Le déchiffrement du monde: théorie et pratique de la géographie. Paris: Belin, 2017.
1. O espaço geográfico constitui produto e dimensão das sociedades humanas, resultando dos atos de habitar, apropriar, explorar, percorrer e gerir, sobre os quais se debruça o vocabulário geográfico de lugar, localização, espaço, território, posição e situação.
2. As questões geográficas fundamentais reduzem-se a interrogações simples sobre onde se está, o que existe ali e por que aquele lugar apresenta tal configuração, remetendo etimologicamente todos esses advérbios a uma antiga raiz demonstrativa comum.
O que tem lugar
3. O lugar constitui o átomo irredutível do espaço geográfico, sendo um ponto único e identificável do globo, sem que existam dois lugares rigorosamente idênticos.
4. Todo lugar possui posição, definida por coordenadas exatas e inconfundíveis, e situação, apreciada de modo mais complexo em relação aos vizinhos e a lugares distantes com os quais mantém relação.
5. A localização difere do lugar por vinculá-lo aos demais, supondo que estar ali e não alhures produz sentido e implicações particulares para quem ali reside ou passa.
6. Investigar o que produziu determinado lugar remete de imediato à questão inversa de sua semelhança com outros lugares e à possibilidade de a geografia comparada fundamentar conhecimento e pedagogia.
7. Localizar comporta três sentidos articulados entre si, sendo o de ato de observação e exposição o trabalho primordial do geógrafo, pois implica anunciar o meio, o tecido de relações e as determinações envolvidas.
8. Localizar equivale a relativizar, chamando atenção para o caráter não necessariamente universal dos fenômenos, o que leva a reconhecer nas localizações tanto sua singularidade quanto seus traços partilhados.
O espaço e os espaços
9. A atividade humana produz espaços particulares e, em sentido mais amplo, o espaço geográfico como campo de elaboração de leis e regularidades que modelam esses espaços particulares.
10. Um espaço geográfico particular define-se como porção da superfície terrestre caracterizada por extensão e atributos localizados, configurada por lugares distantes entre si e associados por relações horizontais e verticais.
11. O espaço geográfico constitui-se de um conjunto de lugares de diversas naturezas, alguns designados por nomes genéricos que expressam estrutura e sistema comuns, outros por nomes próprios.
12. O espaço geográfico não se confunde nem com o espaço abstrato das teorias econômicas nem com o espaço físico natural, sendo antes habitado, percorrido e humanizado, nascido do trabalho das sociedades.
13. O espaço geográfico não se reduz ao visível, abarcando o conjunto das relações localizadas e localizáveis entre lugares e entre indivíduos e grupos, para além dos objetos materiais que o povoam.
14. Enquanto representação, o espaço geográfico distingue-se de outras categorias filosóficas por incorporar a realidade dos lugares diferenciados e suas relações, implicando concebê-lo como produto anisotrópico e dissimétrico.
O terreno e o território
15. O espaço não se confunde com o terreno, termo que designa tanto uma extensão de terra delimitada quanto o campo de exercício de uma atividade ou o objeto de observação militar e geográfica.
16. O território comporta um sentido banal, de simples porção delimitada do espaço terrestre, e um sentido forte, que envolve apropriação, pertencimento e uso.
17. Restringir a geografia à ideia de território constituiria erro, pois essa noção transforma facilmente a apropriação em relação de conflito, aproximando-se de discursos de hostilidade e exclusão.
18. Os adjetivos espacial, territorial e geográfico permanecem, ao contrário dos substantivos correspondentes, relativamente neutros e sinônimos, remetendo todos à mesma dimensão de posições, situações, distâncias e extensões.
O passo mais leve
19. A generalização da categoria de espaço na geografia expressou uma ambição científica de romper com a visão de um meio passivo, mera cena natural preexistente à ação humana.
20. Mesmo objetos aparentemente naturais, como o deserto ou a alta montanha, revelam-se mediatizados e recriados pelas representações, traços e itinerários que neles deixam seus frequentadores.
21. Nenhuma sociedade ou grupo social existe sem espaço geográfico, tanto quanto não existe sem memória, comunicação, regra, trabalho e organização.
22. Toda sociedade, pelo simples fato de existir, produz bens, técnicas, informação, cultura, crenças, linguagem, instituições, história e relações sociais.
23. A sociedade produz igualmente espaço, tanto material e visível quanto organizacional, sendo o espaço geográfico fruto cotidiano da prática social sobre a qual ele próprio incide.
24. Indivíduos e sociedades criam espaço diariamente por meio de inúmeras ações concretas, sendo o gesto mais leve, se repetido, capaz de deixar traço indelével.
25. A produção do espaço não se reserva às sociedades dotadas de meios técnicos poderosos, sendo em grande parte involuntária e podendo, se mal conduzida, comprometer a reprodução do corpo social.
26. Cinco domínios fundamentais de ação humana modelam o espaço geográfico: habitar, apropriar, explorar, trocar e organizar.
