WOOD, Denis. The Power of Maps. Londres: Routledge, 1992.
** O interesse está incorporado no mapa em signos e mitos **
1. Os mapas mascaram os interesses responsáveis por sua produção, fazendo com que aquilo que afirmam pareça não formulado, evidente ou simplesmente dado no mundo, o que suscita a questão de como conseguem ocultar tão eficazmente as condições e intenções de sua própria constituição.
2. O Mapa Rodoviário Oficial da Carolina do Norte de 1978–1979 exemplifica essa operação ao reunir, de um lado, imagens turísticas, informações de viagem, uma saudação do governador e uma oração do motorista e, do outro, uma representação do estado estruturada por linhas, cores, símbolos, mapas urbanos, índices, distâncias, recomendações de segurança e uma legenda.
** Legendas **
3. A própria identificação do documento como Mapa Rodoviário Oficial da Carolina do Norte de 1978–1979 funciona como legenda, enquadrada pela bandeira estadual e por imagens do cardeal, do corniso florido e da abelha, respectivamente pássaro, flor e inseto oficiais do estado.
4. Quatro rubricas — Classificações de Estradas, Símbolos do Mapa, Populações de Cidades e Municípios e Distâncias — organizam equivalências entre marcas gráficas e designações verbais, acompanhadas por escalas e pela afirmação de que a Carolina do Norte possui a maior rede rodoviária estadual mantida pelo poder público nos Estados Unidos e estradas pavimentadas que conduzem praticamente a todos os locais turísticos e recreativos.
5. A legenda suporta funções muito mais amplas que a simples decodificação cartográfica, pois o próprio Estado da Carolina do Norte constitui seu usuário primordial ao empregar o mapa como instrumento promocional destinado a turistas, possíveis residentes e responsáveis pela localização de empreendimentos industriais.
6. A seleção dos conteúdos da legenda e sua organização revelam que as legendas não são elementos naturalmente indispensáveis nem explicações completas dos símbolos cartográficos, pois muitos mapas funcionam sem elas e as legendas existentes normalmente esclarecem apenas uma fração das convenções empregadas.
7. Nenhum símbolo cartográfico é propriamente autoexplicativo, pois seu significado depende de códigos culturalmente aprendidos, assim como as palavras dependem de uma língua conhecida, de modo que até o signo aparentemente mais transparente permanece opaco para quem desconhece sua convenção.
8. Os mapas necessitam de decodificação, mas grande parte de seus signos já pertence a convenções tão familiares ao leitor que a legenda frequentemente apenas os converte em palavras, podendo ser menos elucidativa do que o próprio contexto cartográfico; no mapa da Carolina do Norte, dezoito signos empregados na imagem principal nem sequer aparecem na legenda.
9. A associação entre certas formas ou cores e seus referentes é inteiramente convencional, como demonstram os pictogramas de montanhas e faróis e, sobretudo, o uso do azul para representar água, pois historicamente e no próprio documento a água aparece representada por muitas outras cores.
10. Cores de fundo, limites estaduais e municipais, parques nacionais, reservas militares e indígenas, trilhas, refúgios de fauna, linhas costeiras e a própria gratícula são igualmente convencionais e frequentemente menos familiares que os símbolos rodoviários, embora permaneçam ausentes da legenda.
11. A legenda privilegia justamente distinções entre sinais rodoviários já familiares a residentes e viajantes, enquanto silencia convenções mais obscuras, invertendo a suposta finalidade explicativa e oferecendo classificações internamente inconsistentes.
12. A aparente precariedade gráfica do mapa não decorre simplesmente de incompetência, pois sua elaboração envolve problemas de projeto, dificuldades propriamente cartográficas, exigências de cooperação entre órgãos públicos, pressões de representantes políticos e sinais partidários capazes de diferenciar mapas produzidos por administrações republicanas e democratas.
13. O mapa da Carolina do Norte não constitui uma anomalia, mas um exemplo comum de mapas rodoviários oficiais nos quais as legendas verbalizam signos já amplamente conhecidos enquanto deixam sem explicação numerosas convenções que podem desafiar até mesmo cartógrafos profissionais.
