Desafios

BRUNET, Roger. La carte . Mode d’emploi. Paris: Fayard/Reclus, 1987

** OS DESAFIOS DO MAPA **

** 12. Ler em duas dimensões **

1. O primeiro desafio do mapa está em seu modo de leitura, pois um texto se decifra linearmente, palavra após palavra, enquanto o mapa, como a fotografia, possui de saída duas dimensões e não tem começo nem fim.

2. O segundo desafio do mapa é que ele deve representar volumes, quantidades e desigualdades sobre um fundo fixo e proporcional à extensão do território, o que faz com que supervalorize aquilo que é extenso em detrimento do que é pontual ainda que carregado de significado.

3. O terceiro desafio do mapa é dar ideia de movimento apesar de sua natureza estática, recorrendo-se a setas, à cartografia da própria mudança ou a sequências semelhantes a histórias em quadrinhos, sendo apenas o videograma capaz de resolver inteiramente essa contradição.

** 13. Localizações **

4. Situar-se em um mapa é exercício inevitável que exige olhar treinado e domínio de alguns reflexos simples, sendo o primeiro objetivo encontrar um lugar nomeado no mapa.

5. O segundo objetivo é situar-se no espaço, exercício bem conhecido de motoristas e caminhantes ao seguir um itinerário com o mapa orientado ao norte ou no sentido do deslocamento, dominado apenas com prática e atenção à orientação e ao reconhecimento das formas do terreno.

6. Treinar-se para reconhecer as formas do Mundo como rostos familiares é excelente exercício, permitindo situar rapidamente os demais lugares uma vez memorizados alguns deles.

** 14. A escala **

7. A escala é um dos atributos fundamentais do mapa e dos mais delicados de manejar, sendo o rapporto de redução entre o comprimento medido no mapa e a medida real correspondente no terreno, sempre indicado como fração com a unidade no numerador.

8. A gama de escalas é muito ampla, indo das plantas de casas aos mapas do milésimo até o bilionésimo, sendo que já nas cartas topográficas de base certas deformações e exageros são indispensáveis para tornar visíveis vilarejos e estradas.

9. Aprende-se rapidamente a avaliar distâncias em um mapa com um pouco de atenção, sobretudo quando há escala gráfica, sendo a verdadeira dificuldade o hábito de manusear mapas de escalas muito diferentes com vieses sempre idênticos, que fazem os países distantes parecerem menores.

10. Em um mesmo mapa a escala deve permanecer constante, admitindo-se exceções apenas em certas projeções do Mundo inteiro, cuja escala vale apenas para o equador, ou quando se deseja ampliar um detalhe por meio de um recorte com escala própria.

11. Em mapas deformados, como anamorfoses ou mapas mentais, substitui-se a escala de distâncias métricas por outra, relacionando a unidade de superfície do mapa a uma quantidade representada, seja população, tempo, custo ou preferência.

12. As escalas costumam ser arredondadas, embora os britânicos e outros povos usem por vezes escalas peculiares que dificultam os cálculos.

** 15. Colocar em plano **

13. De todos os desafios, o principal é sem dúvida colocar em plano um mundo esférico, problema para o qual jamais se encontrou, nem se encontrará, solução plenamente satisfatória.

14. Chama-se projeção o traçado de meridianos e paralelos que sustenta todo mapa, sendo a solução mais antiga e simples a de projetar a imagem do globo sobre uma folha, existindo hoje numerosas projeções que resultam de cálculos complexos ou artifícios matemáticos.

15. As soluções básicas consistiram em imaginar o globo projetado sobre um plano, ou sobre uma folha enrolada em cilindro ou em cone, que depois se desenrola, podendo o ponto de projeção estar no infinito, no centro da Terra, em sua superfície ou em outro lugar.

16. Na projeção cilíndrica clássica, paralelos e meridianos formam retas perpendiculares entre si, mas as distâncias entre paralelos variam, achatando-se perto do equador e dilatando-se ao infinito na projeção de Mercator, sendo o eixo do cilindro passível de assumir posições oblíquas conforme a projeção escolhida.