Habitar, abrigar-se
27. Frequentar lugares equivale a habitá-los, verbo cuja origem latina remete simultaneamente ao ser e ao ter, associando o ser humano a hábitos e a um espaço próprio.
28. Habitar, em sentido forte, ultrapassa o simples alojar-se, implicando dar vida e tomar posse, produzindo cidades, vilas, residências e uma vasta gama de formas de habitat que constituem preocupação central dos governos.
A apropriação geral
29. A apropriação constitui noção dupla, que reúne posse e aptidão, permitindo dispor de uma extensão sem necessariamente implicar propriedade no sentido jurídico estrito.
30. Populações concentradas, dispersas, diásporas, nômades ou grupos itinerantes mantêm todos formas próprias de espaço, com bases, itinerários e redes de solidariedade bem fixados.
31. Não seria exato afirmar que uns grupos possuem território e outros não, pois todo indivíduo ou grupo necessita de espaço apropriado, conhecido, defendido e gerido.
32. Todas as terras emergidas encontram-se atribuídas a algum Estado, incluindo espaço aéreo e subsolo, ainda que apenas parte delas pertença a proprietários individuais.
33. A Antártica figura como bem comum da humanidade, o espaço estratosférico escapa aos Estados e o alto mar, embora não pertença a ninguém, é objeto de intensa disputa de fato conforme sua frequentação.
34. A apropriação do espaço não se limita aos Estados, envolvendo também povos sem Estado, coletividades locais, propriedades individuais e usos de longa data defendidos inclusive pela força.
35. A partição do espaço cria e desloca limites específicos, afetando tanto os elementos de base do grupo social quanto as necessidades da produção, cabendo indagar quem delimita e regula essas atribuições.
A exploração do espaço
36. Explorar o espaço apropriado pressupõe dele tirar proveito com os meios institucionais, técnicos e organizacionais disponíveis, como ilustram os complexos sistemas agrários europeus de rotação e uso coletivo.
37. Diferentes sociedades apresentam graus variados de fixidez territorial, desde a agricultura itinerante sobre queimadas até organizações extremamente estáveis exigidas por grandes investimentos como irrigação e terraços.
38. As instalações das civilizações industriais revelam-se, contrariamente às aparências, frequentemente menos permanentes, sendo hoje a maioria das afetações do espaço programada para durações reduzidas.
Qualidades dos lugares, especialidades locais
39. A valorização do espaço vincula-se a uma divisão espacial do trabalho que especializa os lugares, ainda que as chamadas vocações ou potencialidades dos sítios resultem antes de compromissos entre interesses divergentes.
40. Os sítios mais disputados correspondem aos considerados vantajosos, noção que a ideia popular de terroir capta ao reconhecer qualidades específicas de certos lugares para determinadas produções.
41. A sabedoria camponesa pode contradizer-se e legitimar práticas de origem esquecida, como demonstra a distribuição de vinhedos franceses, mais explicável pela navegação fluvial e pelo esforço dos produtores do que pelas potencialidades agronômicas.
42. O geógrafo observa situações efetivamente realizadas pela ação humana, e não aptidões teóricas intrínsecas, podendo grupos humanos instalar-se com sucesso em sítios considerados desfavoráveis segundo critérios próprios.
43. A partição e apropriação dos fragmentos do espaço dependem da organização social e das representações que as sociedades constroem sobre suas necessidades e sobre as qualidades dos lugares, incluindo custo, regime fundiário e acessibilidade.
Comunicar, trocar
44. Uma vez apropriados e explorados, os fragmentos do espaço tornam-se diferenciados, exigindo a superação da distância, já que toda produção supõe acesso ao local de trabalho e gera fluxos de circulação.
45. A especialização dos lugares de produção supõe comunicação entre eles e com os consumidores, constituindo o espaço geográfico um espaço de transação mesmo nas sociedades menos diferenciadas.
46. A comunicação cria por sua vez espaço próprio, materializado em lugares de circulação, troca, armazenamento, informação e encontro que estruturam e produzem o espaço geográfico.
Governar
47. Todo corpo social necessita governar-se ou ser governado, no sentido de traçar caminho e gerir, para assegurar sua integração e a resolução de seus conflitos internos.
48. Regem e gerem diretamente o espaço as coletividades territoriais, diversos ministérios, técnicos, notários e forças de ordem, que organizam, equipam e vigiam o território.
49. Além dos agentes administrativos, as sociedades elaboraram símbolos e edifícios sagrados de comunhão, opondo-se a eles lugares de alienação como prisões e hospitais psiquiátricos.
50. Habitar, apropriar, explorar, comunicar e governar fazem e refazem permanentemente o espaço, gerando fronteiras, redes, parcelamentos e estruturas invisíveis como as diferenças na acumulação de capital.
51. Esses atos cotidianos moldam a geografia do mundo, justificando a necessidade de investigar seus agentes e as razões, ou desrazões, que os orientam.