====== Cibernética ====== //CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.// ** A informação: relações entre alter techno ** 1. Por volta de 1940, a teoria da informação emerge como disciplina transdisciplinar associada à cibernética, reunindo matemáticos, lógicos, engenheiros, linguistas e biólogos em torno dos problemas da transmissão da informação e do controle da ação, sob a influência decisiva de Norbert Wiener, que define a cibernética como ciência do controle e da comunicação nos seres humanos e nas máquinas. * O termo cibernética deriva do grego kubernetes, que significa governar. * A transversalidade da nova disciplina permite tratar processos humanos, biológicos e técnicos segundo categorias operatórias comuns. 2. A cibernética pretende constituir a informação como fundamento teórico comum a diferentes disciplinas e substituir conceitos considerados vagos por funções informacionais unívocas e operações formalizáveis, estabelecendo uma linguagem científica centrada em controlar, comandar, comunicar, mover, agir e reagir. * Processos tão diversos quanto regulações hormonais, circuitos eletrônicos e fenômenos psicológicos passam a ser reinterpretados segundo a teoria da informação. * O vocabulário comum proporciona um método de análise que pretende aumentar a precisão científica. * Termos como vida, finalidade e alma são considerados por Wiener inadequados à linguagem científica por sua imprecisão. * A depuração conceitual privilegia operações suscetíveis de representação e esquematização técnica. 3. A cibernética combina teoria e prática de maneira propriamente tecnocientífica, pois conhecimento e intervenção tornam-se inseparáveis, como exemplificam as pesquisas militares de Wiener sobre sistemas capazes de antecipar a trajetória de aeronaves mediante retroação. * Durante a guerra, a necessidade de posicionar lançadores exigia que o sistema reagisse continuamente à velocidade e à posição do alvo. * Wiener matematiza em 1942 essa reação mediante o conceito de feedback ou retroação. * Posteriormente, o mecanismo complementar de feedforward introduz a antecipação do comportamento do sistema. 4. O imaginário cibernético desloca o centro da técnica da máquina isolada para redes de objetos conectados, nas quais sinais circulam entre dispositivos e cada máquina regula suas operações segundo informações provenientes de outras máquinas, transformando o controle da informação em valor técnico predominante. * Postos de controle ferroviário, leitores de cartões perfurados, eletroencefalógrafos e centrais telefônicas exemplificam uma técnica organizada por conexões. * Cabos e circuitos integram cada objeto a um meio técnico associado, formado por outros objetos com os quais ele se comunica. * O paradigma energético e termodinâmico característico da indústria do século XIX cede lugar ao paradigma informacional. * A locomotiva fumegante, representativa da antiga industrialização e evocada por Zola e pelos irmãos Lumière, é substituída simbolicamente pela sala de controle de uma rede ferroviária. * O progresso técnico passa a localizar-se menos na ação material direta e mais nos centros em que os operadores e processos materiais são representados, informados e controlados. 5. Gilbert Simondon figura entre os primeiros divulgadores franceses da cibernética, acolhendo sua linguagem transdisciplinar e suas categorias operatórias, mas recusando suas extrapolações sociais e políticas, especialmente o mito do homem-máquina e a pretensão de racionalizar integralmente o comportamento humano. * Comunicação, controle, relação, função, ação e reação tornam-se conceitos importantes de seu vocabulário filosófico. * O entusiasmo histórico suscitado pela cibernética ultrapassa a importância efetiva de alguns de seus resultados teóricos. * Sua relevância filosófica reside sobretudo em ter simbolizado uma transformação técnica e epistemológica associada à convergência que atravessa a história da informática. ** Encontros do signo, da matéria e da memória ** 6. O extraordinário entusiasmo pela cibernética nos anos 1950 pode ser compreendido como resultado de uma concretização singular na qual a integração técnica deixa de reunir apenas componentes materiais e passa a incorporar linguagem, signos e significações, produzindo objetos híbridos de matéria e linguagem, técnica e lógica. * A locomotiva concretizava a convergência entre máquina a vapor e infraestrutura mineira, permanecendo ainda no domínio material. * Computadores, telefones, postos eletrônicos de comando e redes de informação ultrapassam esse limite ao integrar estruturas simbólicas ao funcionamento material. * O domínio técnico incorpora, assim, instrumentos tradicionalmente associados ao humano, sobretudo os signos e, em determinados casos, as significações. 