====== Individuação – Forma – Informação ====== //Jacques Garelli, in SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information.// ** O horizonte filosófico e científico do método ** 1. A investigação situa-se na confluência entre a reflexão dos fisiólogos jônicos sobre a Physis, a concepção anaximândrica do ilimitado (ápeiron), a doutrina platônica do Uno e da díade indefinida do Grande e do Pequeno, a crítica aos modelos aristotélico-substancialista, atomista e hilemórfico e as teorias contemporâneas da termodinâmica, da física quântica e da informação, tendo como fio condutor decisivo a proximidade com o pensamento de Maurice Merleau-Ponty acerca do pré-individual e dos processos de individuação. :contentReference[oaicite:0]{index=0} * A dedicatória de O indivíduo e sua gênese físico-biológica à memória de Maurice Merleau-Ponty indica uma afinidade filosófica que ultrapassa uma simples homenagem. * Essa afinidade compreende a concepção merleau-pontiana do pré-individual em sua relação com as formações individualizantes e a retomada da noção pré-socrática de elemento. * Também se manifesta na crítica à teoria da Gestalt, ao dualismo hilemórfico e ao atomismo materialista presente em determinadas correntes da psicologia contemporânea. * A crítica ao Nada e à dialética dirige-se contra uma espécie de positivismo invertido da negação que afastaria a filosofia da dimensão pré-individual do Mundo. 2. No plano metodológico, a fenomenologia de Merleau-Ponty e a epistemologia da microfísica de Niels Bohr e Werner Heisenberg convergem na impossibilidade de separar radicalmente o objeto científico resultante da investigação do percurso intelectual e das operações mediante as quais ele é revelado e constituído, perspectiva radicalizada em Simondon pelas noções de transdução e informação e incompatível com uma interpretação simplesmente fisicalista ou positivista de sua filosofia. 3. A originalidade de Simondon consiste em relacionar o pensamento pré-socrático do ilimitado e do elemento com a concepção merleau-pontiana de um Ser pré-individual cujos processos de individuação podem ser compreendidos mediante o paradigma termodinâmico dos sistemas metaestáveis, irredutíveis às categorias tradicionais de identidade, unidade e alteridade. 4. A contribuição dessa problemática à fenomenologia encontra-se menos na incorporação de resultados positivos do que nas questões, percursos, bifurcações e modalidades de problematização que tornam pensáveis, a partir da centralidade do pré-individual e de suas individuações, as noções de sistema metaestável, potencial, tensões energéticas, transdutividade e informação. ** Reavaliação dos conceitos clássicos e dos modos de pensamento: crítica do princípio de individuação ** 5. Em uma nota de fevereiro de 1960, Merleau-Ponty prepara uma reformulação radical das categorias tradicionais empregadas para pensar a relação entre pensamento, ser e individuação. 6. O pensamento deve ser compreendido como operação efetiva que emerge no próprio Ser, e não mediante o aparato positivista de conceitos, juízos e relações tomados como entidades autônomas, de modo que o invisível e o vazio apareçam como reverso interno do Ser visível e, particularmente, da linguagem. 7. A crítica simondoniana do princípio de individuação participa dessa renovação conceitual ao questionar forma, matéria, substância, termos fixos e estáveis, relações e juízos indutivos ou dedutivos quando estes são pressupostos como estruturas já constituídas da realidade. 8. A renovação filosófica compartilhada por Merleau-Ponty e Simondon articula pensamento e ser em um mesmo movimento gerador dos processos complexos de individuação provenientes de uma dimensão transindividual do ser. 9. A aparente simplicidade da argumentação inicial de Simondon resulta de uma longa elaboração filosófica baseada na meditação sobre os fisiólogos jônicos e sobre Platão e Aristóteles, culminando na necessidade de reconsiderar os fundamentos tradicionais da individuação. ** Os pressupostos não questionados do princípio de individuação ** 10. O primeiro pressuposto tradicional atribui ao indivíduo o estatuto de realidade ontológica fundamental que deve ser explicada, privilégio herdado da concepção aristotélica do indivíduo ou synolon como realidade