** Mitos **
14. A inadequação aparente das legendas não deve ser solucionada pela simples melhoria de seu desenho, porque sua função fundamental consiste menos em explicar elementos isolados do que em funcionar como signo complexo que remete, por meio de uma seleção cartográfica, ao próprio estado representado.
15. A proliferação de signos rodoviários deixa de parecer desordem quando compreendida como recurso para afirmar a extraordinária importância das estradas na Carolina do Norte, ao passo que a complexidade gráfica das categorias urbanas constrói a imagem de um estado moderno, urbano e sofisticado, embora ancorado em valores tradicionais.
16. Entre estradas e cidades, os símbolos de parques, florestas, centros de boas-vindas, áreas de descanso, pontos de interesse, balsas, ferrovias e aeroportos introduzem a dimensão do lazer e do cuidado com os viajantes, associando infraestrutura rodoviária, recreação e atratividade turística.
17. A aparência pouco sofisticada da legenda contribui para sua sinceridade e não implica planejamento propagandístico cínico, mas ainda assim corresponde ao que Roland Barthes denomina mito: uma modalidade de discurso definida mais por sua intenção do que por seu sentido literal e constituída a partir de signos previamente formados.
18. No exemplo barthesiano de uma frase latina usada numa gramática, o significado linguístico imediato é apropriado por um sistema semiológico de segunda ordem no qual a frase passa a significar sua própria condição de exemplo gramatical, demonstrando que um signo completo pode converter-se em significante de um sistema mais abrangente.
19. A legenda cartográfica opera analogamente, pois o quadrado vermelho pode significar linguisticamente ponto de interesse sem acrescentar informação relevante à leitura do mapa, mas sua presença na legenda passa a afirmar, em outro nível, que a Carolina do Norte possui pontos de interesse.
20. Forma-se assim um sistema semiológico de dois níveis no qual marcas como quadrados, linhas e asteriscos se combinam com expressões verbais para formar signos primários, e o conjunto desses signos é apropriado como significante de uma construção mítica mais ampla.
21. No nível do mito, a legenda inteira torna-se significante de uma ideia de atratividade e identidade da Carolina do Norte, reforçada por fotografias, pela mensagem do governador e pela oração do motorista, enquanto sua condição aparentemente neutra de simples legenda permite que essa significação permaneça não declarada.
22. A ambiguidade entre a função informativa literal e a significação mítica permite que interesses históricos e políticos desapareçam como tais, fazendo com que a imagem promocional da Carolina do Norte seja percebida como atributo natural do próprio território.
23. A naturalização do cultural característica do mito transforma equivalências semiológicas em relações aparentemente causais ou naturais, fazendo com que sistemas de valores sejam consumidos como sistemas de fatos.
24. A cartografia constitui um sistema semiológico particularmente difícil de perceber como tal porque reivindica fundamentalmente o estatuto de sistema factual e narra sua própria história como progresso contínuo na exatidão, reservando a acusação de propaganda aos mapas alheios enquanto apresenta seus próprios produtos como neutros.
25. A própria imagem cartográfica do estado participa do mito ao afirmar soberania territorial, pois a delimitação e a coloração da Carolina do Norte não são necessárias para orientar o motorista, mas reiteram visualmente a existência e o domínio político do estado sobre determinada extensão de terra.
26. O mapa pode negar as significações políticas que nele se acumulam apresentando-se como simples reprodução inocente do mundo, embora mapear ou deixar de mapear entidades territoriais constitua efetivamente uma forma de reconhecê-las ou negar-lhes existência política.
27. Por constituírem sistemas semiológicos e, portanto, sistemas de valores, os mapas são inevitavelmente suscetíveis à apropriação mítica e se assemelham menos a janelas neutras abertas para o mundo do que a dispositivos por meio dos quais poderes manifestam sua soberania.
28. Todo mapa resulta de escolhas que revelam valores, de modo que a decisão aparentemente banal de mapear rodovias é tão politicamente significativa quanto a escolha de representar ou não uma entidade territorial.
** Códigos **
29. A naturalidade do mapa é ilusória, pois todo mapa constitui um artefato cultural formado por escolhas carregadas de valores, intenções e finalidades e mediado por signos organizados segundo códigos, dos quais depende toda possibilidade de significação e inteligibilidade.