7. As máquinas de informação concretizam a convergência entre uma linhagem lógica dedicada à formalização dos raciocínios e uma linhagem material dedicada à inscrição e conservação física da informação, convergência que na informática recebe a forma característica da implementação. * Aristóteles, Raimundo Lúlio, Leibniz, Bacon, Boole e Turing pertencem à linhagem de esforços voltados à formalização lógica. * Ábacos, Lúlio, Pascal, Leibniz, Babbage e numerosos engenheiros representam a linhagem material que procura configurar suportes capazes de registrar informações. * Implementar significa inscrever uma estrutura lógica na matéria mediante a programação de um circuito. * A força histórica da cibernética decorre precisamente do encontro entre lógica e matéria. 8. As linhagens lógica e material já se cruzavam antes da informática, pois ábacos e dispositivos semelhantes materializam informações numéricas por meio da posição espacial de objetos, fazendo com que operações matemáticas dependam da própria arquitetura física do instrumento e não apenas de uma escrita simbólica. ** Raimundo Lúlio ** 9. No século XIII, Raimundo Lúlio concebe uma técnica material de expressão dos raciocínios que articula sua formação em lógica e teologia com um projeto de conversão religiosa por meio do conhecimento, atribuindo à sua ars magna uma capacidade persuasiva que deveria decorrer da própria organização racional do dispositivo. * Nascido em Palma de Maiorca em 1235, Lúlio aproxima-se dos estudos por volta dos quarenta anos, após uma juventude aventureira. * Estuda Aristóteles e Averróis, aprende línguas orientais e frequenta alquimistas espanhóis. * Seu projeto consiste em substituir a cruzada militar por uma espécie de cruzada intelectual fundamentada na demonstração racional. * Apoiado pelo papa, viaja à Tunísia com sua ars magna na intenção de converter muçulmanos. * Diante da indiferença e da zombaria dos interlocutores, atribui o fracasso às insuficiências da própria máquina, aperfeiçoa-a e retorna com uma versão modificada. 10. A ars magna pretende formalizar exaustivamente todas as formas e combinações possíveis do pensamento mediante círculos concêntricos móveis que associam sujeitos, atributos e modos do ser, eliminando idealmente a interpretação ao fazer o raciocínio resultar das combinações espacialmente produzidas pelo dispositivo. * Os círculos são divididos em casas e podem girar independentemente, produzindo diferentes combinações. * Um primeiro círculo organiza tipos de sujeitos, enquanto outro contém atributos e um terceiro acrescenta modos do ser, como diferença, concordância, contrariedade, princípio, meio, fim, superioridade, igualdade e inferioridade. * A combinação das inscrições deveria gerar proposições sem depender da interpretação particular de quem manipulasse a máquina. * A confiança de Lúlio repousa na expectativa de que a formalização material do pensamento pudesse impor racionalmente a adesão às conclusões produzidas. 11. Embora incapaz de excluir raciocínios contraditórios ou obscuros, a máquina de Lúlio possui importância histórica por espacializar dinamicamente o pensamento e fazer com que uma transformação material do arranjo produza uma transformação correspondente do raciocínio. * Francis Bacon ridiculariza a invenção, enquanto Giordano Bruno procura reconstruí-la e Leibniz demonstra admiração por ela. * A escrita já materializava o pensamento, mas o dispositivo luliano acrescenta a dependência do raciocínio em relação às posições físicas dos elementos. * Sua originalidade consiste em vincular dois problemas até então distintos: a formalização lógica e a configuração espacial da matéria. * Lúlio pertence simultaneamente às linhagens lógica e material, e seu dispositivo concretiza a convergência entre ambas. ** Leibniz ** 12. Leibniz ocupa uma posição decisiva na organização e formalização dos raciocínios ao procurar uma análise rigorosa da linguagem a partir de elementos simples e ao conceber o signo como relação que vincula uma percepção presente a outra realidade evocada por uma experiência anterior, real ou imaginária. * A decomposição do pensamento em elementos simples aproxima Leibniz de Lúlio e também de Bacon, Locke e Descartes. * O signo não possui valor isoladamente, mas estabelece uma ligação entre o sujeito e o mundo da experiência. 