decisiva para a questão do ser enquanto ser. * Torna-se necessário questionar por que a totalidade do ser deveria resolver-se integralmente numa multiplicidade de indivíduos constituídos. * Admite-se, em contraste, que o ser possa possuir uma dimensão pré-individual anterior e irredutível ao indivíduo constituído. * O indivíduo conservaria em si uma carga de pré-individualidade que continuaria intervindo em sua formação e em suas individuações posteriores. * Sua realidade adquiriria assim caráter relativo tanto em relação ao ser pré-individual do qual procede quanto em relação à dimensão pré-individual que permanece associada à sua própria existência. * A permanência dessa dimensão exigiria reformular tanto a busca de um princípio de individuação quanto a própria ideia de tal princípio. 11. A formulação escolástica do problema da individuação em Duns Scotus desenvolve-se originalmente no interior de uma questão teológica relativa à distinção entre anjos e pessoas, subordinada à lógica aristotélica, ao dualismo hilemórfico e à teoria das quatro causas. 12. A investigação da distinção entre pessoas angélicas exige, para Duns Scotus, esclarecer previamente a distinção dos indivíduos entre as substâncias materiais, uma vez que as divergências acerca da individuação repercutem diretamente na concepção da pluralidade de indivíduos pertencentes à mesma espécie angélica. 13. A segunda questão desse debate revela sua origem substancialista ao retomar a objeção aristotélica dirigida contra Platão acerca da natureza própria e não compartilhável da substância individual. 14. A tese aristotélica segundo a qual a substância de cada coisa pertence exclusivamente àquilo de que ela é substância estabelece uma compreensão da individuação fundada na autonomia ontológica do indivíduo constituído. 15. Para que a individuação possa ser efetivamente problematizada, torna-se necessário submeter à crítica tanto os procedimentos lógicos e metafísicos da discussão tradicional quanto a própria noção de substância que neles permanece pressuposta. 16. O segundo pressuposto tradicional afirma a existência de um princípio anterior à individuação capaz de explicar a formação do indivíduo singular, mas essa estrutura hierárquica entre indivíduo, individuação e princípio de individuação encerra um paralogismo ao procurar explicar o indivíduo mediante realidades que já são concebidas como individualizadas. * A posição substancialista, atomista e monista identifica no átomo de Leucipo e Demócrito um princípio elementar absoluto capaz de explicar a formação dos indivíduos e do universo individuado. * A teoria epicurista do clinamen procura explicar a constituição fortuita de estruturas individuadas mais complexas a partir de átomos unitários previamente constituídos. * Certas formas modernas de materialismo atomista repetem essa dificuldade ao tratar partículas quânticas como substâncias primeiras infinitesimais dotadas de realidade autônoma. * O paralogismo consiste em converter um ente já individuado, o átomo, no princípio destinado a explicar precisamente a formação da individualidade. * O hilemorfismo aristotélico incorre em dificuldade equivalente ao tratar forma e matéria como termos unitários e causas já individualizadas do synolon. * A formação de individualidades naturais, como ilhas fluviais, dunas, ravinas e cristais, demonstra que a individuação não se reduz à aplicação de uma forma previamente constituída sobre uma matéria passiva. * Exemplos técnicos, como a fabricação de um tijolo ou o corte de um tronco, mostram igualmente que a tomada de forma depende das condições energéticas inscritas na própria estrutura material e das operações que desencadeiam, orientam e canalizam essas potencialidades. * A própria forma estruturante depende de uma estrutura material capaz de permitir que a energia potencial nela implicada organize a matéria, tornando inadequada a separação simples entre forma ativa e matéria passiva. * Na criação artística, a individuação de um poema, de uma pintura ou de uma escultura decorre igualmente de processos diferenciais provenientes de campos pré-individuais de tensão e não de princípios monistas ou hilemórficos. * A obra emerge de um horizonte metaestável no qual tensões pré-individuais se diferenciam progressivamente até constituírem uma individualidade singular. * A busca de um princípio de individuação já contido em átomos, substâncias, formas ou matérias constituídas procura paradoxalmente encontrar no indivíduo realizado aquilo que deveria explicar sua própria constituição. 