BARRETT, William. Death of the Soul. From Descartes to the computer. New York: Doubleday, 1986.
Os Enigmas da Sensação
1. As diferenças nacionais, evidentes já no século XVII, manifestam-se na filosofia britânica por meio de uma desconfiança prática em relação ao intelectualismo e uma preferência pelo senso comum, traços que se refletem na criação do governo liberal democrático, cuja estabilidade na Inglaterra ao final do século contrasta com as ameaças totalitárias posteriores.
Os Dois Mundos
2. John Locke, filósofo da revolução política britânica e defensor do liberalismo clássico, aplica seu “método histórico simples” para traçar a gênese das ideias a partir das sensações, estabelecendo o núcleo do empirismo, mas sua formulação enfrenta obstáculos desde o início.
3. Uma segunda e mais grave cisão no mundo de Locke vem da Nova Ciência, que o leva a distinguir entre qualidades primárias (objetivas, como solidez e extensão) e secundárias (subjetivas, como cor e som), uma divisão arbitrária que privilegia o mundo da física em detrimento da experiência comum, revelando que Locke opera com pressupostos a priori não examinados.
4. A partir de Locke, a física moderna domina a imaginação filosófica, e o materialismo torna-se “científico”, criando uma disparidade perturbadora entre o mundo humano da experiência e o mundo “realmente real” da matéria em movimento, um tema central do pensamento moderno que persistirá até o presente.
O Mundo Desmaterializado
5. George Berkeley, o filósofo irlandês, exibe uma imaginação poética e uma audácia intelectual ao voltar as armas do empirismo contra Locke, defendendo o mundo comum da experiência contra o materialismo científico e afirmando que as qualidades primárias de Locke também são relativas ao percebedor.
6. Berkeley introduz o princípio da relatividade de forma abrangente, mostrando que o espaço absoluto de Newton é uma abstração derivada da percepção, não uma realidade concreta, e que o mundo material de Locke é uma construção intelectual abstrata, um caso de “concreção deslocada”, enquanto a experiência comum é permeada pela mente.
7. O princípio de Berkeley de que nada existe independentemente de uma perspectiva ou estrutura mental que o apreenda estabelece a primazia da mente, um princípio que Kant herdará, e mesmo o computador, como ferramenta criada e programada pela mente humana, testemunha essa primazia em todas as suas operações.
8. O famoso lema de Berkeley, “esse est percipi” (ser é ser percebido), levanta a questão da existência dos objetos quando não percebidos, e ele introduz Deus como o percebedor eterno para manter sua existência, uma solução que parece uma intrusão desnecessária, mas que, para ele, é justificada pela intuição direta que temos de nossa própria mente, permitindo, por analogia, falar de Deus como mente infinita.
9. A questão crucial que divide os empiristas é se há consciência do self como mente, e Berkeley afirma que sim, mas a tendência “tough-minded” de reduzir a mente a sensações ou a um composto delas leva ao ceticismo de David Hume, que busca reduzir a própria mente a um amontoado de impressões sensoriais, representando o passo final da dialética do empirismo britânico.
Nem Mente Nem Matéria
10. Com Hume, entra-se no mundo secular do Iluminismo, onde Deus começa a se retirar, e sua filosofia cética, que reduz a experiência a uma sucessão de impressões sensoriais atomísticas e desconexas, torna-se a base do positivismo lógico do século XX, privilegiando a exatidão aparente em detrimento da adequação à experiência vivida.
11. A visão de Hume ignora o aspecto relacional e interpenetrante da experiência, pois sentimentos como a tristeza não são dados discretos, mas infundem todo o mundo perceptual, e essa atomicidade é a base de suas dúvidas céticas sobre a causalidade, na qual a conexão necessária entre causa e efeito é apenas um hábito humano, sem justificativa lógica, reduzindo a ciência a uma expressão formal desse hábito.
12. O modelo de causa e efeito de Hume permanece externo, ao contrário de exemplos do corpo, onde a causa penetra em seu efeito, revelando que sua consciência é essencialmente sem corpo, e sua conclusão mais chocante é que o self é apenas um amontoado de percepções, um golpe do qual a fragmentação da era moderna nunca se recuperou.
13. A dificuldade que leva Hume a essa conclusão é que o self é incapturável como dado sensorial, e ele comete o erro de procurar o self como um espectador externo, esquecendo-se de que é um participante, e tentativas posteriores de sistematizar essa visão, como a de Bertrand Russell, que define o self como uma classe de dados sensoriais, caem em circularidade e não resolvem a confusão.
14. Apesar de questionável, a doutrina filosófica de Hume deixou sua marca, e seu sensacionalismo parece paradoxalmente conectado à “mania sensual” da civilização contemporânea, pois sua ênfase nos fatos sensoriais fez refluir a intuição e o sentimento, e seus efeitos sobre a mente europeia foram tão profundos que seu sucessor, Immanuel Kant, sentiu-se obrigado a repará-los.