Dever

BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.

Dever e Beleza

O Comando do Dever

1. Kant é o ponto de virada na consciência ocidental, pois compreendeu plenamente o significado da revolução científica e suas consequências para o pensamento religioso, mas essa compreensão revela uma divisão no interior da própria mente humana entre seus interesses científicos e religiosos, cabendo ao filósofo a tarefa de tentar curar essa ruptura.

2. A famosa passagem de Kant sobre o céu estrelado acima e a lei moral dentro de si contrasta a imensidão do cosmos, que diminui a significância pessoal, com o senso de dever moral, que exalta a dignidade da pessoa como ser espiritual, revelando uma cisão irreconciliável entre a perspectiva natural e a moral, que é a mesma alienação que assombra Pascal e permeia toda a cultura moderna.

3. A separação entre o natural e o moral é uma novidade moderna, pois para os antigos, como Aristóteles, a moralidade era o cumprimento da natureza humana, e para o cristianismo medieval, o universo era uma criação de um Deus amoroso, mas a ciência moderna, com sua imagem de um universo mecânico e impessoal, destruiu essa harmonia, e Kant é o primeiro a articular as consequências humanas dessa ruptura na moral e na estética.

4. A ética de Kant é uma teoria não naturalista, pois os conceitos éticos fundamentais não podem ser definidos por predicados naturais ou condicionamento social, uma vez que o indivíduo pode sempre se elevar para questioná-los, e a situação ética fundamental é a pergunta “o que devo fazer?”, cujo “dever” (o “dever-ser”) não pode ser definido em termos de fatos (o “ser”).

5. A explicação de Kant para o poder do dever é dividida: por um lado, ele a vê como religiosa e espiritual, a voz de Deus dentro de nós, e, por outro, busca uma explicação formal e lógica, secularizando a consciência moral, e seu tratamento da mentira como uma contradição formal da racionalidade é questionável, pois a culpa sentida ao mentir é de uma natureza íntima e não meramente lógica.

6. A mentira envolve uma contradição, mas não de tipo formal, pois ao mentir, a pessoa se fecha do domínio aberto da linguagem e se separa da comunidade de almas humanas, e esse senso de comunidade espiritual é a base da ética e a condição a priori do sentimento legítimo de culpa, estando na raiz do sentimento de obrigação ou dever.

7. A noção de um reino de almas ou fins, que Kant reconhece posteriormente na justificativa religiosa da moralidade, é, na verdade, exigida desde o início pela própria experiência do dever, pois ao sentir a demanda de um dever, a pessoa já entra nessa comunidade espiritual, não sendo possível fundamentar a moralidade apenas na razão formal.

Beleza

8. A cisão entre os mundos físico e moral em Kant precisa ser curada, e a experiência da beleza na natureza parece superar essa separação, mas, como racionalista, Kant submete essa tendência natural a uma crítica, resultando na “Crítica do Juízo”, que examina o ser humano como percebedor estético e sintetiza as dimensões de conhecedor e agente moral, completando a unidade sistemática de seu pensamento.

9. Kant não é um esteta, mas um moralista que trata o senso de beleza como parte do ser espiritual total, insistindo que o interesse mais profundo deve ser a experiência da beleza na natureza, que é edificante e desperta o sentimento moral, ao contrário do esteta, cuja sensibilidade às artes pode coexistir com a ausência de sensibilidade moral, um fenômeno histórico como o duque de Browning.

10. A visão de Kant pode parecer antiquada para os “modernos”, mas a separação do homem em relação à natureza, que explode na arte moderna, já se anunciava na teoria estética de Hegel, que restringe a estética à beleza nas obras de arte, um produto puramente humano, selando o domínio humano em relação à natureza, como mais um passo na “bifurcação da natureza” apontada por Whitehead.

11. Apesar da tendência moderna de enclausurar a estética no domínio humano, a beleza do pôr do sol permanece como uma experiência cósmica, e Kant respeita essa dimensão, preservando o sentimento de que o humano e o universo fazem parte de um grande significado, mas, como filósofo crítico, ele não permite que esse sentimento seja tomado como prova da existência de Deus, permanecendo como uma parte preciosa da experiência humana.

12. A ambiguidade em Kant reside em ser, ao mesmo tempo, o revolucionário que destrói as provas tradicionais de Deus e o pensador sensível às áreas moral e estética que apontam para além da finitude, e sua estética suaviza a imagem austera da natureza, mas ele não estetiza o ato de fé, que permanece como um ato solene e solitário de compromisso por parte da alma moral.

13. A descrição de Kant do ato de fé, com a afirmação “Eu quero que haja um Deus!”, é marcada por uma autodeterminação que é característica da mente moderna, introduzindo a linguagem da autoafirmação na linguagem da fé, o que contrasta com a humildade tradicional e prenuncia a filosofia da vontade do século XIX e o subsequente niilismo, como exemplificado na possibilidade da afirmação inversa: “Eu quero que Deus não exista”.

14. A força de Kant na filosofia da religião está no equilíbrio escrupuloso entre ciência, moral e estética, mas ele não é um dos espíritos religiosos primários da história, pois sua piedade é desprovida de paixão e seu sentimento religioso é formal, refletindo uma era que já se tornava mais secular do que percebia, caminhando para o mundo ainda mais secular que se seguiria.