Prefácio do autor a edição francesa de La production de l'espace de 1985.
1. Há dez ou quinze anos, quando este livro foi escrito, as concepções de espaço eram confusas, paradoxais e mutuamente incompatíveis, estando o espaço em voga graças à tecnologia dos foguetes interplanetários, embora a palavra, tradicionalmente associada à matemática e à geometria euclidiana, permanecesse uma abstração, um continente sem conteúdo.
2. Paradoxalmente, a prática, no interior da sociedade existente e de seu modo de produção, seguia direção distinta das representações fragmentárias e dos saberes constituídos, tendo alguém, mais os colaboradores tecnocratas do que os próprios políticos, inventado o planejamento espacial, na França sobretudo, com o projeto de modelar racionalmente o espaço francês.
3. Hoje ninguém ignora que essa iniciativa inovadora de planejamento, incompatível tanto com a análise input-output quanto com o controle estatal dos gastos de capital, foi arruinada pelo neoliberalismo e desde então reconstruída de modo desajeitado.
4. Manifesta-se assim uma contradição notável, ainda que pouco percebida, entre as teorias do espaço e a prática espacial, contradição dissimulada pelas ideologias que confundiam os debates sobre o espaço, saltando do cosmológico ao humano, do macro ao micro, sem pensamento conceitual ou metodológico próprio.
5. Surge daí o esforço de escapar a essa confusão deixando de considerar o espaço e o tempo sociais como fatos de natureza ou de cultura para concebê-los como produtos, mudança que altera o uso e o sentido dessa palavra, entendendo-se a produção do espaço não como criação de um objeto, mas como efeito da ação das sociedades sobre a primeira natureza.
6. Convém notar que, já por volta de 1970, as questões urbanas se colocavam com grande clareza, clareza excessiva para muitos que preferiam desviar o olhar, não podendo os documentos oficiais nem regular nem mascarar a nova barbárie de uma construção e urbanização massivas e descontroladas, desprovidas de racionalidade ou originalidade criativa, cujos efeitos desastrosos já então eram visíveis sob as cores da modernidade.
7. Sem novos argumentos, torna-se difícil sustentar a tese greco-latina segundo a qual a Cidade seria o centro privilegiado do pensamento e da invenção, alterando-se em escala mundial a relação campo-cidade, e sendo impossível pensar o fenômeno urbano moderno como obra sem antes concebê-lo como produto de um modo de produção específico.
8. A concepção do espaço como produto social não se desenvolveu sem dificuldades, exigindo uma problemática em parte nova e imprevista, e uma ampliação das noções de produção e de produto.
9. Como dizia Hegel, um conceito só emerge quando aquilo a que se refere está ameaçado e próximo do fim, não podendo mais o espaço ser concebido como passivo ou vazio, mas intervindo, como produto, na própria produção, tornando-se parte das relações e forças produtivas, o que confere ao conceito caráter dialético de produto-produtor, com papel também na reprodução das relações que ele realiza na prática.
10. Essa ideia, uma vez formulada, esclarece muitas coisas ao evidenciar a realização, no terreno e num espaço social produzido, das relações sociais de produção e reprodução, permitindo ainda compreender, modificar e completar a originalidade do projeto que é o planejamento espacial, levando em conta sua natureza ligada à urbanização.
11. Uma segunda dificuldade reside no fato de que, na tradição marxiana estrita, o espaço social poderia ser visto como superestrutura, quando na verdade ele entra nas forças produtivas, na divisão do trabalho e na propriedade, escapando assim à classificação base-estrutura-superestrutura, tal como talvez o tempo e a linguagem.
12. O espaço social pode agir no mundo da produção como efeito, causa e razão ao mesmo tempo, mas muda com o próprio modo de produção e com as sociedades, existindo assim uma história do espaço, como do tempo, do corpo e da sexualidade, história ainda por escrever.
13. O conceito de espaço articula o mental e o cultural, o social e o histórico, reconstituindo um processo de descoberta, produção e criação de obras, processo gradual e genético que segue a lógica geral da simultaneidade, já que todo mecanismo espacial repousa na justaposição de elementos dos quais se produz a simultaneidade.
14. A questão se complica ao se perguntar se existe uma conexão direta e transparente entre o modo de produção e seu espaço, não havendo tal simplicidade, pois ideologias e ilusões se interpõem, como demonstra a invenção da perspectiva na Toscana dos séculos XIII e XIV.
