Geografia

A “Geografização” do Mundo Ocidental Moderno

Martin Heidegger (1962), em um de seus últimos ensaios, faz uma longa meditação sobre a essência dos “Tempos Modernos”, a partir de um questionamento sobre “a concepção moderna do mundo”. Ele a considera distinta da “concepção medieval do mundo” e da “concepção antiga do mundo”, na medida que, em ambas, o homem não representa o mundo. Ou seja, entendido “representação” como uma espécie de foto do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger conclui que só na Renascença se constitui efetivamente este tipo de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto e do mundo um espetáculo separado.

Vale dizer que para Heidegger, uma “concepção do mundo” deve ser entendida como uma “imagem do mundo” (Weltbild), onde o termo “mundo” se apresenta como uma denominação do “ente” em sua totalidade. O “mundo” não se reduziria, por conseguinte, ao Cosmos ou a Natureza, pois a História dele faz parte. Mesmo assim, Natureza e História se penetrando reciprocamente, não esgotam o Mundo, pois esta designação “entende também e sobretudo o Mundo em seu princípio”.

Quanto a palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um //Weltbild seria portanto como um quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). […] Fazer a ideia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. […] Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aaquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa portanto uma ideia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-ideia”. O ente em sua totalidade é portanto tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo homem na representação e na produção. […] O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. //[Heidegger, 1962, pg. 117]

Essa longa e necessária retomada de Heidegger, acompanhada de uma citação filosoficamente densa, dá o tom da abordagem que pretendemos adotar nesta reflexão sobre uma das ideias mentoras que marcaram, de forma definitiva, o início dos Tempos Modernos: a geografização do mundo ocidental. Como nos indica Heidegger, o que faz da “concepção do mundo dos Tempos Modernos”, algo totalmente distinto das concepções do mundo medieval e antiga, é “que o ente se torne ente na e pela representação”.

É preciso cautela neste entendimento. Não foi o Mundo, enquanto imagem concebida, que se tornou moderno, deixando de ser medieval. Com efeito, o que caracteriza e distingue os Tempos Modernos é justamente o Mundo ter se tornado uma imagem concebida. Nossa visão do homem e do mundo, nossa Weltanschauung é que mudou, implicando é claro nas sucessivas transformações do Mundo pela Tecno-ciência, orientada também por esta nova visão.

A Modernidade se define assim como a “era da imagem do mundo”, não no sentido de uma simples figuração do mundo, “mas do mundo concebido e apreendido como uma imagem”. Pensar no mundo, desta forma, implica em “pro-jetar” o mundo em um lugar diante de si, como um “ob-jeto” diante de um sujeito. Um sujeito, por sua vez, que se arvora absoluto, assumindo uma espécie de “ponto de vista de nenhum lugar”. Implica também em entender o mundo segundo uma ordem sistemática, através de um processo classificatório de “enquadramento” do mundo.

Foi o humanismo renascentista quem primeiro fez do homem o centro e a medida de todas as coisas, tornando-o o primeiro e único subjectum. O que significa que o ente sobre qual todas as coisas se fundamentam, quanto a sua maneira de ser e quanto a sua verdade, passa a ser o homem. O homem se torna o centro de referência do ente enquanto tal. O termo subjectum que se referia anteriormente ao “que está estendido diante”, e assim sendo congrega tudo sobre si mesmo, não tinha primitivamente nenhuma relação especial ou mesmo topológica com o homem, e menos ainda com o “eu”.

A definição do sentido e do sensível, de quem vê e do que é visto, segundo a metáfora do “espelho” (donde especular de speculum), indica que as concepções antiga e medieval de mundo tinham algo em comum, porém totalmente diferente ou mesmo inverso da concepção moderna do mundo. Podemos mesmo dizer que na concepção “pré-moderna” o mundo engloba o homem, e o englobando o encerra em sua presença, o impregna de seus contrastes e de seus significados. O ente é o desdobramento do que se abre a um olhar ele mesmo incluso no que se desdobra – olhar de um vivente no mundo dos viventes.

