Le déchiffrement du monde: théorie et pratique de la géographie. Paris: Belin, 2017.
1. A mudança do Mundo exige novos referenciais de compreensão, à medida que lugares distantes irrompem cotidianamente na cena midiática e a informação diária assume dimensão mundial, gerando buscas de sentido e questões identitárias que se chocam com fechamentos e retraimentos diante da onda liberalista.
2. Difundem-se cada vez mais informações, mapas, atlas e noções diversas sobre o Mundo, e conhecer vizinhos, parceiros e concorrentes supõe regras próprias, papel que cabe à geografia, disciplina que se tornou conhecimento aprofundado, ordenado e raciocinado, e não mais mero acúmulo de topônimos ou cosmogonia mística.
3. A geografia possui tempos fortes e momentos lentos de elaboração, formas próprias de pensamento, conceitos e métodos, além de empréstimos e analogias vindos de outras disciplinas, permanecendo viva e diversificada sem que proclamações de novidade, crise ou extinção façam sentido.
4. Fez-se necessário, em certo momento, organizar e coordenar as informações reunidas, construindo e representando de forma coerente o campo da geografia como prática científica.
5. O geógrafo é ao mesmo tempo ambicioso, por ter como campo de pesquisa o conjunto do Mundo, e modesto, por saber que outros especialistas compartilham o mesmo material, cabendo-lhe precisar seu terreno, seu ângulo de abordagem e seu objeto próprio.
6. O reconhecimento e o conhecimento geográficos incidem sobre lugares e territórios inseparáveis das pessoas que neles vivem, produzindo-os e reproduzindo-os ao transformá-los, sendo o Mundo compreendido como obra humana erguida sobre um globo já existente, cujas formas e divisões nasceram do trabalho cotidiano das sociedades.
7. O geógrafo, como qualquer outro cientista, não pode limitar-se a descrever resultados, devendo identificar o que está em causa e o que cria o espaço da humanidade, cujas modalidades e regras de produção são infinitamente complexas em seus resultados e aplicações cotidianas, mas relativamente simples em seus princípios.
8. A escolha recaiu sobre começar pela produção do espaço geográfico, seus atores e suas estratégias, das quais decorrem regras e mesmo leis que orientam a elaboração e a reprodução de estruturas e sistemas próprios aos espaços geográficos.
9. Esta pesquisa parte da hipótese de que o trabalho científico é possível nesse campo do saber, que sempre pareceu exigir mais do que catálogos, sentimentos e discursos inverificáveis sobre alguma “alma” dos lugares.