====== Posições filosóficas ====== //BOCHENSKI, J. M. A filosofia contemporânea ocidental. A.P. de Carvalho. [S.l.]: Editora Pedagógica e Universitária Ltda., 1975.// Sendo todo pensamento necessariamente abstrato, nada podemos fazer sem abstrações. Mas se estas são úteis, nem por isso deixam de ser perigosas. Muitas vezes são deduzidas de uma base estreita — como, por exemplo, a ciência moderna da natureza — e conduzem a uma intolerância intelectual que exclui da realidade todos aqueles elementos que não se deixam integrar no esquema abstrato. Uma vez que se levou a cabo a abstração, tem-se a tendência para considerar seus princípios como dogmas e para tomar as abstrações como a realidade. Este sofisma de deslocação do concreto (fallacy of misplaced concretness) ameaça anquilosar e dessecar a cultura. Pelo que, a primeira tarefa do filósofo consiste na crítica das abstrações. É mister examinar as ideias assentes como princípios supremos, que os sábios aceitam sem discussão, e comparar entre si os diversos esquemas abstratos (das diferentes ciências, das ciências e da religião). Por outro lado, a filosofia constrói seu próprio sistema e, para isso, apoia-se em intuições mais concretas do que as admitidas pelas ciências. Utiliza, por exemplo, as intuições dos artistas e dos gênios religiosos, às quais acrescenta suas próprias intuições. Ela não é, portanto, uma nova ciência ao lado das outras, senão que as ultrapassa a todas. A necessidade da filosofia é óbvia, uma vez que, sem este tipo de exame racional, os homens fabricariam inconscientemente sistemas sem a vigilância da razão. Portanto, seu método deve ser racional. Whitehead denuncia a capitulação da razão perante os fatos, que se verificou em nosso tempo, e espera que chegou já a hora de um verdadeiro racionalismo. A exigência do racionalismo baseia-se na intuição imediata da racionalidade do mundo. Não é possível mostrar esta racionalidade indutivamente nem tampouco demonstrá-la pela dedução, mas uma visão direta permite-nos ver que o mundo é regido pelas leis lógicas e por uma harmonia estética. Só a crença (belief) fundada nesta intuição pode tornar a ciência possível. Numa série de considerações verdadeiramente admiráveis, mostra Whitehead como esta convicção foi evoluindo através do drama grego e dos pensadores da Antiguidade e da Idade Média. Insiste em que esta crença não é uma fé cega: o próprio ser é racional e inteligível, e basta perceber isso para ficar convencido. Contudo, Whitehead não é racionalista no sentido clássico e estrito da palavra. Para ele, só o contato com o concreto é fecundo, e o fundamento das coisas deve sempre ser procurado na natureza dos entes reais determinados. "Onde não há ente existente, não há fundamento". O filósofo explica o abstrato, não o concreto. Só a experiência nos pode desvendar a verdade. Ocioso seria advertir que para Whitehead, como para Husserl, a experiência não se limita ao conhecimento sensível. Whitehead reforça ainda seu empirismo mediante a tese de que a metafísica não pode ser senão descritiva. Põe também de sobreaviso os filósofos contra o emprego dos métodos das ciências da natureza. Não se chega à crítica das abstrações por meio de generalizações empíricas. Não seria menos insensato pretender fundar a metafísica na história, dado que toda interpretação da história pressupõe uma metafísica elaborada. {{tag>Whitehead Bochenski filosofia}}