30. Tecnicamente, um código é uma regra de correspondência entre elementos de um sistema de conteúdo, ou significado, e elementos de um sistema de expressão, ou significante, como ocorre no trânsito quando intenções, promessas e comandos se correlacionam com gestos, palavras, números, luzes e linhas para formar signos.
31. O signo não reside isoladamente no significante nem no significado, mas exclusivamente na correlação convencional estabelecida entre ambos por costume, regra ou lei, de modo que uma alteração coletiva do código poderia modificar inteiramente a relação entre um gesto e a intenção por ele comunicada sem comprometer a comunicação.
32. Na formulação de Umberto Eco, o signo existe quando um elemento do plano da expressão é convencionalmente correlacionado a um ou mais elementos do plano do conteúdo, não constituindo uma entidade física fixa, mas o ponto de encontro entre elementos pertencentes a sistemas distintos mediante uma correlação codificada.
33. Como essas correlações não possuem permanência própria, é mais preciso falar em funções-signo, nas quais expressão e conteúdo se associam provisoriamente segundo regras de codificação e podem posteriormente participar de novas correlações, produzindo novos signos.
34. Independentemente da terminologia empregada, signos, símbolos, ícones, palavras, índices, esculturas, sentenças, mapas e até entidades urbanas só exercem função significante quando elementos dos domínios da expressão e do conteúdo são correlacionados por um código.
35. Não existem signos sem códigos nem signos verdadeiramente autoexplicativos, pois mesmo aqueles aparentemente motivados por semelhança permanecem dependentes de convenções sociais e semiológicas, como convergem, por caminhos distintos, as concepções de Saussure e Peirce.
36. A prioridade da convenção explica como uma linha azul pode representar tanto um rio num mapa quanto uma veia num diagrama anatômico, pois o significado não deriva isoladamente da aparência da marca, mas da estrutura relacional e do contexto codificado em que ela se insere.
** Dez códigos cartográficos **
37. A codificação e a decodificação cartográficas dependem de pelo menos dez códigos, divididos entre cinco códigos de intrassignificação, que atuam internamente no nível da linguagem do mapa, e cinco códigos de extrassignificação, que permitem sua apropriação no nível do mito.
38. Os códigos de intrassignificação compreendem o icônico, o linguístico, o tectônico, o temporal e o apresentacional.
39. O código apresentacional organiza fisicamente os signos icônicos, linguísticos, tectônicos e temporais em títulos, legendas, imagens, escalas, textos, gráficos, fotografias, cores e tipografias, transformando-os em discurso coerente e conduzindo progressivamente a cartografia da intrassignificação à retórica e à extrassignificação.
40. Os cinco códigos de extrassignificação — temático, tópico, histórico, retórico e utilitário — apropriam-se do mapa no nível mítico e subordinam sua significação linguística a finalidades culturais mais amplas.
41. O código retórico estabelece o tom cultural do mapa e o situa no sistema de valores da sociedade que o produz, podendo incorporar chauvinismos, hierarquias culturais e distinções entre o próprio centro civilizacional e territórios apresentados como estrangeiros ou exóticos.
42. Quando um apresentador meteorológico aponta para um mapa, a imagem não apenas informa sobre o espaço representado, mas também retroage sobre o apresentador, significando modernidade, sofisticação e confiabilidade e, por extensão, confirmando ao público a pertinência de sua escolha do canal.
43. Nenhum mapa pode escapar ao código retórico, pois até a tentativa de eliminar retórica constitui uma posição retórica; estilos científicos, artísticos, publicitários ou vernaculares são mobilizados conforme a modalidade de mito que se pretende sustentar.
44. O código utilitário apropria-se do mapa como um todo para finalidades que ultrapassam sua função declaradamente informativa, incluindo possuir, reivindicar, legitimar e nomear territórios, demonstrar poder e certificar a autoridade de instituições e discursos.
45. Uma antropologia da cartografia torna-se necessária para investigar os usos efetivos dos mapas como signos, emblemas, documentos de posse, ornamentos, propagandas ou instrumentos de exploração, sem presumir que mapas tecnicamente austeros estejam livres de interesses ou agendas.
46. A regularidade metódica e a cobertura sistemática das folhas topográficas também constituem formas de apropriação, pois catalogar não significa apenas constatar a existência das coisas, mas igualmente incorporá-las a um regime de posse e controle, aproximando conceitualmente o levantamento territorial da cartografia de alvos militares.
