Bertin, Jacques, Sémiologie graphique, Les diagrammes – Les réseaux – Les cartes, Paris, Editions de l’EHESS, 4e éditions, 2005 (1ère édition : Paris, Editions Gauthier-Villar, 1967).
O uso de “gráficos” parece hoje ser parte integrante das ciências sociais. Embora as simples tabelas numéricas e estatísticas tenham sido rapidamente adotadas pela história, pela psicologia e pela sociologia (a partir, principalmente, dos levantamentos e censos realizados pelos diversos órgãos burocráticos dos Estados, relativos à distribuição demográfica, aos bens imóveis e móveis, aos casos de delinquência e criminalidade, etc.), os “ diagramas ”, « redes » e, sobretudo, « mapas » desenvolveram-se nas últimas décadas do século XIX, enquanto seu uso parece ter crescido ao longo de todo o século XX. No entanto, a esses modos de representação, cujo uso se tornou quase automático, poucos estudiosos dedicaram um estudo crítico abrangente, até que, principalmente a partir da década de 1960, surgiu Jacques Bertin, de cujos trabalhos metodológicos e epistemológicos apresentamos aqui um trecho.
Um gráfico tem como finalidade reduzir a grupos e relações ao mesmo tempo simples e globais a complexa multiplicidade de dados, respectivamente parciais, de um conjunto de informações (uma informação, em última análise, é a relação entre duas ou mais variáveis, como no fato de que Émile Durkheim, variável “a”, viveu (esteve presente) no período entre 1858 e 1917, variável “b”, ou que ele é o autor, variável “c”, das “Regras do Método Sociológico”, variável “d”). Por meio do gráfico, as variáveis são posicionadas umas em relação às outras em um sistema de relações espaciais, sistema que utiliza signos puramente arbitrários (e não figurativos, como na simbologia, que não é de forma alguma abordada aqui por este método). Esses signos são “monosêmicos”, sendo seu sentido único predefinido por convenção. Nesse contexto, uma “rede” representa as relações entre os elementos de um mesmo conjunto de variáveis (de X ou de Y); um mapa sempre mostra, em um único conjunto, as relações originalmente espaciais entre os elementos, enquanto um diagrama desenvolve as relações entre os elementos de vários conjuntos (entre X e Y).
A representação visual das informações oferece, em primeiro lugar, uma memória artificial e, por isso mesmo, ainda mais eficiente; memória na qual, posteriormente, ao traduzir dados na forma de imagem na dimensão espacial, é possível, por meio de uma visão global sempre permutável (várias direções e diversos percursos possíveis na abordagem dos elementos), perceber relações e estruturas imperceptíveis na escrita e na leitura da linguagem verbal ou mesmo matemática. De fato, esta última, que se desenrola no eixo do tempo, onde os sinais se sucedem de forma sucessiva e unitária, segmenta excessivamente os dados, tendendo a confiná-los em si mesmos, favorecendo assim mais uma abordagem analítica do que uma concepção sintética. O olho capta instantaneamente um agrupamento que o ouvido só integra mais lentamente, parte por parte. Essa liberdade que poderíamos qualificar de “panorâmica”, concedida pela representação visual (talvez pudéssemos dizer, com mais precisão, “espacial”), permite, portanto, modificar a disposição dos dados informativos, os quais são sempre percebidos em seu conjunto, e esse conjunto de conhecimentos torna-se “plástico” no modo visual. A mente, ao formular uma série de perguntas de acordo com os objetivos de conhecimento que a preocupam, detectará, em resposta, relações mais ou menos significativas que selecionará e organizará da melhor maneira possível (na verdade, nada aparece sem questionamento e manipulação tanto por parte do receptor quanto do produtor da representação gráfica). Essa compreensão sincrônica e essa “transformabilidade” do conjunto de dados oferecem, assim, um campo de experimentação heurística.
Mas o processo de construção não apresenta nada de automático nem de garantido. Uma representação gráfica, para se tornar eficiente e, sobretudo, para não constituir um obstáculo indesejado ao processamento da informação, exige inúmeras precauções que devem ser constantemente repetidas e aperfeiçoadas. Para um diagrama, por exemplo, as operações mais importantes (repetíveis segundo um processo de tentativa e erro) residem, em primeiro lugar, na escolha dos elementos pertinentes a serem colocados em X e em Y. Nesse sentido, segundo Jacques Bertin, a apreensão perceptiva e a compreensão intelectual tornam-se ótimas no diagrama com a interação de três pólos relacionados (três conjuntos de variáveis): X, Y e Z. Vale lembrar que X e Y são os dois eixos (dimensões) perpendiculares do plano, dimensões divisíveis em graus determináveis, e Z é a dimensão mais ou menos variável (de 0 até a totalidade dos graus de X e/ou Y) do dado que se encontra na interseção da distribuição de X e de Y. Para Z, a escolha recai sobre as melhores formas (superfícies quadradas, circulares, etc.), os melhores fundos (cores, gradientes de luminosidade, motivos como ranhuras ou pontilhados, etc.) e as melhores posições. É preciso buscar as formas, os fundos e as posições que proporcionem maior facilidade de reconhecimento tanto nos agrupamentos quanto nas diferenciações. Com a escolha da escala ou das escalas, trata-se aqui de opções cruciais cujo desfecho pode favorecer ou dificultar a busca e a descoberta da percepção (e, portanto, da compreensão) das relações que importam.
Ferramenta altamente delicada, tão frágil quanto poderosa, o gráfico deve ser utilizado com uma semiologia mais do que crítica como manual de instruções.
Bernard Dantier (8 décembre 2008) Textes de méthodologie en sciences sociales. “La représentation et l’étude visuelles des informations: Jacques Bertin, Sémiologie graphique