====== Cibernética ====== //CONWAY, Flo; SIEGELMAN, Jim. Dark hero of the information age: in search of Norbert Wiener, the father of cybernetics. New York: Basic books, 2005.// 1. A viagem de Wiener à Europa em maio de 1947 é marcada por uma convergência cósmica rara, com um cometa e um eclipse solar total precedendo sua travessia do Atlântico. 2. Após breve estadia em Londres na casa de Haldane, Wiener percorre a Grã-Bretanha para encontrar os principais responsáveis pela construção do primeiro computador digital programável de propósito geral. * Encontros ocorrem com equipes de Cambridge e Manchester que desenvolvem máquinas baseadas na arquitetura de von Neumann. * Em Teddington, Wiener conversa com Alan Turing sobre sua nova ciência da comunicação e controle, considerando o ambiente britânico maduro para assimilar as novas ideias. 3. A verdadeira razão da viagem é a conferência internacional sobre análise harmônica no Collège de France, organizada por Szolem Mandelbrojt, na qual o trabalho de Wiener ocupa posição central. 4. Em Paris, após a conferência, um encontro decisivo lança as bases para a difusão da nova ciência no continente europeu. 5. O clima de renascimento parisiense do pós-guerra emoldura o caminho de Wiener até uma pequena livraria em frente à Sorbonne, onde ocorre o encontro arranjado com o editor Freymann, da editora Hermann et Cie. 6. Freymann conquista o respeito e a confiança de Wiener ao relatar suas façanhas profissionais e a transformação de compromissos editoriais em uma editora quase isenta de fins lucrativos. 7. O relato de Pierre de Latil registra o diálogo em que Freymann propõe a Wiener escrever um livro sobre suas teorias, apesar da hesitação inicial de Wiener quanto à maturidade do público. 8. O contrato é selado informalmente sobre uma xícara de chocolate quente numa confeitaria vizinha, com prazo de três meses para entrega do manuscrito. 9. Freymann, segundo Latil, duvidava que Wiener cumpriria o compromisso, e o assunto não é mais mencionado durante o restante da estadia parisiense. 10. Wiener, contudo, leva a promessa a sério, e o livro nasce de uma explosão criativa controlada, impulsionada pelo entusiasmo de disseminar suas ideias a um público internacional; o trabalho de redação, porém, ocorre no México, durante nova temporada com Rosenblueth no Instituto Nacional de Cardiología. 11. Wiener reconhece desde cedo que sua tarefa como autor ultrapassava o técnico, envolvendo uma nova interpretação do homem, do conhecimento humano sobre o universo e da sociedade. 12. A redação ocorre à mão, em blocos de papel pautado, num misto de disciplina e humor maníaco, em diferentes espaços físicos ligados ao Instituto, sendo as manhãs o período de maior fluência criativa. * A nova teoria da comunicação combina engenharia e biologia, termodinâmica e homeostase, informação e entropia, máquinas de calcular e sistemas nervosos. 13. A matemática avançada produzida por Wiener flui em notações abreviadas, enquanto os conceitos da Gestalt, da antropologia e de outras ciências sociais absorvidos nas reuniões Macy se encaixam no quadro mais amplo dos efeitos da informação sobre percepção, personalidade e cultura. 14. Restava apenas encontrar um nome para a nova ciência. 15. A busca pelo termo adequado leva Wiener a recorrer ao grego clássico, descartando "angelos" por sua conotação religiosa e optando por "kubernêtês", termo para timoneiro, adaptado à pronúncia inglesa como cibernética. 16. A etimologia escolhida remonta aos timoneiros da épica grega e à reflexão socrática sobre a arte do piloto, que salva vidas sem ostentação, prefigurando simbolicamente a missão de Wiener dois milênios depois. 17. O termo sobrevive através dos séculos, tendo sido usado por Ampère para descrever a arte de governar e, em sua forma latina gubernātor, empregado por Watt e consagrado por Maxwell no artigo "On Governors", associando-se aos primeiros dispositivos de direção automática das embarcações a vapor. 18. Wiener nomeia sua nova ciência de cibernética em homenagem aos timoneiros da Antiguidade e aos primeiros dispositivos cibernéticos práticos da era industrial. 19. Três meses após o acordo verbal, o manuscrito chega por correio aéreo a Freymann, que o coloca imediatamente em produção, apesar da resposta cifrada de Wiener sobre superar duas vezes a eficiência americana. 20. A publicação iminente surpreende o MIT, cujos dirigentes tentam recuperar os direitos da obra junto a Freymann, resultando em acordo de publicação conjunta com direitos autorais mantidos pela editora francesa. 21. As provas do livro sofrem com a falha visual crescente de Wiener e um erro na revisão feita por Walter Pitts e Oliver Selfridge, que devolveram a cópia não corrigida à França, resultando numa edição com problemas. 