A inversão entre subjectum e objectum culmina justamente na Renascença, se definindo mais especificamente em Descartes[1]. Desde o inicio de sua história estes termos eram indissociáveis e tinham um sentido oposto ao sentido moderno. O qualificador “objetivo” se referia com efeito às coisas tais quais são oferecidas à consciência, enquanto “subjetivo” se relacionava às coisas em si mesmas. Traços deste uso escolástico ainda se encontram até mesmo em algumas passagens das Meditações (1641), onde Descartes opõe a “realidade formal” de nossas ideias a sua “realidade objetiva”.

Por “realidade formal” Descartes designa o fato que nossa ideias correspondem a formas do mundo exterior, enquanto por “realidade objetiva” ele se refere ao grau de realidade que elas têm, ou seja sua “clareza”, sua justa correspondência a uma forma material. Entretanto, toda a obra de Descartes, em declarada oposição à escolástica, estabelece uma nova interpretação do ente e da verdade, ou da certeza, pela qual a objetivação do ente se dá através de uma representação visando estabelecer diante de si todo ente, de tal sorte que o homem que pensa ou calcula (verbos idênticos para Hobbes) possa ter certeza.

A Renascença é o milieu histórico no qual germina a concepção moderna do mundo. Em meio a essa revolução da subjetividade, entre tantas iniciativas revolucionárias deste período, a civilização renascentista resgata diretamente saberes e produtos culturais da antiguidade, talvez no afã de constituir esta mesma subjetividade. Destacam-se entre as obras do passado resgatadas, as traduções latinas, e posteriormente em língua vulgar, dos escritos de geografia de Estrabão e de Ptolomeu, assim como dos Elementos de Euclides. Elas vão se conjugar de maneira inusitada e fértil, em termos de conceitos e de aplicações, com as obras renascentistas sobre perspectiva linear e proporções geométricas nas artes plásticas.

Com efeito, a perspectiva linear pretendia oferecer muito mais do que uma simples teoria ótica da representação artística, já objeto do pensamento antigo e medieval. Por outro lado, também não era, como pensam alguns historiadores, uma simples técnica já implicada de alguma forma nos cálculos mercantis, que se formalizavam àquela mesma época. Ela participava na definição de uma série de “códigos” renascentistas, juntamente com avanços na geometria, na ótica e nas matemáticas, que devem fundamentar as bases teóricas e práticas para a construção da camera obscura no século XVII[2].

Segundo Derek Gregory (1994), Jonathan Crary demonstra como a camera obscura, teve uma grande importância na delimitação e definição das relações entre observador e mundo, vindo assim a concretizar o ideal cartesiano de uma epistemologia objetivista, como nos propôs Heidegger (1962). Rompe-se a abertura recíproca do homem e do mundo, atestada por um tema recorrente, na concepção pré-moderna do mundo, o da disposição em espelho do microcosmo e do macrocosmo. A adequação[3], ou até mesmo o suposto parentesco, entre nossos sentidos e o sensível “tocado” por eles, não garantem mais nossa apreensão da natureza do sensível.

Com efeito, a camera obscura se apresenta como uma figura emblemática da Renascença. Sua construção, baseada em um caixa com um pequeno orifício aberto para o mundo, se revela como uma possível metáfora da distinção que então se ensaia entre homem e meio, observador e mundo sensível. A camera obscura se oferece, desta maneira, como um modelo da visão humana para Leonardo da Vinci, Kepler, e outros tantos. Mais do que um modelo, podemos mesmo dizer que, em perfeita harmonia com revolução científica em curso àquela época, ela instaura um novo paradigma cognitivo para as ciências emergentes.

Neste sentido, Gregory inclusive nos convida a contemplar o famoso quadro de Vermeer, Interior com um Geógrafo (1669), como uma metáfora da camera obscura e da epistemologia objetivista. Neste quadro um geógrafo, de dentro de seu atelier de estudo, analisa um mapa do mundo, sob a luz que vem do próprio mundo, através da janela diante dele. Assumindo diante do mundo um “ponto de vista de lugar nenhum”, proporcionado pela própria construção original do mapa, o geógrafo, como sujeito absoluto, reflete sobre a representação do mundo, a partir de uma posição totalmente distante do “mundo vivido”.

