HARVEY, D. Explanation in Geography. Londres: Edward Arnold, 1969.
Explicação Científica — o Modelo das Ciências Naturais
1. O modelo padrão de explicação científica, derivado da análise da explicação nas ciências naturais e na física em particular, possui características e limitações, mas é considerado o único instrumento eficaz para descobrir enunciados empiricamente verdadeiros sobre o mundo, fornecendo o corpo de informações mais consistente, coerente e empiricamente justificado para a compreensão da realidade.
2. O objetivo geral da investigação científica é fornecer explicações sistemáticas e responsavelmente apoiadas para ocorrências individuais, processos recorrentes e regularidades, estabelecendo leis gerais que conectem o conhecimento de eventos separados e permitam previsões confiáveis, sendo o método científico um conjunto de regras de comportamento para atingir esse fim.
3. A modelagem detalhada do método científico é difícil porque envolve três aspectos distintos: o contexto da descoberta, regido pela intuição; o processo de fornecer suporte responsável para as conclusões; e a forma de enunciar e interligar as conclusões em um corpo coerente de conhecimento.
4. É perigoso confundir os três aspectos do pensamento científico, mas difícil separá-los, pois os procedimentos usados para apoiar uma conclusão não são necessariamente os mesmos que levaram a ela; a ciência é essencialmente uma discussão em linguagem, não em pensamento, e a filosofia analítica tem contribuído para a compreensão das formas linguísticas do método científico.
5. Os enunciados científicos sobre o mundo real são ordenados em uma hierarquia consistente, que vai dos enunciados factuais (nível mais baixo) até as leis gerais ou teóricas (nível mais alto), e a construção de um sistema explicativo abrangente envolve a ligação de enunciados de diferentes níveis de generalidade até os dados da percepção sensorial.
As rotas para a explicação científica
6. Embora a explicação científica seja resultado de um “ato de criação”, existem maneiras de argumentar a favor da aceitação de certas conclusões como leis científicas, sendo duas as rotas principais: a indução (de instâncias particulares para enunciados universais) e a dedução (de premissas universais a priori para enunciados sobre eventos particulares), termos que também são usados para a forma lógica dos enunciados.
7. Rota 1: os dados da percepção sensorial, transformados em linguagem, formam enunciados “factuais” que são parcialmente ordenados por definição, medida e classificação, e, a partir do estudo das regularidades entre classes de fenômenos, podem ser estabelecidas leis empíricas.
8. Rota 2: esta rota reconhece a natureza a priori do conhecimento científico, baseando-se na especulação intuitiva sobre a realidade, com o auxílio de modelos a priori para postular uma teoria que, com estrutura lógica consistente e enunciados conectados aos dados sensoriais, permite deduzir hipóteses testáveis.
Formas dedutiva e indutiva de inferência
9. A explicação científica requer um método de inferência logicamente sólido, e a maioria dos autores defende o uso da dedução, organizando o conhecimento científico como um sistema hipotético-dedutivo, onde de algumas hipóteses (premissas) todas as outras (conclusões) seguem logicamente.
10. A vantagem da dedução é que, se as premissas são verdadeiras, as conclusões são necessariamente verdadeiras, o que leva ao uso da dedução sempre que possível, como no modelo de explicação dedutivo-nomológico de Hempel, que envolve condições iniciais e leis para deduzir o evento a ser explicado, com simetria entre explicação e previsão.
11. A dificuldade dos sistemas dedutivos é que a dedução não pode provar nada que já não seja conhecido, e a crença nas premissas ou nas leis do modelo de Hempel só pode ser estabelecida indutivamente, o que remete ao problema da indução.
12. O problema da indução reside na possibilidade de tirar conclusões falsas de premissas corretas, como Hume observou, e a falta de justificativa lógica para a indução levou alguns, como Popper, a rejeitá-la completamente na apresentação do conhecimento científico, enquanto outros a defendem por razões pragmáticas.
