Explanação em Geografia

HARVEY, D. Explanation in Geography. Londres: Edward Arnold, 1969.

Filosofia e metodologia em geografia

1. Parte-se da formulação de uma concepção de geografia cuja estrutura permite distinguir os objetivos substantivos da disciplina e os procedimentos empregados em sua investigação.

2. A geografia pode ser concebida como dedicada à descrição e à explicação da diferenciação espacial da superfície terrestre.

3. A definição da geografia pela descrição e explicação da diferenciação espacial da superfície terrestre contém duas dimensões fundamentalmente distintas: o modo pelo qual os fenômenos devem ser estudados e aquilo que deve constituir o objeto desse estudo. :contentReference[oaicite:0]{index=0}

4. A escolha da diferenciação espacial da superfície terrestre como objetivo da investigação geográfica não pode ser definitivamente contestada por razões puramente lógicas, pois sua aceitação ou rejeição depende, em última instância, de valores e crenças acerca daquilo que merece ser estudado.

5. A diversidade dos objetivos adotados pelos geógrafos decorre da diversidade de seus sistemas de valores, de modo que a adesão a determinada concepção da geografia depende da transformação das crenças e não pode ser produzida ou refutada exclusivamente por argumentação lógica.

6. As crenças que sustentam os objetivos da investigação constituem uma filosofia, e sua manifestação no trabalho geográfico pode ser denominada filosofia da geografia, assumindo formas diversas conforme sociedades, grupos e períodos históricos.

7. A existência de objetivos, ainda que implícitos, provisórios ou imprecisos, constitui condição indispensável de toda investigação substantiva, pois determinar aquilo que deve ser estudado implica assumir alguma posição filosófica acerca da natureza e da finalidade da geografia.

8. A descrição cognitiva e a explicação podem ser entendidas como operações distintas apenas em grau, pois ambas procuram conferir coerência racional à experiência, embora a explicação torne mais explícita a análise das conexões entre os fenômenos.

9. Diferentemente dos objetivos substantivos, uma explicação pode ser diretamente contestada por critérios lógicos, pois sua validade exige coerência argumentativa, derivação adequada das conclusões a partir das premissas e ausência de inconsistências que tornem o raciocínio destituído de sentido.

10. A metodologia da geografia ocupa-se da aplicação dos critérios de validade lógica às explicações dos fenômenos geográficos, distinguindo-se da filosofia da geografia por concentrar-se na lógica da justificação e na coerência interna dos procedimentos analíticos.

11. A distinção entre filosofia e metodologia permite concentrar a investigação metodológica nos critérios necessários à produção de explicações geográficas sólidas e coerentes, corrigindo a tendência de grande parte da reflexão geográfica a privilegiar especulações filosóficas ou a confundir os dois domínios.

12. A adoção metodológica de determinado modo de análise deve ser distinguida da adesão filosófica aos pressupostos que aparentemente lhe correspondem, pois um método pode ser escolhido por sua eficácia operacional sem que se aceite a concepção ontológica ou filosófica que poderia ser associada a ele.

13. A separação entre filosofia e metodologia amplia a flexibilidade da investigação geográfica, pois permite utilizar diferentes estratégias analíticas sem assumir necessariamente filosofias correspondentes e conservar determinadas convicções filosóficas sem restringir rigidamente os métodos disponíveis.

14. A distinção entre filosofia e metodologia não elimina sua interação, pois os métodos só adquirem sentido em relação aos objetivos da investigação, enquanto a construção teórica depende de finalidades especulativas, tornando necessária uma concepção da geografia que considere conjuntamente pressupostos filosóficos e exigências metodológicas.