17. A individuação pode ser concebida sem um princípio anterior, na medida em que constitui um processo intrínseco a indivíduos jamais definitivamente acabados, fixos ou estáveis, que continuam individuando-se ao conservar uma carga associada de pré-individualidade pertencente ao horizonte transindividual do Ser. ** Consequências metodológicas desta contestação ** 18. A novidade da problemática simondoniana permite compreender por transdução os processos de diferenciação produzidos a partir de sistemas pré-individuais metaestáveis carregados de tensões, dos quais o indivíduo constitui apenas uma fase de desenvolvimento. * As noções termodinâmicas de carga potencial, tensões orientadas, supersaturação, defasagem e ressonância interna tornam-se instrumentos para pensar esses processos. * A ontogênese deixa de significar simplesmente a gênese do indivíduo e passa a designar o devir do próprio ser enquanto ser. * O indivíduo não constitui o termo absoluto desse processo, mas uma fase na resolução parcial de uma problemática energética mais abrangente. * Os princípios de identidade e do terceiro excluído, elaborados para uma lógica substancialista de entes individuados, revelam-se inadequados à realidade pré-individual. 19. Unidade e identidade pertencem propriamente ao ser já individuado e não podem ser projetadas sobre o ser pré-individual, razão pela qual o mundo não pode ser reconstruído retrospectivamente a partir de mônadas individualizadas, mesmo quando acrescidas de princípios ordenadores como o de razão suficiente. 20. As referências a Leibniz, aos pré-socráticos, a Platão e a Aristóteles confirmam que a problemática ultrapassa qualquer fisicalismo estrito, pois as categorias termodinâmicas integram uma transformação paradigmática destinada também a superar as antigas alternativas entre ser e devir, movimento e repouso, estabilidade substancial e instabilidade caótica. 21. A compreensão do equilíbrio metaestável introduzida pela termodinâmica exige considerar três elementos fundamentais que Simondon incorpora de maneira original à problemática filosófica da individuação. 22. O primeiro elemento necessário à compreensão de um sistema metaestável é sua energia potencial, cuja disponibilidade condiciona os processos posteriores de transformação e individuação. 23. O segundo elemento consiste na consideração das diferentes ordens de grandeza e das múltiplas escalas coexistentes no interior de um mesmo sistema. 24. O terceiro elemento é o crescimento da entropia, entendido como degradação energética pela qual as potencialidades iniciais são progressivamente resolvidas, de modo que a formação individualizada estabilizada corresponde ao esgotamento relativo das condições energéticas que possibilitaram sua gênese. 25. O paradigma termodinâmico permite pensar a pré-individualidade do ser como um sistema metaestável carregado de potenciais supersaturados, no qual a degradação energética provocada por estados de sobretensão desencadeia sucessivos processos de diferenciação e individuação. * A individuação ocorre mediante defasagens internas do sistema metaestável e não pela imposição de uma forma exterior. * A descarga das tensões ainda não individualizadas produz simultaneamente uma multiplicidade de formas individualizantes. * As formas resultantes podem posteriormente integrar sistemas mais complexos e constituir novos equilíbrios metaestáveis. * A individuação deve, portanto, ser concebida como processo recorrente e aberto, capaz de engendrar novas condições de transformação. 26. Toda operação e toda relação interna a uma operação constituem uma individuação que divide e defasa o ser pré-individual, estabelecendo correlações entre valores extremos e ordens de grandeza inicialmente desprovidos de mediação. 27. As relações adquirem assim uma dimensão ontológica que ultrapassa sua compreensão como simples nexos lógicos ou significações abstratas, permitindo superar o dualismo entre um ato intelectual de conhecimento e objetos inertes exteriores sobre os quais ele incidiria. 