13. A rejeição metodológica da indução só se aplica a certos aspectos da formulação do conhecimento científico, pois a ciência busca organizar suas proposições em uma estrutura dedutiva, mas a indução continua importante nos estágios iniciais do desenvolvimento de uma ciência e em aspectos da articulação e verificação da teoria.
(1) O problema da verificação
14. A verificação ou confirmação de uma teoria deve recorrer à inferência indutiva, e há três escolas de pensamento sobre essa questão: a que busca critérios probabilísticos para avaliar a verdade de uma teoria; a de Popper, que substitui verificação por falseabilidade; e a de Kuhn, que adota uma visão comportamental.
15. A primeira escola, que inclui Nagel, Carnap e Hempel, visa fornecer um sistema de lógica indutiva para a escolha objetiva entre teorias concorrentes, mas enfrenta dois problemas intratáveis: definir os testes relevantes para uma hipótese e estabelecer as regras indutivas para avaliar o grau de confirmação.
16. O cientista pode ser visto como um tomador de decisão, cujas escolhas entre teorias são otimizadas em relação a seu sistema de valores subjetivo, e a confirmação de hipóteses tem uma relação próxima com a teoria da decisão estatística.
17. Popper propõe a falseabilidade como critério, assumindo uma teoria como verdadeira até que se prove o contrário, mas essa visão enfrenta a dificuldade de estabelecer critérios de “improbabilidade” ou “grau de falseamento” para justificar a rejeição de uma teoria.
18. Kuhn propõe uma visão comportamental, na qual a aceitação ou rejeição de uma hipótese é uma questão de fé, parte das regras de um paradigma dominante, e, dentro da ciência normal, as regras para confirmação são estabelecidas, mesmo sem justificativa lógica estrita, sendo uma tarefa impossível tentar justificar logicamente tais regras.
19. A escolha entre as visões sobre verificação envolve aceitar um procedimento indutivo sem justificativa última ou adotar uma visão comportamental da atividade dos cientistas, visões que não são mutuamente exclusivas, e a visão do “cientista como tomador de decisão” levanta a questão do que ele está tentando maximizar ao aceitar uma teoria, um elemento comportamental que nega a total objetividade do conhecimento científico.
(2) O problema dos enunciados indutivos dentro de sistemas dedutivos
20. Embora o conhecimento científico deva ser organizado como um sistema hipotético-dedutivo, há ocasiões em que passos indutivos são usados dentro desses sistemas, especialmente quando enunciados de probabilidade são invocados, ou quando as hipóteses ou condições iniciais fornecem suporte apenas parcial para as conclusões.
21. O uso de enunciados de probabilidade em uma explicação, como no exemplo da migração de Joe, constitui o que Hempel chama de sistematização indutiva, onde o suporte para a conclusão é apenas parcial, e a crença nas premissas não implica necessariamente crença na conclusão.
22. A aplicação da inferência dedutiva exige completude nas condições ou premissas iniciais; se nem todas as condições relevantes podem ser especificadas, a explicação é incompleta, e muitos sistemas teóricos são quase-dedutivos, contendo passos indutivos, especialmente nos estágios iniciais do desenvolvimento de uma disciplina.
23. Os cientistas buscam organizar o conhecimento por meio de um sistema hipotético-dedutivo e aplicar esse conhecimento por meio de explicações dedutivas, mas há muitos casos em que a forma dedutiva ideal não pode ser aplicada, seja por falta de informação, pelo uso de enunciados de probabilidade ou, principalmente, na confirmação de teorias, onde a indução e elementos comportamentais são importantes.
24. Diante da aura de objetividade que cerca a pesquisa científica, é importante notar as dificuldades lógicas e o fato de que as decisões científicas não podem ser tomadas sem a introdução de restrições comportamentais, embora o modelo padrão da ciência tenha sido extraordinariamente eficiente na organização e promoção do conhecimento sobre o mundo.