====== Tecnologia ou o logos perdido ====== //SÉRIS, Jean-Pierre. La technique. Paris: Presses universitaires de France, 1994.// A atenção às técnicas — e, portanto, ao aspecto técnico — nunca foi tão predominante quanto em nossas sociedades pós-industriais. Isso se manifesta sob a dupla forma, propícia a todas as ambiguidades, da confiança cega na eficácia dos recursos técnicos e do sentimento de despossessão diante da “tecnocracia” predominante. É ainda mais curioso observar, nessa circunstância, o desaparecimento dos termos “a técnica” ou “as técnicas” da linguagem corrente de hoje, em favor do termo “tecnologia”. Nossos contemporâneos não estão longe de pensar que as técnicas alcançam o estágio de tecnologia quando um discurso erudito, e até mesmo um discurso científico, lhes serve de suporte, justificativa e aval. As tecnologias são condutas, operações e fabricações integradas a um complexo ou a um corpo ao mesmo tempo teórico e prático, o da “tecnociência”. As técnicas, por sua vez, permanecem como transformações operacionais da natureza ou do ambiente humano, ou mesmo do corpo humano (ou do ambiente simbólico...), que se expressam ou se escrevem em uma linguagem natural, às vezes própria delas (as gírias das profissões), assim como os ofícios e as artes encontram sua escrita e grafia na Enciclopédia de Diderot e D’Alembert, após a difusão e a transmissão mais restrita e seletiva nas oficinas e nos campos. Quanto à “técnica”, se não for especificada mais detalhadamente, ela designa os conhecimentos práticos desenvolvidos pelo treinamento e pelo aprendizado, pela prática (e não apenas pelo exemplo ou pelo ensino verbal e escolar), e opostos à arte (“ essa patinadora tem uma excelente técnica, mas sempre lhe faltará a graça que caracteriza os artistas”) assim como o ofício se opõe ao gênio. ((As distinções de Kant na Crítica da Faculdade de Julgar (§ 43, 46 e 49) são deslocadas. Para Kant, “a arte, enquanto habilidade humana, distingue-se da ciência (o saber-fazer distingue-se do saber) ... assim como a técnica se distingue da teoria” e, quando basta ter o saber para possuir o saber-fazer, “isso não é arte”. Mas ele percebeu que “as belas-artes são as artes do gênio”: por belas-artes, ele se refere ao que chamamos hoje de artes em francês.)) Não basta ver nisso o efeito de uma moda, da qual se pode rir ou se indignar virtuosamente, em nome da defesa de nossa língua. Na coluna “Langage” do jornal *Le Monde* (23 de março de 1980), J. Cellard constatava que “tecnologia” se tornou uma espécie de superlativo, erudito ou pedante, de “técnica”, “a ponto de ficarmos surpresos ao encontrar ainda ‘técnica’ na imprensa escrita ou falada”, sendo esse “abuso pretensioso e revelador” “hoje sistemático”. Cellard e muitos outros ((Ver J. Guillerme, artigo “Tecnologia” na Encyclopœdia Universalis, e F. Sigaut, Prefácio a Haudricourt, A tecnologia, ciência humana.)), têm toda a razão em denunciar, em noventa e cinco por cento desses usos, “um falso sentido enfático e pesado”, uma transposição indevida do termo anglo-americano technology, que ignora o sentido que a palavra tinha anteriormente em nossa língua. Mas a questão é, a meu ver, mais grave. Recorre-se ao termo “tecnologia” porque ele parece revestido de uma dignidade que “técnica” não possui. Diferença de valor: somente os processos mais revolucionários, os métodos mais sofisticados, que mobilizam os recursos científicos mais diversos e os avanços mais recentes da pesquisa de ponta, terão direito a essa denominação. O uso revela uma necessidade difusa de valorizar, por meio da adição ingênua do sufixo “tecno-//logia//”, uma técnica cada vez mais reconhecida não apenas como assunto de especialistas (isso, muitas técnicas já foram, no passado, sem por isso serem objeto de um julgamento elogioso), mas como pertencente a um empreendimento intelectual heurístico (para evitar a palavra “teórico”, excessivamente associada a “desinteressado”). A popularidade da palavra oferece um testemunho interessante sobre o estado atual das mentalidades em relação às técnicas e às ciências. Seria tentador dizer: o que há de mais importante na palavra “tecnologia” é o sufixo, derivado de “logos”; é a referência à dimensão lógica, discursiva, racional e científica de uma prática consciente de si mesma, de seus objetivos e de suas necessidades, informada e instruída, atenta ao seu lugar em uma rede de conhecimentos e poderes, disciplinada. As técnicas assim qualificadas são aquelas em que o logos está em ação, ou que são obra de um logos. Supondo que o uso indevido do termo tenha essa motivação — para designar os setores de ponta, as áreas de alta tecnicidade —, resta observar que, por uma extensão igualmente significativa, a tecnologia assim concebida passa não apenas a designar a técnica em geral, mas também a constituir o núcleo central de toda técnica, o modelo essencial e a forma completa, consumada e, finalmente, plenamente inteligível do fenômeno técnico. É preciso ter cuidado para não ceder a esse preconceito, gerador de anacronismos e que conduz a uma visão distorcida da história, bem como a uma interpretação parcial do fenômeno. Esses julgamentos e preconceitos são historicamente datados. Eles dependem da situação atual, da qual revelam, em particular, uma característica essencial. É sob o aspecto da mudança e da mutação que as técnicas nos são mais diretamente compreensíveis. Percebemos isso particularmente nas inovações; somos, acima de tudo, sensíveis às mudanças. De tal forma que passamos a conceber a técnica como uma função de revolução permanente, de retificação e revisão contínua de seus próprios métodos, objeto de um teste a cada instante. Projetos e balanços, programas e auditorias inscrevem a empresa técnica em uma perspectiva de confronto e comparação, de quantificação e avaliação, exigindo ao mesmo tempo o discurso (logos) que antecipa e a escrita que resume e conserva. Nossa época é a da técnica concebida não apenas como tecnologia, mas como tecnografia. Mas a sorte da palavra “tecnologia” ainda revela outra coisa. Como observa François Sigaut no texto citado na nota 1, página 3 //Se os dois termos podem ser usados indistintamente, é porque nenhum deles tem um significado bem preciso para nossos contemporâneos. Pois, ao contrário de uma opinião muito comum, nossa vida cotidiana é cada vez menos marcada, cada vez menos moldada e estruturada pela técnica. A técnica pressupõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam cada vez mais desse contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas estão excluídas) ofereça qualquer compensação. O que cria uma ilusão é que o capital de conhecimento técnico acumulado em nossa sociedade é hoje infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parcela de cada um de nós nesse capital nunca foi tão insignificante (p. 9-10).// Primeira dificuldade: podemos afirmar que “nossa vida cotidiana é cada vez menos marcada, cada vez menos moldada pela técnica”? Estamos acostumados a dizer e a ouvir o contrário. G. Friedmann afirmava que, atualmente, vivemos em um “ambiente técnico”((G. Friedmann, Sete estudos sobre o homem e a técnica.)), entendendo por isso um “condicionamento” do indivíduo pela ação “poderosa e multifacetada de um conjunto cada vez mais denso de técnicas, cujos estímulos se exercem dia e noite”... (p. 204). Ele também demonstrava que uma forma de percepção “mais interpretativa, mais transbordante em relação ao signo e, consequentemente, mais intelectualizada” era induzida pelas transformações do novo ambiente, e especialmente pela onipresença das máquinas. Estamos prontos para enumerar os objetos técnicos dos quais não podemos mais prescindir em nossa vida cotidiana, desde o micro-ondas do café da manhã até o rádio-despertador que programamos antes de adormecer. Mas a onipresença dos objetos técnicos, das densas redes de