** Intrassignificação **
47. O mapa pode ser compreendido simultaneamente como meio de linguagem, capaz de modelar fenômenos e relações espaciais para comparação, medição, análise e previsão, e como mito, que remete aos valores, ambições e perspectivas de seus produtores.
48. O mapa funciona como dispositivo de focalização entre intrassignificação e extrassignificação, reunindo os signos produzidos por códigos icônicos, linguísticos, tectônicos, temporais e apresentacionais para que possam ser apropriados coletivamente por códigos míticos, cujas iniciativas já influenciaram, desde o início, as próprias decisões internas de representação.
** Códigos icônicos **
49. A iconicidade constitui a condição indispensável pela qual o mapa estabelece analogias com objetos, lugares, relações e acontecimentos, mas os elementos de uma mesma imagem cartográfica apresentam graus e modalidades diferentes de iconicidade.
50. Todo ícone resulta da combinação entre uma operação simbólica de substituição, que possibilita a representação, e um esquema de disposição espacial que produz sua forma específica, de modo que nenhum símbolo é absolutamente arbitrário e nenhum ícone é inteiramente livre de convenção.
51. O mapa pictórico de Nova York de Hermann Bollmann parece tão diretamente semelhante à paisagem urbana que suas convenções tendem a desaparecer da percepção, embora sua transparência dependa de complexos procedimentos técnicos e de uma tradição ocidental altamente codificada de representação.
52. A iconicidade não pode ser reduzida à mera semelhança visual entre expressão e referente, pois resulta da capacidade cultural de transcrever arranjos espaciais em marcas convencionais, operação presente tanto num desenho quanto numa carta topográfica.
53. Um mapa de distribuição populacional pode combinar princípios representativos muito distintos — formas geograficamente conformes, símbolos geométricos e marcas quantitativas deslocáveis — sem perder coerência, porque sistemas simbólicos heterogêneos se integram numa configuração icônica abrangente.
54. Signos formados independentemente da geometria espacial dos fenômenos podem operar metaforicamente, como os símbolos de farol e mina, nos quais partes, instrumentos ou efeitos substituem o referente completo e passam a funcionar como ícones convencionais.
55. Nos signos geograficamente conformes, a metáfora atua por características culturalmente selecionadas, como o verde atribuído às florestas e o azul às águas, produzindo uma paisagem idealizada que representa o ambiente ao mesmo tempo que projeta fantasias culturais sobre ele.
56. O código icônico cartográfico resulta de uma vasta combinação de convenções visuais históricas, continuamente ampliadas por invenção e recombinação, fazendo da imagem do mapa uma síntese de gestos simbólicos cujo repertório está limitado pelas capacidades interpretativas e pelas convenções da cultura visual.
** Códigos linguísticos **
57. A linguagem acompanha a cartografia há milênios e atua tanto externamente à imagem, identificando, explicando, advertindo e atribuindo autoria, quanto internamente na própria imagem e em sua legenda, complementando a significação das marcas gráficas.
58. A legenda estabelece correspondências semânticas entre classes de expressões gráficas e representações linguísticas, funcionando como intérprete entre o sistema semiológico particular de cada mapa e o sistema cultural mais geral da língua e tornando os significados cartográficos suscetíveis de formulação verbal.
59. Dentro da imagem cartográfica, a linguagem informa tanto a categoria de uma entidade quanto seu nome próprio, e termos como rio, lago ou reservatório fornecem distinções conceituais que a codificação puramente icônica muitas vezes não expressa.
60. Os signos linguísticos do mapa não permanecem semanticamente fixos nem obedecem apenas às regras comuns do texto, pois tamanho, peso, maiúsculas, estilo, cor, orientação e deformação espacial das palavras passam a produzir significações icônicas comparáveis às da poesia concreta.
61. A cartografia conserva as regras fundamentais da linguagem, mas amplia extraordinariamente suas possibilidades icônicas, fazendo com que palavra e imagem se modifiquem reciprocamente e produzam a dupla significação característica do mapa.
** Códigos tectônicos **
62. Um código consiste numa estrutura interpretativa de convenções que torna possível correlacionar expressão e conteúdo, de maneira que os signos são codificados em sua formação e decodificados na interpretação.
