Investigar geográfico

GOULD, Peter; OLSSON, Gunnar (orgs.). A search for common ground. London: Pion, 1982.

1. O ensaio, iniciado como uma mistura de explicação e especulação, assume uma vida própria, refletindo um mal-estar geral que se acumula a partir da retrospectiva e insatisfação individuais, e expressa a crença de que muitos dos problemas atuais na geografia não teriam surgido em termos tão confrontacionais se houvesse uma tradição aceite de reflexão filosófica aberta como parte do pensamento, ensino e investigação geográfica.

2. O interesse fundamental reside no ato de investigar e nos problemas de comunicar essa investigação, especialmente quando os seres humanos estão em foco, valorizando os momentos súbitos de compreensão ('eureka') que surgem de várias fontes e que, após serem absorvidos, podem ser transmitidos aos outros através do ensino.

3. A investigação é definida como a capacidade de registrar observações e estruturá-las para contar uma história convincente, um ato agressivo e devorador do mundo, que busca o consentimento do leitor e é movido pelo prazer, sem distinção entre investigação geográfica e outras, e sem restrições a tópicos pré-definidos.

4. Cerca de quatro ou cinco anos antes, o impulso que sustentava a investigação se esgotou, pois as perspectivas que antes libertavam o pensamento passaram a constranger, e as exigências de dados e as distorções dos modelos tornaram-se insatisfatórias, levando a uma sensação de tédio com as abordagens tradicionais.

5. Quatro vertentes foram reunidas para formar uma base sólida para a investigação: o Estruturalismo, que mostrou como outras tradições buscavam padrões mais profundos; a filosofia, particularmente a de Habermas, que conectou problemas relevantes; a linguagem de estrutura (\(Q\)-analysis), que mudou a maneira de ver e investigar o mundo; e os atos de investigação em problemas reais, que exigiram o envolvimento com factos e observações.

6. As vertentes da filosofia e da \(Q\)-analysis (ou dinâmica poliédrica) foram particularmente importantes por se reforçarem mutuamente, e as perspectivas de investigação de Habermas - técnica, hermenêutica e emancipatória - são reconhecidas, sendo a primeira associada à previsão e controlo, a segunda à interpretação e atribuição de significado, e a terceira à crítica da ideologia e ao exame do próprio ato de investigar.

7. Argumenta-se que não é necessário escolher uma perspectiva em detrimento das outras, pois todas podem ser usadas em paralelo para enriquecer a compreensão, e acredita-se que a \(Q\)-analysis é uma metodologia que permite e exige o uso simultâneo dessas perspectivas para obter o rigor técnico, o significado hermenêutico e o questionamento autorreflexivo emancipatório.

8. A \(Q\)-analysis é apresentada como uma linguagem de estrutura que usa notações da topologia algébrica para descrever, pensar e interpretar questões estruturais de forma clara e operacional, estando fundamentalmente enraizada no mundo empírico dos dados, e não permitindo especulação notacional excessiva, mas sim forçando o usuário a considerar a realidade concreta dos conjuntos de dados.

9. Na fase inicial de uma \(Q\)-analysis, a perspectiva técnica é trazida à tona, pois a metodologia se baseia na definição de conjuntos e de relações entre conjuntos, onde a definição de um conjunto é justificada pelo princípio da utilidade, e a definição de uma relação é um desafio para conceber qualquer significado de explicação que não envolva relacionar algo a algo.

10. A razão para a preferência por funções lineares nas ciências humanas é a busca por um conhecimento mais definitivo e replicável, seguindo o paradigma das ciências físicas, mas esquecendo que as ciências físicas não lidam com a consciência, que as suas estruturas matemáticas altamente restritas não são necessariamente apropriadas e que a estatística não é a epitomização do método científico.

11. A preocupação com a definição rigorosa de conjuntos e a especificação de relações leva a duas tarefas metodológicas: a primeira é que os elementos dos conjuntos são palavras, o que envolve a linguagem e a necessidade de concordar sobre definições e significados para criar um corpo de conhecimento partilhado; a segunda é que as palavras existem em diferentes níveis de generalidade, exigindo a organização da estrutura hierárquica dos conjuntos para evitar confusões lógicas.

12. Na \(Q\)-analysis, é feita uma distinção vital entre o 'backcloth' (o tecido de fundo) e o 'traffic' (tráfego), onde o backcloth é definido por uma relação entre dois conjuntos e forma uma estrutura geométrica que pode suportar certas coisas, enquanto o trânsito são as coisas que podem existir nessa estrutura, e essa distinção é ilustrada com exemplos da agricultura, da investigação académica, da televisão e das relações laborais.

13. A \(Q\)-analysis, ao focar-se na definição, significado e nível hierárquico de generalidade das palavras, torna mais sensível aos significados das palavras, e especula-se sobre possíveis paralelos entre essa metodologia e o pensamento de Wittgenstein, onde uma relação \(\lambda\) é considerada equivalente a uma proposição do primeiro Wittgenstein, e a escolha de uma estrutura particular é um jogo de linguagem que requer interpretação e partilha de valores.

14. O significado atribuído à estrutura criada pela \(Q\)-analysis é fundado no ato de interpretação, onde a geometria criada é um espaço, um backcloth contra o qual a existência e a ação podem ou não ocorrer, e a conectividade multidimensional desse espaço é uma consideração fundamental, com o vetor de obstrução a fornecer uma visão global das 'lacunas' no backcloth.

15. Os espaços definidos podem exibir 'buracos' (\(Q\)-holes), que atuam como objetos que obstruem a passagem, e a sua natureza obstrutiva é experienciada em burocracias e outras estruturas sociais, exigindo um processo paciente de interpretação hermenêutica que depende de insight imaginativo e conhecimento profundo da área substantiva.

16. A \(Q\)-analysis oferece duas visões de mudança: a mudança no tráfego que existe no backcloth (visão Newtoniana), resultante de forças que alteram as coisas na estrutura subjacente; e a mudança no próprio backcloth (visão Einsteiniana), onde os eventos mudam como resultado do que a geometria permite, exigindo um par de tensões para registar adequadamente as mudanças.

17. A noção de tempo é ampliada pela \(Q\)-analysis, onde o tempo é visto como um tráfego que ordena todos os simples no complexo, e a experiência do tempo é condicionada pela estrutura específica em que se encontra, com a implicação de que eventos de diferentes dimensionalidades exigem diferentes intervalos de tempo para serem alcançados.

18. A perspectiva estrutural da \(Q\)-analysis condiciona o pensamento para a visão geométrica e estrutural, revelando que se vive em espaços multidimensionais que tanto permitem como proíbem, e ao esmagar essas geometrias com procedimentos funcionais, obtém-se uma visão empobrecida e distorcida do mundo, levantando a questão de mudar a geometria, pois os backcloths não são imutáveis.

19. A \(Q\)-analysis ajuda a alcançar uma perspectiva emancipatória ao libertar da visão de que a investigação humana é uma busca por leis, e ao fornecer uma perspectiva sobre abordagens mais restritas, como a diferencial, a função e a partição, com consequências devastadoras para a maioria do trabalho multivariado nas ciências sociais, que é criticado por esmagar os dados e forçar partições onde elas não existem.

20. Finalmente, a \(Q\)-analysis pode ajudar a obter uma visão emancipatória de questões profundamente humanas, como as questões de género, onde a descrição estrutural apropriada pode fornecer uma visão mais humana, útil e emancipatória, em vez de forçar as pessoas em caixas dicotômicas convencionais, reconhecendo que as pessoas são poliedros de dimensionalidade variável.