Século do Gênio

BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.

1. O século XVII, embora tenha criado a ciência moderna como uma revolução silenciosa na mente de poucos homens imersos em teologia, apresentava contradições que somente são vistas como tais pela perspectiva contemporânea, uma vez que para os indivíduos da época a imersão na mente de Deus era a base sólida de seus pensamentos.

2. Os três maiores gênios científicos do século, Kepler, Galileu e Newton, tinham suas mentes totalmente imersas na teologia e na fé, o que contrasta com a visão moderna que frequentemente os projeta como livres-pensadores ou racionalistas desvinculados do divino.

3. Apesar da centralidade teológica de suas mentes, os criadores da “Nova Ciência” realizavam algo radical que, a longo prazo, separaria a civilização ocidental de suas bases religiosas, embora eles próprios não compreendessem plenamente essa novidade, que seria aprofundada filosoficamente um século depois por Kant.

4. A ciência criada no século XVII não teria sido tão radical se não tivesse se baseado profundamente na tradição dos antigos gregos, como Euclides, Arquimedes e Papo, demonstrando que a inovação genuína, assim como na literatura, é aquela que se nutre da tradição para transformá-la, e a ciência é um fluxo contínuo desde o início da consciência humana.

5. A novidade da Nova Ciência não residia simplesmente no experimentalismo, pois o cientista não entra no laboratório com a mente vazia, mas a questão é mais sutil e envolve a construção de máquinas para medições precisas, indicando que a tecnologia não é uma aplicação secundária, mas está na raiz da ciência moderna.

6. O pensamento científico do século XVII construía a própria natureza como uma máquina, onde a mecânica se tornava a base da física e de toda a ciência, com a natureza sendo concebida como um vasto e interligado mecanismo, uma “máquina das máquinas”.

7. O que tornava a mecânica especial era seu tratamento da matéria de forma abstrata e matematizada, e essa Nova Ciência, tanto matemática quanto experimental, continha um paradoxo fundamental: a mente humana criava um poderoso instrumento para compreender o universo material, mas os resultados dessa ciência seriam usados para defender um mecanicismo que via a mente humana como fraca e não livre.

8. Os fundadores da Nova Ciência não viam conflito entre suas convicções religiosas e a visão mecanicista do universo, pois consideravam o mundo como uma máquina de relojoaria gerida por Deus de forma inteligente; a inquietação com esse modelo surgiria posteriormente entre os filósofos.

9. O esforço científico para fundar a mecânica como base da física evoluiu para uma atitude geral denominada “materialismo científico”, a crença de que a natureza é composta por partículas de matéria no espaço com propriedades mecânicas, o que coloca as qualidades da experiência, como a cor, em uma posição curiosa, criando um paradoxo sobre a existência de coisas que vemos, mas que não estão lá.

10. Apesar de seus paradoxos inerentes, o materialismo científico tornou-se a mentalidade dominante do Ocidente por mais de três séculos, atuando mais como uma atitude e preconceito implícitos do que como uma filosofia explícita, e ainda hoje direciona a maior parte dos investimentos em pesquisa.

11. Para o crente cristão do século XVII, a alma era uma exceção especial ao materialismo científico, pois não era um fenômeno natural e estava fora da natureza, mas essa exceção deixava a alma em uma posição precária na fronteira com a matéria, cuja instabilidade se tornaria mais pronunciada na filosofia posterior.

12. Uma segunda tensão que emergiu na consciência do século XVII foi a descoberta da estranheza da presença humana no universo, com as descobertas científicas, como a teoria de Copérnico, removendo a Terra e a humanidade de seu lugar central no cosmo para uma posição aparentemente aleatória e acidental, um aspecto do que um filósofo posterior, Heidegger, chamaria de “estar-lançado” (Geworfenheit) da existência humana.

13. Esse sentimento de alienação cósmica foi expresso com intensidade por Blaise Pascal, que sentiu pavor diante da brevidade da vida e da imensidão do espaço infinito, questionando a razão de estar aqui e agora, e sentindo o medo do silêncio eterno desses espaços infinitos.

14. A alienação, que desde então se tornou um fato dominante para a mente moderna, é frequentemente trivializada ao ser aplicada quase exclusivamente a formas sociais, mas é fundamental lembrar que a forma mais profunda e pungente é a alienação cósmica, inerente à própria consciência humana ao se perceber como estrangeira neste universo.

15. Embora mito, magia, religião e filosofia busquem lidar com essa condição de maneiras diferentes, os filósofos só começaram a notar essa alienação fundamental no século XIX, com o declínio das estruturas da fé religiosa, e permanece a questão de saber se a filosofia, por si só, pode curar essa condição, um problema central para a civilização moderna.

16. A visão de história absorvida pelo autor em sua juventude, de seus professores naturalistas e racionalistas, via o século XVII como um passo em uma linha fixa de progresso científico, onde a teologia era um resquício medieval a ser superado, uma perspectiva que hoje é considerada insuficiente.

17. A visão contemporânea rejeita essa linha fixa de progresso, entendendo que o ser histórico do homem é mais complexo e que cada época realiza necessidades e aspirações humanas de maneira particular, devendo ser tomada em sua totalidade, e o século XVII não é apenas uma estação entre a Idade Média e a era moderna, mas uma parte viva, com seus paradoxos e tensões, na consciência moderna incerta.

18. A aventura moderna da consciência humana começou no século XVII, mas essa época anterior não desapareceu como um marco ultrapassado; ela permanece presente, com suas tensões, na inquietação atual, e o futuro da civilização pode, quem sabe, desejar que as mentes de seus cientistas se envolvam novamente com questões religiosas, como Newton o fez com as profecias de Daniel.