63. Todo mapa emprega um código tectônico que transforma o espaço geodésico em espaço gráfico e inversamente, articulando funções topológicas e escalares cuja natureza abstrata explica por que projeções e escalas nem sempre são reconhecidas como códigos.
64. O código tectônico produz significados de distância, direção e extensão e fornece a estrutura sintática espacial na qual os códigos icônicos e linguísticos podem indicar onde estão as coisas, carregando inevitavelmente concepções culturais e políticas sobre o espaço.
** Códigos temporais **
65. A afirmação corrente de que todo mapa já está desatualizado antes de ser impresso exprime uma inquietação cartográfica diante do tempo, geralmente tratada como consequência inevitável da lentidão da produção cartográfica em vez de como problema constitutivo do próprio mapa.
66. A ideia de que os mapas pouco têm a ver com o tempo decorre de práticas que eliminam fenômenos excessivamente mutáveis e privilegiam objetos relativamente permanentes, criando a aparência de uma representação puramente espacial quando, na realidade, todo mapa incorpora tempo tanto quanto espaço.
67. O código temporal compreende um código de tempo verbal, referente à direção temporal da representação, e um código de duração, referente à escala temporal, podendo orientar mapas para o passado, presente, futuro, mundos imaginários ou formas alegóricas de atemporalidade.
68. A distinção entre mapas presentes e passados depende tanto de referências culturais quanto de seu conteúdo, e a passagem do tempo cartográfico torna-se perceptível por edições, revisões, atualizações, obsolescência de produtos impressos e pelo presente virtual continuamente renovado das bases digitais.
69. O código de duração relaciona o tempo do mapa ao tempo do mundo de modo análogo à escala espacial, como ocorre num mapa eletrônico capaz de condensar vinte e quatro horas de tráfego em um minuto de exibição; uma experiência cotidiana de deslocamento urbano permite mostrar como essa conversão temporal se transforma em conhecimento espacial.
70. Às 4h51, a espera do ônibus no centro de Raleigh produz uma sequência de percepções urbanas envolvendo edifícios comerciais, o centro de convenções, o capitólio, elementos decorativos da rua, passageiros e marcas internas do veículo, ainda sem constituir uma configuração espacial fechada.
71. Às 4h55, o início do percurso introduz o movimento por ruas comprimidas entre fachadas urbanas, produzindo uma nova sequência temporal de impressões visuais.
72. Às 4h57, o trajeto pela rua Blount articula armazéns antigos, áreas em renovação ou demolidas, estacionamentos, torres comerciais, habitações populares e o Auditório Memorial, compondo sucessivamente contrastes internos à paisagem urbana.
73. Às 4h59, a passagem sob a ponte de pedestres da Universidade Shaw e a entrada na rodovia 50 colocam o percurso diante da infraestrutura viária orientada aos subúrbios e do intenso fluxo automobilístico.
74. Às 5h01, a travessia de trilhos e o retorno à antiga rua Fayetteville põem em relação escola, conjunto habitacional, passageiros e deslocamentos cotidianos, acrescentando novos elementos sociais à sequência espacial em formação.
75. Às 5h03, o percurso aproxima o cemitério Mount Hope de bairros residenciais e de uma quadra de basquete, fazendo suceder paisagens urbanas diferenciadas enquanto o movimento continua a construir uma experiência temporal do espaço.
76. Às 5h06, obras de ampliação viária, estabelecimentos comerciais, residências, mudanças de direção e embarque ou desembarque de passageiros continuam a acumular referências que somente mais tarde poderão ser sintetizadas como estrutura espacial.
77. Às 5h08, a descida pela Lake Wheeler Road articula a cerca do Hospital Dorothea Dix, terrenos inclinados, telhados e uma vista panorâmica do centro de Raleigh, ampliando a percepção relacional do percurso.
78. Às 5h11, o trajeto diante do Hospital Dorothea Dix e do Heritage Park retorna progressivamente ao núcleo urbano por descidas, viadutos ferroviários e cruzamentos, preparando o fechamento espacial do circuito.
79. Às 5h13, estacionamentos, uma concessionária, automóveis imóveis, torres do centro e antenas parabólicas compõem uma paisagem fortemente automobilizada na aproximação do ponto inicial.