13. A reflexão de Leibniz sobre os signos articula memória e invenção a problemas concretos de organização encontrados na jurisprudência, nas bibliotecas e na genealogia, conduzindo à busca de sistemas de classificação que permitam ordenar, localizar e recuperar informações. * A jurisprudência de seu tempo apresenta-se como um conjunto desordenado e próximo do caos, exigindo mecanismos que facilitem localizar decisões e documentos. * Sua atividade como bibliotecário em Wolfenbüttel e Hanôver suscita problemas de inventário e disposição sistemática dos livros. * Seu trabalho de genealogista para a casa de Brunswick igualmente exige métodos de organização e recuperação de informações. 14. A pesquisa documental, a classificação de dados e a construção de genealogias exigem uma linguagem formalizada capaz de administrar a multiplicidade, levando Leibniz a pensar em índices, catálogos, inventários e repertórios como instrumentos simultaneamente cognitivos e mnemônicos. * A própria metafísica leibniziana requer a circulação entre múltiplas perspectivas e séries às quais uma mesma coisa pode pertencer. * O problema da memória divide-se entre a arte de conservar o que foi conhecido, ars retinendi, e a arte de recuperar o que foi conservado, ars revocandi ou ars reminiscendi. * Como a memória é limitada, torna-se necessário economizá-la mediante sistemas de signos simultaneamente simples e ricos. 15. A característica universal de Leibniz procura superar a arbitrariedade das línguas naturais mediante um alfabeto das ideias humanas no qual pensamentos simples sejam designados por signos de valor fixo e componham uma verdadeira álgebra do pensamento. * Nas línguas comuns, não há conexão necessária entre o signo e aquilo que ele faz recordar. * A característica universal pretende eliminar essa contingência mediante unidades inequívocas. * O objetivo consiste em impedir ambiguidades semânticas e tornar as combinações do pensamento suscetíveis de operações sistemáticas. 16. A eficácia mnemônica dos signos depende de sua organização espacial e de uma correspondência motivada com a estrutura das coisas representadas, razão pela qual esquemas técnicos, mapas, partituras, plantas urbanas, representações zodiacais e recursos tipográficos podem facilitar simultaneamente conhecimento e memória. * Um sistema representativo é tanto mais adequado quanto sua própria configuração reproduz relações pertencentes à coisa representada. * No zodíaco, por exemplo, características gráficas remetem visualmente às figuras significadas. * A informação deve fazer recordar a própria organização do objeto. * A universalização e a popularização do conhecimento podem, portanto, apoiar-se em representações esquemáticas capazes de aliviar a carga verbal do pensamento. 17. A notação binária constitui um exemplo privilegiado de característica universal porque, para Leibniz, sua configuração gráfica mantém relação mais motivada com determinadas propriedades numéricas do que a notação decimal convencional, permitindo que a própria escrita manifeste aspectos estruturais dos números representados. ** Pascal ** 18. A Pascalina, construída por Blaise Pascal em 1642 independentemente da máquina de calcular anteriormente produzida por Wilhelm Schickard, materializa o sistema decimal por meio de rodas dentadas associadas às diferentes ordens numéricas e transforma operações aritméticas em movimentos mecânicos regulados. * Pascal concebe a máquina para auxiliar o trabalho de seu pai, administrador na Normandia. * A construção recorre ao saber técnico dos relojoeiros, especializados em mecanismos de regulação. * Cada roda corresponde a uma ordem decimal, como unidades ou dezenas, e um mecanismo mantém sua posição no algarismo selecionado. * O número registrado torna-se visível em aberturas que revelam as inscrições existentes no perímetro das rodas. * O movimento de uma roda acumula mecanicamente a informação necessária para produzir a passagem de uma ordem decimal à seguinte. 