28. A superação desse dualismo exige esclarecer os procedimentos mediante os quais a relação e o conhecimento deixam de ser concebidos como operações exteriores aos processos de individuação. 29. O primeiro procedimento consiste em conferir estatuto de ser às relações tradicionalmente consideradas apenas sob uma perspectiva lógica, como ocorre nas teorias clássicas da dedução e da indução. 30. O segundo procedimento consiste em pensar a transdução conjuntamente com a tomada de forma individualizante mediante a qual o campo pré-individual metaestável passa a individuações em formação. * As relações existentes entre campos de tensões extremas possuem realidade ontológica porque não ligam termos previamente constituídos, mas diferenças ainda não individualizadas. * Essas diferenças correspondem a dimensões e escalas de tensão a partir das quais se produz a energia resolutiva do sistema. * A relação deixa, assim, de depender logicamente de termos anteriores e passa a integrar a própria constituição ontogenética das realidades relacionadas. 31. A relação não surge entre dois indivíduos previamente existentes, mas constitui um aspecto da ressonância interna do próprio sistema de individuação, enquanto a participação de um indivíduo em individuações mais vastas torna-se possível pela carga de realidade pré-individual e pelos potenciais que continuam presentes nele. 32. A transdução, solidária à descarga da energia potencial supersaturada de um sistema metaestável, constitui simultaneamente uma tomada de forma e uma informação nos sentidos topológico e noético. * No sentido topológico, o movimento transdutivo estrutura e individualiza uma configuração a partir das tensões pré-individuais do sistema. * No sentido noético, esse mesmo processo informa acerca daquilo que faz aparecer e do horizonte pré-individual do qual a nova individualidade se destaca. * Diferentemente da indução e da dedução, a transdução não constitui uma relação lógica exterior entre termos previamente existentes. * Pensamento e ser encontram-se implicados conjuntamente no próprio movimento transdutivo que produz os termos relacionados. * A transdução revela que o ser possui mais do que unidade e mais do que identidade, pois suas potencialidades excedem continuamente as formas já individualizadas. 33. A transdução não constitui apenas um raciocínio discursivo, mas também uma intuição mediante a qual uma estrutura emerge no próprio domínio problemático como resolução de suas tensões, sem recorrer a um princípio exterior, tal como a cristalização de uma solução supersaturada decorre de seus próprios potenciais e de sua constituição química. 34. A transdução descobre dimensões que tornam comunicáveis as dimensões próprias dos diferentes termos de um domínio e possibilita que sua realidade integral se organize em novas estruturas sem perda nem redução. 35. A boa forma não deve ser identificada com a forma fixa e estabilizada da teoria da Gestalt, mas com uma configuração rica em potencial energético e capaz de desencadear futuras transduções e novas individuações. * A forma dotada de potencial continua suscitando pensamento porque conserva possibilidades de novas diferenciações e permite antecipar individuações futuras. * A informação deixa de ser concebida como transmissão de uma mensagem previamente codificada entre emissor e receptor e passa a significar a própria tomada de forma. * A informação topológica individualiza uma configuração a partir das tensões pré-individuais, enquanto a informação noética torna pensável aquilo que simultaneamente emerge. * A informação constitui um teatro de individuações situado na passagem entre estados metaestáveis energeticamente carregados e estados progressivamente estabilizados e empobrecidos. * As formas estabilizadas podem manifestar o esgotamento de processos anteriores, como as rochas vulcânicas testemunham, em sua configuração consolidada, o resfriamento de um fluxo de lava. * A forma pura da Gestalt corresponde a uma energia estabilizada que alcançou o término relativo de seus processos de transformação. * Na criação pictórica, os esboços preparatórios configuram uma matriz pré-individual metaestável da qual emergem progressivamente linhas e formas individualizadas. * Uma forma já estabilizada pode voltar a adquirir potência energética ao combinar-se com outras formas em uma estrutura mais complexa, reabrindo tensões e novas possibilidades de resolução. * A atividade do pintor em contato direto com esse campo de metastabilidade cromática e linear constitui, por isso, um verdadeiro teatro de individuações. 