80. Às 5h15, a passagem pela Nash Square e o retorno à rua Martin encerram o circuito, reconectando o deslocamento ao ponto de partida e permitindo que a sucessão temporal de experiências se converta em estrutura espacial reconhecível.
81. O retorno ao ponto de origem transforma a sequência temporal de impressões numa travessia fechada em que o espaço é circunscrito e reconhecido, fazendo o tempo colapsar em espaço sem desaparecer inteiramente da representação.
82. A dimensão diacrônica não pode ser eliminada dos mapas, como demonstram atualizações sobre bases antigas e anacronismos que projetam divisões políticas posteriores sobre períodos históricos anteriores, pois espaço e tempo constituem dimensões complementares e inseparáveis que apenas podem ser projetadas uma sobre a outra.
** Códigos apresentacionais **
83. Espaço, tempo, fenômenos, nomes e signos gráficos ainda não constituem por si mesmos um mapa completo, pois a imagem cartográfica é integrada a títulos, datas, legendas, escalas, gráficos, diagramas, tabelas, fotografias, textos e outros dispositivos por um código apresentacional que os transforma numa proposição coerente e intencional.
84. O aspecto intrassignificativo do código apresentacional estrutura a superfície segundo blocos, colunas, margens, proporções e posições, estabelecendo uma estratégia discursiva na qual ênfase e elaboração determinam as relações hierárquicas entre os signos.
85. O código apresentacional ultrapassa a organização gráfica e atribui ao mapa um tom discursivo — sereno ou agressivo, uniforme ou dinâmico, complacente ou agitado — além de comunicar status mediante custo, tamanho, acabamento, quantidade de cor, materiais e abundância visual.
86. O código apresentacional não pode ser reduzido a regras neutras de organização visual, porque estrutura, estética, crenças, valores e sentidos são inseparáveis na produção de um mapa inserido no mundo social.
** Funções-signo **
87. Os mapas são estruturas de relações nas quais significados se integram e desintegram continuamente, constituindo supersignos formados por sistemas de signos menores cuja interpretação depende da atividade do usuário ao selecionar, subdividir, combinar e recombinar elementos.
88. A significação cartográfica pode ser compreendida em quatro níveis simultaneamente acessíveis — elementar, sistêmico, sintético e apresentacional — situados entre o signo mínimo irredutível e o supersigno completo que ingressa na extrassignificação.
** Signos elementares **
89. Os signos cartográficos elementares são as menores unidades dotadas de referência geográfica própria e não podem ser decompostos em signos menores referentes a entidades distintas, de modo que sua definição depende da relação entre expressão e conteúdo e não da simplicidade visual da marca.
90. Uma marca elementar pode simultaneamente expressar diversos atributos do mesmo fenômeno e assumir formas complexas, pois sua elementaridade deriva da singularidade de sua referência geográfica e não de sua simplicidade formal.
91. A autonomia de um signo só pode ser determinada em relação ao léxico específico do mapa, como mostra o símbolo de igreja formado por um quadrado e uma cruz: se o quadrado também significa edifício independentemente, há uma construção sintática entre elemento e qualificador; se apenas ocorre unido à cruz, o conjunto inteiro funciona como um único elemento.
92. O signo cartográfico convencional de um lago, constituído por contorno e preenchimento azuis, não deve ser interpretado como redundância entre dois significantes idênticos nem como simples linha caracterizada pela cor, pois a leitura ordinária distingue a linha como margem e a superfície colorida como superfície da água.
93. Margem e superfície podem ser tratadas como abstrações geográficas distintas cuja combinação constitui o lago, de modo que uma linha azul apenas significa margem aquática quando inserida numa construção específica que contrapõe água e terra.
94. A análise dos signos cartográficos deve considerar conjuntamente expressão e conteúdo e reconhecer que a própria conceituação dos fenômenos condiciona sua representação, permitindo construir significados sistêmicos a partir dos elementos considerados geograficamente indivisíveis.
** Sistemas de signos **
95. Um sistema de signos consiste numa família de signos elementares semelhantes distribuídos no espaço cartográfico — como redes rodoviárias, sistemas fluviais, distribuições estatísticas, matrizes territoriais ou conjuntos de isolinhas — cuja configuração resulta tanto da disposição geográfica quanto dos critérios usados para definir seus elementos.