Hannah Arendt (1989) faz a mesma afirmação, ao estimar que a invenção do telescópio talvez tenha sido o evento maior, na abertura da modernidade. Ela nos lembra que “é próprio da natureza da capacidade humana de observação só poder funcionar quando o homem se desvencilha de qualquer envolvimento e preocupação com o que está perto de si, e se retira a uma distancia de tudo que o rodeia. Quanto maior a distancia entre o homem e seu ambiente, o mundo ou a terra, mais ele pode observar e medir, e menos espaço mundano e terreno lhe restará.”

Neste sentido, a geografização do mundo ocidental deve ser considerada, como propomos, como uma das ideias mentora da Modernidade, orientando um consequente processo cultural e civilizacional. Como preconiza Arendt, seu desenvolvimento se deu pelo lado dos exploradores e circunavegadores, com a sistemática conquista e ampliação do mundo conhecido, no contato íntimo com as novas terras descobertas, e, por outro lado, pelo imenso esforço de mapaeamento, classificação e catalogação de uma nova Imago Mundi, onde o código cartográfico simbólico medieval, no qual o ser humano se inseria em um cosmos divino, dava lugar ao ponto de vista ortogonal e distante sobre a Terra, “o ponto de vista de nenhum lugar”, o ponto de vista de Deus.

Revela-se assim a constituição progressiva de um milieu excepcional para que prosperasse a ideia e o processo de “geografização” do mundo, que desde então se sucedeu em perfeita harmonia com a Weltanschauung moderna, conforme constatada por Heidegger (1962): “o evento fundamental da idade moderna é a conquista do mundo como imagem”, pois é através desta estratégia de enquadramento que “o homem busca uma posição pela qual pode ser este ser particular, que dá a medida e traça o balisamento de tudo que é.”

Neste extraordinário milieu renascentista, pela interação entre novos atos, posturas e imagens, entre conquistas intelectuais e técnicas, e novas conquistas no terreno e no gabinete do “cosmógrafo”, é que vai assim se dar o impulso irreversível para o que denominamos geografização do mundo ocidental moderno, enquanto ideia mentora e processo histórico.

Conclusão

Alguns historiadores sustentam que a cartografia precedeu até mesmo a escritura. Alguns esboços pré-históricos da América colombiana, alinhamentos de pedras ou desenhos de aborígenes australianos parecem indicar uma vontade universal, tão antiga como o próprio homem, de figurar o espaço geográfico que se vive, se habita e se move. Um desejo de se ordenar o mundo estabelecendo uma correlação entre os lugares, funcionalizando a distancia. Um agir e um querer que respondem a uma necessidade vital de se definir um espaço e dele se apropriar, através do esforço de “figuração”.

As formas de pensamento e as técnicas assim engendradas diferem de cultura para cultura, e até mesmo na tradição de cada cultura. A “carta”, entendida como o produto dessa “figuração”, não é idêntica ao que representa[4], mas no mais das vezes figura apenas uma parte ou um aspecto do mundo. Ela implica, portanto, em um sistema semiótico complexo, capaz de representar o espaço geográfico por meio de ícones. Auto-reflexiva, a carta nos convida a outros espaços imaginários. Provocando de imediato indagações diversas sobre o estatuto de sua iconologia: a partir de que? de uma percepção? de uma ideia? de um mito?

O objeto da carta é esta Terra, totalmente concreta. A perspectiva e o movimento sensorial pelos quais o sujeito humano a apreende, os termos que emprega ao fazer referencia a ela, são alguns dos traços originais de uma cultura. Neste sentido podemos entender a carta como um holograma, onde cada um de seus pontos, enquanto lugares, contém informação sobre o todo nela figurado. A carta guarda assim saberes de um grupo humano, memorizando de uma certa maneira sua história segundo um sentido, como demonstram as cartas medievais em sua repetição incansável de sua interpretação da Bíblia e dos autores antigos.

Religando os lugares dispersos, a carta reúne em uma globalidade os diferentes espaços. Articula o “onde quer que seja” com o “aqui”. Projeta e baliza um percurso, renegando implicitamente o nomadismo. Tomando o partido do estável a carta começa sua grande evolução no Renascimento, na emergência da sociedade ocidental moderna, com o triunfo dos Estados e o despontar do capitalismo, anteriormente desconhecidos do nomadismo ancestral.

