Ciências sociais

HARVEY, D. Explanation in Geography. Londres: Edward Arnold, 1969.

Problemas de Explicação nas Ciências Sociais e na História

1. A relação entre a explicação nas ciências naturais e nas ciências sociais e história é controversa desde a proposição de Mill de que toda explicação possui a mesma forma lógica, tese que tem sido atacada e defendida em diferentes áreas das ciências sociais e entre historiadores.

2. A controvérsia frequentemente confunde questões separadas e não distingue as várias visões e atividades associadas ao termo “explicação científica”, com os opositores à ideia de explicação científica nas ciências sociais e história apontando para um modelo específico (como o da física newtoniana) e postulando uma unidade de visão que não necessariamente existe.

3. Para esclarecer em que sentido a forma explicativa difere, pode-se usar a distinção de Carnap entre pragmática (técnicas), semântica (conteúdo conceitual) e sintaxe (estrutura lógica), sendo que a afirmação de Mill de que a mesma lógica de justificação pode ser empregada não implica que as técnicas ou o conteúdo conceitual sejam os mesmos.

I Técnicas de investigação

4. Disciplinas desenvolvem técnicas apropriadas para seus problemas, mas a afirmação de que as técnicas das ciências sociais são radicalmente diferentes não é significativa, pois as diferenças técnicas entre ciências sociais e não sociais não são maiores do que as diferenças entre as próprias ciências não sociais.

5. A dificuldade prática de empregar técnicas experimentais nas ciências sociais levanta problemas para a verificação da teoria, mas a diferenciação entre explicações com base nas técnicas empregadas pode ser sumariamente descartada.

II O conteúdo conceitual das explicações

6. A diferenciação metodológica com base no conteúdo conceitual das explicações é uma questão mais séria, devido à reação emocional à aplicação de conceitos da física ao comportamento humano e ao ressentimento em relação a explicações “mecânicas” nas ciências sociais e história.

7. A controvérsia sobre a explicação mecânica no início do século XX, paralela ao debate determinismo-possibilismo na geografia, criou um legado intelectual significativo, mas as evidências mostram que explicações mecânicas são aplicáveis apenas em circunstâncias limitadas, e diferentes disciplinas adotam diferentes estruturas conceituais.

8. Não é possível diferenciar entre ciências naturais e sociais em termos dos conceitos adotados, pois há tanta variação dentro das disciplinas quanto entre elas, e a dificuldade de transferir técnicas e conceitos não é uma razão para a separação metodológica.

III A estrutura lógica da explicação

9. O exame da forma lógica da explicação nas ciências sociais e história centra-se na “tese da lei cobridora” (covering law), particularmente no debate entre Popper e Hempel, que defendem o modelo de lei cobridora para a história, e seus opositores, que enfatizam a singularidade dos eventos históricos.

10. A tese da lei cobridora afirma que a explicação histórica tem a mesma forma fundamental da explicação nas ciências naturais, com a dedução do evento a partir de condições iniciais e leis, e que os historiadores, embora não a explicitem, usam essa forma, oferecendo, na visão de Hempel, um “esboço de explicação”.

11. A tese da singularidade dos eventos históricos, que sustenta que a história é idiográfica e não nomotética, tem amplo apoio entre historiadores e influenciou outras áreas, incluindo a geografia, mas tem sido desafiada logicamente por autores como Hempel e Popper.

12. A tese da singularidade é insustentável sem modificações substanciais, pois todos os eventos podem ser considerados únicos e os eventos se tornam não únicos apenas em pensamento, sendo o uso de categorias, classes e generalizações essencial para a tarefa do historiador.

13. Os historiadores se interessam por eventos únicos no sentido de que são consumidores, e não produtores, de leis gerais, usando generalizações para iluminar fatos particulares, mas essa distinção de meios e fins não é suficiente para mostrar que a história é metodologicamente distinta da física.

14. As objeções à tese da lei cobridora incluem a natureza das generalizações históricas, que não são leis universais e irrestritas, e a alegação de que as leis cobridoras na história têm uma função diferente, estabelecendo apenas o princípio da inferência do historiador, que busca uma explicação racional para uma decisão ou conjunto de decisões.

