BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.
Alma e Razão
1. A separação entre o sujeito e o objeto, legada pelo século XVII, não foi um capricho subjetivo dos filósofos, mas uma imposição da própria objetividade, pois as descobertas astronômicas sobre a imensidão do universo forçam a consciência humana a recuar sobre si mesma, constatando a insignificância de seu lugar no cosmo.
2. A vastidão do universo, com galáxias contendo bilhões de estrelas e distâncias medidas em anos-luz, ultrapassa a capacidade de montagem da mente, e a história humana, com seus impérios e conflitos, parece sem significado diante desse pano de fundo cósmico, provocando a angústia existencial frente à própria finitude.
3. Enquanto a consciência humana é atormentada por questões sobre o significado de sua existência, o animal, preso ao ciclo do instinto, não experimenta essa ruptura, o que torna o ser humano um “animal dualista” por natureza, incapaz de escapar das perguntas que o arrancam da segurança instintiva, justificando uma defesa preliminar do dualismo como tendência nativa do ser humano.
4. O “eu” que pensa não é uma abstração pura, mas um self concreto, denso e único, que carrega consigo uma história, memórias, sentimentos e emoções inseparáveis do pensamento, além da consciência de seu corpo e de sua finitude temporal, o que provoca uma inquietação moral acerca do significado particular de sua existência, mostrando que a moralidade e o sentimento estão nas raízes desse “eu”.
5. Ao passar dos filósofos para ver como tratam essa densidade concreta do self, percebe-se que, em muitos casos, apenas um fino fluxo dessa subjetividade é permitido passar pelos filtros de sua reflexão, o que introduz a figura de Descartes como o pensador que projeta a consciência humana para o centro da filosofia, iniciando o drama da mente na civilização ocidental moderna.
Descartes: A Mente Solitária
6. Descartes, embora fosse um homem de ação e tivesse servido como voluntário nos exércitos europeus, é sobretudo o pensador que, ao se retirar para a solidão na Holanda, constrói o sistema cartesiano, partindo do fato primário de sua própria consciência, o “eu” (ego) pensante, como ponto de partida inabalável para a filosofia, diante das incertezas introduzidas pelas novas teorias científicas.
7. Apesar de sua importância, Descartes não introduz o sujeito concreto e vivido na filosofia, mas apenas um “eu” temático e abstrato em busca da certeza, que, após extrair a mente do mundo por meio da dúvida, precisa invocar a existência de Deus para restaurar o conhecimento do mundo externo, recorrendo ao argumento ontológico para provar a existência de um Ser Perfeito.
8. O “eu” que Descartes restaura ao mundo é apenas o “ego cogitans”, o eu pensante e racional, e não o self concreto, o que torna agudo o problema do dualismo entre corpo e mente, pois a alma é mais abrangente que a razão, como demonstrado pelo surgimento da psicanálise, que lida com a alma (psique) e revela forças desconhecidas pela razão.
9. O problema central do dualismo cartesiano reside na concepção do corpo como mera matéria física, um corpo da física que não é o corpo vivido no cotidiano, onde não há uma linha divisória nítida entre o físico e o psíquico, o que torna as teorias da mente inadequadas para lidar com a vida emocional, como se vê no “Tratado das Paixões” de Descartes, onde os sentimentos são observados de fora pela razão, como objetos, e não como estados vividos subjetivamente.
10. A alma em Descartes ainda é uma alma cristã, mas que sofreu uma nova crucificação, desta vez sob a cruz da física matemática, e esse modelo de mente, que vê as emoções como algo estranho a ser controlado pela razão, tornou-se profundamente enraizado na cultura ocidental desde o início da Era Moderna.
Um Universo de Almas: Leibniz
11. Leibniz, surgindo duas gerações depois de Descartes, revisa radicalmente o pensamento sobre a alma, chamando a atenção para as sombras filosóficas na visão newtoniana do mundo e levantando questões básicas que a filosofia contemporânea precisa enfrentar novamente.
12. Leibniz foi talvez a mente mais multifacetada do “século de gênio”, atuando em diversos campos do saber e mantendo contato com os melhores pensadores de sua época, mas destaca-se como o filósofo mais bem educado dentro da própria filosofia, lendo os escolásticos medievais com simpatia e compreendendo a continuidade entre a filosofia grega e a medieval, uma visão que faltava a seus contemporâneos.
13. Diferente de Descartes, para quem a essência da matéria é a extensão, Leibniz argumenta que, para que um corpo seja uno, é necessária uma energia unificadora, propondo, em oposição ao universo inercial da Nova Ciência, um universo energético, onde a energia pode ser autogeradora, uma noção difícil de conceituar mas que remete às teorias da mente ativa.
14. A abordagem de Leibniz à alma humana se dá por meio de sua monadologia, onde as mônadas são centros de energia em um universo energético, substituindo os átomos inertes do materialismo, e podem ser tomadas como um modelo especulativo da alma ou do self, um self que gera seu próprio destino e é ativo, não meramente passivo.
“Por que existe algo, em vez de nada?”
15. A pergunta fundamental “Por que existe algo, em vez de nada?”, que emerge claramente com Leibniz, é a questão que subjaz a todos os argumentos tradicionais sobre Deus, e ela permeia a vida comum, aparecendo em momentos de confusão pessoal, mas exige uma explicação que vai além da mera causalidade científica.
16. O argumento de Leibniz parte do conceito de ser contingente, cuja existência é derivada de outro, e do princípio da razão suficiente, que afirma que não há fato sem uma razão suficiente para que exista e seja como é, aplicando esse princípio à cadeia de seres contingentes.
17. Mesmo que se suponha uma cadeia infinita de seres contingentes, essa própria cadeia é um fato contingente que exige uma causa externa a si mesma, levando a um regresso ao infinito que não oferece resposta para o mistério da existência, restando duas alternativas.
18. A primeira alternativa é afirmar que não há razão para a existência do universo, aceitando o absurdo da existência, como alguns existencialistas propõem, uma posição audaciosa que, embora não seja logicamente impossível, implica aceitar o caráter absurdo de toda a existência.
19. A segunda alternativa é afirmar que existe uma razão ou causa para toda a existência, o que exige sair do âmbito dos seres contingentes e postular um ser necessário, cuja existência está em si mesmo, e que a consciência religiosa chama de Deus, mas trata-se de uma resposta que também é um mistério, levantando as questões que Kant traria à tona um século depois.
20. A questão da alma, portanto, está persistentemente conectada com dois outros temas: a relação entre a alma e seu corpo, onde a mente moderna (com exceção de Leibniz) tende a construir uma noção de mente desencarnada, e a relação entre a alma e Deus, onde se coloca a questão central, levantada por Nietzsche, sobre se a humanidade pode sobreviver sem Deus.