conexões técnicas, não significa que tenhamos de realizar operações técnicas delicadas, ajustadas e difíceis de executar para utilizá-los. Exemplo trivial: o telefone me permite comunicar-me (com resposta imediata, se meu interlocutor estiver presente do outro lado da linha) sem preparativos nem acessórios; ele exige de mim apenas o conhecimento de um número de oito dígitos, enquanto a troca de cartas implica, tanto da minha parte quanto da dele, gestos técnicos mais elaborados. O objeto técnico, pelo menos na vida cotidiana, caracteriza-se pela conjunção de duas características: o caráter altamente elaborado de sua construção e funcionamento, e a conveniência de seu uso, reduzindo a zero a competência exigida do usuário. O microcomputador, que se tornou, graças aos seus softwares, “intuitivo”, é um exemplo marcante disso. Vivemos em um mundo onde o “capital” de conhecimento técnico acumulado é colossal e, ao mesmo tempo, estamos muito mais isentos de qualquer saber-fazer técnico do que nossos antepassados. Dizer que estamos isentos disso é insuficiente: estar isento, de fato, é estar excluído. Essa isenção, essa exclusão, essa exclusão radical são, em minha opinião, responsáveis pela retirada da técnica, observada anteriormente. Nosso contemporâneo não precisa mais recorrer aos seus próprios recursos técnicos. Tudo acontece como se o mais econômico e o mais eficaz fosse deixar a “tecnologia” para os técnicos ou tecnólogos. A tecnologia é assunto do outro. Se eu mesmo a praticar, será um ofício, uma profissão, um aspecto bem delimitado da minha vida, dedicado a um aspecto estritamente especializado de alguma tecnologia específica, em nome da divisão do trabalho. O “capital técnico acumulado” é também a preponderância da máquina em relação ao gesto técnico. A máquina-ferramenta incorpora, em uma matéria externa e estranha, os conhecimentos originalmente manuais (no caso da calculadora, os conhecimentos intelectuais). Hoje, esse movimento, iniciado há muito tempo, alcançou um salto qualitativo: trata-se da autonomização de um mundo tecnológico e de suas redes, cuja conexão forma um conglomerado autossuficiente, com suas próprias leis de funcionamento e exigências. O homo faber contemporâneo está tecnologicamente dispensado de ser ele mesmo como indivíduo, como técnico. Sigaut tem toda a razão ao evocar o mito de Robinson como um mito (falsificado) da revolução industrial. “Defoe trapaceou, fazendo com que Robinson encontrasse nos destroços de seu navio todas as ferramentas que ele não saberia fabricar sozinho ”. A reconstituição, por um único indivíduo, de todo o conjunto técnico já era, em 1719, um ideal impossível, impossibilidade cuja falha na lógica do relato constitui a própria confissão. Essa impossibilidade é um fato comprovado. Podemos chamá-la de “alienação”, “Entaüsserung”, “Entfremdung”. Tecnologia, nessa perspectiva, é o nome da técnica da qual nos sentimos despossuídos. Ela se realiza fora de nós, sem nós. Mesmo que estejamos convencidos de que é assim que deve ser, é preciso constatar que a tecnologia não é, então, uma técnica habitada pelo logos, mas sim uma técnica que perdeu seu logos. Este, de fato, já não é mais totalmente — e nem mesmo mais de todo — um logos, se se tornou incomunicável e estranho aos sujeitos técnicos. A tecnicização do meio, de toda a vida, tem como efeito um divórcio entre os sujeitos técnicos e o racional na técnica (a tecnologia). Mas será que devemos realmente interpretá-lo como um divórcio entre a técnica e sua racionalidade ((Seguindo Max Weber, chegou-se até a concebê-lo como um divórcio no seio da própria racionalidade, uma emancipação de uma Zweckrationalität, ou racionalidade instrumental — racionalidade voltada para um fim —, em relação à racionalidade prática que determina os fins.)) ? Além disso, qual é a parcela do julgamento pré-concebido e qual a da atitude mental autêntica no que acabamos de expor? {{tag>Séris técnica}}