====== Introdução ====== //SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information.// 1. A realidade do ser enquanto indivíduo pode ser abordada por duas vias principais: a visão substancialista, que enfatiza a unidade e a autossuficiência do ser, e a visão hilomórfica, que o vê como produto da união entre forma e matéria, compartilhando ambas a suposição de que existe um princípio de individuação anterior ao próprio processo, o que leva a uma investigação que privilegia o indivíduo já constituído, correndo o risco de não compreender a verdadeira ontogênese. 2. A busca pelo princípio de individuação, ao pressupor que este contém a explicação para a singularidade do indivíduo (haecceidade), constitui uma ontogênese invertida, e tanto o atomismo quanto o hilomorfismo falham em descrever a operação de individuação em si, pois o primeiro atribui a individuação a encontros aleatórios de partículas eternas e o segundo a vê como uma aplicação de princípios preexistentes, resultando em uma "zona escura" que oculta o processo, o qual é tratado como mera etapa para se chegar ao indivíduo final. 3. Propõe-se uma inversão metodológica que considera a operação de individuação como primordial, a partir da qual o indivíduo emerge como uma realidade relativa, pois não é todo o ser e resulta de um estado pré-individual que não se esgota completamente no processo, e tal individuação deve ser entendida como uma resolução parcial em um sistema que contém potencialidades e incompatibilidades internas. 4. O termo ontogênese ganha pleno sentido quando designa o devir do ser enquanto ser, uma dimensão do próprio ser que se resolve em fases, e a individuação é a aparição dessas fases, sendo que o princípio que orienta esse processo é o da conservação do ser através do devir, o que exige pensar o ser não como substância, mas como um sistema tenso e supersaturado, acima do nível da unidade, onde os princípios de identidade e do terceiro excluído não se aplicam. 5. A dificuldade em pensar a individuação adequadamente reside no fato de que apenas o equilíbrio estável era conhecido, o qual exclui o devir, enquanto o conceito de equilíbrio metaestável, fundamental para definir o estado de tensão do ser pré-individual e sua capacidade de transformação, era desconhecido dos antigos, carecendo eles de um paradigma físico claro para sua compreensão. 6. A individuação física, como a cristalização, serve como paradigma de resolução de um sistema metaestável, sugerindo que a dualidade de conceitos na microfísica (onda-partícula, matéria-energia) pode refletir uma realidade pré-individual que é mais que unidade e identidade, e que teorias como a dos quanta e da mecânica ondulatória podem ser expressões complementares dessa metaestabilidade original, indicando que os conceitos clássicos são adequados apenas à realidade individuada. 7. O processo de cristalização exemplifica a individuação como uma resolução que emerge de um sistema metaestável, onde forma, matéria e energia preexistem, e o verdadeiro princípio de individuação é a mediação que se estabelece entre ordens de grandeza distintas, atualizando uma energia potencial enquanto a matéria se organiza em indivíduos estruturados. 8. No domínio do vivo, a metaestabilidade se manifesta como uma individuação contínua, onde o ser vivo não é apenas um resultado, mas um "teatro" de individuação, distinguindo-se do indivíduo físico por possuir uma ressonância interna completa e uma verdadeira interioridade, modificando-se e inventando novas estruturas para resolver seus problemas, ao invés de apenas se adaptar ao meio. 9. A individuação não exaure a realidade pré-individual, que permanece associada ao indivíduo como uma carga de potencialidades, sendo fonte de futuras individuações, o que permite conceber a relação como um aspecto da ressonância interna de um sistema de individuação, e a participação do indivíduo em individuações mais amplas ocorre por meio dessa carga pré-individual que ele carrega. 10. A individuação psíquica e a coletiva são processos que se sucedem à individuação vital, onde o ser, para resolver suas problemáticas, age como sujeito e elemento do mundo, e a noção de transindividual emerge para dar conta da unidade sistemática entre a individuação interior (psíquica) e a exterior (coletiva), na qual o indivíduo participa a partir de sua realidade pré-individual que se individua progressivamente. 