A cartografia busca dominar o indefinido lhe sobrepondo – lhe impondo – uma grade leitura. Nesta intenção, ela constrói do indefinido uma imagem, de certa forma um doublé. Os cartógrafos serão, neste sentido, chamados durante muito tempo “pintores de cartas”. Mas esta imagem é bidimensional: ela traduz em estilo linear o espaço irradiante. Além do que em sua superfície necessariamente reduzida, comporta um limite formando um quadro, que por vezes se valoriza como tal: um título em geral específica o sentido desta limitação. Enfim os grafismos de tipos diversos que utiliza o cartógrafo constituem um conjunto comparável a uma linguagem, combinando elementos codificados e outros não codificados. A carta se mostra assim como um lugar de experimentação gráfica e de criação, marcada pela cultura onde se inserem seu autor e seu leitor. [Zumthor, 1993]

O resultado de tudo isto é que a carta possui sua lógica própria. Instrumento de referência e comunicação, a carta “sinaliza” a visão de homem e de mundo de uma sociedade. Por conseguinte os signos que a carta exibe remetem mais à representação que se faz da realidade, do que à própria realidade, em virtude principalmente das tradições culturais que condicionam sua gênese. O procedimento de esquematização e de simbolização donde origina uma carta implica uma perda de informação, mas por outro lado, ao elaborar um “modelo”, a carta se qualifica como uma obra de “ficção”. Este caráter fictício da carta vai predominar durante a Idade Média e o Renascimento, vindo aos poucos a se dissimular sob o tecedura progressiva do manto da Ciência e da Técnica moderna.

O repertório de Destombes, publicado em 1864, enumera, dos séculos VIII ao XV, mil cento e seis cartas representando ecúmeno, a maioria com uma função decorativa e traçado muito esquemático. Por outro lado, se considerarmos a lista montada por Von der Bincken, na Renascença teríamos apenas 105 cartas originais, sem considerar as reproduções de toda sorte: cinquenta cartas do mundo, trinta e cinco cartas regionais, e vinte portulanos. Estas cartas renascentista não apresentam um quadro homogêneo e coerente, pondo visualmente em jogo um saber de ambição enciclopedista, onde as variações da iconografia sugere, mais do que representa, a conotação de diferentes elementos naturais e de espaços particulares.A

A ideia mentora de geografização do mundo, conforme sua origem na Renascença, se deu assim sob a batuta de uma sistematização do processo cartográfico, dissimulando em grande parte uma a natural mitificação imanente ao ato de representação do ecúmeno, ou do mundo conhecido. Assim a geografia matemática, gozando de uma aparente idoneidade ideológica por sua geometrização do espaço, acompanhou sua evolução em sintonia com a geografia descritiva, assentada sobre uma história natural, submetida a novos sistemas classificatórios de inventário do mundo.

Concluindo podemos afirmar que a ideia mentora de geografização, se desdobrando nos processos conduzidos pela geografia matemática e pela geografia descritiva se assentou de forma definitiva na Modernidade sobre: a “mitificação” do espaço iniciada com a descoberta do Novo Mundo, a adoção de uma nova forma de “ver” o mundo dada pela perspectiva linear, construção de um sistema de signos, ou uma linguagem, de representação do mundo, seja através de uma iconografia cartográfica ou de uma taxionomia naturalista.


[1] “O ente é determinado pela primeira vez como objetividade da representação, e a verdade como certeza da representação em Descartes”. [Heidegger, 1962, pg. 114]

[2] “Códigos através dos quais um mundo visual era construido de acordo com constantes sistematizadas e dos quais quaisquer inconsistências e irregularidades eram banidas para se garantir a formação de espaço homogêneo, unificado e inteiramente legível.” [Jonathan Crary, apud Gregory, 1994]

[3] Um dos grandes princípios da concepção pré-moderna do mundo era sucintamente formulado na máxima medieval herdada do neoplatonismo: adaequatio rei et intellectus. Ou seja, nada pode ser percebido sem um órgão de percepção próprio, ou nas palavras de Plotino (III dC) “conhecer requer o órgão adequado ao objeto”.

[4] Na consagrada frase de Alfred Korzybski [apud Bulla de Villaret, 1973]: “o mapa não é o território”.