22. McCulloch percebe, na quinta conferência Macy, a ansiedade excessiva de Wiener quanto à recepção do livro, interpretando-a não como vaidade infantil, mas como a urgência de um profeta com mensagem a entregar. 23. "Cybernetics" é publicado simultaneamente na França e nos Estados Unidos em 22 de outubro de 1948, recebendo críticas científicas mistas quanto à abstração, estrutura e erros matemáticos. * A primeira crítica é inevitável dado o tema altamente teórico. * A segunda é discutível, dado o estilo conversacional e multidimensional de Wiener. * A terceira é incontestável, resultado de erros reais na primeira edição. 24. Apesar das falhas, "Cybernetics" é considerado obra-prima do raciocínio e da escrita científica, permanecendo, segundo a revista American Scientist, entre as obras mais influentes da ciência do século vinte. 25. A introdução do livro recapitula a história da nova ciência e reconhece seus precursores filosóficos e matemáticos, além de creditar colaboradores contemporâneos como Bush, Lee, McCulloch, Pitts, Turing, Aiken, von Neumann e Shannon. 26. Wiener atribui a origem da cibernética não à tecnologia, mas à biologia, remetendo aos seminários de Rosenblueth em Harvard e à busca conjunta por territórios interdisciplinares ainda inexplorados na ciência. 27. Wiener reconhece cuidadosamente todos os aliados dessas regiões fronteiriças, atribuindo a síntese da cibernética à percepção coletiva de unidade entre os problemas de comunicação e controle, apesar da ausência inicial de terminologia comum. 28. O livro expõe os novos termos e conceitos da cibernética, ampliando a noção fundamental de mensagem e formulando precisamente a teoria estatística da quantidade de informação. 29. A distinção entre informação discreta e contínua é estabelecida, junto à prova matemática de que informação é ordem, o negativo da entropia, sustentando aplicações práticas em engenharia de comunicação e à equivalência entre feedback de engenharia e homeostase fisiológica. 30. No ponto central do livro, Wiener reúne seus conceitos fundamentais, demonstrando que os métodos técnicos de controle por retroalimentação informativa correspondem aos processos universais selecionados pela natureza para os seres vivos. 31. O princípio universal do feedback é estabelecido para além de mera ideia técnica, com exemplos de retroalimentação negativa e positiva em sistemas mecânicos, elétricos e vivos, incluindo distúrbios neurológicos e o caso dos motoristas em pistas geladas. 32. Todo sistema de comunicação necessita de equilíbrio saudável entre feedback negativo e positivo para sobreviver e se adaptar, conceito que se dissemina amplamente na cultura da era da informação. 33. Wiener amplia as conexões entre seres humanos e máquinas, incorporando insights psicológicos das conferências Macy e propondo tecnologia de percepção computacional inspirada nas ondas cerebrais do córtex visual. 34. Wiener sugere que distúrbios mentais funcionais correspondem a doenças da memória e da informação circulante no cérebro, comparando processos patológicos mentais à sobrecarga de informação nos sistemas técnicos. 35. Nos capítulos finais, Wiener introduz as dimensões sociais e culturais da cibernética, descrevendo os processos homeostáticos estabilizadores encontrados tanto em comunidades pequenas quanto em sociedades desenvolvidas, com reservas quanto às culturas de comunicação de massa. 36. Pela primeira vez em sua escrita profissional, Wiener injeta crítica social explícita, denunciando a escassez de processos homeostáticos saudáveis nas grandes sociedades desenvolvidas e a manipulação da comunicação de massa por interesses econômicos e políticos. 37. "Cybernetics" combina rigor matemático com estilo vigoroso e provocador, herdado de sua época como repórter no Boston Herald, incluindo a célebre afirmação de que informação não é matéria nem energia. 38. Wiener expressa esperança quanto à nova era tecnológica, mas também introduz a preocupação com as consequências humanas da cibernética, temendo que a segunda revolução industrial desvalorizasse o trabalho intelectual como a primeira desvalorizara o trabalho manual. 39. Wiener declara sua posição moral desconfortável diante de uma ciência entregue a um mundo marcado por Belsen e Hiroshima, comprometendo-se a limitar seus esforços pessoais aos campos mais distantes da guerra e da exploração. 40. "Cybernetics" impacta imediatamente o mundo pós-guerra, sendo recebido com destaque pela Scientific American e pela Newsweek, que retrata Wiener como gênio precoce transformado em professor articulado. 41. A Time Magazine relata o fenômeno editorial provocado pelo livro em várias ciências simultaneamente, reconhecendo tanto a substância da nova síntese quanto a ansiedade de Wiener frente às consequências futuras. 