11. A psicologia e a teoria do coletivo estão interligadas pela ontogênese, que é a descoberta de uma nova axiomática em situações conflituosas, e essa perspectiva exige modificar as noções de relação adaptativa e de conhecimento, compreendendo este último como uma operação problemática que se inicia na unidade trópico-táxica e se resolve na constituição do objeto, sendo a distinção entre a priori e a posteriori um resquício do esquema hilomórfico que obscurece a operação central de individuação. 12. A afetividade e a emotividade são ressonâncias do ser consigo mesmo que o conectam à realidade pré-individual, e a psique, como sucessão de individuações, busca resolver estados problemáticos, mas não pode fazê-lo sozinha, ultrapassando o limite da ansiedade para encontrar no transindividual a axiomática que resolve o problema psíquico. 13. A informação não é relativa a uma realidade homogênea, mas à tensão entre duas ordens em estado de disparação, e é a significação que emerge na operação de individuação, não sendo um dado ou um termo, mas a própria fórmula da individuação, inerente a um sistema problemático e que supõe uma mudança de fase do ser. 14. O ser não possui uma unidade de identidade, mas uma unidade transdutiva, podendo mudar de fase e transbordar-se, de modo que o devir é uma dimensão do ser, e a individuação deve ser apreendida como esse devir, a partir do ser pré-individual e não do indivíduo já constituído. 15. O objetivo deste estudo é examinar as formas, modos e graus de individuação nos níveis físico, vital e psicossocial, substituindo as noções de substância, forma e matéria por noções mais fundamentais como informação primeira, metaestabilidade e potencial energético, e para isso, introduz-se um novo método e uma nova noção. 16. O novo método consiste em não compor a essência de uma realidade a partir de termos extremos preexistentes, considerando toda relação como tendo o estatuto de ser, uma modalidade do ser, e não um simples vínculo entre substâncias, o que implica que os princípios de identidade e do terceiro excluído não se aplicam ao ser pré-individual, apenas ao ser já individuado. 17. A noção de transdução designa uma operação na qual uma atividade se propaga progressivamente em um domínio, estruturando-o a partir de uma região para outra, e serve como base para pensar a individuação em seus diversos níveis, sendo uma operação que vai além da indução e da dedução, caracterizando-se como uma descoberta analógica que conserva a totalidade do concreto e a informação, ao contrário da indução que implica perda de informação. 18. A transdução, como operação ontogenética, não é um procedimento lógico no sentido corrente, mas um modo de descoberta da mente que acompanha a gênese do ser, diferenciando-se da dialética por não pressupor o negativo como um estágio, mas como imanência na condição inicial, e por considerar o tempo como uma dimensão que emerge da própria individuação, e não como um quadro prévio. 19. A noção de forma é insuficiente para pensar a operação transdutiva e deve ser substituída pela de informação, que supõe um sistema metaestável; a teoria da Gestalt, embora traga a noção de sistema, falha ao ignorar a metaestabilidade, e a "boa forma" deve ser entendida como a forma significativa que estabelece uma ordem transdutiva, conservando os potenciais do sistema, o que aproxima a noção de forma da de informação como significação inerente ao ser. 20. O estudo da individuação pode conduzir a uma reforma das noções filosóficas fundamentais, considerando que o ser se diz em dois sentidos: o ser enquanto ser e o ser enquanto individuado, de modo que uma teoria do ser anterior à lógica se faz necessária, e a individuação do real só pode ser apreendida pela individuação análoga do conhecimento no sujeito, e não por um conhecimento imediato ou mediado no sentido comum. 21. A noção de forma deve ser substituída pela de informação, pois esta última é a significação que emerge de uma disparação em um sistema metaestável, ao contrário da forma do esquema hilomórfico, e mesmo a teoria da Gestalt, por desconsiderar a metaestabilidade, limita-se ao equilíbrio estável; a "boa forma" seria então a estrutura que estabelece uma ordem transdutiva, conservando os potenciais do sistema. 22. A investigação sobre a individuação visa uma reforma das noções filosóficas, partindo do princípio de que o ser se manifesta em dois níveis: o ser em si e o ser enquanto individuado, o que implica que uma teoria do ser deve preceder a lógica, e a apreensão da individuação do real ocorre por meio de uma analogia com a individuação do conhecimento no sujeito, e não por um conhecimento direto ou indireto. {{tag>Simondon individuação}}