19. O mecanismo de transporte ou reporte da Pascalina constitui uma memória técnica das operações porque cada rotação completa de uma roda conserva materialmente a passagem efetuada e transmite essa informação à roda seguinte, mecanizando uma operação anteriormente executada pelo calculista. * O reporte que na escrita aritmética precisa ser anotado e posteriormente reincorporado ao cálculo passa a ser efetuado automaticamente. * Posições, signos e mecanismos de memória tornam-se conjuntamente meios materiais de tratamento da informação. * Pascal realiza, assim, uma etapa decisiva da mecanização do cálculo. * Leibniz reconhece teoricamente que a memória pode depender da posição dos signos e posteriormente amplia essa mecanização construindo uma máquina capaz também de multiplicar e dividir. ** Turing ** 20. Alan Turing intervém decisivamente na história da informática primeiro como lógico, em 1936, e depois como participante do trabalho britânico de decifração durante a guerra, concebendo uma máquina universal inicialmente imaterial destinada a enfrentar o problema lógico da decidabilidade formulado no contexto do programa de fundamentação matemática de Hilbert. * Hilbert procura estabelecer bases axiomáticas seguras para a matemática. * As proposições devem ser consideradas como grupos materiais de signos, deslocando a atenção da significação ideal para as regras formais de sua escrita. * Demonstrar uma proposição passa a equivaler à produção de uma sequência finita de símbolos conforme regras determinadas. 21. O programa de Hilbert procura reduzir a lógica à teoria dos números e pressupõe que todas as proposições verdadeiras sejam decidíveis, mas a demonstração de Gödel revela a existência de uma proposição indecidível no sistema formal da aritmética de Peano. * A aritmética elementar deveria funcionar como fundamento axiomático a partir do qual as demais estruturas matemáticas poderiam ser desenvolvidas. * O problema da decidabilidade pergunta se podem existir proposições verdadeiras que não sejam demonstráveis dentro de determinado sistema formal. * Para Hilbert, provar significa produzir uma sequência finita de signos compatível com os axiomas. * A possibilidade de proposições verdadeiras indecidíveis compromete a expectativa de uma fundamentação formal completa. 22. A demonstração de Gödel conserva a exigência hilbertiana de materialização formal ao atribuir números aos símbolos e operadores, permitindo traduzir proposições e demonstrações inteiras em estruturas numéricas submetidas a operações rigorosamente definidas. 23. Turing reformula o problema da decidabilidade em termos de calculabilidade e algoritmos, fazendo da produção de uma prova a execução de uma sequência finita de operações elementares por uma máquina lógica universal e avançando decisivamente na mecanização dos raciocínios formais. * Um algoritmo consiste em uma sequência finita de instruções elementares executadas segundo uma rotina. * As operações matemáticas podem ser decompostas em instruções de leitura, adição, conservação em memória e escrita. * Uma fórmula é decidível quando a máquina completa seu cálculo mediante uma sequência finita de operações. * Quando o processo prossegue indefinidamente sem que a máquina pare, a proposição correspondente não pode ser decidida pelo procedimento. * A máquina universal antecipa logicamente os computadores posteriores ao reunir programa algorítmico, memória, unidade de controle e dispositivos de leitura e escrita. 24. A máquina de Turing estabelece uma possibilidade de isomorfismo operacional entre lógica e matéria e converte a técnica em uma segunda memória, distinta do livro porque não apenas conserva dados, mas também opera sobre aquilo que armazena. * A matéria torna-se suporte de estruturas lógicas e recebe uma quantidade crescente de operações anteriormente realizadas pelo pensamento humano. * O livro conserva palavras diretamente legíveis, enquanto a informática traduz a informação para linguagens técnicas que não são imediatamente acessíveis ao leitor comum. * O conteúdo impresso permanece materialmente estável e varia apenas segundo sua interpretação, ao passo que o computador transforma os dados armazenados. * A crescente delegação à máquina supõe uma confiança extraordinária em sua confiabilidade. * A possibilidade de considerar o alter techno mais confiável do que o alter ego constitui simultaneamente uma promessa da teoria da informação e uma tendência perigosa pela qual a técnica pode aprofundar o individualismo. ** Para concluir: discussão sobre duas maneiras de apresentar o progresso ** 25. A cibernética realiza tecnicamente o antigo sonho de inscrever signos na matéria e fazê-los produzir