36. Um fragmento de busto fotografado e integrado numa colagem exemplifica como uma forma inicialmente fixa e individualizada pode adquirir nova carga potencial quando inserida num sistema metaestável mais amplo. * A integração do fragmento em uma nova composição transforma sua identidade previamente estabilizada em componente de um campo problemático. * O elemento estrangeiro provoca ressonâncias internas capazes de remodelar o conjunto e de suscitar novas interrogações. * A estrutura da composição excede a unidade simples e permanece carregada de possibilidades inesgotáveis de formas e sentidos. * A tomada de forma topológica e a informação noética entrelaçam-se numa relação quiasmática sustentada pela metastabilidade do conjunto. 37. A reflexão simondoniana dirige-se a um Mundo não identitário no qual toda individuação remete a um campo subjacente de pré-individualidade frequentemente ocultado ou esquecido, cuja inesgotabilidade constitui precisamente o enigma fundamental a ser pensado. ** A crise da compreensão nas ciências físicas e suas consequências para a concepção filosófica dos entes ** 38. O emprego filosófico de conceitos provenientes da termodinâmica e da física quântica exige a mesma prudência demonstrada por Niels Bohr e Werner Heisenberg diante da questão do estatuto filosófico ou modo de ser da partícula quântica. * A problemática não se limita a dificuldades técnicas da física, pois envolve consequências ontológicas para a própria concepção dos entes. * A física moderna obriga a reconsiderar o significado de compreensão quando as categorias linguísticas e conceituais usuais se revelam inadequadas à estrutura interna do átomo. * A predominância da energia sobre a matéria como referência fundamental da natureza põe igualmente em questão a capacidade do pensamento de compreender os componentes dos fenômenos físicos. 39. A pergunta decisiva de Heisenberg concentra-se na possibilidade de compreender os átomos quando sua estrutura interna escapa às descrições habituais e quando falta uma linguagem adequada para tratá-la. 40. A dificuldade formulada consiste em saber como seria possível alcançar uma compreensão dos átomos caso sua estrutura interna permaneça inacessível à descrição e às formas correntes de linguagem. 41. A hesitação de Bohr diante dessa questão revela a profundidade epistemológica e filosófica do problema da compreensão na física moderna. 42. A possibilidade de compreender os átomos permanece aberta, mas exige transformar o próprio sentido atribuído ao termo compreensão, em vez de simplesmente estender as categorias tradicionais a uma realidade que lhes resiste. 43. A mesma circunspecção deve orientar a avaliação do emprego simondoniano da teoria dos quanta e da mecânica ondulatória na investigação do pré-individual, pois a crise de sentido que atravessa a ciência e a filosofia do século XX impede qualquer aplicação dogmática desses modelos. 44. Depois de recusar tanto o mecanicismo quanto o energeticismo como teorias ainda dependentes da identidade, Simondon reconhece igualmente a insuficiência da simples justaposição entre teoria dos campos e teoria corpuscular ou da concepção de uma interação entre campos e partículas, embora essas perspectivas possam orientar a elaboração de uma teoria renovada do pré-individual. 45. A reflexão aproxima-se das teses de Bohr acerca da complementaridade entre a teoria dos quanta e a mecânica ondulatória, procurando uma via mediante a qual essas teorias até então mutuamente irredutíveis possam convergir. 46. A teoria quântica e a mecânica ondulatória podem ser compreendidas como duas modalidades diferentes de expressão do pré-individual através das diversas manifestações nas quais ele intervém sem se reduzir integralmente a nenhuma delas. 47. A partir dessa orientação metodológica, torna-se possível interpretar determinadas características da teoria quântica como manifestações de um regime pré-individual que excede as categorias próprias das individualidades já constituídas. 