96. A percepção organiza os elementos em sistemas mediante sua implantação espacial e suas características formais ou cromáticas, tolerando considerável variação gráfica quando estruturas relacionais permanecem reconhecíveis.
97. A conectividade permite reconhecer sistemas cartográficos apesar da diversidade de seus elementos, pois estradas, rios e outras redes são identificados sobretudo por sua anatomia e sintaxe relacional, de modo que um elemento apenas está em algum lugar, enquanto um sistema efetivamente conduz a algum lugar.
** Síntese **
98. Não existem mapas verdadeiramente monotemáticos, porque mesmo a representação temática mais austera incorpora inevitavelmente múltiplos sistemas de signos — costas, superfícies terrestres e aquáticas, fronteiras e o fenômeno tematizado — cuja presença tende a ser invisibilizada pela familiaridade cartográfica.
99. Os mapas tratam fundamentalmente das relações entre diferentes paisagens e sistemas, projetando uns sobre os outros e sugerindo correlações, causas e efeitos, de modo que a imagem cartográfica inteira constitui um supersigno cujas partes somente adquirem sentido relacionalmente.
100. A concepção saussuriana retomada por Merleau-Ponty permite compreender que os signos isolados não possuem significação independente, pois o sentido emerge das diferenças e relações entre eles no interior de um sistema, assim como a língua só se realiza no próprio uso.
101. Sistemas isolados de pontos, linhas ou áreas dizem pouco sem sua articulação com outros sistemas reconhecíveis, e a principal função interna do mapa consiste justamente em permitir que seus sistemas constituintes estabeleçam relações recíprocas capazes de explicar comportamentos espaciais.
102. Cada sistema de signos pode funcionar alternadamente como figura ou fundo para outro, de modo que o espaço aparentemente vazio entre estradas também significa paisagem, uso da terra, vegetação, relevo ou outras dimensões implícitas, e nada no mapa permanece absolutamente desprovido de significação.
103. A imagem cartográfica constitui uma síntese de configurações espaciais e temporais que não pode ser reduzida à soma de suas partes, pois o mapa apresenta o mundo como interação multivocal entre sistemas e possibilita explorá-lo mediante uma reconstrução orientada por categorias escolhidas culturalmente.
** Apresentação **
104. Na apresentação, o mapa alcança propriamente o nível do discurso, podendo variar de uma simples imagem acompanhada por título, legenda e escala até composições complexas de mapas, diagramas, gráficos, tabelas e textos ou assumir formas materiais tão diversas quanto guias de viagem, discos astronômicos, mapas de centros comerciais, telas eletrônicas e jogos americanos.
105. O discurso compreende dimensões avaliativas, persuasivas e retóricas, além das operações de nomear e localizar, e suas formas são regidas por códigos que abrangem tanto procedimentos formais quanto condições sociais de produção, circulação e recepção.
106. A codificação discursiva constitui uma estratégia formal de estruturação que permite comunicar determinados tipos de significado, exigindo considerar como intérprete não apenas um observador abstrato, mas toda a cultura de produtores e usuários de mapas capaz de criar e aplicar códigos compartilhados.
107. Ao alcançar o nível discursivo, o mapa torna-se plenamente disponível à extrassignificação e pode ser apropriado integralmente por finalidades míticas, como ocorre quando um plano de centro comercial deixa de ser apenas instrumento de localização para significar abundância de consumo ou quando um mapa turístico se converte em veículo promocional de uma câmara de comércio.
108. O mapa é simultaneamente instrumento de comunicação, no plano da intrassignificação, e instrumento de persuasão, no plano da extrassignificação, enquanto a apresentação ocupa a articulação entre esses dois níveis e possibilita a passagem de um ao outro.
109. A inserção de indígenas, árvores, abelhas, objetos históricos, turistas, diagramas de precisão, grades de referência e dispositivos estatísticos não constitui mero detalhe estilístico ou exigência técnica, mas ativação deliberada de discursos visuais populares ou científicos destinados a conferir ao mapa determinados regimes de credibilidade.
110. A apresentação, simultaneamente término e princípio da elaboração do mapa, fecha o circuito de sua construção ao torná-lo uma totalidade discursiva e o insere plenamente na cultura.