15. Outro caso, ainda mais surpreendente e mal explicado neste trabalho, é o da Bauhaus e de Le Corbusier, cujos membros, tomados por bolcheviques e perseguidos na Alemanha entre 1920 e 1930, emigraram para os Estados Unidos, onde se tornaram praticantes e teóricos do espaço moderno próprio ao capitalismo avançado.
16. Este trabalho procurou não apenas descrever o espaço em que vivemos e suas origens, mas remontar, através do espaço produzido, às origens da sociedade atual, retomando o plano de um estudo retrospectivo do espaço social que, partindo do presente rumo à sua gênese, retorna ao presente para vislumbrar o futuro possível.
17. Existem relações análogas entre o territorial, o planejamento e o arquitetônico, implicações e conflitos que só podem ser apreendidos a partir das relações entre lógica e dialética, estrutura e conjuntura, relações abstratas e concretas que surpreendem numa cultura filosófica e política que costuma deixar de lado essa complexidade.
18. A pesquisa sobre o espaço social remete a uma globalidade que não exclui projetos de pesquisa específicos e localizados, embora o perigo dos estudos pontuais, valorizados por serem controláveis e mensuráveis, esteja em separar o que está conectado, aceitando ou endossando a fragmentação e favorecendo práticas excessivas de desconcentração que rompem as redes e relações do espaço social.
19. Uma ideia central a que se deve retornar é que o modo de produção organiza, ao mesmo tempo que certas relações sociais, seu próprio espaço e tempo, de modo que perguntar se o socialismo criou seu espaço equivale a constatar que o modo de produção socialista ainda não existe de forma concreta.
20. As ferrovias tiveram papel fundamental no capitalismo industrial e na organização de seu espaço nacional e internacional, ao mesmo tempo em que, na escala urbana, os bondes, o metrô e os ônibus, e depois, em escala mundial, o transporte aéreo, desagregavam a organização anterior, absorvida pelo modo de produção num duplo processo visível há décadas nas cidades e no campo.
21. A organização de um espaço centralizado e concentrado serve simultaneamente ao poder político e à produção material, otimizando o lucro, disputado e disfarçado pelas classes sociais na hierarquia dos espaços ocupados.
22. Tende, contudo, a se desenvolver um novo espaço em escala mundial, que integra e desintegra o nacional e o local, processo pleno de contradições ligado ao conflito entre a divisão planetária do trabalho no modo de produção capitalista e o esforço de criar uma ordem mundial mais racional, penetração espacial tão importante historicamente quanto a hegemonia obtida pela penetração das instituições, cujo ponto crucial, a militarização do espaço, não é tratado aqui mas completa a demonstração em escala planetária e cósmica.
23. Essa tese de um espaço ao mesmo tempo homogêneo e fragmentado, como o tempo, suscitou muitas objeções há dez ou doze anos, questionando-se como um espaço poderia obedecer a regras comuns, constituir um objeto e desintegrar-se simultaneamente.
24. Não se trata de afirmar uma ligação direta entre a já célebre teoria do objeto fractal de Mandelbrot e a ideia de espaço fragmentado aqui defendida, mas de assinalar a quase simultaneidade das duas teorias e o fato de que a teoria físico-matemática torna mais acessível e aceitável a teoria socioeconômica, sendo ambos os empreendimentos teóricos análogos.
25. A relação entre esse espaço fragmentado e as múltiplas redes que atuam contra a fragmentação, restabelecendo ao menos a homogeneidade, permanece por elaborar, permanecendo em aberto se algo poderia emergir, através e contra a hierarquização, das próprias contradições do modo de produção existente, expondo-as em vez de encobri-las.
26. Como autocrítica, reconhece-se que este livro não descreveu de modo direto e contundente a produção de conjuntos habitacionais, guetos e falsos conjuntos, permanecendo incerto o projeto de criação de um novo espaço e nem sempre clara a função da arquitetura como uso do espaço.
27. Ainda assim, este livro conserva diversos pontos focais e pode ser relido hoje segundo uma abordagem proveitosa organizada em três fases: a dos elementos e da análise que os isola, os atores da produção e os lucros obtidos; a das oposições paradigmáticas entre público e privado, troca e uso, oficial e pessoal, frontal e espontâneo, espaço e tempo; e a da dialetização desse quadro estático, relações de poder, alianças, conflitos e ritmos sociais produzidos nesse espaço.