efeitos autônomos, substituindo as significações sagradas associadas ao Golem por diferenças elementares como sim/não e 0/1, materializadas nos estados físicos dos circuitos e capazes de sustentar uma vasta tradução entre linguagem, memória, matéria e ação. * Na tradição do Golem, a inscrição da palavra emeth, verdadeiro, confere existência à criatura, enquanto a retirada de uma letra transforma o termo em meth, morto. * A cibernética abandona a eficácia sagrada da significação e retém a capacidade operatória da inscrição. * A oposição binária corresponde materialmente aos estados aberto e fechado dos comutadores. * A linguagem pode ser armazenada em memórias materiais, circular por redes e produzir efeitos mecânicos e energéticos quando associada a motores e dispositivos de ação. * A separação bergsoniana entre matéria e memória parece ser tecnicamente atravessada pelo signo. * Nos anos 1950, a teoria da informação aparece como promessa de mediação entre material e imaterial e como paradigma potencialmente fecundo para física, biologia, psicologia e sociologia. 26. A convergência histórica entre lógica e matéria pode ser narrada de maneira épica, como desenvolvimento orientado no qual ábacos, Aristóteles, Lúlio, Pascal, Leibniz, Turing e os engenheiros da teoria da informação constituiriam etapas sucessivas de um movimento destinado a culminar na informática contemporânea. * A narrativa épica privilegia linhas de força e atribui sentido unitário ao movimento histórico. * A compatibilidade final entre raciocínios formais e arquiteturas materiais parece, nessa perspectiva, resultado de uma orientação subterrânea, de uma teleologia ou de uma espécie de mão invisível. * Filosofias do progresso como a de Hegel exemplificam essa compreensão ao integrar acontecimentos passados em uma necessidade retrospectiva. * O presente aparece, então, como resultado necessário de uma história que aparentemente não poderia ter ocorrido de outro modo. 27. A sátira de Voltaire em Cândido expõe o caráter absurdo da explicação teleológica que converte retrospectivamente toda realidade em meio necessário para um fim, como ocorre no raciocínio de Pangloss segundo o qual narizes existiriam para sustentar óculos e pedras existiriam para permitir a construção de castelos. 28. A interpretação contingente da história substitui a necessidade teleológica pela atenção ao acaso, às circunstâncias singulares, às bifurcações e à multiplicidade de possibilidades, recusando subordinar séculos de filosofia e técnica ao êxito retrospectivo de uma única trajetória. * Cada realização histórica é compreendida como singular e dependente de circunstâncias que poderiam ter produzido resultados diferentes. * Não existe uma narrativa histórica absolutamente privilegiada, mas maneiras de narrar o passado que transformam também a maneira de perceber o presente. * Aquilo que a narrativa épica chama de progresso pode ser compreendido simplesmente como mudança. * Pequenas diferenças, acontecimentos fortuitos e alianças cujo significado escapa aos próprios agentes podem alterar decisivamente as trajetórias históricas. * A contingência permite um otimismo crítico: justamente porque o passado poderia ter sido diferente, o futuro também permanece aberto a outras direções. 29. Embora Simondon não declare explicitamente se privilegia uma história necessária ou contingente e manifeste ocasionalmente posições relativistas, sua filosofia das técnicas aproxima-se estruturalmente da narrativa épica ao sustentar proposições que conferem unidade e orientação progressiva ao desenvolvimento técnico. * A ausência de condescendência diante das técnicas antigas impede uma simples identificação de sua filosofia com evolucionismos lineares. * A recusa de considerar a formação técnica tradicional necessariamente inferior à formação baseada em símbolos intelectuais introduz uma dimensão relativista. * Apesar disso, certas teses fundamentais fazem da história técnica um processo orientado e aproximam Simondon das filosofias do progresso. ** 1. A mentalidade técnica ** 30. A mentalidade técnica constitui um princípio histórico de transformação que atravessa diferentes épocas da racionalidade ocidental, desde os fisiólogos jônicos, alquimistas e Descartes até o Iluminismo e a cibernética, caracterizando-se pela análise dos seres e pela intervenção localizada destinada a aumentar a racionalidade e corrigir imperfeições naturais. * Essa mentalidade pode parecer monstruosa ou desequilibrada quando julgada antes que seu desenvolvimento seja plenamente compreendido. * Em lugar de tratar os seres vivos como totalidades intangíveis, ela identifica pontos específicos nos quais uma intervenção pode modificar o funcionamento. * O técnico prefere a operação localizada e racionalmente determinada ao julgamento global da totalidade. 