42. O livro alcança cinco edições em seis meses, tornando-se sucesso editorial inesperado até para o próprio Wiener e seu editor francês. 43. A Business Week compara o fenômeno de "Cybernetics" ao relatório Kinsey, destacando a repercussão pública desproporcional ao público técnico originalmente esperado, enquanto o New York Times descreve Wiener como figura de energia nervosa e entusiasmo por novas ideias. 44. O sucesso do livro se conecta ao clima de sensibilidade pública para ciência e tecnologia no pós-guerra, alimentado pelos triunfos tecnológicos aliados e pelo temor da substituição do trabalho humano por máquinas. 45. Os técnicos da indústria pesada e eletrônica estavam preparados para receber as ideias de Wiener, num contexto de crescimento geométrico dos dispositivos de retroalimentação comercial desde Maxwell, ainda carente de base teórica sólida. 46. Engenheiros mecânicos mal percebiam a conexão entre os circuitos eletrônicos de retroalimentação do Bell Labs e seus próprios mecanismos pesados, faltando compreensão clara da dinâmica dos sistemas controlados mesmo dentro do MIT. 47. Após "Cybernetics", é publicada a versão atualizada do relatório de guerra de Wiener, "Extrapolation, Interpolation and Smoothing of Stationary Time Series", que juntamente com o primeiro livro transforma o mundo da engenharia do pós-guerra. 48. Gordon Raisbeck relembra o impacto repentino dos trabalhos de Wiener sobre a codificação e detecção de sinais entre engenheiros, marcando seu reconhecimento tardio fora do MIT. 49. Kevin Kelly, historiador posterior, descreve como os circuitos de controle eletrônico revolucionaram a indústria pouco depois da publicação, graças à generalização brilhante apresentada em "Cybernetics". 50. A expansão industrial, o crescimento econômico e o progresso tecnológico do pós-guerra devem muito ao trabalho de Wiener, que alterou métodos de produção, tarefas trabalhistas e hábitos de consumo. 51. O sucesso de "Cybernetics" eleva Wiener ao status de gênio certificado e superestrela científica, com aparições em Life, Fortune, The New Yorker e Le Monde, além de convites para palestras acadêmicas de prestígio. 52. Apesar da fama pública, o respeito dos pares importava mais a Wiener, sendo o lançamento do livro celebrado com júbilo pelo grupo Macy, apesar da reserva irônica de McCulloch quanto à popularidade excessiva da obra. 53. Heinz von Foerster relembra a emoção de Wiener ao ver sua proposta de nomear a conferência Macy de "Cibernética" aceita com aplausos, levando-o às lágrimas. 54. A fundação Macy endossa o consenso do grupo, e as conferências seguintes passam a se chamar oficialmente "Cibernética". 55. Paralelamente à publicação de "Cybernetics", surge o artigo de Claude Shannon que lança a ciência irmã da teoria da informação. 56. Shannon, também fascinado por eletrônica desde jovem, desenvolve no MIT sua tese sobre lógica simbólica de circuitos de comutação, provando a viabilidade de operações complexas por circuitos binários. 57. Wiener reconhece precocemente a originalidade de Shannon, embora tenha se cansado, ao longo do tempo, das visitas frequentes deste a seu laboratório durante a guerra. 58. O artigo de Shannon, "A Mathematical Theory of Communication", constrói-se sobre o trabalho de Wiener, adotando abordagem estatística semelhante, mas divergindo ao definir informação como equivalente à entropia, não como sua negativa. 59. O artigo de Shannon introduz o conceito de bit, proposto por Tukey, e estabelece fórmulas precisas de capacidade de canal e redundância, além de separar deliberadamente a informação técnica de qualquer consideração semântica. 60. A primeira parte do artigo de Shannon trata de mensagens discretas ligadas à criptografia, enquanto a segunda, publicada simultaneamente a "Cybernetics", aborda mensagens contínuas, domínio que era o foco predominante de Wiener. 61. Shannon reconhece explicitamente a dívida de sua teoria com o trabalho de guerra de Wiener, citando o relatório Yellow Peril como formulação pioneira do problema estatístico da comunicação. 62. O artigo técnico de Shannon é posteriormente reeditado em livro coautorado com Warren Weaver, que reinterpreta a teoria para leitores não técnicos. 63. A teoria matemática da comunicação de Shannon explode entre os engenheiros com força equiparável à de uma bomba, sendo o crédito da teoria da informação atribuído majoritariamente a ele, apesar de reconhecer a influência de Wiener. 64. Wiener ressente-se do reconhecimento conferido a Shannon por ideias compartilhadas em sessões privadas, reivindicando publicamente coautoria conceitual da definição de quantidade de informação. 