48. A teoria dos quanta alcança um regime do pré-individual que ultrapassa a unidade ao mostrar que a troca de energia se efetua por quantidades elementares, como se a própria energia se individuasse nas relações entre partículas consideradas, sob determinado aspecto, como indivíduos físicos. 49. No âmbito de uma filosofia analógica do como se, o quantum e o metaestável devem ser pensados como dimensões complementares de uma realidade que excede a unidade e constitui o verdadeiro domínio pré-individual anterior à oposição entre contínuo e descontínuo. 50. A necessidade física de corrigir e combinar continuamente conceitos fundamentais pode indicar que tais conceitos são adequados à realidade já individuada, mas insuficientes para apreender a realidade pré-individual. * Nenhuma certeza positiva da física pode resolver diretamente um problema filosófico como o da dimensão pré-individual de um há primordial. * Os entes individuados emergem posteriormente desse campo originário mediante processos de individuação. * O próprio ato de compreender encontra-se implicado quiasmaticamente no campo físico investigado. * A interdependência entre ser e conhecimento transforma a questão em um problema filosófico irredutível à simples positividade de qualquer teoria científica determinada. 51. A reformulação metodológica permite reavaliar o princípio de complementaridade de Niels Bohr, a articulação entre física corpuscular e mecânica ondulatória desenvolvida por Louis de Broglie, o princípio de incerteza de Heisenberg e o papel do cálculo estatístico em sua formulação matemática. * A revisão dessas categorias não pretende fornecer uma síntese física definitiva, mas repensar suas condições filosóficas de inteligibilidade. * A transdução aparece nesse contexto como um modo de pensar conjuntamente o objeto investigado e o próprio movimento de conhecimento mediante o qual ele é apreendido. * A separação entre realidade objetiva e operação cognitiva é substituída por uma estrutura na qual individuação do ser e individuação do conhecimento se correspondem. 52. A distinção heisenbergiana entre a realidade efetiva da partícula quântica e o conhecimento que o físico possui dela pode conservar um dualismo decorrente do privilégio metodológico atribuído à partícula individual como realidade fundamental, quando esta talvez constitua apenas um processo possível de individuação proveniente de uma pré-individualidade descontínua em relação ao campo de sua manifestação. 53. As consequências da problemática simondoniana são filosóficas e não apenas epistemológicas, pois a concepção não identitária dos entes, fundada num campo primordial de metastabilidade, ultrapassa os limites da física subatômica, da filosofia do objeto técnico e da individuação vital. * A primeira direção dessa investigação envolve a percepção da coisa no mundo. * A segunda abrange integralmente a problemática da criação artística. * A terceira alcança a diferença ontológica e a questão do Ser dos entes. * A referência à problemática heideggeriana do Ser é assim preservada, mas recolocada a partir de uma ontologia da individuação e da pré-individualidade. 54. A dimensão não identitária dos entes impede que a diferença ontológica seja simplesmente formulada nos termos empregados por Heidegger, pois aquilo que seria tomado como realidade individual fixa e estável do ente intramundano revela-se, sob a perspectiva da pré-individualidade, como desprovido dessa identidade substancial. * A perda da identidade fixa introduz inesperadamente a problemática do Nada no próprio interior da estrutura dos entes. * O ente deixa de poder ser compreendido como unidade plenamente constituída e autossuficiente. * Essa consequência produz um paradoxo que exige ultrapassar a formulação heideggeriana tradicional da diferença ontológica. 55. A filosofia contemporânea é conduzida, por essa transformação paradigmática, a renovar profundamente o modo de interrogar a coisa em sua relação com a pré-individualidade do mundo, constituindo mérito decisivo de Simondon ter levado essa mudança de paradigma para além do domínio estritamente epistemológico e conferido a ela alcance propriamente filosófico. {{tag>Simondon individuação}}