Brunet

Roger Brunet (1931)

Le déchiffrement du monde: théorie et pratique de la géographie. Paris: Belin, 2017.

Quando o mundo muda, surgem novas referências. Dia após dia, os lugares mais distantes ganham destaque na mídia, e sua aparição desperta curiosidade. A dimensão das notícias diárias tornou-se global; o mundo funciona como um sistema. O aparente silêncio das ideologias simplistas amplifica seus ecos. Esses ruídos do globo precipitam buscas por sentido, multiplicam as questões ontológicas e dão início a jornadas de busca pela identidade individual e coletiva por meio de lugares, países, regiões, nações e outras comunidades: ali onde a onda liberalista pretende abrir caminhos, fechamentos e retrancações se multiplicam.

Por tudo isso, difundem-se cada vez mais informações, mapas, atlas; e noções de todos os tipos, que se erguem nos cumes do pensamento, ou rastejam nos sulcos do instinto e dos preconceitos, e às vezes oscilam de um para o outro. Pois conhecer o Mundo, os vizinhos, parceiros e concorrentes, pressupõe, de fato, algumas regras, com bússola e compasso. A geografia, para chamá-la pelo nome, é solicitada justamente no momento em que mentes levianas proclamam sua morte, após a da história. Isso também se deve ao fato de que, entretanto, ela se tornou um conhecimento aprofundado, ordenado e racional. Há muito tempo deixou de ser apenas poeira de lugares e topônimos, ou cosmogonia mística. Ela muda tanto como ciência quanto como conhecimento.

A geografia tem seus momentos de destaque e seus momentos de elaboração mais lenta. Possui suas formas originais de pensamento, seus conceitos e seus métodos próprios. Possui seus empréstimos, suas analogias fecundas ou enganosas. Respira o ar da época e participa dos debates de ideias. É construída todos os dias, por mais de um caminho. Proclamar o advento de uma “nova geografia” nunca fez mais sentido do que decretar sua crise, profetizar sua extinção ou sua ascensão. Ela está viva, ganhou em diversidade, cruzou-se com suas disciplinas vizinhas. Isso resultou em fertilizações mutuamente benéficas e em questionamentos cada vez mais precisos sobre seu lugar e sua contribuição para o conhecimento e o intercâmbio científico.

Nesse movimento, é necessário, de tempos em tempos, fazer um balanço e coordenar as informações. Tive que tentar construir e representar, em um conjunto coerente, o mundo da geografia como prática científica. Essa construção foi auxiliada e aprimorada pelos debates e revisões dos autores da Geografia Universal, aos quais expresso aqui minha gratidão. A demanda dos professores me levou a retomar a maior parte da minha contribuição para o primeiro volume da coleção. A reflexão me levou a alterar nela o que o tempo pôde ter modificado. A escolha de uma nova forma, modesta e mais acessível, especialmente aos estudantes, exigiu reduzir a ilustração ao essencial.

O geógrafo é ambicioso e modesto. Ambicioso, pois seu campo de pesquisa abrange o mundo inteiro. Modesto, pois sabe que muitos outros especialistas têm o mesmo material e que, portanto, deve definir com mais precisão qual é seu campo de atuação, seu ângulo de abordagem e seu objeto específico. Sua prática e a de seus colegas fizeram evoluir a divisão do trabalho científico: hoje, o geógrafo busca principalmente compreender a diferenciação e a organização do espaço mundial em geral, e a singularidade de cada lugar ou conjunto de lugares em particular.

O reconhecimento e o conhecimento do geógrafo referem-se a lugares, a territórios; mas são inseparáveis das pessoas que neles vivem, os produzem e os reproduzem, transformando-os. O Mundo não é a Terra. Ele é visto aqui como uma obra humana, sobre um globo que já existe. Suas formas e divisões nasceram de um longo trabalho, do trabalho cotidiano das sociedades: da prática. Devemos procurar compreender esse duplo processo de diferenciação e organização que molda, dia após dia, o espaço dos homens no globo.

O geógrafo, assim como qualquer outro cientista, não pode se limitar a descrever resultados. Ele deve identificar o que está em jogo e o que cria o espaço da humanidade. As modalidades e as regras da produção do espaço são infinitamente complexas em seus resultados e aplicações cotidianas, mas bastante simples em seus princípios. A complexidade é uma constatação, não uma explicação. Ora, essas modalidades e regras são conhecíveis. Elas se baseiam em algumas estratégias essenciais, sustentadas por estruturas sólidas e conduzidas por um número reduzido de categorias de atores. Esses atores, com níveis muito desiguais de informação, habilidade ou poder, buscam existir. Eles atuam por meio de suas representações: formam-se ideias sobre o espaço local e global e sobre o que podem fazer com ele. Essas imagens os orientam. Elas incluem estereótipos, que geram agregações, e intuições originais, que geram inovações.

É por isso que optei por começar pela produção do espaço geográfico, seus atores e suas estratégias. De suas práticas individuais e coletivas emergem um certo número de regras e até mesmo de leis. Essas regras orientam a elaboração e a reprodução de estruturas e sistemas próprios dos espaços geográficos. Sua interação dá origem a lugares, regiões, cidades e outros tipos de espaços. Ela produz formas que, por sua vez, as condicionam e, de qualquer forma, as revelam quando aprendemos a interpretá-las. Esse é o argumento do que se desenvolve aqui.

Esta pesquisa parte da hipótese de que o trabalho científico é possível nesse campo do conhecimento, que sempre me pareceu exigir mais do que catálogos, sentimentos e discursos não verificáveis sobre alguma “alma” dos lugares. Ele inclui representações, mas exige que as ultrapassemos. Pois o desafio é conhecer melhor a humanidade por meio dessa obra particular que é o espaço geográfico, e em seu único habitat.