65. Ambos os cientistas recebem crédito por contribuições complementares: a concepção discreta e digital de Shannon, derivada da criptografia de guerra, e a concepção contínua e analógica de Wiener, desenvolvida estatisticamente desde os anos 1920. 66. A abordagem técnica de Shannon gera controvérsia entre teóricos da comunicação, especialmente quanto à exclusão do significado semântico da teoria da informação, ampliada de forma confusa por Weaver a todas as formas de comportamento humano. 67. Nas conferências Macy, cientistas sociais como Heinz von Foerster contestam a exclusão semântica de Shannon, argumentando que informação sem significado seria apenas sinal, não informação verdadeira. 68. Décadas depois, Shannon e sua esposa Betty esclarecem, em entrevista, que ele nunca reivindicou ter fundado uma "teoria da informação", tendo se referido sempre a uma teoria da comunicação, distinção que ecoa o argumento de von Foerster. 69. Betty relata o desconforto de Shannon ao ver seu trabalho tomado por proporções filosóficas alheias às suas intenções puramente técnicas, reafirmando que o significado ficava além do escopo da engenharia. 70. A concepção de informação de Wiener supera as de Shannon e Weaver, sendo entendida não como sequência de bits, mas como medida do grau de organização de um sistema, unindo engenharia e biologia. 71. O conceito de organização, herdado da biologia teórica e reforçado pelas discussões com Rosenblueth, Cannon e Schrödinger, confere à informação em Wiener uma qualidade dinâmica que une os mundos animado e inanimado. 72. Essa unidade essencial dos processos analógicos e digitais de informação, segundo Wiener, perpassa toda a natureza, a sociedade e a invenção humana, embora seus colegas engenheiros ainda não apreendessem plenamente essa dimensão biológica. 73. Em Princeton, John von Neumann acompanha esses desenvolvimentos enquanto enfrenta atrasos no projeto de seu computador digital IAS, tornando-se cada vez mais interessado nos problemas centrais da cibernética. 74. Von Neumann volta sua atenção dos processos inanimados para os processos complexos da vida - organização, crescimento, adaptação e reprodução -, questionando como organismos simples realizam tais funções. 75. Von Neumann discute com McCulloch a construção de computadores confiáveis a partir de componentes não confiáveis, buscando modelar máquinas inteligentes segundo organismos celulares capazes de autoprogramação. 76. No simpósio Hixon em setembro de 1948, von Neumann apresenta sua "Teoria Geral e Lógica dos Autômatos", criticando o modelo de McCulloch-Pitts e propondo um autômato autorreplicante que antecipa a descoberta do DNA. 77. Von Neumann incorpora ideias de Wiener em sua teoria geral dos autômatos, reconhecendo a fraqueza dos modelos digitais estritos e defendendo nova lógica baseada em termodinâmica e métodos estatísticos de medição da informação. 78. O movimento da cibernética avança simultaneamente na Inglaterra, onde Haldane aplica as teorias de Wiener à genética e Kalmus publica artigo sobre o aspecto cibernético da hereditariedade. 79. Também em 1950, Ludwig von Bertalanffy publica em inglês sua "teoria geral dos sistemas", complementar à cibernética em suas raízes biológicas, embora tenha mantido distância do círculo de Wiener e eventualmente atacado a cibernética. 80. A influência de Wiener alcança também a psiquiatria, quando Gregory Bateson se associa a Jurgen Ruesch para desenvolver a primeira teoria da comunicação humana informada pelos princípios cibernéticos. 81. Em 1950, Wiener publica sua primeira obra popular sobre cibernética, "The Human Use of Human Beings: Cybernetics and Society", abrangendo múltiplos domínios técnicos e sociais e tornando-se seu maior sucesso editorial até então. 82. O impacto de "Cybernetics" permite pela primeira vez compreender o novo mundo tecnológico em suas dimensões técnica e humana simultaneamente, acrescentando informação e comunicação como novas dimensões do universo. 83. McCulloch celebra o marco histórico da cibernética como desafio à lógica e à matemática e como anúncio do fim do dualismo e do reducionismo filosóficos. 84. Bateson declara entusiasticamente que a cibernética representa a maior conquista intelectual da humanidade em dois mil anos. 85. Com rapidez surpreendente, a nova ciência de Wiener fornece base conceitual e prática para a produção de maquinaria automática e para pesquisas nas ciências exatas, biológicas e sociais. 86. Wiener, em meados dos seus cinquenta anos, cumpre finalmente sua promessa de prodígio, ainda que o triunfo alcançado traga novas pressões sobre sua família e inquietação crescente em Margaret Wiener quanto ao círculo íntimo de seu marido. {{tag>Wiener cibernética informática}}