15. Dray argumenta que a explicação histórica envolve mostrar que uma pessoa ou grupo tinha uma razão racional para agir de determinada maneira, sendo suficiente usar explicações de “senso comum” baseadas na lógica da situação, sem necessidade de invocar leis.

16. As conclusões que se podem extrair do debate na filosofia da história são que a tese da singularidade não pode ser sustentada sem modificações e que não há explicação ou descrição racional sem o emprego de generalizações, mas há discordância sobre se essas generalizações se qualificam como leis e se a adoção do modelo científico facilitaria a explicação de eventos históricos complexos.

IV Verificação — o problema de fornecer suporte responsável para enunciados nas ciências sociais e história

17. Além dos argumentos a priori sobre a adequação do modelo científico, há questões práticas sobre a objetividade do estudo dos fenômenos sociais e que tipo de justificativa pode ser encontrada para os enunciados das ciências sociais e história.

18. Autores como Weber e Winch argumentam que a objetividade é impossível nas ciências sociais porque o conhecimento dos eventos culturais depende do significado que têm para nós, e a verificação de hipóteses não pode ser independente do sistema de valores do investigador.

19. A tese de Winch sustenta que toda ação social é governada por regras que interagem com os conceitos usados para descrevê-las, impossibilitando uma linguagem eticamente neutra e a compreensão sem que o investigador aprenda as regras, o que altera seu sistema de valores.

20. A visão de Weber e Winch leva à busca de um modo alternativo de validação, como o verstehen (empatia), que envolve compreender um evento se colocando no lugar do indivíduo, uma visão comum nas ciências sociais e história que restringe a explicação a uma declaração de intenções, razões, motivos e disposições.

21. A saída para esse impasse, sugerida por Brown, é que a explicação em termos de intenções e motivos é inevitável, mas esses itens entram como enunciados factuais (condições iniciais), cabendo à ciência social desenvolver generalizações e uma estrutura conceitual para fornecer explicação em profundidade.

22. Rudner distingue dois sentidos para o significado de um termo: o sintático, derivado de sua posição em um cálculo abstrato, e o semântico, que envolve um juízo de valor e é culturalmente condicionado, mas o fato de a avaliação semântica ser subjetiva não impede a análise da própria avaliação.

23. A afirmação de Winch de que não se pode desenvolver uma linguagem neutra para discutir problemas sociais se aplica tanto às ciências naturais quanto à história e às ciências sociais, e a objetividade só pode ser relativa a uma linguagem ou paradigma aceito, o que é verdadeiro para ambas as áreas.

24. A ideia de que a compreensão adequada nas ciências sociais exige a reprodução das condições estudadas é uma falácia, pois a experiência direta não é irrelevante, mas não é o único modo de abordagem nem um substituto para a explicação científica, e o verstehen pode ser fundamental para a formação de hipóteses, mas não serve como meio de verificação.

V Explicação nas ciências sociais e história — uma conclusão

25. A afirmação de Mill de que toda explicação possui a mesma estrutura lógica provavelmente nunca poderá ser totalmente provada ou refutada, e, na ausência de uma barreira lógica, não há impedimento para o emprego do modelo científico na análise de assuntos humanos.

26. A razoabilidade do emprego do modelo científico deve ser julgada por seu uso e eficácia, e, embora seja difícil avaliar sua eficácia no contexto das ciências sociais, há muitos estudos que alcançaram status razoável como investigação científica.

27. As dificuldades metodológicas que supostamente afetam a busca por explicações sistemáticas dos fenômenos sociais não são exclusivas das ciências sociais nem intrinsecamente intransponíveis, embora sejam sérias, e cada disciplina tende a ser autônoma quanto aos critérios que emprega para decidir se os enunciados são justificados.

28. O estabelecimento de um modelo formal de explicação científica não é uma arma para condenar a pesquisa criativa, mas um objetivo final a ser almejado na busca por descrições e explicações poderosas e consistentes, sendo a pesquisa científica um esforço imaginativo acima de tudo.

29. A escolha real para o pesquisador sobre a atividade humana parece ser entre tentar desatar o nó górdio que o emprego do modelo normativo enfrenta no contexto humano e confiar apenas na intuição e no julgamento, sendo o ideal o esforço imaginativo criativo apoiado pelo controle que o método científico oferece.