31. A permanência histórica da mentalidade técnica permite reconhecer na história da informática a recorrência de problemas e finalidades semelhantes, como delegar cálculos extensos, obter resultados seguros e construir memórias materiais capazes de conservar grandes quantidades de informação. * Pascal constrói sua máquina em função das necessidades contábeis de seu pai. * Babbage dedica-se a problemas associados aos cálculos de recenseamento populacional. * Durante a guerra, o governo norte-americano solicita a Von Neumann tabelas de cálculo destinadas aos disparos militares. * Em outro contexto tecnológico, programas são desenvolvidos para medir a extensão da Internet. * Finalidades semelhantes reaparecem, assim, sob formas técnicas diferentes. 32. A cibernética realiza também o antigo projeto de retirar dos números suas significações sagradas e convertê-los em elementos estritamente funcionais, fazendo com que 0 e 1 deixem de representar essências metafísicas para valer apenas pela posição e pela operação que desempenham em determinado sistema. * Para os pitagóricos, os números exprimiam realidades como masculino, feminino, perfeição e harmonia e constituíam a essência das coisas. * A mentalidade técnica rompe com essa significação sagrada ao atribuir aos números funções operatórias. * Os elementos da lógica binária não possuem significado intrínseco, mas adquirem valor pelo lugar ocupado em uma estrutura. 33. A história da informática assume feição épica quando considerada a partir da mentalidade técnica, pois essa disposição parece permanecer ativa ao longo da história da humanidade e prolongar, do Iluminismo à cibernética, uma mesma manifestação histórica da técnica. ** Cada objeto possui um núcleo ** 34. O objeto técnico possui uma camada interna ou núcleo propriamente técnico e uma camada externa submetida a valores, usos e variações psicossociais, sendo a primeira governada por exigências funcionais que não podem ser modificadas arbitrariamente sem comprometer o funcionamento do conjunto. * A câmara de combustão de um motor, o reator de um avião e o microprocessador de um computador exemplificam núcleos técnicos. * Frequentemente oculto ao usuário, o núcleo funciona como uma caixa-preta e permanece inacessível a alterações meramente estéticas ou sociais. * A camada externa pode incorporar cores, formas, disposições e modas sem alterar necessariamente o princípio técnico. * O arranjo interno de um navio ou a cor de um automóvel podem variar segundo preferências sociais, embora sejam secundários do ponto de vista estritamente técnico. 35. A separação simondoniana entre núcleo técnico e camada psicossocial reproduz em outro registro a distinção cartesiana entre qualidades constitutivas e qualidades secundárias, permitindo isolar invariantes técnicas e formular leis específicas, como a tendência à miniaturização característica das tecnologias da informação. * Descartes distingue extensão e matéria, consideradas qualidades objetivas, de características como sabor, rugosidade e cor. * Simondon separa analogamente a essência técnica das variações sociais e históricas consideradas exteriores. * A miniaturização não constitui mero capricho do consumidor, mas decorre de exigências internas ao funcionamento dos dispositivos informacionais. * Enquanto a indústria termodinâmica tende ao gigantismo porque sua eficiência energética pode crescer com as dimensões, os canais de informação melhoram sua eficiência pela redução das dimensões. * A determinação de uma dimensão adequada constitui, portanto, um problema técnico interno. * A forma tecnicamente eficaz pode resistir durante séculos às mudanças culturais, como ocorre com perfis de sinos estabelecidos desde a Idade Média e reencontrados por métodos computacionais contemporâneos. 36. A distinção entre essência técnica e camada exterior reforça a leitura épica da história ao separar duas evoluções paralelas e atribuir o progresso verdadeiro às transformações do núcleo técnico, enquanto ergonomia, acabamento, design, hábitos e modas permanecem como variações secundárias. * Na evolução do automóvel, potência do motor e soluções de transmissão e frenagem seriam indicadores mais fundamentais do progresso técnico. * Alterações de aparência ou conforto pertenceriam à camada externa e não à linhagem essencial do objeto. 