17. Tratados inteiros já foram dedicados às projeções, bastando aqui reter o essencial.

18. O problema das projeções é pouco relevante para regiões tropicais e grandes escalas, tornando-se preocupante para mapas do Mundo ou de grandes Estados distantes do equador, variando muito a imagem de certos países conforme a projeção e a origem escolhidas, existindo inclusive projeções na moda indefensáveis pelo excesso de suas deformações.

19. Conforme o ângulo de visão escolhido, o Mundo assume aparências muito diferentes, recurso explorado por alguns autores de atlas, ainda que essa visão relève de certa ficção poética, já que se vê à frente e não ao redor de si, e a maioria dos países se habituou a representar o mapa com o norte para cima.

20. Um dos grandes problemas é o do meridiano central, podendo a URSS assumir aparências bem distintas, e igualmente legítimas, conforme centrada em Moscou ou em Tashkent, sendo os planisférios frequentemente acusados de eurocentrismo apesar de o meridiano de Greenwich ser universalmente adotado como origem.

21. Outro grande problema é a representação dos oceanos e das relações transoceânicas, havendo projeções eclampadas que só convêm quando se ignoram os oceanos ou os continentes, e projeções centradas no meridiano de origem que subestimam o Pacífico.

22. Apenas as projeções polares e certas projeções oblíquas dão melhor ideia das relações entre oceanos e continentes e das distâncias ao redor da Terra no equador, ainda que válidas apenas para parte do globo.

23. Na maioria dos planisférios a escala não é constante, sendo dada para o equador e aumentando geralmente com a latitude.

24. A solução em matéria de projeção, sobretudo para mapas do Mundo ou de grandes partes dele, consiste em saber variar os pontos de vista e as projeções, olhando o globo sob todos os ângulos, sendo necessário desconfiar dos atlas gerais que exageram a extensão dos países de alta latitude, aceitável apenas quando se trata de localizar e não de comparar superfícies.

** 16. Generalizar ou modelizar **

25. Toda representação cartográfica supõe um compromisso entre precisão e legibilidade, e portanto sacrifícios, já que mesmo um traço muito fino ocupa espaço e impede representar exatamente reentrâncias, penínsulas ou ilhas pequenas.

26. O ato de simplificar um contorno para permitir o desenho de um mapa chama-se generalização, que por definição conserva a forma de conjunto e sacrifica um número de detalhes variável conforme a escala e o efeito buscado.

27. Em todos os casos o contorno final deve passar da melhor forma possível entre as reentrâncias que suprime, sem afastar-se da linha de conjunto, não sendo generalizar o mesmo que caricaturar ou substituir uma forma identificável por um contorno vago.

28. É extremamente importante conservar as silhuetas, tanto para memorizar as figuras do Mundo quanto para poder analisar distribuições, ajudando os estudos sobre fractais a compreender o mecanismo da generalização, que segue os contornos reais com um raio de curvatura compatível com a escala.

29. Certas técnicas e gostos estéticos levam à geometrização dos contornos, sendo aceitável a convenção de grades que ignoram as diagonais desde que a silhueta permaneça reconhecível, embora mapas em anamorfose que substituem Estados por quadrados ou retângulos deixem, no limite, de ser mapas propriamente ditos.

30. Essas práticas de simplificação abstrata já não constituem generalização, mas esquematização, prática legítima conforme o objetivo do mapa, que pode visar mostrar o essencial e resumir tal como se resume um texto.

31. Essas simplificações podem ser improvisadas ou muito estudadas, relevando neste segundo caso de outra preocupação, fundamentalmente distinta da generalização, chamada modelização.

32. Existem, portanto, duas vias razoáveis com usos distintos: simplificar traçados de detalhe conservando rigorosamente a forma de conjunto, ou partir de modelos geométricos com sentido topológico, sendo as soluções intermediárias, com simplificações brutais e caricaturas, apenas croquis provisórios e não mapas propriamente ditos.

** 17. O catálogo e a vitrine **

33. Existem, na realidade, dois usos fundamentais do mapa, e portanto dois tipos de mapas como produtos finais, ambos úteis e sem hierarquia de valor entre si, correspondendo às necessidades essenciais de buscar e de comunicar.

34. Certos mapas são catálogos, que oferecem um inventário tão escrupuloso quanto possível dos conhecimentos, sem prejulgar as leituras que deles serão feitas, como as cartas topográficas, rodoviárias, temáticas de base do meio natural e de inventário de recursos e populações.

