todos ser causas, ao proverem condições requeridas. * Cada uma dessas causas provê uma condição diferente, mas o sentido de sua causalidade é o mesmo, precisamente o sentido de coadjuvar ou nutrir, de prover uma condição favorável. 12. As quatro causas são, portanto, todas causas em virtude de serem obrigações da coisa produzida, a qual lhes está "muito obrigada" (Verschuldet), não possuindo, contudo, causa eficiente no sentido de um agente externo ao qual deva tudo, pelo qual tenha sido compelida a existir. * Nada externo a forçou a existir, mas ela recebeu assistência para chegar à sua própria emergência de si mesma; essa é a compreensão radical de Heidegger sobre a doutrina das quatro causas: a causalidade de cada uma delas, inclusive da chamada causa eficiente, é questão apenas de coadjuvar, não de imposição. 13. Dessa leitura surgem imediatamente duas questões gerais: em primeiro lugar, onde em Aristóteles Heidegger encontra essa compreensão da causalidade, isto é, qual é a base textual, no corpus aristotélico, para sua interpretação; em segundo lugar, onde em Heidegger se encontra que essa é de fato sua compreensão, isto é, qual é a base textual, em Heidegger, para essa interpretação de Aristóteles — questões que não são de modo algum óbvias, sobretudo a quem não empreenda a leitura mais atenta possível. {{tag>Rojcewicz técnica Heidegger causas}}