37. A história contingente contesta a separação rígida entre técnico e psicossocial ao mostrar que a concretização dos objetos resulta de negociações entre interesses heterogêneos, como exemplifica a análise de Bruno Latour sobre o projeto Aramis, em que engenheiros, políticos, financiadores e usuários participam conjuntamente da definição do objeto. * Cada agente procura traduzir seus interesses nas especificações e na configuração material do projeto. * As necessidades aparentemente externas dos usuários tornam-se propriedades concretas do sistema técnico. * A velha senhora carregando pacotes representa o usuário cuja maneira de entrar, deslocar-se e sentar-se no metrô precisa ser incorporada ao projeto. * Até mesmo a qualidade de um sistema de frenagem pode expressar simultaneamente desempenho técnico e consideração pelos corpos transportados. * Considerado globalmente, o essencial do objeto técnico não precisa localizar-se exclusivamente no interior da caixa-preta. ** O bom acoplamento ** 38. A cibernética inaugura uma relação renovada entre seres humanos e máquinas que Simondon interpreta como possibilidade de um acoplamento técnico mais adequado, superando tanto a imaturidade das sociedades tradicionais quanto as formas corporativas racionalizadas pelo Iluminismo e o mal-estar provocado pela proliferação industrial das máquinas no século XIX. * As técnicas da informação tornam possível conceber uma relação que não se baseie simplesmente na substituição do humano pela máquina. * A maturidade técnica depende da construção de uma complementaridade entre capacidades humanas e capacidades maquínicas. 39. A memória humana e a memória técnica possuem propriedades opostas e complementares, pois a primeira seleciona informações segundo significações, interesses e afetos, enquanto a segunda conserva indiferentemente grandes quantidades de detalhes sem ser capaz de hierarquizá-los por seu valor. * A memória humana relaciona situações distantes e organiza a experiência mediante estruturas e filtros construídos ao longo da própria atividade. * Ela é pouco eficiente para conservar séries aleatórias de números ou inventários minuciosos de objetos heterogêneos. * A memória técnica triunfa precisamente na multiplicidade e na desordem, registrando informações ponto por ponto. * Películas fotográficas, fitas magnéticas e discos exemplificam dispositivos capazes de conservar detalhes sem selecioná-los. * Sua força quantitativa corresponde a uma incapacidade qualitativa: a máquina registra, mas permanece indiferente à importância daquilo que registra. 40. A complementaridade entre memória humana e memória maquínica permite conceber uma memória bifurcada capaz de reunir ordenação significativa e conservação indiferenciada, fazendo da cibernética uma superação das etapas tecnológicas em que a máquina aparecia primordialmente como substituta do ser humano. * A diferença entre as duas memórias deixa de ser deficiência e torna-se condição de cooperação. * A máquina conserva aquilo que a memória humana selecionaria ou esqueceria, enquanto o humano pode avaliar e organizar aquilo que a máquina registra sem discriminação. * O bom acoplamento constitui, assim, o ideal de uma vida técnica baseada na colaboração entre capacidades diferentes. 41. A vida técnica não consiste em dominar ou simplesmente dirigir as máquinas, mas em existir no mesmo nível operacional que elas, formando redes de acoplamento nas quais o ser humano atua como agente e tradutor de informação de máquina para máquina e alterna funções de guardião e servidor. * A função humana desloca-se do comando exterior para a mediação entre sistemas técnicos. * O especialista técnico participa das relações informacionais internas ao conjunto de máquinas. * Nessa configuração, pretende-se ultrapassar a oposição simples entre senhor e instrumento e, com ela, as formas tradicionais de alienação. 42. A realização efetiva desse acoplamento entre humanidade e técnica permanece, entretanto, problemática, deixando aberta a questão da qualidade concreta da relação estabelecida entre os dois termos e dos desenvolvimentos que dela poderão resultar. {{tag>Chabot Simondon técnica individuação cibernética}}