35. Isso não significa que esses mapas e atlas careçam de finalidade, pois seu conteúdo depende dela, como no caso da carta topográfica feita primeiramente para uso militar, visando toda carta, em princípio, uma certa clientela.

36. Todas essas publicações são muito úteis justamente por serem finalizadas, funcionando como arquivos passivos que aguardam consulta, valendo tanto mais quanto mais exaustivas forem, sendo a facilidade de leitura qualidade secundária diante da exigência de serem consultadas.

37. Como em todo arquivo ou catálogo, é preciso um guia para nele se orientar, devendo a informação ser classificada segundo princípio claro, com índice quando a nomenclatura importa, ou tipologia de sinais convencionais em outros casos, como as convenções cromáticas das cartas geológicas e de vegetação.

38. Em relação a simples listas de lugares e atividades, esses mapas conservam todas as virtudes da carta, como a visão sinóptica e as posições relativas, constituindo fonte de pesquisa e não apenas de consultas pontuais, como demonstram os estudos sobre afloramentos geológicos ou distribuições vegetais.

39. Muitos mapas estatísticos encontram-se na mesma situação, servindo de páginas de catálogo e trampolim para novas análises e investigações.

40. Encontrado o resultado da pesquisa, resta ainda comunicá-lo, existindo outros mapas, menos numerosos, que poderiam ser chamados de vitrines, concebidos para dizer algo, valorizar, atrair atenção e demonstrar uma disparidade ou estrutura oculta.

** 18. A comunicação cartográfica **

41. As funções de pesquisa e de comunicação nem sempre são percebidas como separadas, mas é preciso medir bem essa diferença de objetivos, pois os trabalhos de pesquisa costumam resultar em documentos herméticos que exigem longa decifração, o que também afeta o mapa mesmo quando de aparência bela.

42. Um mapa é feito para ser olhado, devendo atrair, seduzir e, simultaneamente ou em seguida, informar.

43. O belo em cartografia parece passar sobretudo pela nitidez, pela harmonia das cores justapostas e pela sensação de que se vê algo com sentido, sendo a confusão o principal fator de feiura.

44. A chave da leitura e da legibilidade do mapa está nos contrastes e gradações das distribuições, portanto das formas, que devem ser valorizadas e impressas na memória do leitor, sendo tanto mais percebidas e retidas quanto mais simples forem.

45. O uso das telas de televisão e computador tende a reduzir ainda mais o leque de possibilidades devido à brevidade do olhar, recebendo-se o mapa de uma só vez, o que constitui, segundo se defende, um progresso, pois obriga a captar o essencial sem perder-se em detalhes.

46. De todo modo, seja em papel ou em tela, um mapa feito para comunicar deve fornecer poucos dados de cada vez, e nítidos, notando-se que mesmo geógrafos experientes e administradores de alto nível têm dificuldade em compreender certos mapas de pesquisa, que na verdade são rascunhos intermediários e não produtos finais.

47. Existem formas e relações tão nítidas que o mapa chega de fato a falar sozinho, mas frequentemente é preciso fazê-lo falar, sendo a qualidade da mensagem muito sensível ao número de informações, à escolha de sinais e cores e à hierarquia dos traços, o que levanta problemas de estética, convenções e sacrifícios.

48. O leitor tem suas próprias ideias sobre a finura ou força do desenho e a suavidade ou agressividade das cores, gerando adesões ou rejeições conforme a simbologia atribuída a cada cor, que não é igualmente partilhada por todos.

49. A seleção dos dados e os sacrifícios necessários podem ser difíceis para o autor, expondo-o quase inevitavelmente à acusação de subjetividade, variando bastante a confiança depositada no mapa conforme o leitor.

50. Em geral, um mapa muito detalhado inspira mais confiança mesmo quando rigorosamente falso, enquanto um mapa simplificado desperta desconfiança mesmo quando muito exato, levando por vezes a manter em reserva, ou publicar, tanto o mapa detalhado quanto sua versão resumida.

51. Resta que a confiança se conquista, estabelecendo-se com o tempo um verdadeiro mercado de credibilidade, no qual, após flagrantes de fraude, erros grosseiros ou propagandas descaradas, sabe-se bem quem manipula mapas viciados e quem produz mapas honestos.